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Full text of "Correspondencia, colligida, coordenada e com ettotações de Rocha Martins, publicada pelo 3 , visconde de Santarem"

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DO 



2; MONDE DE SANTARÉM 

colligida, coordenada e com annotações 

DE 

(Da Academia das Sciencias de Lisboa) 

PUBLICADA 
PELO 

3.° VISCONDE DE SANTARÉM 




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1919 
o LAMAS, MOTTA & C*. L.»* 

EDITORES 

100. Rua da Alegria-LISBOA 



Digitized by the Internet Archive 

in 2010 with funding from 

University of Toronto 



http://www.archive.org/details/correspondenciac06sant 



CORRESPONDÊNCIA 



3DO 



2." VISCONDE DE SANTARÉM 




DO 



2. 






colligida, coordenada e com annotações 



DE 



ieoox3:.A- iv^-íí^iSTi2sr3 



(Da Academia das Sciencias de Lisboa) 



PUBLICADA 



PELO 



3.° VISCONDE DE SANTARÉM 



"VI TT-OLTJlvíEE 



824-1845 



1919 
ALFREDO LAMAS, MOTTA & C* L.da 

EDITORES 

100, Rua da Alegria- LISBOA 



o VISCONDE DE 8ANTARE 

SCIENTISTA E LITTERATO 



1824 a 1852 



VOL. VI 



Do Visconde de Santarém para José Maria Dantas Pereira 

111."'° e Ex.""" Sr. 

Tendo eu recebido huma Nota da Sociedade Filozofica Ame- 
ricana p.'^ a Academia R. das Sciencias, rogo a V. Ex.» o distincto 
favor de me instruir se devo, remetter-lha pelo Expediente da 
Secretaria, ou será mais conveniente a sua communicação em 
alguma das Conferencias particulares antes das Ferias. 

D.« G.« a V. Ex.^ m.tos annos. Lx.^ 26 de Julho de 1824. 

II.»"» e Ex.ino S."" José Maria Dantas Pr.^ (1) 

O Visconde de Santarém 

Do Visconde de Santarém para José Maria Dantas Pereira 

III."''' e Ex.'"" S.' 

Envio a V. Ex.^ a Nota inclusa que me Entregou José Balbino 
de Barboza (2) e Ar.« E se V. Ex.^ ainda não tiver mudado de 



(1) José Maria Dantas Pereira. — Conselheiro do Almirantado, mathematico 

illustre, professor do infante D. Pedro Carlos. Foi de 1823 a 1833 secretario 
de Academia. Fez parte do braço da nobreza dos Três Estados, em 1828. Após 
a victoria constitucional emigrou indo viver atribuladamente em Montpensier. 
Morreu em 1836. Estava comsigo seu filho Victorino que era militar e com- 
bateu por D. Carlos em Hespanha. 

(2) José Balbino de Barbosa Araújo que foi visconde de Telheiras e offi- 
cial mór da secretaria do reino. Serviu D. Pedro em postos diplomáticos. 
Morreu em 1846. 



CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



opinião do que me dice a Este respeito, Espero que elle seja o 
canal desta transacção com a Sociedade Filozofica Americana. 

D.s G.e a V. Ex.a m.tos annos. 
Lisboa 1.0 d' Agosto de 1824. 

111.™° e Ex.»"» S."- José Maria Dantas Pr.« 
Secretario d' Academia R. das Sciencias. 

O Visconde de Santarém 



Do Duque de Palmella^ então Marquez, para o Visconde de 
Santarém. 

A politica separaria a estes dois homens illustres que annos 
antes tinham relações tão amigáveis como o demonstra a carta 
seguinte :• 

IllJ^° e Ex."'° S/ 

Desde minha chegada a este Paiz, não se tem offerecido 
motivo sufficiente para me authorizar a dirigir-me por escrito a 
V. Ex'^ e a roubar-lhe algum pedaço do tempo que V. Ex.^ 
segundo penso e espero empregue ao serviço do Estado no desem- 
penho do seu m,*o interessante officio. 

Felizm.*^ tenho agora occazião de me fazer lembrado a V. Ex.^, 
pedindo-lhe ao mesmo tempo hum favor que por certo me não 
negará pois se trata de prestar hum serviço útil á litteratura e 
de illustrar huma época da historia Portug.^^ conexa com a de 
Inglat'"" 

Não sei se V. Ex.^ conhecerá os seis primeiros volumes de 
huma historia de Inglaterra escritta pelo Doutor Lugard, Eccle- 
siastico Inglez, Catholico cujo trabalho tem merecido aplausos 
geraes não só em Inglat.^^ mas no resto da Europa, antepondo-se 
contestações no de thema, pella perspicuidade das indagações 
sobre as épocas das mais obscuras da historia d'este Reino e 



VISCONDE DE SANTARÉM 



pella imparcialidade e amor da verdade com que toda a obra 
é escritta. 

Este illustre Litterato dirigio-se ultimamente para pedir que 
solicitasse de V. Ex.^ a licença necessária afim que o Padre 
Wistarly Reitor do collegio inglez de Lisboa e M.'" Le Clere pro- 
fessor no mesmo collegio tivessem a faculdade de examinar na 
Torre do Tombo alguns documentos que elle deseja conhecer 
para esclarecimento da historia de Inglaterra, especialmente 
segundo penso, alguns relativos á Rainha Dona Catharina de 
Bragança. Estou bem persuadido que V. Ex.» se prestará gostoso 
a permittir que se examinem documentos que já agora são 
património da historia e cuja publicidade não pode resultar incon- 
veniente algum. 

Aproveito esta oportunidade para rogar a V. Ex.^ o favor de 
me pôr aos pés da Viscondessa minha Senhora e renovar os 
protestos da mais sincera e afectuosa veneração e estima com 
que tenho a honra de ser 



De V. Ex.^ M.*° 
Att.o e Obg.'^^ 

Maiquez de Palmella (1) 



Londres 14 de 1825. 



Do Visconde de Santarém para José Maria Dantas Pereira 

Illr" e Ex.'"" Snr. 

Tenho a honra d'enviar a V. Ex.^ os exemplares incluzos das 
Memorias que fiz dar á Estampa nos annos de 1819, e 1825. A 



(1) Marquez de Palmella. — D. Pedro de Souza Holstein, depois 
duque do mesmo titulo, cuja carreira diplomática foi retumbante em toda a 
Europa, tendo sido o mais poderoso elemento do constitucionalismo na emi- 
gração. Com a victoria occupou primeiramente o cargo de presidente da 
Camará dos Pares, sendo também presidente do conselho. 



CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



1.» Historico-Numismatica de huma medalha de oiro do Imperador 
Honório, e a 2.^ dos Alcaydes Mores da villa de Santarém, meus 
antecessores, p.^ que V. Ex.^ se digne apresentalas da minha 
parte na Academia R. das Sciencias, e offerecelas para a sua 
interessante Bibliotheca. 

Aproveito esta opportunidade para repetir a V. Ex.a as mi- 
nhas expressões da particular estima, consideração com que sou 

De V. Ex.^ 
Coll. e am.^ obrg.^° 

O Visconde de Santarém 

111.'"° e Ex."^« S..I Secretario d'Academia R. das Sciencias. 

Lisboa, 14 de Maio de 1826. 

(Lida na Sessão de 18 de maio de 1826.) 

Do Visconde de Santarém para José Maria Dantas Pereira 

111."'° e Ex.""" Snr. 

Restituo á Academia os adiantamentos ás Minhas Memorias 
publicadas nos Annaes das Sciencias em Paris nos vols. 12, 13, 
e 15 ; e permitta-me V. Ex.^ que eu lhe pondere que para refun- 
dir os mesmos Addiatameutos com as Memorias principaes (con- 
forme a opinião do Sr. Trigoso) (1) seria necessário proceder a hum 
trabalho mui penoso, e que actualmente se tornaria impossível 
para ter entre mãos, outras de maior momento e gravidade. 



(1) Francisco Manuel Trigoso de Aragão Morato Sócio da Academia, 
grande canonista. Liberal. Deputado em 1820. Era, todavia, cheio de bom 
senso e moderação. Ministro do reino em 1826. Viveu em Portugal, sobre- 
saltadamente, no tempo dos absolutistas. Em 1834 foi par do reino e vice-pre- 
sidente da sua Camará. Morreu em 1838. 



VISCONDE DE SANTARÉM 



Estou todavia persuadido que as longas noticias que contem 
os mencionados Additamentos. São de muita importância, e de 
grande auxilio para os eruditos, e investigadores das nossas 
couzas Pátrias, e que a Sua publicação destacada das Memorias 
que lhes derão origem, não pode ter inconveniente legitimo, e 
fundamento discreto. 

Portanto V. S.^ fará o que mais convier ao interesse littera- 
rio d'Academia, que hé justamente o que mais desejo. 

Queira V. Ex.a finalmente fazer-me o obsequio de me fazer 
extrahir huma copia da Acta em que se mencionou a m.^ offerta 
das 2.^s ultimas Memorias, para conservar nos meus Papeis este 
Assento com a competente data. 

Renovo as minhas expressões de fiel amizade e consideração 
com que tenho a honra de ser 

Em 26 de Maio de 1826 

De V. Ex.a 
Coll. e am.o obrg.»"» 

Visconde de Santarém 

Do Visconde de Santarém para José Maria Dantas Pereira 

111"'° e Ex.""" Snr. 

Permitta-me V. Ex.» que por este meio, em quanto o não faço 
pessoalmente, lhe agradeça a remessa da interessante carta de 
M. Mablin, sobre Camões, e igualmente as expressões, e nota 
que me enviou na data d'hoje. 

Cumpre-me pois sobre a d.^ Nota significar a V. Ex.^ o se- 
guinte. Que não incontro nada na sua redacção que não seja 
exarado com a boa critica que sempre tenho encontrado em tudo 
quanto tenho visto do saber, e profundos conhecimentos de 
V. Ex.a. Reverte por tanto a Nota, tal qual V. Ex.^ a escreveo, 
ficando o original em meu poder junto com o Mss. anthografo 
da Memoria. 



CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



Espero finalmente que V. Ex.^ se dignará encaminhar este 
negocio de forma que eu tenha a gloria de ver huma Memoria 
minha sobre assumpto tão importante dada a Estampa no corpo 
das obras d'Academia a que tenho a honra de pertencer. 

Soccorro, em 30 de Maio de 1826 

De V. Ex.a 
Antigo am.° e consócio obrg.™" 

Visconde de Santarém 



Do Visconde de Santarém para José Maria Dantas Pereira 

III.""' e Ex.'"" Snr. 

Tenho a honra de participar a V. Ex.^ para o fazer presente 
na Academia Real das Sciencias que huma forte constipação me 
priva de assistir esta noite á Sessão de Conselho para que foi 
avisado. 

D.^ G.e a V. Ex.a m.s a.^ Casa em 25 de Nov.« de 1826 

Visconde de Santarém 

ni.nio e Ex.n^o Sr. Secretario d' Academia R. das Sciencias. 

(Lida na sessão de 25 de Novembro de 1826, seguindo-se offi- 
cio em data de 26, expedido em consequência do assumpto da 
dita sessão, communicando ao mesmo tempo que as da nova 
commissão continuarão no Real Archivo, principiando terça-feira 
28 do corrente pelas 10 e meia horas da manhãa). 

Do Visconde de Santarém para José Maria Dantas Pereira 

Ih.""' e Ex."'" Snr. 

Retardei por considerações mui graves a resposta á commu- 
nicação official que V. Ex.» se dignou fazer-me em data de 5 de 



VISCONDE DE SANTARÉM 



Outubro próximo da parte d' Academia R. das Sciencias de que 
«Em Conselho Académico se assentava por parecer dos conso- 
«cios, que em volume separado fosse impresso o meu Mn. sobre 
«os trabalhos que fez em Paris, e nos Archivos de França, com 
«õs mais já produzidos sobre este assumpto, corrigindo-se no 
«dito Mn. os erros de Latim que nelle se encontrarão» Porém 
tendo V. Ex.» insistido verbalmente sobre a dita resposta, cum- 
pre-me dala pelo modo seguinte. 

Quanto á 1.^ Parte d'esta decizão, não vejo que a Academia 
fizesse outra couza que não fosse seguir parcialmente o Plano 
que em outro tempo adoptou, quando mandou alguns dos seus 
Sócios aos Cartórios do Reyno, e Monsenhor Ferreyra (1) a Hes- 
panha afim de colligirem noções concernentes a Mn. relativos á 
nossa Litteratura, e Historia Pátria, e sendo o corpo do meu tra- 
balho essencialmente mais vasto do que o publicado neste as- 
sumpto nas iMemorias da Litteratura da Academia, pareceu-me 
muito importante que todas as minhas Memorias sobre os refe- 
ridos trabalhos fossem publicadas em volume separado, visto 
que assim se assentou. Todavia para se proceder a dar-lhe hum a 
nova forma Systhematica não concordarei jamais que esta tarefa 
seja feita por outrem. 

Quando porém á 2.» Parte das correcções do Latim, lem- 
brei-me da celebre anecdota da Academia das Inscripções, e 
Bellas Lettras de Paris com Voltaire acerca do Grego. 

Permitta-me pois V. Ex.^ que lhe diga, que os erros de La- 
tim que se encontrão forão por mim notadas, como observo em 
uma nota do Mn. authographo. 

Nunca seria d'opinião, que se emendassem no texto, por isso 
que não conheço liberdade de alterar o que se acha em hum 
códice original, e athe por que eu não devo ficar confundido com 



(1) Monsenhor Ferreira — Joaquim José Ferreira Gordo, monsenhor de 
Patriarchal, bibliotecario-mór. Foi encarregado, como bibliophilo de ir a 
Madrid procurar manuscriptos que se relacionassem com assumptos por- 
tuguezes. Encontrou muitos e escreveu sobre o assumpto uma disserta- 
ção que está impressa nas Memorias da Academia, tomo III, de pag. 1 a 92. 
Morreu em 1838. 



10 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICÀ E LITTERARIA 



a ligeireza, e talvez ignorância de individuo que ordenou os 
índices dos Archivos de Roma que existem nos Códices 
10:031-4, etc. 

Quando fiz o Exame destes Códices, reconheci logo os seus 
erros, porém fiel ao meu systema de critica documental de não 
alterar por modo algum os originaes, por isso assentei em fa- 
zer a declaração que se observa na nota do meu Mn. autho- 
grapho quando trato dos códices de Roma. 

A' vista do que deixo referido devo também observar, que 
a ligeireza do A. dos índices de Roma ainda não dispertou a 
critica dos Sábios Francezes que delles se tem servido, nem 
tem observação alguma que destrua a originalidade dos códices, 
e os ditos erros que nelles se encontrão são pòr certo mais in- 
diferentes do que = as Mesquitas de Vesta, da traducção d'Hora- 
cio, do Sr. António Ribeiro dos Santos (1) que ainda a Acade- 
mia não corrigio. 

Corrigio por ventura a Academia o Latim bárbaro do Livro 
da Guerra de Ceuta de Pizano ? Não o corrigio, e pela bem sa- 
bida regra da critica de que não ha auctoridade para alterar o 
códice. Corrigio a Academia o latim bárbaro, e mizeravel d'al- 
guus Documentos das Dissertações chronologicas do Sr. João 
Pedro Ribeyro ? (2) Corrigio por ventura os erros de dicção, 
d'orthografia ; e athe de gramática d'alguns documentos das Me- 
morias das behetrias(3)? Nada d'isto fez, e pela razão bem sabida 



(1) António Ribeiro dos Santos. Canonista, antigo alumno dos jesuítas, 
doutor, bibliotecário da Universidade, lente, académico, bibliotecario-mór, 
eruditíssimo e poeta, bibliophilo, morreu cego em 1814. Viveu na sua casa da 
Lapa, na rua do Sacramento, rodeado de lixTos e junto d'um Apollo de már- 
more. Uma afilhada lia-lhe as obras do seu gosto e a seu gosto. 

(2) Antiga povoação em Portugal a que assistia o direito de eleger os seus 
magistrados. 

(3) João Pedro Ribeiro Sócio da Academia. Investigador e erudito. Presby- 
tero. Acompanhou Ferreira Gordo a Hespanha apesar de não ser ainda sócio 
da Academia e escreveu entre outros, muitas cousas, as Dissertações chrono- 
logicas e criticas sobre a Historia e Jurisprudência ecclesiasfica e civil de Por- 
tugal. Obra notabilissima. Morreu em 1839. 



VISCONDE DE SANTARÉM 11 



da critica documental de que jamais a originalidade de hum 
Documento, em códice se deve alterar. 

Por tanto a questão que se levantou acerca do meu Mn. hé 
d'um certo modo com a do Ggrego de Voltaire, tendo demais a 
singularidade, que tendo sido o mesmo Mn. escolhido pela Aca- 
demia para ser lido na Sessão Publica de 1.° de Julho de 1824 
(como effectivamente foi) não posso *Qe modo algum entender 
como passou a Imma nova censura, e nesta se assentou em alte- 
ralo, e corrigilo, tanto mais que elle havia merecido da mesma 
Academia o conceito que V. Ex.^ como órgão delia declarou no 
Discurso pronunciado na dita Sessão Publica, e que foi já dado 
á Estampa pelo modo seguinte. 

«O Sr. Visconde de Santarém offereceo consideráveis addita- 
«mentos ás suas assaz conhecidas Memorias sobre os Mn. que 
«existindo nas Bibliothecas Parisienses, pertencem ao Direito 
«Publico Externo, e Diplomático de Portugal. O distincto conceito 
«que corresponde a certo Mn. além d'assaz porfiado pelas ditas 
«Memorias impressas vae agora mesmo ser manifestado pela 
«leitura d'alguns dos additamentos offerecidos.» 

Concluo pois, para que V. Ex.» se sirva fazelo presente á 
Academia, que sendo os ditos additamentos hum trabalho pro- 
priamente novo, não me cabe de modo algum concordar em que 
outrem reduza todas das [Memorias, e addiamentos a hum 
corpo systhematico, e por esse motivo reservo essa tarefa para 
tempo conveniente, e elle virá então á luz pubhca fazendo, e 
formando huma continuação dos 3 volumes publicados em Paris 
em 1787 com o Titulo Noíices et extraiis des Manuscrits de la 
Bibliotheque da Boi lus au comité etabli par Sa Magesté dans 
r Academia R. d'Inscripctions et Belles Lettres, a cujo trabalho 
os meus referidos exames não cedem em interesse e em critica. 
Espero pois da honra que sempre tenho recebido da Academia 
que me não ponha na dura situação de fazer ulteriores reclama- 
ções neste assumpto. 

Disvaneço-me com a convicção de ser um dos seus Membros 
que no curto espaço de 5 annos, em que me tenho occupado em 
seu serviço, tenho prehenchido o disposto nos seus Assentos 
regulamentares, já dando conta no anno de 1822 do meu vasto 



12 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

trabalho sobre o novo Direito Publico Diplomático Externo, já 
enviando-lhe as Suas Memorias, huma sobre Numismática e 
outra sobre os Alcaydes Mores da Villa de Santarém, já final- 
mente os Additamentos em questão. Se não tenho concorrido 
com outros trabalhos de muita importância não tem sido por 
falta de vontade, mas sim pelos multiplicadas, e laboriosas in- 
cumbências do R. Serviço que nestes tempos me hão desviado 
de todos os assumptos litterarios. 

Lx.a 7 de Janeiro de 1827 
111."° e Ex.™o Sr. Secretario d'Academia R. das Sciencias 

Deus Guarde a V. Ex.^ muitos annos. 

Visconde de Santarém 

Do Visconde de Santarém para José Maria Dantas Pereira 

III.""' e Ex.""> Sr. 

Em resposta ao que V. Ex.^ se dignou Escrever-me na data 
d'hontem de que estava em duvida na presença do meu «officio 
«de 7 do corrente se eu convinha na impressão do meu Mn. sem 
«a menor alteração junto porem aos trabalhos homogéneos de 
«que hé continuação, e que se encontrão impressos nos Annaes 
«das Sciencias, imprímindo-se para esse fim aquelles trabalhos 
«em volume separado» tenho pois nesta conformidade que es- 
clarecer novamente o que no mesmo officio escrevi a V. Ex.» 
por isso que V. Ex.^ nesta sua communicação d'hontem me dá 
huma idea mais clara do Projecto da Academia na publicação 
dos ditos meus trabalhos. 

No meu officio declarei emquanto á 1.^ Parte que = concor- 
dava em que todos os meus trabalhos deste género fossem im- 
pressos em volume separado, mas não concordei que o fossem 
dando-lhe outrem huma nova forma systhematica, por isso tam- 
bém que V. Ex.a me não deu a idea que na sua communicação 



VISCONDE DE SANTARÉM 13 



d'hontem me áá = de serem somente reimpressos os publicados 
nos Annaes unindo-lhe os Additamentos que offereci á Acade- 
mia e que ainda se coiiservão inéditos. 

Por tanto concordo em que se faça uma reimpressão dos pu- 
blicados nos Annaes sem que soffrão, porem, alteração alguma 
na sua confecção systhematica e analytica, 

Quanto porém ao Mn. dos Additamentos, concordo em que 
veja a luz publica em seguimento das Memories reimpressas, 
fazendo-se somente na parte onde trato dos Índices de Roma a 
observação na Nota que existe no dito Mn. quanto aos erros de 
Latim do A. dos ditos índices que se encontrão n'aquelles ditos 
códices, sem todavia aterar o Texto pela bem sabida regra de 
critica que citei no dito meu officio. 

Forão estas as declarações que expendi no dito meu officio, 
e hé exactamente o Espirito d'ellas e das condições que exigia 
para concordar com a sua publicação. 

Aproveito esta ocasião para enviar a V. Ex.- as m.-« expres- 
sões de particular estima com que tenho a honra de ser 

De V. Ex.^ 
Am.° m.'° obrg.''^ 

O Visconde de Santarém 

Ill.™o e Ex.'"*' Sr. José Maria Dantas ?.'=" 

s/c em 10 de Janeiro de 1627. 

(Apresentada na sessão de 11 de Janeiro de 1827.) 

Do Visconde de Santarém para José Maria Dantas Pereira 

III""' Sr. 

Remetto a V. S.^ o vol. 12.« dos Annaes das Sciencias, e 
n'elle se encontrará a m.^ carta ao Redactores. 

Espero pois da bondade e favor de V. S.« a breve conclusão 



14 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTF.RARIA 

do neg.° da publicação das m.^^ Memorias sobre os Mn. Portu- 
guezas em Paris reimprimindo-se os já publicados nos Annaes, 
juntando-lhe os Additamentos que dei á Academia. 

Aproveito mais esta occasião p.'"^ renovar a V. S.^ os senti- 
mentos de particular estima com que sou 

De V. S.^ 
Am.^ e cons.o obrg.''° 

Vieconde de Santarém 
s 'c em 25 de Jan.° de 1827. 



Do Visconde de Santarém para José Maria Dantas Pereira 

Remetto a prova que me foi enviada, e vai com as correc- 
ções convenientes, e muito agradeço a V. S."^ a actividade que 
tem posto neste negocio, esperando ter em breve concluída a 
reimpressão e a publicação dos Additamentos. 

Aceite V. S.a novamente as seguranças da estima com que 
sou 

De V. S.''^ 
Am.° e consócio obrg.'*" 

Visconde de Santarém 
\ c em 2 de Fev.^ de 1827. 

Do Visconde de Santarém para José Maria Dantas Pereira 

111.""° e Ex.'"° Sr. 

Parece-me que seria mui conveniente que na minha collec- 
ção de Memorias mandadas reimprimir pela Academia se exa- 



VISCONDE DE SANTARÉM 15 

rasse em principio a inclusa advertência preliminar e o Titulo 
que também redigi. 

Queira V. Ex.^ instruir-me da sua opinião a este respeito 
afim de me poder cada vez mais persuadir da obrigação com 

que sou 

De V. Ex.a 
Am.° obrg.''° 

Visconde de Santarém 
8 c em 9 de Fev.» de 1827. 

(Apresentado na sessão de 1 de março de 1827). 

Do Visconde de Santarém para José Maria Dantas Pereira 

III""' e Ex.'"" Sr. 

Em resposta á carta que V. Ex.a me dirigio na data de 12 do 
corrente acerca da Adevertencia Preliminar que eu pertendia 
que se publicasse na collecção dos meus trabalhos, tenho agora 
em "^ta das razões de V. Ex.% que concordar com o que V. Ex.^ 
me disse e por consequência Espero que continue a impressão. 

De V. Ex.a 
Am.o consócio e obbr.''° 

Visconde de Santarém 
s c em 15 de Fev.'' de 1827 

(Apresentada na sessão de 1 de Março de 1827. 



Do Visconde de Santarém para José Maria Dantas Pereira 

Ilir Sr. 

Agradeço muito o reparo que V. Ex.^ fez acerca da discor- 
dância da data dos Previlegios dos Allemães em 1510 com o 



16 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

Reynado do Sr. D. Sebastião, o que foi hum erro dos Annaes, 
p. que consultei o meu autografo, e ahi achei que fora no Rey- 
nado do Sr. D. Manuel, e hé p. conseguinte Este Rey o que se 
deve sitar, e não D. Sebastiam. 

Este foi semilhaute a outros erros typograficos que se en- 
contrão nas d. 3* Memorias publicadas nos m.'"*^^ Annaes, que eu 
tenho agora n'esta reimpressão corrigido, como foi entre outros 
Indica p. índia, etc. 

Aproveito esta occasião p.a renovar as m.^^ Espressôes d'ami- 

sade com que sou 

De V. Ex.« 
Coll. obrg.^o 

Visconde de Santarém 

Soccorro em 19 de Março de 1827. 

Do \ Isconde de Santarém para José Maria Dantas Pereira 

111."'° Sr. 

Revendo os meus autógrafos Escriptos em Paris sobre o có- 
dices que examinei, achei que a copia junta Estava exacta q.**" 
diz = í/es marchands Portugais á condition, etc, portanto deve 
ser assim impresso, e não marchandisy. 

Aproveito esta occasião p.^ pedir a V: Ex.^ o favor, se todavia 
não tiver inconveniente, de admittir alguns additamentos mais, 
que são muito importantes, os quaes achei revolvendo os meus 
Papeis de França, afim de serem publicados em seguimento aos 
da Bibliotheca R. de Paris, e antes dos exames feitos nos Ar- 
chivos de França, e bem assim outros acerca das diversas Biblio- 
thecas que vizitei. 

Queira V. Ex.a ter a bondade de me responder sobre isto p.* 
meu ulterior governo. 

Aceite V. S. a continuação das Expressões com que sou 

De V. S.^ 
Am.o coll. e obrg.^° 

Visconde de Santaram 



VISCONDE DE SANTARÉM 17 



Do Visconde de Santarém para José Maria Dantas Pereira 

Em 20 d' Abril de 1827. 

111.""° Snr. 

Envio a prova ultimamente remettida, e com ella achará 
V. S.^ o 1.° importante additamento que deve ser collocado em 
seguimento do que se acha composto a pag. 74, antes da noticia 
dos Archivos de França. A extenção d'este interessante addita- 
mento me permitte o corrigir alguns outros, em quanto elle se 
compõem, os quaes serão também remettidos a V. S.» 

Espero da sua actividade, e favor com que tanto me tem 
obrigado, haja de promover o additamento d'esta publicação, e 
que acredite que sou 

De V. S.« 
Am.° e coll. obrg.**" 

O Visconde de Santarém 



Do Visconde de Santarém para José Maria Dantas Pereira 

Soccorro em 28 d'Abril de 1827. 

///'"'' Snr. 

Remetto prompta a prova que ultimamente me foi enviada, 
e previno também a V. S.^ que recebendo juntamente com ella 
huma Folha da ultima prova que comprehende desde pag. 65 
athé 72 vem a faltar-me as 2.^^ Folhas antecedentes das ultim.as 
provas desde pag. 48 athé 64. 

De V. S.'-^ 
Am.o obrg.do e collega respeitador 

O Visconde de Santarém 

VOL. VI 2 



CORRESPONDÊNCIA SCIENTIPICA E LITTERARIA 



Do Visconde de Sontarem para José Maria Dantas Pereira 

Em 8 de Maio de 1827. 

///.'"'' Snr. 

Queira V. S.^ ter a bondade de me dizer se houve algum 
inconveniente na continuação da impressão das Noticias de Mn. 
de Paris depois da minha ultima remessa em 8 do corrente da 
prova correcta que no dia 7 me fora enviada. 

Queira V. S.^ continuar a persuadir-se que sou deveras 

De V. S.« 
Am.° e coll. obrg.''^ 

O Visconde de Santarém 

Do Visconde de Santarém para José Maria Dantas Pereira 

Em 18 de Maio de 1827. 

111.'^° Snr. 

Remetto a Prova que ultimajnente me foi enviada, e Vai mais 
hum Additamento que deve hir em seguimento do que ultima- 
mente remetti, e com este dou fim aos acrescentos, podendo 
V. S.^ mandar imprimir o resto como existe no Mn. que offereci 
á Academia. 

Tenho também prompta a Instrucção, que hé m.*° curiosa, a 
qual enviarei logo que V. S.^^ me avisar a esse respeito. 

Novamente recomendo este trabalho da impressão, p.*" que 
desejo muito mandar p.^ fora de Portugal alguns exemplares 
d'estas, e outras Memorias. 

De V. S.^ 
Am.« e coll. obrg.*^" 

O Visconde de Santarém 



VISCONDE DE SANTARÉM 19 

Do Visconde de Santarém para José Maria Dantas Pereira 

s/c. em 20 de Maio de 1827. 

111.'^° Snr. 

Remetto as Provas que hontem me forão enviadas. Não cor- 
rectas, e por esta occasião Envio também a Introducção que me 
parece de muito interesse haja de proceder, e exclarecer as D.^^ 
Memorias. 

Queira V. S.^ pois na forma convencionada fazela imprimir. 
Aceite finalmente a continuação da segurança da particular 
estima com que sou 

De V. S.- 
Am.'' coll. obrg.^° 

O Visconde de Santarém 

Do Visconde de Santarém para José Maria Dantas Pereira 

Em 27 de Maio de 1827. 

111.'"° Snr. 

Envio a V. S.^ para seu uso hum exemplar da 1.- Parte das 
m.^s Memorias para a Historia, e Theoria dos 3 Estados. 

Aproveito esta occasião para pedir novamente a V. S.^^ a bre- 
vidade da conclusão da publicação das Memorias sobre os Mn. 
de Paris. 

Tenho sentimento p."" se não poder talvez já remediar, o irem 
os Documentos mencionados na 1.^ carta, em seguimento dos 
Additamentos e antes dos Archivos de França. Se ainda hou- 
vesse remédio, seria muito conveniente pôr isto neste methodo. 
Isto hé começando as Memorias depois da Introducção pela Noti- 
cia dos Mn. etc. e não pela carta. 

Queira V. S.^ dizer-me alguma couza sobre este negocio. 

De V. S.« 
Am.° coll. obrg.^° 

O Visconde de Santarém 



20 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

Do Visconde de Santarém para José Maria Dantas Pereira 

Em 4 de Junho de 1827. 

III..""' Snr. 

Remetto correctas as 2*^^ ultimas provas que hontem recebi, 
e rogo incessantemente a remessa das da Introducçâo, e que 
V. S.^ se sirva dar-me alguma resposta sobre o assumpto da 
m.a carta de hontem. 

De V. S.- 
Am.o coll. obrg.''" 

O Visconde de Santarém 

Do Visconde de Santarém para José Maria Dantas Pereira 

Em 5 de Junho de 1827. 

111.""' Snr. 

Em resposta á carta que V. S.a se sérvio Escrever-me na 
data d'hontem, tenho a dizer o seg.*^. 

O remédio que eu pretendia que se desse ás memorias só 
faria a inversão da l.''^ foi. isto hé a dar carta aos Redactores 
athé pag. 8 que hé o seu fim. Devia ommitir-se esta carta, e a 
noticia dos Documentos que ella encerra passar para a continua- 
ção dos additamentos isto é p.^ pag. 91 antes dos Archivos de 
França. 

Portanto apenas se utilizaria huma folha, e huma pagina, e 
se alteraria o numeramento das paginas o que não julgo muito 
dificultoso. 

Entretanto se isto vai demorar mais hum Mez esta publica- 
ção, então desde já renuncio á pertenção. 

De V. S.« 
Am.° coll. obrg.'^" 

O Visconde de Santarém 



VISCONDE DE SANTARÉM 21 



Do Visconde de Santarém para José Maria Dantas Pereira 

Em 6 de Junho de 1827. 

111."'° Snr. 

Remetto a folha Suprimida, é como deve começar a pag. 91 
da Folha 12 antes dos Archivos de França. 

Códice 8:357-2 

t 

«Este códice hé hum dos mais interessantes que consultei p."" 
«isso que contem os seguintes documentos os quaes athé agora 
«não havia encontrado nos diversos corpos de Tratados impres- 
«sos, nem nos Mn. que tenho revisto, e copiado.» 

NB. Seguir-se-ha o que Está na folha impressa 

l.a Huma Tregoa, etc. 
Athé ao fim da folha ORimittindo-se o seg.*^ que vai indicado. 

De V. S.^ 

Am.o coU. obrg.'^*' 

O Visconde de Santarém 

Do Visconde de Santarém para José Maria Dantas Pereira 

Em 8 de Junho de 1827. 

III.""' Snr. 

Sendo eu á mais de hum anno segundo me recordo, sócio 
livre da Academia, não tenho ainda merecido o favor do cos- 
tume na remessa das Propinas das obras que se publicão pela 
mesma Academia. 

Rogo por tanto a V. S.^ o favor de dar a conveniente provi- 



22 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



dencia, Esperando do seu obsequio a contemplação do meu 

nome na lista competente. 

De V. S.'^ • 
Am.*' coll. obrg.''^ 

Viconde de Santarém. 



Do Visconde de Santarém para José Maria Dantas Pereira 

Em 16 de Jan." de 1828. 

111.'"° Snr. 

Tendo recebido o Diploma passado em 2 de Maio do corrente 
anno de Sócio da Academia Romana de Archiologia, outro do 
1."^ de Setembro ultimo de Membro Honorário da Sociedade 
Medico-Botanica de Londres, e na data de 6 de Outubro passado 
o de Membro da Academia de Historia, Inscripções, e Antigui- 
des de Suécia, assim o communico a V. S.a para que o faça pre- 
sente á Academia Real das Sciencias na forma usual. 

Deos guarde a V. S.^, Lisboa, 28 de Novembro de 1829. 

Visconde de Santarém. 
Sr. Vice-Secretario da Academia Real das Sciencias. 

Do Visconde de Santarém para José Maria Dantas Pereira 

III e Ex"'° Sr. 

A Academia R. das Sciencias de Berlim remette-me uma 
carta, e os volumes de algumas das suas obras que dirige á 
nossa Academia e me encarregou da sua entrega. 

N'esta conformidade tenho a honra d'enviar a V. Ex.^ assim 
a mencionada carta, bem como as obras a que ella se refere. 

D.« G.*' a V. Ex.% Lisboa, 6 de Março de 1831. 

Visconde de Santarém. 
Ill.™« e Ex.™° Sr. José Maria d' Antas Pereyra. 



VISCOXCE DE SANTARÉM 



Do Visconde de Santarém ao Sr. José Maria Dantas Pereira 

111.'"° e Ex.""" Snr. 

Mr. Hiilsemann, (1) Professor Alemão que esteve ao serviço 
d'El-Rei Nosso Senhor, durante a sua residência na Corte de 
Vianna d'Austria acaba de me dirigir a carta, e observações, que 
tenho a honra de enviar a V. Ex.*» conjunctamente com a obra 
por elle publicada com o titulo de «Historia da Democracia dos 
Estados Unidos, e que por minha intervenção offerece para a 
Academia Real das Sciencias, 

Rogo pois a V. Ex.^ queira ter a bondade de lhe dar a con- 
veniente direcção. 

Deos Guarde a V. Ex.% Lisboa 5 d' Abril de 1831. 

Visconde de Santarém 
Documentos a que se refere a caria anterior 

Monsieur le Vicomte 

Voyant que TAcadémie des Sciences a Thabitude de recevcir 
des livres qui lui sont offerts par les autheurs, je serais fort aise 
de laisser à la bibliothéque le seul exemplaire que j'ai d'uu ou- 
vrage publié par moi il y a huit ans. Je me permets d'envoyer 
cet exemplaire à Votre Excellence, en lui priant de vouloir bien 
me dire, si Elle veut se charger, comme Membre de TAcadémie, 
de le recevoir, ou s'il faut quelque autre forme pour cela. Je 
suis faché de n'avoir à ma disposition, aucun exemplaire imprime 
sur de meilleur papier, je n'avais celui-ci que pour mon usage à moi. 

L'object que j'avais en vue en écrivant cette Histoire de la 
Démocratie das les Etats-Unis de FAmérique Stentrionale, était 
d'expliquer les raisons historiques, qui y ont fait prévaloir le 



(1) Hulsemann, era um sábio professor que servira D. Miguel durante o 
periodo de sua residência em Vienna, após a abrilada, e que foi condecorado 
mais tarde a encarregado pelo Visconde de Santarém de uma missão diplo- 
mática. 



24 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

príncipe démocratique sur plusieurs efforts faits pour y établir, 
des iustitutious plus analogues en systéme politique et à l'ordre 
social de TEurope.. 

Je ne connais pas assez Tliistoire des colonies Espagnoles ; 
mais je ne doute pas d'après le peu de connaissance que j'en 
ai, que la différeuce, qui se trouve entre Torigine des colonistes 
et entre les lois, par lesquelles ils étaient gouvernés, est une des 
principales raisons, pourquoi tous les efforts faites dans les Colo- 
nies Espagnoles d'imiter le systéme politique des Etats-Unis ont 
en parlaut des résultats si funestes. Cest vrai, que quelques 
unes des Colonies Anglaises dans TAmérique Stentrionale 
avaient eté fondées d'abord d'après un plan different; mais 
ces gouvernements propriétaires (proprietary governements) 
étaient déjà abolis en partie avant la Révolution, et le peu, 
qui en restait jusqu'alors, ne résistait qu'avec bien de la diffi- 
culté à Tesprit démocratique qui y avait entiérement prévalu. 
Dês le premier établissement la grande masse des habitants etait 
composée : 

1*^ de mécontents, de persones qui avaient quitté leur patrie, 
qui avaient quitté TEurope, parce qu'ils ne s'y trouvaient pas à 
leur aise, soit pour des raisons politiques, soit pour des questions 
de religion, soit pour des affaires particulières. 

2^ Ouiant à la classe de la société, qui fournissait ces Colo- 
nistes, ils appartenaient presque tous au tiers état, ou s'il y avait 
passe eux quelques [uns, qui dans leur patrie avaient été des 
membres de la noblesse, ils y rénonçaient par le fait, en se met- 
tant au niveau des autres colonistes qui d'après les lois locales 
étaient le leurs égaux. 

3« En fait de religion ils étaint tous des dissenters, et même 
les catholiques et les membres de Teglise Anglicane, qui allaient 
s'établir dans ces Colonies, entrent jusqu'à un certain point et, 
par ainsi dire, par Tesprit de leur position sociale et politique 
dans cette classe, parce que la plupart des autres, qui se rétire- 
rent dans ces colonistes à des époques differentes, quitterent 
FAnglaterre dans des circunstances ou leur religion y était pen- 
séentée. Je dois ajouter une. 

4^ observation, c'est qu'au moment oíi les differentes classes 



VISCONDE DE SANTARÉM 25 

des colonistes quitterent leur patrie, le gouvernement Anglais 
était dans les mains d'un pouvoir opposé, qui ne demandai pas 
mieux, en general, que de se débarasser de la présence d'adver- 
saire inquiets, mécontents et souvent dangereux. Cest sans 
doute une des raisons auxquelles il faut attribuer le degré d'in- 
dépendence qui est accordée par les premiers privilèges à la 
plupart de ces colonies, et qui donnaient aux colonistes la plus 
grande liberte de développer Tesprit, qui dominait entre eux, 
presqu'absolument comme ils le trouvaient à propôs. Sans cela, 
le gouvernement Anglais pendant longtemps changeait si sou- 
vent de chef et de direction, que le pouvoir Royale, déjà trois 
faible, ne pouvait pas exercer beaucoup d'influence sur ces 
colonies. II est vrai, que plus tard, depuis le commencement du 
dèrnier siècle rAristocratie Anglaise s'étaut emparé de tout le 
pouvoir avait été peut-être dans le cas de prendre des mesures 
pour introduire dans ces colonies des institutions aristocratiques 
de la patrie. Mais il pouvait qu'on n'y faisait pas beaucoup 
d'attention, et que les propositions faltes par des particuliers 
dans ce sens n'eussent aucun résultat (vide pag. 255 de cet ou- 
vrage). Voici quelques unes des observatious que je m'étais pro- 
posé d'établir par Tliistoire de la démocratie dans les États-Unis. 

Le North American Reviw n^ LIII October 1828. Boston, donne 
une critique, naturellement três hostile de cet ouvrage, en lui 
donnant à tout un caractere semi-officiellel, et en faisant enten- 
dre que c'était Mr. de Genz qui avait écrit Tintroduction. Le fait 
est que je Tai écrit et publié avant d'avoir jamais été à Vienne, 
et ni Mr. de Grenz ni aucune autre personne à Vienne, n'en 
avait la moindre idée avant la publication. Mais comme le Re- 
view donne une traduction assez fidéle d'un passage de Tintro- 
duction, dont il dit, «qu'il contient les élements du systéme poli- 
tique de Tauteur, je me permets de joindre à celle-ci une copie 
de ce passage d'après le texte du Review». 

J'ai Thonneur d'être avec la plus grand respect, Monsieur le 
Vicomte 

De Votre Excellence 
Le três humble et le três obeissant serviteur 
(a) Hulsemann 



26 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



North American Reviw, LIIl Out. 1826, Boston. 

The History or Democracy in the United States of North 
America bv I. G. Hiilsemann Gottengen. 1823. 

The fólowing paragraf contains the elements of the authors 
politicai system. 

«In the authors judgment it is a duty, to declare one's self 
expressly against that, which one regards as evil; and tolera- 
tion, in such a case, so far from being a duty, is at best a wea- 
kness, From an Europeàn point of view, the prevailing tendency 
of thiugs in America is hosille, and rests upon principies dire- 
ctly opposed to the entire basis of our combination. The prevai- 
ling tendency in North America is in direct warfare with our 
religion, and with our monarchics aristocratical interests, and 
sentiments; and for this reason, the author can regard only as 
pernicious, whatever rests on this transatlantic basis. It would 
be a very erroneous inference from this candid confession to 
see in it hatred toward North America as such. The champions 
of the prevailing Europeàn policy are content, if our continent 
be not infested with what belongs to America. So long as it re- 
mains beyond the ocean, we regard it only as alien to us. But 
we must resist it, if it endeavour to force its way into Europe ; 
and if present itself in a posture hostile and destructive to our 
first and dearest interests. No one would take it ill (to quote 
the most prominent representative of the prevalent principies 
of the North American Republic) schould general Lafayette, 
renouncing France and Europe, seek a new home in America 
in order to find beyond the ocean, a politicai condition, which 
he has atriven in vain to create in Europe. But he and with 
him ali those, who in France, in Spain and in Western Europe 
generally aro known by the name of liberais, and who ali more 
on less in opposition to the dominant policy of Europe, are jus- 
tly considered as the enemies of religion, of the state and of so- 
cial order, they are justly denounced persued and punisked as 
such, in as much as they have been striving, for thirty years, to 



VISCONDE DE SANTARÉM 27 



pestroy the religions and politicai institutions, on which Euro- 
pean civilisation reposes, and to give us up a prey to general 
lawfessenss, the consequence of the removal of ali authority 
With how moch precision, and with what severity, gouvernments 
oughr to proceed against these niinous efforts, must be left to 
the widsom of such gouvernments, and prudence may, suggest, 
in point of the case. But it is only in reference to the applica- 
tion of the principie, that the idea of moderation can be admit- 
ted. The principie itself knows no lipit and cannot, too sternly 
be iipheld. 

Do Visconde de Santarém para José Maria Dantas Pereira 

111."'° e Ex."'" Snr. 

Tenho remettido ao Ministro de Sua Mag.^ na Corte de Turin 
a caixa dos livros, que V. Ex.^ me remetteo da parte da Acade- 
mia Real das Sciencias d'aquella Corte, acabo de receber a res- 
posta dada pelo seu secretario áquelle Ministro, e que junto 
remetto por copia, pela qual S. Ex.^ ficará na certeza de terem 
sido fielmente entregues os mencionados livros. 

Deos guarde a V. Ex.'^, Lisboa 2 de Maio de 1832. 

Visconde de Santarém 
111. '"O e Ex."'» Snr. José Maria Dantas Pereira. 
(Lida na sessão de 10 de maio, e respondida no seguinte dia.) 

(Copia da carta a que se refere a anterior de Hyacinte Cavena 
para o Visconde de Santarém 

Par suite de la lettre que vous avez f ait Thoneur de mi écrire 
le 2 de ce móis, j'ai fait retírer de la Douane la caisse de livres, 
que S. E. le Vicomte de Santarém, Ministre des Affaires étran- 
géres de S. M. íe Roi de Portugal, envoie, au nom de FAcademie 



28 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

Royale des Scieuces de Lisbonne á celle de Turin, dont il est 
correspondant. 

J'ai rhoneur de vos prier de vouloir bien agréer les remer- 
cimens de notre Academie pour les soins obligeans que vous 
vous êtes donnés en cette occasiou. 

Je joins le certificat de décharge que vous me demandez 
pour être expedié au Cônsul de Portugal á Genes, Mr. Paganelli. 

Les livres ont déja été presentes à la classe des sciences mo- 
rales, historíques et philologiques de TAcademie, dans sa seance 
de hier par Mr. le Profesor Garrera, qui en est le secrétaire. 

Mr. Garrera, quí a Thonneur de correspondre pour TAcade- 
mie avec Mr. le Visconte de Santarém, si fera un empressement 
de lui faire passer les remercimens de notre Academie charmée 
de s'etre associe un correspondant si obligeant donc le zele pour 
la propagation les connaissances humaines est si généreusement 
secunde par Tillustre Academie Royale des Sciences de Lis- 
bonne. 

En mon particulier je vous gene Mr. le Commandeur, de 
dísposer de mes fables services. 

(assignado) Hyacinthe Cavena. 
Secrétaire 

Turin, le 6 Avril 1832. 



Do Visconde de Santarém para o Marquez de Borba (1) 

111."'° e Ex.""" Snr 

Tenho a honra de remetter a V. Ex.^ os últimos jornaes Fran- 
cezes, que recebi pelo Paquete entrado hontem, afim de V. Ex.^ 



(1) Fernando Maria de Sousa Coutinho Castello Branco e Menezes, 14. o 
conde de Redondo. Grande protector dos artistas e amador de musica. Reunia 
em sua casa Marcos Portugal com os seus discípulos e era intimo de Domin- 
gos de Sequeira. Morreu em 1834. 



VISCONDE DE SANTARÉM 29 



OS transmittir á Commissão xVcademica na conformidade dos 
desejos que V. Ex.''^ me manifestou. 

Aproveito mais esta occasião para renovar a V. Ex.a as segu- 
ranças da alta estima e consideração com que tenho a honra de 
ser 

De V. Ex.« 
Am."" m.t« obrg.do e f. cap."^ 

Visconde de Santarém 

Do Visconde de Santarém para o Marquez de Borba 
Ill.mo e Ex.^° Snr. Marquez de Borba 
Lisboa 16 de Maio de 1832. 

111.'"" e Ex.""" Snr. 

Tendo recebido do xVgente de Sua Mag.^ em Paris um officio 
relativamente ao individuo indicado pela Academia Real das 
Sciencias de Lisboa para inculcar as obras relativas á Cholera 
morbus, tenho a honra de communicar a V. Ex.^ o seguinte, 
para que se sirva fazel-o presente á mesma Real Academia 
para os effeitos que julgar conveniente. 

«Quanto ao individuo, que se indica para inculcar as obras 
«que a Academia deseja, não conheço, nem nesta Legação ha 
«idea da sua existência em Paris. Não se tendo apresentado 
«aqui segue-se que faz parte do partido rebelde, é por isso ini- 
«migo d'El-Rei N. S.'', portanto incommunicavel comigo.» 

Deos guarde a V. Ex.^ Secretaria d'Estado dos Negócios Es- 
trangeiros, 20 de Setembro de 1832. 

Visconde de Santarém 

Ill.nio e Ex.^o Snr. Marquez de Borba. 



30 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



Da Société Française de Statistique Universelle, Place de Vendóme 

iV.« 12 — Paris. 

Para o Visconde de Santarém 

Monsieur ei honorable Collégue 

Paris, le 27 Dècembre 1834. 

L'Aide de Camp de Service auprès du Roi (1) vient de informer 
que Sa Magesté et la famille Royale recevient jeudi Is Janvier 
à midi, à Toccasion du nouveau, une députation de la Socièté 
Française de Statistique Universelle. 

Vous être priè au nom de votre Commission Supèrieure de 
Youloir bien en faire partie. 

Ou se reunira donc jeudi l.^"", Janvier à 11 heures V^ Place 
Vendôme, N.° 12 ; mais s'il vous etait impossible de vous y join- 
dre à cette heure, vous pourriez, jusqu'au moment de la recep- 
tion de la Société, joindre sa députation dans leur salon d'attente 
aux Tuilleries. 

Ou est libre de venír en uniforme ou en habit bleu ou noir. 

Je suis avec une haute considération 

Monsieur et honoré Collégue 

Votre três humble Serviteur 

Le Président du Conseil d'ad.°" 

C. Moreau 

Enseg.^^ sur le n.^ 142 et celle du sceau de la société. 

Aguian Bression 

Monsieur le Vicomte de Santarém — Membre de la Société 
Française de Statistique Universelle. 
Monsieur le Vicomte de Santarém 

Rue Neuve St. Augustin, 99 — Paris 



(1) Luiz Filipe — Rei de França de 1830 a 1848. Filho de Filipe d'Egalité. 
Succedeu a Carlos X sendo proclamado pela revolução. Chamavam-lhe rei 
das barricadas. Foi exilado pela republica. 



VISCONDE DE SANTARÉM 31 



Dã Société Asiatique para o visconde de Santarém 

(Bib. Nac.) 

Le Secrètaire de la Société a Mr. Le Vicomte de Santarém, 
Membre de TAcadémie royale de Lisbonne etc. etc. 

Paris, le 7 Juillet 1835. 

Monsieur Le Vicomte 

J'ai 1'honneur de vous prevenir que, d'après le Voeu que 
vous avez manifeste et qui a ètè appuyé par M. M. Lajard et 
Mohl, Membres prèsentateurs, le Conseil dans sa séance du 6 
juillet courant vous á porte sur la liste de ses membres. 

Je m'empresse de vous exprimer le désir que nous aurions 
de vous voir prendre quelque part a,ux travaux de la Sociètè 
Asiatique et la satisfaction particulière que j'epruvais si cette cir- 
constance me procurait quelques rapports avec vous. Je dois 
vous informer, aussi, que les Séanees du conseil ont lieu premier 
Lundi de chaque móis, à 8 heures du soir, rue Taranne, N.« 12. 

Je suis avec une consideration três distinguée. 

Monsieur Le Vicomte 

Votre três humible et 

três obeissant servit.eur 

Le Secrètaire 



Da Société Royale des Antiquaires de France para o Visconde 
de Santarém. 

(Da Bib. Nac.) 
GLORIAE MAIORUM 

Paris le 6 Janvier 1836. 

Monsieur Le Vicomte 

Les Présidents et Secretaires de la Société ont l'honneur de 
vous prevenir que la Séance se tiendra samedi prochain du 



32 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

courant pour le renouvellement du Bureau, veuillez bien vous 
trouver à cette rèunion, à 7 heures ^2 du soir dans le local de 
la Société, Rue Taraune, u.^ 12. 

Monsieur Le Vicente de Santarém 

21, Rue Saint Lazare — Paris 

Da Société des Antiqiiaires de France para o Visconde de 
Santarém 

Monsieur le Vicomie 

Paris le 23 Avril 1836. 

J'ai eu Thonneur de vous présenter mes respects le jour et 
rheure que vous voulez bien mlndiquer. C'est-à-dire Dimanche 
prochain. 

Je suis avec une haute considération. 

Monsieur le Vicoente 
Votre três humble et três obeisant serviteur 

L. Moléon 

Rue Neuve des Capucines, N.° 13-Ent. 

Do Visconde de Santarém para Mr. Jomard (1) 

Paris le 4 Avril 1837. 

D'après le désir, que vous m'avez manifeste de connaitre la 
note sur TAtlas manuscrit qui existait à chartreuse d'Evora, dont 
j'ai eu rhonneur de vous parler, je m'empresse de vous donner 
ces reseisrnements. 



(1) Edmé François Jomard, engenheiro e agrónomo francez. Fez parte da 
Convenção scientifica e do Instituio do Egypto executando n'este paiz gran- 
des trabalhos. Fundador da Sociedade de Geographia de França. Morreu em 
1862. 



VISCONDE DE SANTARÉM 33 

Lorsque Mr. de Navarette (1) Director du Dépot hydrographi- 
que de Madrid, m'écrivit en 1826 pour me demandar des documents 
relatifs à la découverte de la Nouvelle Hollande, faite par ordre 
du Vice Roi des Indes en 1600, 1601, selon FAtlas manuscrit de 
Teixeira en XVII.^ siécles j'ai fait toutes les recherchcs sur les 
cartes qui pouvaient exister tant dans les archives, que dans les 
bibliothèques des convents. 

. Parmi les notions, que j'ai pu recueillir par un article 
de la Bibliotèque Lusitanienne (Bibliothèque Lusitane) de Fabbé 
Barbosa. 

L'existence à la phartreuse d'Evora, dans la province de 
rAlemtejo, d'un Atlas composé por Fernando Vaz Domado, Cos- 
mographe Portugais à Goa 1572, Atlas d'une execution magni- 
fique. 

Le savant Bibliographe Tappelle Mape-monde, et dit qu'il 
contient Thydrographie ; les cartes de tous les pays, avec toutes 
les routes, les navigations, latitudes etc. cartes enluminées. 

Je me suis empressé de me procurer les notes sur le le pré- 
cieux monument geographique et ayant trouvé une três succinte, 
parmi les Ms. de la Biblothèque du couvent de St. Vincent de 
Fora à Lisbonne, j'ai un devoir devoir me procurer une autre 
plus détaillé. J'ai donc prié Mr. Carlos Mathias Pereira de 
me Tobtenir pendant le cour de ses voyages dans la province 
de FAlemtejo, dans les années 1833 et 1834, et en effet il m'a 
fourni d'autres plus détaillées, et que j'ai laissé avec mes papiers 
en Portugal. 

Ne m'occupant plus d^ cette affaire, j'ai vu avec une grand 
plaisir une autre note sur ce monument geographique, qui étant 
moins étendue que celle, que j'avais obtenu, donna, néamoins, 
une idée de l'importance de TAtlas en question. Cette note vient 
d'être publiée dans VArchivo de Conhecimentos Úteis. 

Dans la Bibliotèque de la Chartreuse d'Evora én Portugal 
(dit la not) existe un geographique magnifique, qui se compose 



(\) iMartin Fernandes Navarette, historiador hespanhol e official de mari- 
nha. Morreu em 1844. 

VOL. VI 3 



34 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



d'un grand uombre de cartes. Cet Atlas est manuscrit, et fut 
dresée selou le titre par Fernão Vaz Dourado, cosmographe 
portugais à Goa en 1572. Oa lit dans le même Atlas, qu'il a 
appartenu à rArchevêque d'Evopa D. Theodoro de Bragança, et 
qu'il en fit cadeau à la Chartreuse ; ceei est uue erreur, le prínce 
s'appelait Theotonio, et uon Theodore. Ce prince naquit à Coim- 
bra en 1530. On lui doít la publication d]une coUection de lettres 
et d'annuaires des Jésuites du Japon et de Chine, 2 vol. publiés 
à Évora 1598. 

II est constate que cet Atlas avoi appartenu au Roit Henri. Les 
cartes sont enluminées, toutes les déscouvertes y sont marquées 
avec les noms de ceux qui les ont faites. 

Les Etablissements portugais, et Espagnols sont respectivc- 
ment marquées avec les drapeaux enluminés du Portugal et de 
TEspague. Le pays au sud de Tembouchure dufleuve Saint Laurent, 
dans TAmérique Septeutriouale, y est désiguée sons la dénomi- 
nation = Terra dos Corfereaes, = La terre du Labrador s'y volt 
tracée jusqu'a prés de 70 degrés, et les caps indiques avec les 
noms Castillans, et Portugais, étant Portugais le nom du Cap, le 
plus Sptentrioual, savoir = Cabo Branco = Dans Tendroit occupé 
par la Cote Septentrionale de TAustralia, ou Nouvelle Hollande, 
on voit dessinée uue cote três étendue, avec un grand nombre 
de promontoires tous avec des nomsí Sur cette carte on voit le 
drapeau de Castille, et en bas on lit. 

«Esta Costa foi descoberta por Fernão de Magalhães natural 
Portuguez, por ordem do Imperador Carlos no anno de 1520.» 

«Cette cote fut découverte por Ferdinand de Magellan, portu- 
gais, por ordre d'Empereur Charles dans Tannée 1520.» 

L'auteur de la note dit qu'il croit avoir vu une Cote, que cor- 
respondait à la nouvelle Guinée, désiguée par la dénomiuation 
de = 7e/7'a dos Papenas. Les iles y sont aussi marquées. 

L'auteur de cette note dite três bien qu'il serait à désirer 
pour riiistoire de la géographie, et pour celle des découvertes 
des Portugais, qu'on redigia nos Cathalogues chronologiques 
des découvertes modernes. Que les noms de plusieurs caps, 
Ports, fleuves, et cotes alteres par les geographes modernes 
seraient otés des cartes et substitués par ceux, qui leur fu- 



VISCONDE DE SANTARÉM 35 

rent imposés par les navigateurs qui réellement les ont dé- 
couvert. 

Je me permettrai d'ajouter une observation, qui consiste en 
ce que Tauteur de cet Atlas Fayant composé à Goa son travail 
devait être fait d'aprés d'autres cartes plus anciennes et portant 
contemporaines des découvertes. Je regrette de n'avoir point 
ici le catalogue précieux manuscrit des Archives de Goa com- 
posé por M. Vieira Tovar moyennant le quel nous aurions par 
connaitre Texistence dans les Archives de Tlnde d'autres cartes 
plus anciennes, que celles ou Dourado a puisé. 



Da Société Philotechnique para o Visconde de Santarém 

Paris le 24 Juin 1837. 
Le Sécrétaire-Perpetuel de la Société Philotechnique. 

Monsieur et Cher Confrere 

• 
•Dans le Compte-rendu le 18 de ce móis, vous avez entendu 
que la Société se proposait de rédiger une série de questions 
pour connaitre les progrès des lettres des sciences et des arís á 
rétranger. J'ai Thonneur de vous prevenir que, dans la Tseance 
d'hier, vous avez été nommé membre de la Comission pour 
du Portugal, avec. Mr. le Lieutenant-General Thiébault (rue 
Nouvelles Mathurins, 31) Veurillez-vous concerter avec votre 
collegue remplir les intentions de la Société. 

Agréez, je vous prie, les assurances d'une Sincère et affe- 
ctueuxe considération. 



Monsieur. — Mr. le Vicomte de Santarém, Membre de la Société 
Philotochnique. Rue S. Lazare. — Paris. 



36 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



De Encyclopédie des Gens du Monde para o Visconde de Santa- 
rém. 

Mr. 

J'a rhoneur de vous informer que le bureau de redaction 
du TEncyclopédie des Gens du Monde publiée par Mr. M. Treuttel 
et Wiirtz a été transfere dans mou appartemant rue des Beaux- 
Arts n.*' 10, ou my trouvera torus les jours, le dimanche excepté, 
de trois à cinq, et en outre le jeudi de dix heures à midi. 

Le bureau restera d'ailleur3 ouvert toute la journée jusqu'á 
cinq heures du soir. 

Permettez-moi de profiter de cette occasion pour vous rap- 
peler les articles dont vous avez bien voulu vous charger dans 
la lettre, et sourtout ceux qui vous resteraient à fournir la 
lettre E. 

Le G. va iucessamurent être mis en distribuition. Agreez, 
M. Tassurance de mes sentiments les plus distingueés. 

J. H. Schnitzler 
Directeur 
Paris, 8 novembre 1837. 

J'ai rhoneur de ofrir mes respects à Mr. le Vicomte de 
Santarém et de le le prevenir que Tarticle Emmanuel est pressé. 

Monsieur — Monsieur le Vicomte de Santarém. Rue S. La- 
zare, 21. — Paris. 



Do Visconde de Santarém para Mr. Wolkenaner 

Paris, 24 Décembre 1837. 

Monsieur le Baron 

Vous me comblez d'amitiés et cela m'encourage à vous faire 
la demande d'une Grâce. Dans votre curieux article sur Buckinck 
vous dites que les cartes de ce célebre graveur servirent encore 



VISCONDE DE SANTARÉM 37 

à accompagner une troisieme édition de Ptolémée faite avec soin 
par une société de savants et publié à Rome en 1507 et qu'on 
a ajouté aux cartes de cet habile artiste, dix autres cartes nou- 
velles. 

N'ayaut pas pu trouyer cette édition je vous prie d'avoir la 
bonté de me dire, si parmi les nouvelles cartes de cette édition 
qui devance celle de Benaventano, ou on remarque la carte de le 
la partie méridionale da Nouveau Continet? Si on y lit = Capais 
Saneie Concis et la note .qu'on voit dans les postérieures relati- 
vas à Colomb. 



De Mr. Walckenaner (1) para o Msconde de Santarém 
Ville Nueve S.* Georges ce 25 Dec.*"^^ 1837. 

Monsieur le Vicomte 

Toutes les cartes modernes, qui se trouvent dans le Ptolé- 
mée de Rome de 1507 sont des cartes de divers pays de FEuro- 
pe, et il n'est nuilement question dans ce livre du nouveau 
monde. 

Cest seuleraent dans le Ptolémée de 1508 qui n'est qu'une 
édition de celle de 1507, que je trouve et la carte de Ruyset:, et 
dans le texte le nova orbis descripiro de marco, moine celes- 
tín de Bénévent. 

Ce n'est pas seulement trois éditions, mais quatre éditions 
qui ont été faites à Rome, ou Ton a fait servir les cartes gravées 
por Arnold Buckinck en ajoutaut dans la seconde et la troisieme 
édition d'autres cartes gravées dans le même style. Je parle 
bien dans mon article «Buckinck» de ces quatre éditions, mais 
d'une maniere un peu confuse, et en y mettant quelques er- 



(1) Caries Athanasio, Barão Walckenaner, foi um illustre escriptor f rancez 
que deixou entre outras obras celebres a Histoire de Lafoníaine, de Horácio 
e das Memorias de Sevis[nè. Morreu em 1852. 



38 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



reurs, que je vais, d'après un éxamen plus attentif de ces édi- 
tions, recíifier — ici en donnant de chacune une notíce plus 
exacte, et plus détaillée. 

l.^"^^ édition 1478 

Elle ne renferme, que le Ptolémée, et est bien decrite danfe 

moa article — 

Editeur — Domitius Calderinus — Véronais. 

Imprimeur — Sneynhafur — Germain 

Graveur des cartes — Arnoldus Buckinck. 

Germain on Allemand. 

2.^'"^ Edition 1490 

Editeur De la Torre — Roman 
J'ea ai fait counaitre dans Tarticle Buckinck. 
Elle ne coutieut de même, que la precedente, que le Ptolé- 
mée et les cartes relatives à Ptolomee. Ce sont celles de Buc- 
kinck. 

3.^"'^ Edition 1507 

Libraire Bibliopolose — Evangelista Toffinus dont la dédicace 
est à Anastagoins Presbytero Cardinal! nomatemases; est datée 
edibus Augusti 1507. 

tons deux qualifiés de 

i mathematicis confellissu- 

\ nes, tous deux auteurs en 

Marco iijonacho celestins | commun d'un traité sur la 

Editeurs — Beueventano projection, volume ache- 

Joaune Costa (Veronensis) 1 vè d'imprimer, impute a 

[Evangelista Toffino Briz- 
' zian die VIU September 
1507. 

Imprimeur (Bernardinus) Venètus) de Vitalibus. 

L'aprobation donnée à ce Ptolémée par le Pape Jules II 
est du 28 Juin 1506 — et de Pontificat le S.^""^ 



VISCONDE DE SANTARÉM 



Pas la moindre mention dans ce Ptolémée de 1507, du gra- 
Veur des cartes, et ces cartes pour le Ptolémée tout les mêmes, 
que celles d'Arnoldus Buckinck, du Ptolémée de 1478 et 1490. 

J'ai dft dans mon article, Buckinck que ce Ptolémée de 1507 
contient dix cartes modernes, le titre n'en annonce que six et 
c'est sur la confiance de ce titre, que je me suis cru autorisé a 
annoncer dix. 

La verité est que le nombre de ces cartes, n'est ni de six, 
mais seulemet de quatre, et qu'il n'y a eu jamais plus, et que 
Texemplaire qui me porte à affirmer cela est complet. 

Cest ce que je vais démontrer. 

Sur le titre ^& ce Ptolémée de 1407, on trouve le détail de 
tout ce que ce livre contient Le Paragraphe do cet intitule est 
ainsi conçu. 

Son tabule moniter cofeclue vz. Hispânica: Gallies: Livonie: 
Germânia: Polonie: Hungriae: Russie: & Lituanie: Italie: et 
Index. 

Ne parait il pas à la manière dont cette Phrase est pouctuée; 
que chaque pays est Tobjet d'une carte; c*est ce que m'a fait 
dire qu'il y en avait dix — je me suis trompé. — Le texte dit 
six, et il se trompe également. En effet voici Tiutitulé de cha- 
cune des cartes. 

1.^ Tabula moderna —Livonie Noregie et Gothe. 
2.^ » » — Hispânia. 

3.^ » » — Polonie. Ungarie. Boémie. Germanie. Rus- 

sie. Lituanie. 
4.'' » » —Italie. 

Puisque tous les pays mentionnés sur le titre, et même plus 
sont representes par ces quatre cartes, il est évident, que les 
six cartes annoucées par le titre doivents être réduítes à quatre. 

4.^^"^ Edition 1508 

Celle-ci est la quatrieme édition des cartes, mais la derniere 
seulement de Fédition de Tofinus, de Marco, de Cota, même 



40 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

libraire, même éditeurs. — Que dis-je, c'est la même édition, 
que celle de 1507, qui n'était qu'épuisée, et à laquelle on a 
fait des additions (bien importantes à la verité) et dont on a 
reimprime le titre avec additions et Tavertissement d» libraire, 
qui est au verso de ce titre. 

L'édition de 1507 n'avait pas de date ni de nom de ville sur 
le titre : L'édition de 1508 porte sur le titre Rome M. D VIII, et 
Tavertissement de Toffinus — edibells Augusti M. D. VIII et 
de mot latins, qui ne sont pas dans Tautre, — mais Taproba- 
tion de cette même édition de 1508 est dateé du 28 Juillet 1506. 
A la fin du traité sur le Planísphère de Ptolémée et la souscri- 
ption de Timprimeur et qui est au recto du feuillet, qui contient 
cette aprobation, est de même, dans les deux. éditions, et avec 
la date de M. D. VII. 

Ainsí, toute cette partie du livre n'a pas été réimprimée, 
mais il y a des additions aprés cette partie, et la fameuse carte 
Ruych, et ces additions, comme vous savez, sont mentionnées 
sur le titre de cette maniere. 

A ova orbis descripteo de nova oceana navigato, Lisbona ad 
indica Pelagus Marco Beneveniano monacho celestius edita. 

Nova et Universalis orbis cognita tabula 100 Ruych Germano 
elaborata. 

Cette édition ne renferme que quatre cartes modernes, outre 
la mappemonde de Ruych, quoique le titre, comme dans Tédition 
de 1507 en aunonce patabula. 

Ces quatre cartes modernes sont les premieres de diverses 
contrées de TEurope, qui ayant éte gravêes, du moins je le 
crois, — sous ce rapport elles sont importantes, c'est pourquoí je 
crois devoir consigner icê une remarque, qui les concerne. 

Dans les deux éditions, elles sont pareille, ssont une diffé- 
rence notable dans celle qui represente Tltalie — 

Dans Fedition de 1507 les trois premieres cartes sont gravées 
comme les cartes antiques de Ptolémée, avec Tindication des 
climats et des paralelles, mais Titalic ne porte aucune graduation; 
une legende gravée sur le carte uous en donue la raison: cette 
legende est ainsi conçue non est oppositus numerus gradas guia 
stus italie nove differt a sita que en poduit S. Ptolomeus. 



VISCONDE DE SANTARÉM 41 



Dans rédition de 1508 la même cote de 1'Italie se retrouve 
sans avoir été regravée, mais on y ajouté la graduation pareille 
à celle de toiítes les autres cartes, on a effacé l'ancienne legende 
et on a du substituer celle-ci. 

Mensura graduam longUudinus hinco posita non es secun- 
dune cosmographiones pront Ptolomeus point secundum mensu- 
rom gradumus secundum modernum cartaram marinarum 

Ancun des Portulans, ou cartes marines de cette époque, que 
je possedèe, et quj'ai été a portée de voir n'est graduée à la 
Maniere de Ptolémée, et de nos cartes. Tous ces Portulans au 
contraire sont construits d'après les rum.bs de venís mais ces 
rumbs de vents en se croisant forment une triangulation qui per- 
met de réduire un degré d'un grand cercle les distances données 
par ces nombreux triangles, et por conséquent, en les traduire en 
quelque sorte on une graduation réguliere,' sur le cadre de la 
carte. — Cest cette opération de chiffres, que nos mathématicis 
consultegoimè, appellent une gradaatioion de longitude faite non 
pas pour les donnèes de la cosmographie de Ptolémée, mais pour 
les mesures fournies par les cartes marines 

Ainsí, c'est dans cette intervalle de 1507 a 1508 que Marco, 
et Cota inventa les premiers Tidee de dégager entierement la 
géographie du joug de Ptolémée, et il reconstruirá le systheme 
géographique d'après les données modernes, et cette gloire, ils 
doivent la partager avec Ruych, qui construoit la Mappe 
monde de Touvrage ou ils ont fait cette premiere tentative si 
importante pour la science. Ces observations, qui rectifient 
quelques erreurs, qui m'étaint échappées, ne m'ont pas parce 
indifferentes pour les travaux suivants, et si utiles, qui vous 
occupent. Cest pourquoi je n'ai pas craint de vous ennuyer en 
me livrant à ces minutieux détails. 

Veuillez, agréer Tassurance de ma haute considération et de 
mon parfait dévouement pour tout ce qui pourra vous être utile. 

Waolckenaner 



42 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

Do Visconde de Santarém para o Conde da Ponte (1) 

Meu Conde 

Graças a uma Sancta questão, em Semana Sancta, que o obri- 
gou a dar-me noticias suas ! Graças a esta questão que me arre- 
batou das cousas profanas, mesmo das infiéis p/'^ as cousas 
Sagradas, porque recebi a sua carta no momento em que estava 
lendo a famosa brochura do Marechal Clausel (2) sobre Argel da 
qual se venderão hontem m."'*' 38 exemplares! Não sei se as rozas 
milagrosas se venderião agora tão depressa, principalmente nesta 
sceptica habitação da incredulidade. 

Vamos á questão. O Conde respondeo m.'° bem, e como bom 
e sancto Portuguez não consentio que M."" de Montalambert (3) 
roubasse a grande rainha que pacificou o Reyno, que congraçou o 
Pay com o filho, que obrigou a ambos a deporem as armas fosse 
despojada das suas coroas para se attaviar com ellas a d'Hungria 
que não valia metade. As freiras de S.*^ Clara de Coimbra que 
ainda existem por milagre da Sancta, e que escaparão ao nau- 
frágio da abolição pedrista, hão-de de certo, em sabendo disto, 
mandar ao Conde um navio de pasteis, e manjar branco que 
tem sempre deliciosos; e a mim que vou também def fender a 



(1) 8.0 Conde da Ponte, João de Saldanha da Gama Mello Torres Guedes 
de Brito, governador civil em 1853. Veador da casa real e um dos que injusta- 
mente- o povo accusou quando da morte de D. Pedro V. Sua esposa a quem 
o visconde de Santarém se refere era D. Maria Thereza de Sousa Botelho Mou- 
rão, filha dos condes de Villa Real. Sobrinho do visconde de Santarém porque 
a esposa d'este titular era irmã do 7. o conde da Ponte. 

(2) Marechal Clausel, official que serviu em S. Domingos no tempo do 
do consulado e nas guerras do império se distinguiu. Deputado em 1837, mor- 
reu em 1S42. 

í3) Marcos Renato, marquez de Montalabert, sócio da Academia de França, 
que tinha grandes forjas em Ruelle. as quaes offereceu á marinha franceza e 
valiam até milhões de francos. AiTuinado continuou a sua vida de engenheiro 
e retirou a sua candidatura a membro do Instituto ao saber que o outro concor- 
rente era Bonaparte. Morreu em 1800. 



VISCONDE DE SANTARÉM 



sua Patrona, reservar-me-hão um logar de Donato p.^ q.'*" me 
retirar não das grandezas mundanas, que já não tenho, mas das 
pequenezas dos homens, e das ninharias deste miserável mundo 
que me assaltarão sopradas pelo demónio da destruição. 

A Sancta d'Hungria filha do Rei André ÍI que fez em compa- 
ração da nossa Sancta? Muitos milagres como se diz na vida 
que d'ella escreveu Thiérri de Thuringe e Canisius (1), mas com- 
pare-se isto com o que fez a nossa que foi não só Sancta, mas 
uma personagem politica m.'° mais importante do que a 
d'Hungria. 

A d'Hungria fazia penitencias em Bamberg, a nossa pacifi- 
cava povos, extinguia guerras civis, fundava conventos, hospi- 
taes, etc. e fazia o milagre das rosas cuja legenda não hé só da 
tradicção das velhas, mas está hoje consagrado na ordem de 
Sancta Izabel onde na face da medalha se vê a Sancta com 
avental com as rosas, e um pobre de joelhos e a legenda — Paii- 
perum Solatio. 

Portanto mande M/ de Montalambert á tábua. 

A Sacta d'Hungria foi canonisada por Gregório ^.^ e a nossa 
por um dos Papas mais illustrados que tem existido, por Leão X, 
Restaurador das lettras. 

Ora veja, o Conde, se tudo isto isto não são títulos para 
enfoncer o nosso adversário? 

Mas os maiores podem ver-se nas numerosas vidas da Sancta, 
em as nossas magríssimas chronicas de factos políticos, mas 
abundantíssimas de milagres, podem ver-se na formosa Collec- 
ção dos Bollandistas, e da Historia de Coimbra 

Eis aqui, meu Conde, o que eu lhe posso dizer de repente 
sobre este Sancto objecto, e lhe rogo pela Sancta que seja sem- 
pre meu amigo, assim como rogo á Sancta que o cure dessa 
damnadá e longa enfermidade, em quanto curou tantos outros 
que não tinhão nem o seu merecimento, nem as suas boas qua- 



(1) Pedro Canisius. Jesuita e provincial de sua ordem na Allemanha onde 
combateu com ardor os protestantes que lhe deram o nome de Caõ d' Áustria 
pelo seu nome de Xondt cão) que elle latinisara, morreu em 1597. 



44 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

lidades, eu pedirei também para mim que ella me livre de outras 
regenerações sociaes que me limpem de tudo, para me fazerem 
outra vez andar pelo gelo ou pela lama, quando antes d'ellas 
andava legitimamente agasalhado em boa carruagem! Ah! mas 
não me lembrava que não podia pedir isto á Sancta, por que 
ella mesmo, e as outras Raynhas até ao século xvi andavão em 
mulas, e assim seria uma temeridade pedir eu p.'^ andar melhor. 
AD.s meu Conde, e hé excusado lembrar-lhe q. esta sancta 
carta, não hé p.^ a sua sancta May. 

M. 



Meu querido Sobrinho do Coração 

Final.*^ depois de ter estado encantado na presença das ma- 
gnificas scenas das regiões tropicaes, tão poeticament.^^ descri- 
ptas p.r Mr. d'Humboldt, chegando á terra dos parladores rom- 
peu o silencio p.a me dar noticias suas! Ora seja para saúde esta 
sua lembrança q. no meio destes frios veio com este raio meri- 
dional partido do bello sol dessa terra avivar as saudades que 
tenho suas. 

Disgraçadam.*^ não pude logo responder-lhe. Huma endia- 
brada febre com longa convalescença me teve dois mezes sem 
poder fazer nada útil. 

Agora que felizm.^^ estou restabelecido não me demoro em 
responder á sua carta. 

Ahi vae pois uma Estatística não como a de Mr. Moreau, ou 
Jonnes, ou m.™« do meu CoU.''^ Lasagra, mas uma tal qual cabe 
nos lemites desta missiva, e espero q. ella satisfará a sua curiosid.« 

IS' Deseja saber q. se passa na capital do mundo savani. 
Depois da sua sahida tem-se aqui publicado no meio de um dilu- 
vio de producções, algumas obras da maior importância. Citarei 
apenas a de M.^ Magnin — Sur les origines da Theatre chez les 
anciens et les modernes, e o A. hoje membro do Instituto me 
offereceo, 2.^ a de M.'' Leclerc Decano da Universid.^ — Des Anna- 
les des Pontifes ei des Journaux chez les Romains, 3.° a estu- 
penda — Histoire des Sciences en Italie par Libri, etc, etc. Em 



VISCONDE DE SANTARÉM 45 

summa uma nuvem de producções de todos os géneros como é 
o costume neste pays. 

2.^^° que obras tenho composto. Tenho feito um grande nu- 
mero d'artigos biographicos para as obras seg.*^^ de que sou 
colaborador — p.^ a Encyclopédie des Gens dii Monde — de Wurt- 
ter — p.^ o Dictionnaire de la Conversation et des Connaissances 
utiles, p.^ a Encyclopédie du 19."^ síècle — p.a a Biographie Uni- 
verselle de Michaud, p.» outra ainda mais ampla, p." a Revue 
Lniverselle, p/' a Revue Française et Étrangère (t). 

Publiquei um vol. d'8.<' com o titulo, Remarques et Recher- 
ches Historique et Bibliographiques sur la découverte du Nouveau 
Continent, etc. (2). 

Publiquei De V IntroducUon des manufactures de la soie dans 
la Péninsule Ibérique sous la domination des Árabes, trabalho 
que tem merecido o applauso dos sábios e dos Jornaes como 
verá pelo Kvi.° que junto a esta (3). 

Publiquei uma memoria sobre os conhecimentos scientificos 
de D. João de Castro, a qual envio com esta (4). 

E tenho preparados p.-'^ a imprensa 3 volumes que tem o tt.» 
— Recherches sur la situation morale, politique et commerciale 
du Portugal depuis les temps les plus reculés jusqu'à de la fin 



(Ij Seria interessante respigar em todas estas publicações os artigos do 
auctor. O Dictionnaire de la Conversation et de la Lecture, de Duckett, não 
traz o nome de Santarém publicado na lista dos collaboradores que vem a 
pags. 1061-66 do vol. 16.o de 2.a ed. ; não nos foi, porém, possível verificar se 
essa publicação é a mesma que o auctor indica sob o titulo de Dictionnaire de 
la Conversation et des Connaissances utiles. Em compensação verificámoí'- 
que no fim do tomo 46.o, Paris, 1866 da Nouvelle Biographie Générale d© 
Didot vem notado Santarém na lista dos collaboradores. 

(2) Com este titulo não é citado por Innocencio, o qual, aliás, cita Recher- 
ches historiqnes et bibliographiques sur Améric Vespuce et ses voyages, Paris, 
sem data (Vol. v, pag. 487.) 

(3) Citado por Innocencio (Ibidem), que indica ter sido publicado em Pa- 
ris, 1838. 

(4) Não é citada por Innocencio. Sobre esta Memoria veja-se mais adiante 
a Carta de 8 de dezembro de 1845. 

As notas são do Snr. Almeida d'Eça, compilador das cartas para o 
conde da Ponte -^ que o 3.^ Visconde de Santarém já tinha mandado publicar 
antes d'este trabalho. 



46 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

du XIV siècle, ou^ examen critique des causes qui preparérent les 
Portugais a entreprendte dans le xv siècle leurs grandes expédi- 
tions maritimes. A iotroducção que li na Academia comprehende 
mais de 300 pag. (1). 

Tenho alem disto dado um sem numero de notas criticas a 
m.*°^ sábios, que mas tem pedido. 

Fiz mais de 150 notas, e observações para a traducção Por- 
tugueza e Franceza da Historia de Portugal escripta ultimame.*^ 
em allemão por Schoeffer (2). Ora aqui tem pouco mais ou me- 
nos o que tenho feito depois da sua partida. 

Agora direi alguma cousa das obras scientificas em que sou 
citado também depois da siia partida. 1.* Na grande obra de 
Humboldt (3) — Examen ciitique sur Vhistoire de la Geographie du 
A/ouveau Continent, õ vol. AUi apparece o meu nome mais de 
80 vezes. 2." Na iutroducção do Atlas de Geographie Numisma- 
tique de Mj Mionnet. 3.o No ultimo volume das memorias do 
Instituto (Academie R. des Inscriptions et Belles-Lettres). Extra- 
ctos duma dissertação minha sobre um hypogeo de Marcus Mi- 
nutius Sabinus, e sobre os objectos sepulcraes. 



(1) Procurámos com o maior cuidado, mas sem êxito, quaesquer indica- 
ções d'essa leitura nas Mémoires do r Instituí Royal de France, Academie des 
Inscriptions et Belles Lettres. O leitor verá mais adeante, na Carta de 29 de 
setembro de 1844. que o sub-titulo da obra aqui indicada é o titulo d'uma 
questão que o A. diz n'essa Carta fará parte de uma obra Xouvelle recherches 
sur les découvertes portugaises. Também d"esta obra não encontrámos o me- 
nor vestígio. Em todo o caso vê-se que o Visconde de Santarém tinha appli- 
cado a sua enorme erudição ao estudo d'uma questão que ainda hoje não está 
explorada — a acção marítima de Portugal antes do Infante D. Henrique. Que 
extraordinário serviço faria á nossa Historia quem desc')brisse esse precioso 
manuscrito! 

(2) Quanto á trad. fr. vimos a Histoire de Portugal, par H. Schoeffer, trad. 
de Fallemand por H. Soulange Bodin, avec une note sur la Cronique inédite 
de Guinée donnée par M. le Vicomie de Santarém, l.er. Paris, 1840. A nota vem 
no fim. pags. 5-3-574. 

(3) Barão Frederico Humboldt. — Celeberrimo naturalista e \iajante 
allemão. Esteve nos trópicos onde fez descobertas notabilissimas. Auctor do 
Cosmos. Creou a geographia climatérica, a physica dos mares. etc. Morreu 
em 1859. 



VISCONDE DE SANTARÉM 47 

4.0 Na Historia Natural e physica e geographica da Ilha de 
Cuba, p/ Lasagra do Instituto (Academia das Scieucias Moraes.) 

5.0 Na Géographie des lies Océaniques. 

6.« Na obra de M.^ Paris, Des Mss. f rançais de la Bibliothèque 
du Roi. 

7.° Em a nova edição grega de Marciano d'Heraclea e Scylax, 
por Miller. 

8.° Na obra coroada pelo Instituto, Les Juifs au Moyen Age, 
par Depping. 

9.0 No compte-rendu de la Societé Phylotenique de 1838. 

10-^ No da m.'"^ Sociedade em 1839, Jan.^ 

11.° No vol. do anno passado da Societé Royale d'Emulation 
d'Abbeville. 

12.0 Em a nova Historia do Brazil, que faz parte de PUnivers 
Pictoresque. 

13." No Manuel de Vamateur dautographes. 

E vários outros Jornaes em que se tem publicado artigos a 
meu favor. 1.° Moniteur, 2.° Journal des Débats, diversos arti- 
gos no Feuilleton Scientifico, o° no Journal de Vlnstruction 
Publique, 4.° no Temps, 5.o no Echo du Monde Savant, 6° no 
Égide, 7.° no Journal des Savants, 8° na Revue de Deux Mondes, 
na Reuue Française, etc. finalmente na Gazeta Litteraria de Ley- 
psic. E no Journal de V Institui Historique. 

As obras que ftie tem sido offerecidas pelos A. tem sido m.*^^ 
e augmentão cada dia a minha collecção. Se tiver curiosid.e de 
saber quaes são mandar-lhe-hei a lista. 

Quanto ás Academias que me tem aberto as portas? respon- 
derei. Que depois da sua sabida e com a m.^ admissão no Insti- 
tuto, pouco tenho cuidado nisto, mas fui recebido na Academia 
d'Evreux, e na Académie Royale des Sciences, Arts et Belles 
Lettres de Caen, academia instituída nos fins do reinado de 
Luiz 14. e igualmente recebi os Diplomas das Sociétés R. d'Emu- 
lation d'AbbevilIe, e do Jura; e espero o de St)cio d' Academia 
das Sciencias de Lyão. 

Passando agora da p.*^ scientifica a dar-lhe conta deste deli- 
cioso pays, como o Conde lhe chama com razão, direi que cada 
dia se embeleza de tal maneira que basta deixar de frequentar 



48 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

um bairro durante 15 dias p.^ encontrar depois mil cousas 
novas. 

A propósito d'esta terra acabo de lêr na excellente Historia 
d'Iunocencio líl, e de seus Contemporâneos pelo Allemão Hiiter; 
obra que faz muita bulha parmi la monde savant, como Paris era 
considerado pelos escriptores Estrangeiros do xii» século. 

«Le jeuue homme (Innocence III) se rendit de Boulogne á 
Paris. Cette Capital était depuis long-temps célebre par les 
maitres qu'y professaient. Plus tard, toutes les Sciences y f urent 
introduites et cultivées avec soin, ce qui attira dans son sein les 
hommes de tous les pays, Mais sourtout il était généralement 
avoué que nulle part ailleurs qu'à Paris, la jeunesse n'était ins- 
truite d'une manière aussi complete, aussi scientifique... Depuis 
la milieu du xii^ siècle ii y avait lá une affluence de jeunes 
gens de tous les pays, á peine s'il était possible de se procurer 
un logement. 

«Tout ce qu'uu pays a pu jamais produire de précieux, 
«s'écrient les écrivains de ce siècle, tout ce qu'un peuple a produit 
«de distingue, tout ce qu'une époque a produit de noble et de 
«spirituel, tous les trésors des sciences et toutes les richesses de 
«la terre, tout ce qui procure les jouissances diuerses á Vesprit et 
«au corps, doctrines de la sagesse, oruements des arts libéraux, 
«élévation de sentiments, douceur de mceurs, tout cela se trouve 
«a Pans. A Athénes et à Paris les savants occupaient le premier 
«rang, tel est le seul titre qui permette à la première de ces 
deux villes de se comparer à la seconde,» 

«... Les charmes du séjour de cette ville, Taboudance de 
toutes les choses nécessaires à la vie, le caractere enjoué des 
habitants, attiraient et enchaínaieni les étrangers, jusqu'á leur 
faire oublier leur patrie. Tous ces avantages acqueraient encore 
un plus grand prix par une sécurité complete, par une protection 
amicale . . .» 

Julgo escusado dizer-lhe que tudo que transcrevo he apoyado 
com um sem numero de authoridades contemporâneas. Ora se 
este pays no 12"^° século era já tal qual fica pintado n'este qua- 
dro, como não serão ainda mais apreciáveis os seus attractivos 
no século 19 para um Estrangeiro victima das guerras civis da 



VISCONDE DE SANTARÉM 49 

Pátria? para um Estrangeiro que nada mais deseja do que 
socego ? 

Seu pay lhe terá ahi contado monts et merveilles de nOva 
tragédienne — M.^'^^ Rachel (1). He un portento. Eu ainda conheci 
Talma (2), e M.e'ie du Chenois, e confesso que esta creatura he 
superior áquelles dois famosos heroes da scena trágica. Portanto 
aqui tem uma grande trágica nova em folha. Aqui vi em pele e 
carne as famosas balhadeiras dos pagodes de Indostão. Cousa 
detestável a ver pelos olhos que vêem Fany Essler e ás suas 
companheiras, principalm.'® a nova debutante M.^"^ Dumilatre. 
Mas como aqui ha gente p.^a tudo, o cornaca que conduziu estes 
elephantes ganhou mais de lõOs. fr. A dança d'estas nymphas 
indoustanicas cantadas pelos poetas dos oriente, he ainda mais 
monótona do que a dos pretos do Império do Brazil. 

Também seu pay lhe terá contado do gigante do Circulo de 
Franconi — homem de 7 pés e 10 polgadas d'altura. 

Emfim não acabaria de contar-lhe o que tem havido de 
curioso depois da sua ausência. Resta-me pedir-lhe queira dar 
recados meus a sua May e Manos, e á hndeza e a seu pay diga- 
Ihe que não sei que mal lhe fiz — que ainda espero que me 
escreva dlnglaterra como me prometteo ; que tendo chegado a 
essa Capital onde as égoas concebião do vento, segundo uma pa- 
tranha acreditada por Plinio, acreditada p."" m.'°^ dos nossos 
Escriptores mesmo do século xm; e tendo escripto a D. Duarte, 
e á Marqueza nem sequer me mandou uma figa de azebiche das 
que se vendem nas exposições da nossa terra ! 

Peço ainda mais, de rogar-lhe queira remetter a sua tia a 
inclusa. 

Acredite que sou com a maior amizade — Tio e Am.° 

M. F. Santarém 



(1) Rachel. — Grande actriz franceza que começou com seu pae, saltim- 
banco, a arte em que foi eximia. Fez reviver a tragedia em França. Ciiamava-se 
Elisa Félix. Morreu em 1858. 

{1) Franscisco José Talma o grande actor que ensinou Napoleão a pôr o 
manto imperial com arte. Representou em Erf urt diante da celebre plalea de 
reis. Era um génio de scena. .Morreu em 1826. 

VoL. VI 4 



50 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

Paris, 28 de Fev/^ de 1839. 

Continuo esta para lhe dizer que recebi honteni uma carta 
de Varnhagen de 24 paginas. Ella he concebida em termos os 
mais respeitosos, mas as suas convicções a favor d' Américo são 
taes que morre por elle. Talvez se vivesse no tempo de Helio- 
gabalo e que o Divo Américo fosse também vivo, o nosso Var- 
nhargen casaria com elle como fez aquelle archidoido Imperador 
dos Romanos que casou com o seu favorito. Diz-me que não 
recebera a m.^ prim.'^'» carta, pergunta-me por que via a dirigi. 
Ora lá me parece isto um pouco extraordinário, visto que a m.* 
carta foi enviada a Macedo com vários livros p.»" Daupias, e 
parece pouco provável que Macedo a guardasse! Mas não me 
admiro já de cousa alguma ! 



Da Encyclopédie des Gens dii Monde para o Visconde de San- 
tarém. 

Paris le 24 Juillet de 1839. 

Monsieur le Vicomte 

n n'est encore que mercredi et dejà nous ne pouvons plus 
faire un pas faute d'avoir votre article Gil Vicente. Excusez-moi, 
je vous prie de vous tormenter malgré nos conversations de 
Dimanche dernier, mais j'avoue qu'il serait pénible pour nous 
d'avoir a suspendre notre marche pour un article qui aprés 
tout est d'une importance mondaine. Permettez moi, Monsieur 
le Vicomte, de compter sur votre obligeance ordinaire et d'es- 
pérer que vous nous donnez cet article encore cette semaine si 
la chose est possible. Je m'en rapporte entiérement à vous, mais 
peut-être en abrégeant pourriez-vous rendre ce service. 

Agreez, Monsieur le Vicomte, mes salutations respectueuses 
anisi que Fassurance du devouement avec lequel j'ai Fhonneur 
d'être ^ 

Votre três humble et três obeissant serviteur 

J. N. Schartzlar 



VISCONDE DE SANTARÉM 51 



Da Encyclopédie des Gens du Monde para o Visconde de 
Santarém. 

Paris, 13 aout 1889. 

Monsieiír le Vicomte 

Comme il n'est impossible d'attendre à la semaine prochaine 
Tarticle Gôa, j'ai Thonneur de vous prier de trouver bon que je 
dispose de cet article il se trouve tout dans le Cour lex allemand, 
et en se remettant aujourd'hui au traducteur je Taurais après 
demain. Mon prochain départ pour Strasbourg ne me permet pas 
de laisser les placards. 

Veuillez m'excuser, Monsieur le Vicomte, et avoir Passu- 
vance du respet avec lequel j'ai Thonneur d'être 

Votre três humble et três obeissaut serviteur 

N. Schmitzler 



Do Visconde de Santarém para o Conde da Ponte 

Meu querido Sobrinho e Amigo 

Ahi vae esta missiva para o impacientar com a leitura das 
minhas garatujas, as quaes -apesar de tortas e muitas vezes alei- 
jadas ainda por (?) que valem alguma coisa haja visto aos arti- 
gos ultimamente publicados no Journal des Débats, potentado 
entre os jornaes, e a grande Historia de Scheffer publicada em 
Allemanha onde aparece o nome deste seu Creado varias vezes. 
Ora estes engaços de pacas teem hoje dois objectos principaes : 
1.° agradecer-lhe o raríssimo favor que me fez em me dar o pra- 
zer de lêr a sua carta de 21 do passado, 2.° a fallar-lhe um pouco 
em cousas litterarias não só por que assim mo pedio em outra 
carta, mas também por que se interessa por estas matérias feno- 



52 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

meno grande e admirável entre as gentes portuguezas da nossa 
epocha. 

Vi com muita satisfação que lhe agradou a leitura da minha 
Memoria sobre a historia da Seda entre os Antigos, comtudo 
devo dizer-lhe que ainda o interessaria mais a leitura de duas 
Memorias que ultimamente escrevi em resposta ás perguntas que 
me fizerão. Huma sobre a epocha da introducção ou transplan- 
tação da Palmeira na Península Hispânica afim de se poderem 
explicar as pinturas de um Mytho representado em um vaso 
grego descoberto nas ruinas da antiga Cidade Etrusca de Tar- 
quinio (Corneto). 

Escrevi pois, pela primeira vez, uma Memoria em que estava 
em primeiro logar a Geographia Botânica que coloquei em har- 
monia com a archeologia e com os textos gregos e latinos e com 
as Medalhas Ibéricas, e provei que a Phenix Dactifera de Theo- 
phrasto, a Phenix de Plinio, etc, ou palmeira Africana tinha exis- 
tido na Península desde o tempo dos Cartaginezes, que esta es- 
pécie não pertencendo á Europa tinha sido evidentemente 
transplantada depois do estabelecimento dos Cartaginezes, a não 
adoptar a hypothese d'alguns geologistas da união das duas Pe- 
nínsulas nos tempos primitivos, etc. Assim se explicou perfeita- 
mente a representação do Mitho grego do l.« trabalho d'Hercu- 
les contra Gyrião que se passa entre Palmeiras desta espécie, 
mytho que Heródoto, Strabo, Mella, etc, transportarão para a 
Península Hispânica. 

Esta minha Memoria imprime o celebre Archeologo Mr. de 
Witte, e vai apparecer em poucos dias; se me não engano e se 
não se enganão os entendedores d'esta matéria a quem Mr. de 
Witte commuuicou a minha Memoria, ella tem em si uma novi- 
dade importante e consiste em applicar a goographia Botânica á 
Archeologia e á exphcação da Mythologia. Emfim isto he muito 
difficultoso de explicar em uma carta. 

O outro trabalho he para a Academia dos Sciencias Moraes 
e Politicas, e consiste era uma Memoria sobre o estado das pes- 
soas e das propriedades no Império Mexicano antes e depois da 
conquista de Cortez. O culpado de eu o ter emprehendido he o 
celebre Dr. Edwardes, Membro do Instituto, e que me pedio este 



VISCOxXDE DE SANTARÉM 53 



trabalho como explicação ao que elle intentou sobre a condição 
dos povos conquistados, e que he de esperar será tão interes- 
sante com os trabalhos ethnologicos que elle tem feito. 

Responderei agora á sua pergunta sobre a obra de Humboldt 
sobre a America. Esta obra compoem-se já de 5 volumes em 8.» 
de que elle me fez presente acompanhando-o de uma carta que 
para mim hé um dos titulos mais agradáveis pelo que este homem 
por certo o mais encyclopedico dos nossos dias nella me diz. Elle 
cita-me na sua obra mais de 40 vezes. Entretanto he para sentir 
que este trabalho colocai não seja methodico. Mr. Letronne, que 
he um dos seus maiores amigos, perguntando-me a minha opi- 
nião não esperou a resposta e dice ríest ce pas que Vouvrage de 
notre ami est iin puits d'érudition et de confusion ? Walcknaer, 
hoje o homem mais sábio nestas matérias, e amigo de Humboldt 
escreveu-me ultimamente dizendo-me : 

«J'ai été charmée de voir dans votre dernière partie sur Ves- 
puce autant d'ér,udition que de logique. Je me propose de vous 
relire lorsque Mr. de Humboldt terminera ses éternels épisodes, 
afin de pouvoir en parler de tous les deux dans le Journal des 
Savants et dans les Annales des Voyages.» 

Alem dos trabalhos em que lhe f aliei na minha carta que lhe 
dirigi pelo C. de S. Miguel (1) e dos que trato n'esta tenho feito um 
sem numero d'artigos sobre diversos objectos que se publicarão 
successivamente. 

A minha Bibliotheca enriquece-se e augmenta-se todos os dias 
de livros excellentes sem me custarem um real. As offertas são 
continuas e até ultimamente Mr. Ternaux me dedicou uma das 
famosas obras inéditas da Historia da America que tem continuado 
a publicar e cuja collecção preciosa sobe já a 20 volumes. Ahi 
não se tem idea de pubhcações taes. Já que fallei de mim em 
primeiro logar devo passar a exphcar o motivo d'esta tirada que 



(1) Conde de S. Miguel, Álvaro José Xavier Botelho de Portugal Coronel 
Souza e Menezes de Noronha Correia de Lacerda. — Serviu na Legião Portu- 
gueza em França. 



54 CORRESPONDtNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

se podia chamar presumpçoza e pedantesca por certos espíritos 
poucos imparciaes, que me lessem, mas dice-lhe tudo isto por que 
nem se encontra em Gazetas nem he de extranhar que taes co- 
municações se facão a um Sobrinho Amigo que a 400 léguas de 
distancia deseja saber o que faz o Tio cá em Paris n'este mesmo 
ramo. 

Quanto ao estado e progresso das sciencias, tanto aqui como 
em Allemanha e Inglaterra bem desejaria poder mandar-lhe um 
quadro que lhe desse uma idéa approximada, mas esta impreza 
he superior ás forças humanas. 

Como lê ahi os jornaes Fraucezes, verá nos Feuilletous as 
noticias ou Comptes rendas d'Academia das Sciencias. As publi- 
cações scientificas são sempre immensas. A leitura do Journal 
de la Librairie nos dá por semana conta de uma infenidade de 
obras que se pubiicão em França. Entretanto as boas producções 
não são muitas. Os livros d'Erudição são raros. N'este ramo os 
veziuhos d'além do Rheno são mais productivos. Os Estudos Crí- 
ticos e Philosophicos sobre a Historia e litteratura dos dois Rei- 
nos Peninsulares tem occupado ultimamente as pennas d'escri- 
ptores hábeis em Allemanha a França. Aqui tem-se publicado 
uma Historia d'Espanha porRoussett de Santo Hilaire em 3 tomos 
que apesar de muitos defeitos he melhor do que todas as Espa- 
nholas onde se tratou até agora de cutiladas e milagres. Estes 
3 tomos vão só até ao fim do Califado de Córdova. C. Romey 
publica outra ainda mais ampla da qual ha já 2 vol. Emfim, 
Mr. Paquis nos deu em dois enormes volumes à deux colonnes 
as traducções dos excellentes trabalhos que n'este género fize- 
rão em Alemanha e em Inglaterra Achsbach-Lembké, Duníiam, 
Bossi, etc. O meu collega Fauriel autor da excelleute Historia da 
Gália Meridional fez este anno um curso d'Historla da Litterathra 
Espanhola Dramática no Collegio de França, e no Instituto His- 
tórico se tem feito outro curso de Litteratura Portugueza. Ferdi- 
nand Deuiz vae pubhcar uma 2. a edição do seu Resume de rHis- 
ioire Littefàire da Portugal pura a qual tenho concorrido. O mesmo 
publicou uma chronica inédita de Gomes Eannes d'Azurara para 
a qual dei notas. Hum litterato alemão publicou ultimamente 
uma analyse doTheatro de Lopo da Vega. e eu dei para aEncy- 



VISCONDE DE SANTARÉM 55 

clopedia de Wurths um largo artigo sobre Gil Vicente e as suas 
comedias as mais antigas de toda a Europa e que se anteciparão 
ás de Sir David Landsay representadas em Escócia na Corte, no 
século XVI, e ás de Lord Berner. 

Por este pequeno e resumido relatório verá que emquanto na 
Península se dilacerão os partidos, se consomem os recursos 
públicos, e particulares e os faxos da anarquia incendeião tudo, 
aqui e em Allemanha se trata da sua Historia, e da sua littera-. 
tura ! ! Os mesmos Espanhoes que aqui estão entre elles alguns 
se occupão exclusivamente das lettras. Utchoa trabalha com zelo 
nos Manuscriptos Espanhoes da Bibliotheca, e publicou em o 
Livr.° Baudry uma coUecção escolhida do antigo Theatro Espa- 
nhol. 

A propósito de obras interessantes ultimamente publicac^ 
esquecia-me citar-lhe a de Ramke professor de Berlin — Histoirt, 
des Osmanlis et de la Monarchie Espagnole pendant le xvi et xvii 
Siècles — obra preciosa feita e escripta phílosophicalm.*^ sobre 
peças authenticas inéditas, contemporâneas e officiaes, taes como 
os Despachos dos celebres e instruidos Embaixadores de Veneza 
e dos astutos Núncios dos Papas. Além d'esta M."" Wolcknaer 
acaba de publicar uma das mais sabias e eruditas obras geogra- 
phicas que tem apparecido sobre as antigas Gallias — Géogra- 
phie ancienne historique et comparée des Gaulês Cisalpine et 
Transalpine, suivie d'une analyse des Itinéraires, etc. 3.*^ vol. 
grossos e Atlas. 

Disgraçadamente outras obras importantes não se tem podido 
publicar em consequência da terrível crise commercial que temos 
tido desde o começo deste anno. As bancasrrôtas passão de 700^ 
com um passivo de perto de 200 milhões. O famoso Pantéon 
Littéraire suspendeo-se a publicação em consequência da quebra 
de Livr.°; a Encyclopédie Catholique, a Encyclopédie du xix sièele 
estão também paradas. Muitas revistas arrebentarão, e os jornaes 
a 40 fr. tem experimentado os mesmos desastres. Mas a massa 
de capitães he tal aqui, e o espirito d'especulação tão activo que 
bem depressa tudo se equilibra e quasi se não sentem os effeitos ! 

Muito estimei saber o que me diz do meu antigo amigo o 
Conde de Lavradio. Sempre o estimei immenso. Peço-lhe que lhe 



56 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

agradeça da minha parte, muito e muito, o ter-se lembrado de 
mim e que acceito e até reclamo o seu auxilio sobre cousas e 
noções que necessito do Archivo da Torre do Tombo. Conto 
escrever-lhe sobre este objecto. Entretanto muito me obrigará 
se quizer ter a bondade de me mandar uma nota de todos os 
documentos que puder encontrar relativos a Vasco da Gama. 
Remetto incluso um pequeno artigo biographico que dei d'este 
grande homem p.'"^ Encyclopédie des Gens du Monde. 

Não seja priguiçoso em me escrever. Responda-me a esta, e 
observe que eu que tenho mil vezes mais que fazer posso com- 
tudo escrever-lhe esta immensa carta. 

Seu do C. Tio e Am.'' 
^" Paris, 2 de Setembro de 1839. 



ííe 



Rue Blanche, 40 



M. F. Santarém 



Do Visconde de Santarém para o Conde da Ponte 

Meu q.'^^ Sobr.« e am.° do C. 

Tive o gosto de receber o seu pequeno bilhete de 8 do cor- 
rente, com o modelo da procuração de- que ahi se necessita. 
Achará pois inclusa a d.^ procuração, e m.« lhe agradeço a obra 
de charidade de ter intervindo neste negocio, visto que não he 
pequeno serviço o haver ainda alguém que tome algum interes- 
p."^ mim. 

Recebi duas cartas de seu Pay. Uma pelo S. Miguel, e outra 
pelo Vianna em data de 14. Por esta vejo que o Conde já deve- 
ria ter recebido uma longa resposta á sua antiga carta. N'esta 
lhe fazia um pequeno relatório do estado dos estudos históricos 
e d'algumas publicações importantes que n'este ramo se tem 
aqui feito depois do principio do anno principalm.*^ no que res- 
peita á Península. Accrescentarei ao que alli lhe dizia, que de- 
pois appareceo o 4.° vol. da Historia de Espanha de Russett 



VISCONDE DE SANTAREjM 57 

Saint-Hilaire que comprehende desde o Desmembramento do 
Kalifado de Córdova em 102 (xi século) athé á invasão dos Al- 
mohades em 1162, e termina por um cathalogo e analyse dos 
famosos Fueros. — Outra Historia de Espanha que se está publi- 
cando aqui e de que me parece que também tratava na m..^ 
ultima carta a de Romey, também se publicou um 2.» volume á 
colonnes compactes. Mas estes escriptos decorados com o nome 
de Historia são m.*° importantes, mas antes se lhes podem cha- 
mar dissertações históricas e criticas, do que historia. São intei- 
ramente conforme a Escola Allemã. Taes trabalhos são da maior 
importância porque os factos são appreciados de outro modo e 
com as luzes actuaes acompanhadas de mil noções, e documen- 
tos novos, etc. 

Quando tiver tempo lhe darei uma ideia mais larga do que 
se tem feito neste género. 

Em Inglaterra este género de estudos tem também feito im- 
portantes progressos. 

Agora acabo de ler uma Historia de Duarte VI que acaba de 
publicar-se que he interessante. Por outra parte a bella collec- 
ção publicada pela Commissão dos Archivos tem dado nova luz 
á parte documental. Emfim li com o maior prazer o trabalho de 
Th. Writh de Trinity College sobre a litteratura dos Anglo-Sa- 
xonios que he m.^° interessante. 

O mais fica para outra carta, e como não posso fazer grande 
volume por esta vez, peço-lhe diga a seu Pay que responderei 
á sua carta pelo primeiro correio. 

AD.^ meu Conde, acredite que sou deveras seu 

Sobr. (sic) Am.o q.° m.^° o estima. 

Paris, 29 de septembro de 1839. 

M. F. Santarém 



58 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

Do Visconde de Santarém para o Conde da Ponte 

Paris, 11 d'8b'^° (1839). 

Meu Conde 

Esqueci-me hontem de lhe pedir o meu Mss. sobre o Systema 
administrativo colonial de Inglaterra com a parte da copia que 
tiver já feita. Necessito isto com brevidade para o fazer copiar 
todo, e remette-lo principalmente para a Academia R. de Bor- 
deux que destinou um premio a quem lhe offerecesse uma me- 
moria sobre uma só colonia. 

Bem desejava vel-o já deixado da mathem atiça e entregue 
com alma, e vida ao campo vastíssimo que me tem dado tanta 
força d'alma para despresar, e soffrer os tolos máos, e p.<i sup- 
portar muitas adversidades. 

Lembre-se do que diz o Mestre Horácio e repare para o nosso 
bom mathematico J.^ M.^ Dantas ! Quererá o Conde compor agora 
uma gramática universal, e pasygraphica, assim como elle com- 
pôs o Diccionario? Quererá conversar nas sciencias de calculo 
com o Samoida, com o Tártaro, com o Achantes, e com o Árabe 
do deserto ? 

Para se ser Newton, Kepler, Laplace, e Herchel, he necessá- 
rio dedicar a vida inteira, e exclusivamente á profundidade da 
Sciencia. A posição social do Conde, a sua carreira futura sendo 
por uma parte quasi mathematicas pela sua aptidão, e estudo, 
são por outra anti-mathematicas. 

Desculpe esta rabuge nascida da amizade que lhe tenho, e 
de um certo precentimento de qúe o Conde ainda hade servir 
de grande utilid.^ e gloria ao seu Pays, apezar da ingratidão 
dos homens d'elle. Tem 6 Avós que não sendo mathematicos, 
assombrarão a índia, descobrirão terras, e mostrarão ao velho 
mundo um valor como o dos dias da antiga Grécia e de Roma. 

Tem outro que fiel ás instituições da sua Pátria, e á indepen- 
dência delia concorreu para reappareceiem aquellas no maior 
vigor de suas garantias, e para fazer desapparecer em um só 
^ dia a usurpação estrangeira de 60 annos. 



VISCONDE DE SANTARÉM 59 



Tem outro que apezar de estar á testa dos destinos de uma 
Nação pequena na extremidade occidental da Europa regenerou 
a Nação, fêla respeitar, e instruir, e cujo nome como o de Col- 
bert são ainda hoje apreciados por todos os partidos, tendo na 
historia um monumento de gloria que os eternisará nos séculos. 
Homem para me servir da expressão de S.*^ Clara — que pare- 
cia que tinha vivido séculos antes de nascer, e que a Natureza 
tinha guardado nos seus thesoiros para vir remediar as desgra- 
ças do seu século, homem que o melhor o epitáfio do tumulo onde 
existem os seus restos, he o seu nome. 

Venha pois para os campos vastíssimos da Sciencia philoso- 
phico-sociaes, p.^ os da Litteratura, para os da Archeologia, e 
p.a todos os subsidiários que interessão essencialmente o homem 
e o estado social. Esteja certo que se tem bosques quasi impe- 
netráveis, despenhadeiros, e fortes tormentas, também tem boni- 
nas e florestas. 

Eu direi destes estudos o que a famoza commissâo do Insti- 
tuto dice no seu rapport em 1808 sobre a Philosophia que «c'étaii 
à la Philosophie qu' appartient d'expliqiier Vérudition, comme 
Vémdition explique les monumens ; mais ainsi traduites les ma- 
tières d'érudition deviennent à leur tour autant de pensées fécon- 
des. Une érudition solide^ et bien choisie nourrit les méditations 
de la pensée.» 

Mas o mathematico tem o perigo de querer encontrar o estado 
social sujeito a regras fixas, calculadas, tefn o perigo de exigir 
do homem o que a natureza lhe negou, a exactidão, tem um 
perigo maior para as sciencias sociaes e para aquelles que vivem 
neste mundo, do que o com que Frederico ÍI ameaçava uma 
cidade do seu Reino. 

Como o dia está menos ventoso, hirei por esse mundo bus- 
car sol, e distração. Estimarei muito encontralo. 

Sou Tio e Am."^ 
M. F. Santarém 

P. S. — Não me tenha na mesma conta dos inspectores que 
Duarte VI dTnglaterra mandou para reformar a Universidade 



60 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

d'Oxford que mandarão queimar na praça publica os Tratados 
de mathematica, e d' Astronomia como livros de Magia, e que 
fizerão main basse sobre tudo que era superior á sua intelli- 
gencia ! 

Não, eu não sou desses tempos! Felizmente vim mais tarde 
para vêr de uma parte, e ao mesmo tempo 300 Academias e 
Congreços Scientificos, e da outra attacar um Archeologo por 
que offende a religião revelada explicando aliaz simplesmente 
no sentido scientifico á theogonia dos antigos Persas, e dos Chal- 
deos da Syria ! ! ! 

Do Visconde de Santarém para o Conde da Ponte 

Meu q.'^^ Sobr.° e am." do C. 

Mil e mil agradecimentos pela sua cartinha de 24 do passa- 
do, e remessa do Journal. 

Assento que não lhe posso dar melhor idea do que penço 
acerca da estúpida duplicidade do novo vespucianista (1) do que 
remetter-lhe a copia junta da m.a resposta á carta que t lie me 
escreveo. E como alli transcrevi uma parte, accrescentarei aqui 
o começo afim de que possa julgar melhor do sujeito. 

«Tenho a honra (diz elle) de enviar a V. E. dois exemplares 
«da obra que acabo de publicar, um dos quaes tomo a liberd.^ 



(1) E' esta a primeira indicação á famosa questão litteraria, a respeito de 
Vespucio, entre Santarém e Varnhagen. Nas Cartas seguintes é esta questão 
largamente tratada. — Francisco Adolpho Varnhagen (que mais tarde foi feito 
Visconde de Porto Seguro por D. Pedro II, do Brazil) era filho do engenheiro 
allemão Frederico Luiz Guilherme Varnhagen, contratado pelo governo portu- 
guez para superintender no serviço de minas no Brazil. Francisco Varnhagen 
foi um investigador muito applicado dos assumptos históricos, principalmente 
em relação ao Brazil, onde nascera, e de que veio a ser representante diplo- 
mático na Europa. O azedume de Santarém contra elle, até certo ponto des- 
culpável, veiu por fim modificar-se, como ao diante se verá* Xo Diccionario 
Popular Histórico de Pinheiro Chagas, vol. xm, pag. 249, pode lêr-se um artigo 
assaz desenvolvido e muito laudatario a respeito de Varnhagen. 



VISCONDE DE SANTARÉM 61 



«de declarar que desejaria fosse entregue a essa sociedade geo- 
«graphica, de q.^ V. E. é illustre membro, e em que tanto inte- 
«resse tem mostrado pela imprensa da mesma.» 

O Conde faça da á.^ copia o uso que lhe parecer mais acer- 
tado, e pode communicala m.™° aos amigos. 

Desejo entretanto que me diga o que penca, e o que ahi se 
penca a esse respeito. 

Envio-lhe também pelo Daupias, as folhas que estão já im- 
pressas das memorias sobre Vespucio, e mandarei a obra com- 
pleta logo que tiver os exemplares. — Adeus até ao Correio 

de 2.^ f.^ 

AL F. S. 

Do Visconde de Santarém para Varnhagen (1) 
COPIA 
Paris, 8 de Dezembro de 1839. 

111.™° Sr. — Aproveito a occasião da partida para essa Corte 
de um portador seguro para accusar a recepção da carta que 
V. s.''^ teve a bondade de me escrever em data de 23 do passado, 
e para agradecer o presente que me fez pela mesma occasião do 
interessante Diário da navegação da armada que foi ao Brazil 
em 1530 sob a capiiania-mór de Marfim Affonso de Souza (2). 

O amor que consagro ás coisas da nossa pátria ás quaes te- 
nho consagrado também perto de 40 annos de estudos, e sacri- 



Q) Francisco Adolpho de Varnhagen, brazileiro educado em Portugal, 
escreveu muitas obras importantes e sobretudo acerca de viagens, navegação, 
descoberta do Brazil : fez romances, tratou de Américo Vespucio de Christovão 
Colombo, alem de ser também um bibliophilo. Teve uma grande polemica com 
Major acerca do 1í\to d'este sobre o Infante D. Henrique. 

(2) Martim Affonso de Souza. Illustre guerreiro e navegador, senhor do 
Prado 6 Alcoentre, conselheiro de D. João IV e commandante da esquadra 
que foi ao Rio da Prata em 1532. Fundou a colónia de S. Vicente e foi ali 
capitão general. 



62 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIMCA E LITTERARIA 

ficado bastantes meios pecuniários me fazião esperar com viva 
anciedade a publicação deste interessante escripto desde que o 
vi annunciado. Foi pois com o maior prazer que li a sua carta 
que acompanhava a remessa de uma publicação por mim tão 
desejada. A urbanidade e singeleza das expressões em que ella 
abunda, me fizerão pensar que, se por acaso em alguma nota ou 
observação tratasse por incidente da questão relativa ás perten- 
didas descobertas de Vespucio, e que o meu nome fosse citado, 
elle o seria, senão de uma maneira conforme com o juizo que 
uma das primeiras sociedades scientificas da Europa, qual a So- 
ciedade Geographica de Paris que hé a mais competente autho- 
ridade para julgar nestas matérias, e em taes questões, seria ci- 
tado, digo, como o tem feito um grande numero de sábios que 
nas suas obras se tem pronunciado em favor do meu trabalho, 
seria pelo menos conforme aquellas expressões da sua carta, e 
sobretudo as que a terminão que dizem assim : 

«Se V. E. quizer a tal respeito excitar alguma discussão muito 
«me honrará e aproveitará occasião de se instruir quem é de 
«V. E. attento Admirador l 

Estas expressões pois me fizerão pensar combinando-as com 
as precedentes que dizem assim : Quanto á questão de Vespucio 
cada vez me convenço mais a seu favor : que v. s.a sabendo que 
tinha escripto alguma cousa sobre este assumpto tencionava ul- 
teriormente mostrar-me de uma maneira nova, e com novos fun- 
damentos os motivos em que fundava a sua opinião, e sobretudo 
que para a roborar apresentaria documentos aiitheniicos con- 
temporâneos portuguezes que tratando expressa e designada- 
mente de Vespucio confirmassem as asserções por elle sustenta- 
das nas suas cartas principalmente a de ter sido empregado nas 
expedições portuguezas. Pensei igualmente, que, quando ainda 
manifestasse no seu escripto uma opinião contraria á minha, esta 
seria concebida não só em termos conformes em tudo com os 
que empregava na sua carta, mas também com aquella polida 
urbanidade usada em toda a Europa, principalmente em França, 
e Allemanha pelos homens verdadeiramente Sábios, urbanidade 
que attesta não só o estado de civilisação d'estes paizes, mas 
também a excellente educação das grandes escriptores, e a z/z- 



VISCONDE DE SANTARÉM 63 

♦ • 

variável moderação de seus principios quaesquer que sejão as 
divergências de opinião dos contendores. Pensei emfim, que, 
ainda quando v. s.» manifestasse a sua opinião contraria á minha 
trataria n'esse caso de refutar o meu trabalho conforme todas 
as regras da critica. 

Taes forão as reflexões que fiz á leitura da sua carta ; mas 
grande foi a minha surpreza ao ler na sua nota de pag. 75 não 
uma refutação, não uma simples divergência d'opinião, mas sim 
um attaque formal, não merecido, nem provocado, e este conce- 
bido em termos descomedidos e insólitos e inteiramente em dis- 
paratado contraste com a polidez das expressões da sua carta. 

«Com igual azedume (diz v. s.'') porem com maior cópia de 
«argumentos saio a campo o sr. V. de S. em uma carta escripta 
«ao eruditíssimo D. M. F. de Navarete, que foi impressa no Bul- 
«letim de la Société Geographique de Paris em Outubro de 1835, 
«e depois as notas nos n.°^ de Setembro de 1836, e Fevereiro de 
«1837 — os seus argumentos só negativos.. .» 

Ora deixo á consideração de todo o homem sábio e mesmo 
de qualquer que apenas tenha lido uma critica scientifica, o apre- 
ciar devidamente as palavras : Saio a campo com igual azedume. 
Limitar-me-hei a observar que hé digno de reparo que v. s.» ci- 
tando a minha carta ao eruditíssimo Navarete impressa no Bul- 
letin da Sociedade Geographica, omittisse as importantes circuns- 
tancias, de que era uma tradução franceza, e que o original tinha 
sido escripta a rogos daquelle sábio, e por elle pubhcada no Tom. 
III da sua preciosa obra, o que v. s.^ não ignorava, pois tinha 
decerto lido a advertência preliminar que acompanha a dita carta, 
e por outra parte suppouho que conhece a obra de Navarrete 
pois que a cita. Ora já se vê, que, alem da impropriedade das 
suas expressões, a sua injustiça hé ainda mais manifesta visto 
que não fui eu que sahi a campo depois do Auctor da Corogra- 
phia Brazileira, mas sim o eruditíssimo Navarrete, que no vol. 
III publicado em 29 inserio a minha carta para reforçar os seus 
argumentos contra Vespucio, argumentos dos quaes v. s.^ não 
disse uma só palavra sendo muitos delles inteiramente conformes 
com os meus. 

Foi pois Navarrete que depois do A. da Corographia tratou 



64 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

1 

da questão de Vespucio, e que com a experiência, madureza e 
imparcialidade que hé própria dos homens verdadeiramente sá- 
bios appreciou mais do que na realidade merecia, não o trabalho 
que compuz depois, mas a minha simples resposta, dizendo no 
seu prefacio o seguinte ; 

«Finalmente ai Sr. Visconde de Santarém, Archivero mayor 
«dei reyno de Portugal, debemos las noticias de Vespucio que 
«publicamos en Ia pag. 309 en prueba dei aprecio que hacemos 
«de la exquisita erudicion y juicioso discernimiento de um lite- 
«rato tau illustre y recomendable, conocido ya en el mundo lite- 
«rario por outras investigaciones históricas y politicas muy im- 
«portantes.» 

Não posso pois atinar com o motivo que impelio v. s.a a lan- 
çar no publico por meio da imprensa uma asserção alem de in- 
justa, inexacta e de mais a mais concebida nos termos os menos 
dignos e os mais duros ! E que para se erigir em defensor de um 
Estrangeiro (Vespucio) attacado á perto de 3 séculos por mais 
de 200 escriptores, necessitasse de maltratar um seu compatriota, 
e que faz parte da Academia há perto de 20 annos*^ 

Não posso pois atinar, repito, com os motivos que V. S.^ teve 
p.^ me escolher de preferencia a todos os escriptores graves 
desde o sábio Las-Casas que conheceo Vespucio, e que em ter- 
mos mil vezes mais duros do que aquelles que usei, mostrou na 
sua preciosa Historia das índias, que Vespucio era um impostor, 
nem tão pouco por que não escolheu Herrera, ao qual V. S.* faz 
• merecidos elogios «por ter escripto com bons documentos á vista» 
o qual igualmente se pronunciou também da maneira mais for- 
mal contra elle? E porque finalmente não escolheu o nome do 
eruditíssimo Navarrete, e se foi servir do meu nome ? 

Se V. S.^ fosse um Hvreiro que para fazer vender o seu livro 
necessitasse de excitar a curiosid.'^ do publico á custa de um 
nome conhecido, não me admiraria de ter adoptado tal expe- 
diente, principalmente tratando-se de uma obra que só os erudi- 
tos lêem, e que por tanto tem um numero mui circumscripto de 
leitores, não se poderá acreditar que ura escriptor que enceta a 
sua carreira litteraria este anno debaixo de tão favoráveis aus- 
pícios, recorra a um tal expediente que não deixaria de ser-lhe 



VISCOXDE DE SANTARÉM 65 



attribuido e imputado se deixasse passar em silencio as expres- 
sões que acabo de ler no Correio de Lisboa de 20 de Novembro, 
nas quaes, com a mesma inexactidão, mas em termos decentes 
se diz o seguinte : 

«Entra emfim na tão disputada controvérsia a respeito de 
«Américo Vespucio combatendo as opiniões sustentadas pelo 
«Sr. Visconde de Santarém no Bulletiu da Socied.® G. de Paris, 
«de 1835, 36 e 37.» 

Ora V. S.^ não expoz os" meus argumentos, nem os analysou, 
e as auctorid.e^ em que me fundava, nem os refutou, como se 
pode chamar ao que dice: que os combateu ? V. S.^ lemitou-se a 
uma cousa de um género novo, e consistio em dizer: que eram. 
só negativos!!! 

Como pois V. S.^ concentio que se publicasse que os comba- 
tera que não houve entre nós nem controvérsia, nem V. S.* os 
expoz, nem refutou? Quando V. S.^ mesmo e não sei também 
porque motivo, citando as minhas memorias publicadas em Fev.° 
de 1837, omittio a citação das outras publicadas em Setembro do 
mesmo anno (Tom. 8 — pag. 155 da d.^ Collecção)? nem tão 
pouco porque motivo não esperou que todas as minhas investi- 
gações se publicassem, cuja publicação alli vio annunciada, para 
então as refutar de uma maneira scientifica e conforme com a 
importância do assumpto? Mas não! Parece que isto convinha 
ao seu plano, antes parece, depois de maior reflexão, induzir-se 
da comparação do contraste formal que existe entre a carta que 
me fez favor de escrever e o teor da sua nota de pag. 75 e do 
artigo do Correio de Lisboa, parece, digo, que a questão littera- 
ria e scientifica que aliaz se não tratou era não só de um obje- 
cto m.'° secundário, mas também que se baseava incidentemente 
como um pretexto para fazer apparecer o meu nome em logar 
do de Navarrete e de m.''^^ outros escriptores. 

Por este meio, pessoas que jamais se occuparião de Diário 
náutico do xvi.o século, irão comprar o folheto para ver o que 
se diz de mal e sem cerimonia de um homem conhecido. 

Talvez a franqueza com q.^ me explico seja demasiada, mas 

VOL. VI õ 



66 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



V. S.* não deve extranhar em sentido algum, visto que na sua 
carta me diz o seguinte: 

«Se cometer faltas peço a V. E. mas queira advertir, que na 
«minha pouca idade foi este anno que encetai a carreira publica 
litteraria, etc.» « 

A franqueza pois d'estas expressões (que excluem a ideia de 
duplicidade entre o que me escreveu e o q.^ publicou) e o inte- 
resse que toma pelo progreço da sua reputação e finalm.*« p/ q.^ 
prevejo que V. S.^ poderá prestar interessantes serviços littera- 
rios ao pais me animarão a explicar-me também com franqueza 
sobre este ponto como o farei sobre outros pontos. E pelos mes- 
mos motivos não lhe escondo que, fundado na larga experiência 
dos homens, e do estudo, e ainda mais da nossa pátria, q.« muito 
receio que neste negocio V. S.'* não fosse talvez, sem mesmo se 
aperceber o instrumento de mesquinhez e desprezíveis rivali- 
dades. 

Passarei agora a fazer algumas observações sobre o fundo 
da sua nota de pag. 73 a 77. 

V. S,3 f undando-so no documento, ou Carta d'El-Rey D. Manuel 
datada de 16 Jan.° de 1504 (inserta na Confirmação de D. João III) 
diz pag. 73 o seg.^^: 

«Fica portanto sabido que o descobrimento da ilha de Fernão 
«Noronha foi em 1503.» 

Ora no documento apenas só encontram as expressões = que 
elle ora novamente achou e descobrio, mas isto não quer dizer 
que foi no anno de 1503 com V. S.^ suppoém, e apezar das con- 
siderações que faz em nota de pag. 70. Um documento, ou antes 
um dos mais preciosos monumentos geographicos comtempora- 
neos que existe aqui authentico, e anterior ao documento que 
V. S.» produzio prova pelo contrario que a ilha de Fernão de 
Noronha estava descoberta já no anno de 1500 pelos portuguezes. 
Este monumento que V. S.^ não conhece, iie a famosa carta 
desenhada pelo celebre João de La Cosa que acompanhou Hojeda 



VISCONDE DE SANTARÉM 67 



em 1499 a 1500. Ali se vê perfeitam.te desenhada a Ilha com a 
Bandeira real portugueza, e a legenda = /s/a descobierta poi 
el-Rey de Portugal. ^ 

Portanto á vista destes dois documentos contemporâneos, 
claro fica que não indicando a carta d'El-Rey D. M.^i o anno que 
V. S.a lhe fixou, e o mappa de João de La-Cosa assignado p/ 
elle em 1500 contendo uma indicação tão positiva não resta a 
menor duvida de que á conjectura de V. S.a se oppoem um docu- 
mento precioso que prova e demonstra um facto contrario á sua 
asserção. 

Ora sendo conjectural a data que V. S. fixou e contraria a 
um facto, claro fica também que todas as indicações deixam de 
ser exactas. 

Apenas citarei poucos exemplos 

Seja o primeiro e seguinte — a pag. 73 diz V. S.^ «que esta 
«ilha fora descoberta inquestionavelmente em Agosto de 1503 
«pela armada de seis velas que então foi ao Brazil.» 

Vendo-se ahaz inquestionavelm.^^ o contrario — mas V. S,^ 
infere fundando-se em uma data toda da sua conjectura que 
Fernão de Noronha commandava aquella expedição, mas alem 
de não produzir documento algum que prove a sua nomeação 
como commandante d'aquella expedição dá por certo, que pelo 
facto de a ter novam.'^ achado ella fora descoberta no anno 
anteced.e ! 

Não satisfeito de ter imaginado uma data, de fazer uma pro- 
moção de commandande, acrescenta — temos que o capitão mór 
retrocedeu a Lisboa a dar parte d'este achado, e que não pode 
deixar de ter sido Fernão de Noronha. 

Eu n'este caso peço perdão de dizer como Mr. Victor Le- 
Clerc na sua sabia obra dos Annales des Pontifes et des Jour- 
naux chez les Romains falando de certa escola de conjecturistas : 

«Fables pour fables, conjectures pour conjectures, j'aime mieux 
celles de Tite Live.» 

Eu direi. J'aime mieux la Carte de Jean de La Cose, e Damião 
de Góes, porq.^ este ultimo viveo no século das descobertas, e 
por que tratando da expedição dos 6 navios sabidos de Lisboa 
em 1503 diz que fora Gonçalo Coelho que a commandara. 



68 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



Como quer que seja, V. S.'^ para fundar aquella conjectura 
[diz] que he necessário acreditar na veracidade das relações 
d' Américo. Não sei também p.^ que!, mas p.^ estabelecer esta 
veracidad.^ apoia-se em um texto (uão do original da 1.^ edição) 
de S. Sebastião Munster; e deixou de parte o sábio Ortellius. 
Ora aqui, e nisto he precisamente que o mao fado corre a traz 
dos apologistas de Vespucio e que só vêem esta questão pelos 
autores que lhe são favoráveis, sem discutirem comparativam.*^ 
a authoridade d'esses authores com os contemporâneos, e dignos 
de melhor fé ! He verdade que V. S/'' cita Pedro Martyr, mas he 
verdade também que não examinou este escriptor com a reserva 
que o sábio La Casas seu contemporâneo, e melhor authoridade 
do [que] elle, recommendava que §e devia ter no que elle escre- 
veo relativamente aos descobridores, recommendação igualmente 
feita por Munoz e Navarrete. 

Portanto a authoridade de Pedro Martyr pelo que respeita a, 
Vespucio he nenhuma no conceito de um dos mais sábios, e 
mais profundos historiadores do Novo Continente, e foi igual- 
mente desprezada pelas duas authorid.^^^ acima citadas. 

A outra he a asserção == d' Empo li. Sobre está estabeleci uma 
larga discussão em o meu trabalho, e V. S.^ antes de a ver 
concluio admittindo-a sem mais discussão. Entretanto se um por- 
tuguez admittisse sem mais exame dos Mss. authenticos a asser- 
ção deste italiano, e as de Vespucio nas suas cartas, não sei 
como esse portuguez poderia attribuir a gloria da descoberta do 
Brazil a Cabral., 

Examine V. S.^ bem esta questão. Lea as cartas de Vespucio 
e outros Munsters, como Canovai (?), e verá que he mui difficil 
de conciliar ambas as cousas. 

A' vista do que deixo rapidamente ponderado, V. S.* verá, 
que apesar da sua nota, a questão de Vespucio ficou como estava. 
Que não provou cousa alguma que tornasse nenhuns, não digo 
só os argumentos que fiz sobre as suas relações, mas nem mes- 
mo aquelles de muitos escriptores superficiaes. 

A questão de Vespucio não he pois uma questão tão in- 
differente para um portuguez como parece a alguns espíritos 
superficiaes, e muito menos quando se trata de discutir a 



VISCONDE DE SANTARÉM 69 



fundo um ponto obscuro e m.*» importante da historia da geo- 
graphia. 

D'esta questão se tem occupado os homens mais sábios da 
Europa á perto de 3 séculos, e principalm.*^ nestes últimos tem- 
pos, consequentemente não se pode sobre ella pronunciar um 
juizo precipitado. Ella exige profundos conhecimentos de cosmo- 
graphia, de bibliographia, de diplomacia, e sobretudo grande 
sagacid.® e muita critica. 

Do mesmo modo a questão concernente á cartographia (in- 
vento esta palavra já que ahi se tem inventado tantas) a carto- 
graphia mesmo do século xvi he m.'° importante e muito difficil.* 
Lemitar-me-hei também por agora a dizer-lhe que a demonstra- 
ção d'este ponto não é para esta carta já assaz longa, e com a 
qual tenho abuzado demasiado da paciência e bondade de V. S.a 

Resta-me dizer-lhe que na primeira reunião da Sociedade de 
Geographia apresentarei da parte de V. S.'* conforme me encar- 
regou, o exemplar do seu trabalho que por m.a via offerece 
aquella assemblea. 



Do Visconde de Santarém para o Conde da Ponte 
Paris, 29 de Dezembro de 1839. 

Meu querido Conde. 

He certamente bem temerário da minha parte ir agora tomar- 
Ihe o tempo com as minhas garatujas quando aliaz o deve em- 
pregar tão bem junto da interessante pessoa que escolheo para 
o ajudar a levar a cruz d'esta vida, e que por certo fará as de- 
licias de um homem tão digno de a gosar, e de gosal-as. Mas 
tenha paciência com as minhas indiscrições. Bem sabe que os 
homens que consagrão o seu tempo ás lettras são implacáveis e 
impertinentíssimos com as suas questões litterarias. São n'estas 
peores do que os rábulas com as demandas. 

Ature-me pois por caridade, e por esta vez somente na quês- 



70 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



tão que o rapazote académico, me veio suscitar, á qual respondo 
por quanto julguei dever-lhe dar uma sova, posto que á muito 
estou decidido a considerar o. que ahi se diz e se escreve, como 
de nenhuma importância disgraçadamente neste mundo Scienti- 
fico cá de fora. 

He aqui, e em Allemanha que elle podia gritar ceo e terra 
que isso faria tanta impressão como a mordedura de uma mosca 
em um Elefante. 

Espero que a primeira carta que lhe dirigi, e de que remetti 
copia, terá já chegado ahi. 

Agora remetto a inclusa a sello volante para que o Conde 
tome conhecimento d'ella e depois de a fechar ter a bondade 
de lha mandar entregar. Aqui não sei o n.*^ nem rua onde elle 
ahi mora, mas ao Conde ser-lhe-ha fácil sabelo pelo Almanack. 
Finalmente em ultimo caso mande-a deitar no Correio. O men 
objecto he, que ella lhe chegue ás mãos o mais depreça que for 
possível. 

Espero que me diga pelo primeiro Paquete ao menos duas 
palavras do que lhe parecer sobre as minhas duas novas respos- 
tas. 

Dê recados a seu pae ao qual não sei se poderei escrever 
por este Correio e acredite que sou deveras seu. 

Tio e Amigo Verdadeiro 

M. Santarém 

m 

P. S. — Todas as vezes que vir o Conde de Lavradio (1) 
dê-lhe recados meus. 



*1) Conde de Lavradio, D. Francisco de Almeida Portugal, grande di- 
plomata liberal. Foi quem tratou o casamento de D.Fernando com D. Ma- 
ria II. 



VISCONDE DE SANTARÉM 71 



Le Secrétaire de VAcademie Royale des Sciences, Arts & Bel- 
les Lettres de Caen para o Vicomte de Santarém. 

Caen, le 31 Janvier 1840. 

Monsieur 

II ya un an que vous êtes reçu membre correspondant de la 
Academie de Caen, et je crois pas qu'el vous en ait encore été 
donné avis je vous à ce sujet quelques explications. 

II y a 13 ou 14 móis que vous avez été proposée par Mr. de 
Caumons je crois. Vous futes reçu dans la séance de janvier 
ou dans celle de février 1839 ; mais les procès verbaux non fait 
point mention. 

Mr. Héberd, secrétaire, est mort au móis d'avril, et ce n'est 
qu' en Novembre que j'ai été nommèe son successeur. L'irregu- 
larité relative à votre nomination m'a frappé, monsieur, et je 
Tai signalée dans la séance du 24 de ce móis. 

Sur mon demande il a été decide qu' on me soumettrait point 
votre nomination à un nouveau scrutin, et que Ton mentione- 
rait cette circonstance dans le procès verbal, afin que cette 
nomination put être regardée comme illégale, et 'qu'elle fut à 
Tavril de toute réclamation ultérieure. 

En vous informant de cette décision, permettez-moi, Mon- 
sieur, de me feliciter avec TAcademie d'une adjonction aussi 
honorable. 

J'attends un occasion pour adresser votre diplome à Paris, 
ainsi que les Statuts de TAcademie de Caen le será probable- 
ment M. Derraches libraires, rue du Bouloy, 7, qui será chargé 
de vous remettre mou envoi. J'ai Thonneur d'être avec la plus 
haute considération. 

Monsieur, 

Votre três humbles et três 
obeissant serviteur 

Travers. 



72 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



Le Secrétaire d Academie Royale cies Sciences, Artes & Belles 
Lettres de Caen para o Vicomte de Santarém. 

Caen le 2 avril 1840. 

Monsieur : 

J'ai rhonneur de vous adresser, avec votre diplome les der- 
niéres publications de notre Acaderaie, qui viens de mettre sous 
presse un nouveau volume. J' y join quelques opuscules que je 
vous pris de vouloir bien accepter. 

Je suis, avec la plus haute considération. 
Monsieur. 

Votre três humble et três 
obeissant serviteur, 

Travers 



Do Visconde de Santarém para o Conde da Fonte 
Paris 3 de Fevereiro de 1840. 
(Com outra lettra) respondida em 23 do m.'°o mez. 

Meu querido Sobr.*^ e am.° do C. 

Tem razão no que me diz na sua carta de 13 do passado 
acerca das m.^* cartas a Varnhagen de que não devo gastar 
tanta cera com ruins defunctos. Mas p."" outra parte essa gente 
ahi merece algumas palmatoadas pela indecente ligeireza com 
que escrevem, e mais que tudo pela estulta presunção com que 
todos os dias imprimem mil absurdos. 

Entretanto a minha principal intenção foi de mostrar a Var- 
nhagen que eu havia de refutar o seu trabalho leal e f rançam.*^ 
como o Conde verá em pouco tanto nos — JSiouvelles Annales 
des Voyages, — como no Bulletiu da Sociedade Geographica. As 



VISCONDE DE SANTARÉM 73 



auctoridades competentes, aquém tenho communicado aqui este 
novo trabalho, não só estão convencidas do que eu digo, mas o 
que é mais é que a producção do rapaz cae de todo cá por 
fora, e direi m."^'' hade-lhe suar o topete para ganhar aqui algu- 
ma reputação. 

N'este intento pareceo-me a propósito, escrever-lhe a carta 
que incluo e que vae aberta p/'^ que o Conde tome conheci- 
mento delia (1). Entretanto não a mande entregar sem que eu 
lhe escreva de novo avisando-o de quando a d.** entrega deve 
ter logar, visto que quero adoptar o que me dizia outro dia 
Arago — Je garde toujouis beaucoiip de nútraille en reserve, f al- 
iando da sua disputa com os sábios inglezes sobre o seu elogio 
histórico de Watt, que Vernon-Harcourt Presid.^ da Associação 
Britannica attacou. 

Agora responderei a uma antiga cartinha sua sobre o n.° dos 
volumes da Correspondência Diplomática do Marquez de Sande 
(2) Eis aqui o que eu digo d'ella na Introducção do meu Quadro 
Elementar quando passo em revista as differentes Bibliothecas: 

Mss. da Casa da Ponte 

«Na collecção dos Mss. da Livraria d'esta casa colligi a parte 
mais interessante da correspondência do Embaixador Marquez 
de Sande durante as suas embaixadas em Inglaterra. O 1.° Tomo 
começa em off.° de 13 de Julho de 1660 e acaba em 20 de Ou- 
tubro, contendo 124 off.°^ O 2 ° começa em 18 de Fev.° de 1661 
e acaba em 6 de Julho de 1668 contendo 738 officios. 

«Alem d'estes exisl;ém alli mais 10 em que se encontra toda 
a correspondência, notas, e mais papeis officiaes destas duas 



(1) E' a Carta X, adiante publicada. 

(2) Francisco de Mello e Torres, l.o Conde da Ponte e Marquez de Sande; 
foi guerreiro, pelejou no Alemtejo contra os hespanhoes no tempo de D. João IV. 
Ministro de Portugíil em Londres junto de Ricardo Crowmell e depois de Car- 
los II. Tratou do casamento d'este com D. Catharina de Portugal e foi com 
ella n'uma armada que o conde de Sandwich commandava. E' a isto que se 
refere decerto o visconde de Santarém. 



74 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

interessantes Embaixadas, e entre elles muitas cartas authogra- 
fas d'El-Rey Carlos 2, da Sr/^ D. Catharina, dos Condes de (1) Cla- 
redon, d'Albermale, do Cardeal á'Ursino, de Mr. de Ruviguy (2), 
de Ruy Telles de Menezes, do Conde de Sandwich, do Em- 
baixador D. Francisco de Mello, de Pedro Vieira da Sylva, etc » 

Agora acrescentarei ás indicações acima, que nunca tive em 
meu poder os 12 volumes. Quefiz o exame delles em S.*° Amaro, 
e que só tive na m.^ livraria os primeiros. Esta é a única lem- 
brnça que conservo d'este neg.*^ 

Recommende-me á sua interessante Espofea, e escreva-me 
sempre pois que ninguém o estima mais do que 

Seu Tio e Am.° verdr.° 

Manoel. 



Do Visconde de Santarém para Varnhagen 

(Sobrescripto) : Ao 111.'"° Snr. Francisco Adolfo de Varnhagen. 

Lisboa 
Paris, 31 de Jan.^ de 1840. 

///.'"'' Snr. 

A persuasão em que estou de que V. S.a tomaria as minhas 
precedentes cartas pela mesma franqueza com que n'ellas me 
explicava, como uma prova evidente do vivo interesse que tomo 



(1) Conde Claredon. Era advogado e chanceller em 1643. Chamava-se 
Edward Hyde. Após a execução de Carlos I passou á Hollanda e com a res- 
tauração voltou confirmado em todos os seus títulos. Sua filha casou com 
Jayme 11. Ultra conservador, foi mettido n'uma intriga por Buckingliam e, 
accusado de outras traições, fugiu para França. 

(2i Henrique de Massué, marquez de Ruvignj*. Protestante francez que se 
naturalisou inglez e morreu em Greenwick em 1689. Foi tenente general. Seu 
filho Henrique combateo contra a França e tornou-se conde de Galloway. 



VISCONDE DE SANTARÉM /5 



p.'" V. S.3 me anima a dirigir-lhe a continuação d'algumas obser- 
vações, pedindo todavia a V. S.* mil desculpas pela desordem 
com que elias são escriptas, e pelo fastio q.* lhe poderão talvez 
causar. 

Em a minha carta de 26 de Dezembro ultimo, dice a V. S.^ 
os motivos em que me fundava para me persuadir que o Mappa 
de Ruych não fora gravado sobre madeira, mas como me não 
julgo infalível, mesmo depois de ter estudado muito as matérias 
de que trato, pedi a Mr, Guichard, empregado na Bibliotheca Real 
que tem a seu cargo as edições Princeps, e que é um moço 
dotado de muitos conhecim.'°^ bibliographicos sobre as edições e 
livros das primeiras épocas do estabelecimento da Imprensa, que 
me communicasse as suas ideas a este respeito. ^ 

Eis-aqui pois o que elle me escreveu em data de 18 do cor- 
rente. 

«Je me hâte de vous transmettre les détails que vous m'avez 
«demande sur le Ptolémée de Rome de 1508 et qui du reste 
«vous connaisez mieux que moi. L'exemplaire de la Bibliothé- 
«que Royale contient 33 cartes doubles, et ces 33 cartes sont à 
«mon avis imprimées avec des planches de cuivre et non de bois. 
«Les tailles^fines et multiplées me semblent indiquer des plan- 
«ches gravées au burin ; de plus le papier mince et soyeux est 
«lisse des deux côtés, et si Timpression provenait des planches 
«de bois, c'est-à-dire gravées en relief. on trouverait empreints 
«au verso du traces du foulage que dans ce genre de gravure 
«sont ordinairement três visibles. J'ai examine les 33 cartes les 
«unes après les autres et il me paraít évident qu'elles ont été 
«éxecutées par le même procede. 

«Le même volume contient au rectro du feuillet 43 une sphère 
«armillaire (Sphéra in Plano). Cette figure qui occupe toute la 
«page, me parait avoir été gravée sur bois comme les lettres 



(1) O facto de se encontrar o próprio original d'esta carta na collecção 
das cartas ao Conde da Ponte, mostra que ella nunca chegou a ser entregue 
ao destinatário, como aliás o próprio Santarém reconheceu mais tarde (Vide 
Carta xil). 



76 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

«initiales et quelques figures géometriques qui accompagneut le 
«volume. Tels sont les résultats de mon examen, que je sou- 
«met, etc.» 

V. S.^ verá á vista disto que todos estamos aqui concordes 
sobre este assupmto. 

Direi agora alguma cousa sobre um §. do artigo do Correio 
de Lisboa onde se annunciou a sua publicação. No dito artigo 
se diz ,0 seguinte : 

«Todas as notas são apropriadas ao assumpto — o editor não 
«adoeceu de um certo pedantismo, que ainda hoje é mui vulgar 
« — o de accumular citações sem conta, peso, nem medida». 

Oxalá que agora mesmo houvesse em o nosso Portugal esta 
doença, e este pedantismo! Se taes doenças existissem teríamos 
uma prova que a erudição estava em tanto vigor, como o está 
em Allemanha, em França, e mesmo em Itália, e que se mani- 
festa não só nas obras dos sábios, mas até nas dos litteratos. 

Mas quaes são as producções que ahi tem apparecido onde 
ainda hoje se manifeste tão vulgarmente essa doença ? 

Com effeito, num jornal aqui, nem em Allemanha ousaria 
escrever semilhante cousa. 

A malicia do autor do artigo não sendo de bom^osto, quasi 
que revela onde dirige os seus tiros. Mas a doutrina é commoda 
para aquelles que pilhão os outros sem os citarem ! V. S.« decerto 
está, como eu d'accordo com elle, em parte, nas citações mal a 
propósito, sem conta, pêso^ nem medida, mas não o está p.'^ certo 
na maliciosa generalidade que inculcam as taes expressões. 
Y. S.^ deve antes ser partidista da escola ailemã. 

A propósito desta escola que tem por base provar com cita- 
ções :e autoridades tudo quanto se diz no texto, e alem disso 
acrescentar todas quantas a erudição pode fornecer, direi que 
ainda á pouco se publicou aqui uma obra excellente de Hurter 
originalmente escripta em allemão, na qual se encontrão m.^^s 
vezes 10 e 12 remissões p.^ notas diversas e que dizem respeito 
ao m.™° facto e á mesma pessoa, e não somente isto se encontra 
a cada linha, mas o que é, se encontra a cada palavra. 

Ora apezar desta espantosa multidão de citações, esta obra é 
reputada, e com razão como um dos mais preciosos monumen- 



VISCONDE DE SANTARÉM 



77 



tos históricos que nestes últimos tempos se tem publicado sobre 
um dos períodos mais interessantes da historia da Idade Media. 
Outra obra li eu á pouco, e da qual o seu Autor me fez fa- 
vor de enviar um exemplar magnifico, na qual as citações e as 
notas são por milhares. Esta obra é a de Mr. Prescott Histonj 
of the reign Ferdinand and Isabella, e apezar disso, no espaço 
de um anno se tem já publicado 6 edições ! ! 

E que direi da ultima obra de Mr. Humboldt ! Os episódios, 
as notas, as digressões, as discussões no texto, nas notas, nos 
appendice são por milhares. E como conceituão os críticos cá por 
fora esta obra ? Os Jornaes Scientificos e os relatórios Acadé- 
micos que o digão, apesar dos muitos reparos e observações que 
sobre este vasto trabalho se tem feito. 

Este methodo pois seguido nestas obras primas d'erudição, 
e de sciencia, e em mil outras que lhe poderia citar nâo está em 
harmonia com a critica de quem escreveu o artigo do Correio de 
Lisboa, e devião merecer a sua mais severa reprovação ! Para 
ser consequente devia considerar os seus autores doentes da mo- 
léstia do pedantismo qne ainda hoje é tão vulgar!!! Como quer 
que seja, talvez o A. do tal artigo não se desse nunca ao traba- 
lho de ser uma excellente Memoria pubhcada na vasta e pre- 
ciosa collecção da Academia das Inscripções e Bellas Lettras 
sobre as citações. Mas por outra parte os que assim pronuncião 
juizos como o autor do artigo seguem uma vereda hem cómoda. 
Com efeito para que ter o trabalho de ler taes cousas, se se pode 
ser censor mesmo sem se lerem as obras que se censurão? 

Eu pela minha parte declaro que antes quero padecer da 
doença chronica que affecta á tantos tempos os allemães, os 
sábios inglezes, e italianos, e muitos francezes do que preservar- 
me d'ella vestiudo-me com o fato do próximo depois de lho ter 
roubado, sem sem jamais dizer ao menos onde o encontrei. Mas 
as obras d'erudição custão muito a fazer, e os homens que são 
capazes de as emprehender assustão muito certas gentes por 
muitas razões que não podem decerto escapar á penetração de 
V. S.^ Como quer que seja, ás taes gentes e ao autor do articulo 
se pode appHcar a fabula da raposa com as uvas. 

Voltarei de novo á questão da descoberta da Ilha de S. João 



78 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



OU Fernando de Noronha, e farei ainda aqui algumas objecções 
ao que V. S.a diz sobre a verdadeira data da sua descoberta. 

Diz V. S.» pag. 88. «Ora se nos lembramos do costume dos 
antigos descobridores Portuguezes (eu accrescentarei e dos Es- 
panhoes também em m.*°^ casos) de irem com o calendário aberto 
batipsando com o nome do Santo celebrado pela Igreja nesse 
dia, as terras e aguas que achavão, e lançarmos os olhos etc», 
e segue produzindo um grande numero de coincidências de indu- 
bitável exactidão, e que provão a sua asserção. 

Ora sendo isto assim e a Ilha de Fernando de Noronha, cha- 
mando-se antes da concessão d'Elrey D. Manuel, ilha de S. João, 
é evidente que esta ilha foi descoberta em 24 de junho dia de 
S. João de um dos annos anteriores, e não em Agosto de 1503 
como V. S.^ dice ser inquestionável a pag. 73. Por outra parte 
como é que se pode sustentar que Fernando de Noronha fora o 
commandante da expedição em que se achava Vespucio com o 
que diz o mesmo Vespucio na sua relação, fallando da proble- 
mática ilha: 

«Foi esta ilha bem prejudicial a toda a armada; porque sa- 
«berá V. S.** que por máo conselho, e ordem do nosso Capitão- 
«mór se perdeo aqui a Capitania, dando com ella em um cachopo, 
«onde se abrio na noite de S. Lourenço dez d' Agosto e foi ao 
«fundo, não se salvando delia cousa alguma senão a gente. Era 
«uáo de trezentas tonelladas, e nella hião todos os mantimentos 
«da armada etc.» 

Como é possivel á vista de um tal acontecimento que El-Rey 
D. Manuel premiasse com uma doação perpetua e hereditária 
ao commandante da expedição que lhe tinha perdido o melhor 
dos navios da esquadra, fazendo-lhe mercê da mesma terra em 
que o perdera? E que perpetuasse com uma doação tal a memo- 
ria de um crime comettido por ignorância, recompeusando-o de 
tal sorte? Não imphca isto o maior dos absurdos? O que acabo 
de ponderar é mais uma prova da difficuldade senão impossibi- 
lidade de pôr em harmonia as relações de Vespucio com os do- 
cumentos authenticos, e que todos os esforços feitos até agora 
pela sagacidade. d'alguns apologistas de Vespucio, não resistem 
a uma critica severa. 



VISCONDE DE SANTARÉM 79 



Logo que V. S.^ quiz admittir a relação de Vespiicio, para 
fixar: l.c a data da descoberta da ilha de Fernando de Noro- 
nha, 2.° para admittir que a ilha de Vespucio era a mesma de 
S. João, 3.° que o command.® da expedição dos 6 navios em que 
se achava Vespucio era o mesmo Fernando de Noronha; logo, 
repito, que V. S.a invocou em seu apoio a authenticid.*^ das rela- 
ções do viajante^ florentino e que se illudio com ellas, cahio 
d'illusão em illusão, e de conjectura em conjectura sem reparar 
que o Documento authentico da Torre do Tombo provava o con- 
trario pelas ponderações que acima faço. 

Aproveito mais esta occasião para segurar a V. S.^ dos sen- 
timentos com que sou 

De V. S.^ 
Att.*° Servidor 

Visconde de Santarém 



Do ]'isconde de Santarém para o Conde da Ponte 

(Com outra lettra) — Recebida em 13 de março 

Resp. em lõ do d." 
Meu q. Sob.'^ e Am.o do C. 

Ha mais de mez e meio que não recebi noticias suas. Debal- 
de tenho esperado pela sua carta detalhada que em 13 do pas- 
sado me promettia para o correio seguinte ! 

Isto não he ralhar, mas sim exprimir o sentimento que tenho 
quando se succedem os Paquetes uns atras dos outros que em 
logar de me traserem noticias suas, só nos trasem as dos Terra- 
motos de 31 de Jan.^ e do famoso deficit de 12 milhões p.^ o 
anno financeiro de 1840, deste anno das profecias de Nostrada- 
mus (1) de que tanto, e com tanta razão tem mofado os jornaes 



(1) Celeberrimo astrónomo a quem alcunharam de feiticeiro, auctor das 
prophecias chamadas Centúrias e que viveu no tempo de Carlos IX. Morreu 
em 1566. 



80 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



desta terra. Entretanto das duas realidades portuguezas de que 
trato não se pode rir como se ri nas Varietés do Vaudeville — 
Je m'en moqiie comme de Van 40. 

E com effeito apezar das profecias nenhum Carnaval tem 
sido mais estrondoso do que o deste anno. Os Bailes masques tem 
sido brilhantíssimos segundo dizem. As sociedades de alta esfera 
igualmente excellentes, também segundo dizem, e apar disto se 
tem publicado uma infinidade de obras e opúsculos interessan- 
tíssimos. 

Pela parte que tomo neste capitulo , tenho também feito algu- 
ma cousa, e os Jornaes Scientificos também tem continuado a 
occupar-se de mim. No principio do mez que vem apparecerá 
nos — Annales des Voyages — uma longa analyse que fiz da publi- 
cação do sr. Varnhagen, e para o fim do mez uma outra no Bul- 
letin da Socied.«^ Geohraphica e um destes dias alguma cousa no 
Journal des Débats (1). 

Como o Conde gosta de saber estas cousas, pô-lo-hei ao facto 
do que he os Annales des Voyages. Esta excellente obra mui 
superior á celebre correspondência astronómica de Zachs, com- 



(1) Dos escritos de Santarém relativos a Vespucio e á controvérsia com 
Varnhagen, Innocencio cita os seguintes (Dicc. Bibl, vol. v. pags. 436 e 437) : 

«Analyse dii Journal de la navigation de la floííe qui est allé à la terre 
da Brésil en \õ30-lõ32 (?7 por Pedro Lopes de Sousa ; publié pour la pre- 
mière fois à Lisbonne por M. de Varnhagen, Paris, 1840. 

«Recherches historiques, critiques et bibliographiques sur Améric Vespuce 
et ses voyages, sem data. O auctor dera anteriormente á luz um esboço d'este 
trabalho com o titulo : Recherches sur Améric Vespuce et sur ses prétendues 
déeouvertes en 1501 et 1503. (Extrait du Bulletin de la Société de Geogra- 
phie, n.o 11.) 

«Note sur la véritable date des instructions données à un des capitaines 
qui sont allés dans Vinde après Cabral, publiées dans les Annales Maritimes 
de Lisbonne, cahier n.o 7, de 1845. Ib. (Paris), 1846?» 

O Regimento a que se refere este ultimo trabalho de Santarém, fora pu- 
blicado effectivamente no n.o 7 da 5.a serie dos Annaes Marítimos e Coloniaes, 
parte não official, Lisboa, 1845, pag. 279 e seg., com a nota de Copiado da 
Torre do Tombo e offerecido á Associação Marítima pelo sr. F. A. de Var- 
nhagen. 

O Visconde de Santarém era sócio honorário da Associação Marítima e 



VISCONDE DE SANTARÉM # SI 

pôem-se já de perto de 100 volumes, e data a sua fundação de 
20 annos. Os principaes redactores actuaes são — x\rago, (1) Dureau 
de Lamalle (2) — Eyriès (3) — Barão de Humboldt (4) — Letronne — 
Auguste de S*. Hilaire (5) — Barão Walckeuaer,— todos membros do 
Instituto nas duas Academias das Inscripções e Bellas Lettras e 
das Sciencias, e este seu servo também ali pertence. 

Este foi o castigo que estes Senhores me derão inserindo o 
meu nome com os seus en toiítes lettres depois da severa critica 
que me fez o S^ Varnhagen ! 

À propósito deste sugeito. Elle já tinha tido tempo de res- 
ponder ás m.as cartas, ainda que ellas a não tinhão. Talvez terá 
recorrido ao auxiho e ás luzes do S. Luiz para me retorquir com 
a polemica das coincidências arrastadas e contrarias a toda a 
boa critica a que se acostão os panegyristas de Vespucio que 
não saem de um circulo vicioso de contradições, e d'absurdos 
para sustentarem por uma vaidade estúpida uma causa insus- 
tentável. 

Entretanto o que é mais curioso é que Varnhagen veio sem 
o saber formar argumentos ainda mais fortes e novos em folha 
contra Vespucio e contra os documentos que nos restão d'elle. 

Assim o digo e assim o mostro em uma das analyses que fiz 
da obra deste novo litterato. 



Colonial de Lisboa, á qual não se esquecia de enviar um exemplar das suas 
obras, como se vê em numerosas referencias dos Annaes. Veja-se, entre ou- 
tras passagens, 3.a serie, 1843, pag. 599. Na 5. a serie, pag. 409, vem o trecho 
do Relatório lido por Santarém na Sociedade de Geographia de Paris sobre os 
Ensaios estatísticos de Lopes de Lima. 

(Notas do compilador das cartas para o conde da Ponte). 

(1) Domingos Francisco Arago, grande sábio, astrónomo ephysico. Liberal 
e muito popular. Membro do governo em 1848. 

(2f Dureau de Lamalle erudito francez. Poeta. Pertenceu á academia das 
Inscripções, archeologo e geographo. Morreu em 1857. 

<3) Eyriés, geographo illustre. Nasceu em 1767 e morreu em 1846. 

(4) João António Letronne, archeologo francez. Membro da Academia de 
Inscripções, guarda dos archivos do reino. Morreu em 1868. 

(5) Deve ser Emile de Saint Hilaire, que depois da revolução de Julho 
compoz novellas populares a favor do Império. Augusto de Saint Hilaire e 
publicou livros sobre a idade média. 

VoL. VI 6 



82 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

Voltando ás publicações que aqui se tem feito ultimamente, 
agora mesmo acabo de ler a seguinte — 

«Dissertation sur les causes de la décadence de Tindustrie et 
«du commerce en Espagne au 11^ siècle», par Charles Weiss. 
O A. é um homem de talento e de espirito, e posto que tirasse 
a ideia do seu trabalho de uma excellente obra do professor 
Allemão Ranke em que já á muito lhe fallei, comtudo addicionou 
muitas cousas curiosas tiradas da grande e preciosa mina dos 
Manuscriptos da Bibliotheca R. 

Entre as muitas citações que faz vem uma para mostrar a 
que ponto de fraqueza tinha chegado a Espanha nos últimos 
dias do ultimo rei da Dynastia austríaca — que é de morrer de 
riso — e aqui a transcrevo p.^ que se ria por uma parte e lamente 
pela outra pJ vários motivos de fácil applicação. 

«Monaichia di Spagna, pag. 35. Ce phamplet italien est de la 
«fin du 17« siècle. On y represente le roi discutant avec les mi- 
«nistres sur Tétat du royaume, lorsqu'arrive un nonce qui se 
«plaint d'avoir été poursuivi par des corsaires jusque sur les 
«cotes de Espagne. S'il este parvenu à leur échapper, c'est par 
«une espéce de miracle. Mais les brigands de terre ont achevé 
«ce qu'avaient commencé ceux de mer. lis ne lui ont laissé que 
«la chemise et la depêche sacrée qu'il porte au roi; et s'il ne 
«s'était trouvé un cavalier de Valence qui, par compassion pour 
«le pauvre étranger, lui donua un vêtement et quelque argent 
pour le voyage, il n'aurait pu se rendre sitôt aupres de Sa Ma- 
«jesté». 

Naturalm."^ foi d'esta obra que Victor Hugo (1) tirou a ideia 
do seu estravagante Ruy Blas, peça com que se abrio o Theatro 
Veutadour. 

A D.s 
Tio e Am.° m.*° o estima 

Manuel 



(1) O illustre escriptor de reputação universal. A sua peça Ruy Blas cau- 
sou um grande successo. N'ella se pinta a decadência da antiga monarchia 
hespanhola. Foi representada pela primeira vez em 1838. 



VISCONDE DE SAXTAREM 83 



Do Visconde de Santarém para o Conde da Ponte 
Paris 8 de Março de 1840. 

(Com outra lettra) recebida 27 

Meu querido Sobrinho e amigo do Coração : 

Recebi hontem com muita satisfação uma carta sua de 23 do 
passado e muito lhe agradeço as suas noticias. Quanto á minha 
carta para Varnhagem que tem em seu poder julgo que é melhor 
não lhe mandar entregar, visto que essa gente d'ahi necessita 
para se curai; de vir tomar ares cá de fora, como o Padre Viei- 
ra e Brochado dizião, já á perto de dois séculos. Hum portuguez 
que sabe ahi alguma cousa de rabolices, persuade-se que vale 
mais, e que sabe mais de que todos os Jurisconsultos allemães 
juntos, um litterato que vale mais do que tudo quanto os outros 
paizes tem produzido n'este género, etc. Portanto he tempo per- 
dido tratar de os convencer em certos pontos. Quando vêm to- 
mar estes ares então esses sabichões não tem remédio senão 
calar-se ou estudarem deveras para não dizerem destemperos. 
Os verdadeiramente doutos, e sábios como o Abbade Correia, 
Araújo, Francisco Manoel, Camará, etc, fizerão uma excellente 
figura htteraria por que união ao bom saber a experiência que 
a cultura e converça, e as relações com os homens sábios dá a 
quem as cultiva. Varnhagen he certamente um moço de muitas 
esperanças, e até me parece que irá mui longe nas sciencias se 
o não soprarem com insenços intempestivos. 

Na carta de 24 paginas que ultimamente me escreveu me 
faz o seguinte cumprimento : 

«Quando o devido respeito a V. E. não tanto por V. E. ser 
«veterano na carreira e por ter muitos annos respirado na atmos- 
«fera dos paizes mais scientificos do mundo e de ter vivido em 
«relações amigáveis com as homens mais sábios do seu tempo ; 
«mas sim por que reconheço os talentos de V. Ex.^, venero o seu 



84 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

«saber, preso os serviços litterarios que tem feito a este paiz e 
«tenho em alta consideração o favor que V. Ex.« se digna con- 
«ferir-me correspoudeudo-se com um calouro em tudo, que só se 
«presa de ter sufficiente docilidade para escutar as palavras da 
«sabedoria ainda que algumas tragão mais reprehensão e aze- 
«dume do que conselho.» 

Os meus argumentos em resposta ás minhas cartas são de 
uma fraqueza immensa. Elle assim parece reconhecê-lo, visto que 
temendo a tempestade que lhe poderia partir cá de fora não só 
dos jornaes, quotidianos, mas o que he mais nos scientificos, 
diz : 

«Por agora só trato de dar a V. E. resposta prompta, e pe- 
«dindo-lhe suspenda o este respeito qualquer arguição ou passe 
«em claro o tratar-se desta questão^ que fica a perder de vista ao 
«pé do interesse que deve resultar da divulgação do Diário de 
«Pedro Lopes.» 

Ora d'este peditório verá o conde que elle teve todo o re- 
ceio que no momento de apparecer no Mundo litterario, uma 
refutação séria e normal feita cá fora, desse cabo da sua reputa- 
ção. E teve razão, por que se eu tivesse o fatal caracter de du- 
plicidade que algumas gentes da nossa terra tem, e mesmo o imi- 
tasse no que elle me fez, bastava 6 linhas escriptas por mim nos 
principaes jornaes quotidianos, e duas analyses communícadas 
ás primeiras sociedades scientificas para que ninguém se occu- 
passe mais do Livro e do Amigo. 

Bastava que dicesse : on a pretendu que ce Journal nautique 
était d'une grande importance, mais il ne peut pas supporter la 
comparaisou avec ceux qui le précedèrent, malgré les grandes 
progrès que les sciences nautiques avaient déjà fait à cette épo- 
que, II presente plusieurs lacunes. On n'y trouve aucune obser- 
vatiou astronomique, taudis qu'on les remarque et même sur les 
constellations de Fhémisphère austral daus Cadamosto, un siècle 
avant lui, pour la partie éthnologique et éthnographique on n'y 
trouve rien qui en vaille la peine comme on le remarque dans 
ceux de Magellan, de Duarte Barbosa, de Thomé Lopes, de Bar- 
théma, de Parmenthier, etc. Sa redaction est souvent embroullée 



VISCONDE DE SANTARÉM 85 

et parfois obscure, Téditeur n'a point tâché ni de nous donner 
une carte, ni la synonimie des noms. Pour la partie hydrogra- 
phique du Rio da Prata Téditeur s'est contente de nous renvoyer 
aux cartes três modernes d' Azara et de Spix, au-lieu de les com- 
parer ensemble avec celle d^Arnald^us Florentinus du xvi^ et 
celle-ci avec celle de la Rochethé et d'01medilla, de d'Anville 
dans les Lettres édifiantes, etc, etc. 

Ora pergunto ao Conde que conhece um pouco a minha po- 
sição aqui, faria isto algum Mr. Varnhagem ou não ? 

Parece-me que sim, visto que não sei por que capricho da 
sorte acreditão aqui em mim nestas matérias cada vez mais, e 
de um modo tal que cada dia me acho surprehendido por novas 
provas. 

Isto seria imodesto da minha parte o dizelo, se não fosse um 
desabafo com o Conde, visto que sinto deveras por amor do meu 
paiz que os meus compatriotas continuem a ser tão ingratos e 
invejosos. Foi a inveja e a ingratidão que nos fez perder a índia, 
foi a inveja e a ingratidão quem nos hia fazendo perder pela 2.^ 
vez a independência nacional na guerra da Acclamação, e seria 
a inveja e a ingratidão quem nos perderia na de 1808 se [sem ?] 
um estrangeiro com vara de ferro, e de um caracter a que tudo 
então se curvava que nos salvou da tal inveja que nos perderia 
tudo. 

Mas de que devo eu queixar-me á vista da causa nacional 
tantas vezes compromettida pela inveja e pela ingratidão ? Que 
me posso eu queixar quando vejo morrer bravamente na bata- 
lha d' Alfarrobeira o maior homem do século xv, o Infante D. Pe- 
dro, o Condestavel estar a ponto de ir chorar em reino estranho 
os effeitos da inveja, Vasco da Gama depois de descobrir a índia 
e dobrar o Cabo da Boa Esperança só obter o titulo de Conde 
pelos rogos do Duque de Bragança, e coberto de loiros e de dis- 
gostos retirar-se á Vidigueira donde não voltou senão no reynado 
de D. João 3.°, Affonso d' Albuquerque ser accusado por um sa- 
pateiro de se querer fazer Rey da índia e acreditar-se a accu- 
sação ! Duarte Galvão morreu n'um hospital, como o Camões, 
etc, etc. 

Eu não sou nada absolutamente nada á vista destes gloriosos 



86 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



gigantes, mas para estes tempos, em que esta raça já não existe, 
sou por aqui um pequeno advogado do meu paiz, e neste sentido 
tenho-lhe feito mais serviços do que ahi se pensa não só com o 
qu:. tenho escripto, e com o que digo todos os dias, mas também 
por me pôr logo em campp contra muitos desatinos que contra 
elle se dizem, ou quando o tratão com um dezespero intolerável. 

Hoje mesmo me mandarão o 1.° numero de uma Revue inti- 
tulada «Echo de la Littérature et des beaux Arts en France et à 
TEtranger.» O artigo Portugal que hé de 6 linhas começa assim: 

«Le Portugal n'a point de littérature en 1840, les préocupa- 
«tions politiques absorbent tout. Quelques traductions d'ouvrages 
«français, des livres élémentaires sont les seules productions de 
«la librairie dans ce pays.» 

Ora a esta tirada vou eu responder immediatamente que este 
mal hé commum a todas as nações pelo que diz respeito a este 
anno. Visto que o anno começa agora, e por tanto que ainda não 
existe litteratura de 1840, mas pelo que pertence a 1839, que a 
Academia publicou taes obras, que Bastos publicou 2 volumes 
de Poemas, e uma traducção de Pérsio e uma boa traducção de 
Juvenal com um erudito prefacio, etc, etc. 

Basta de seca, temo importuna-lo com estas longas cartas e 
também não devo abusar da minha veia, visto que estou em con- 
valescença de um principio de pleuriz que tive de cuja doença 
me levantei hoje pela primeira vez. Briguei 4 semanas com os 
frios, com os catarros até que cahi, mas felizmente sou rijo, e 
ainda escapei d'esta. 

Estimo que se occupe de ler o Theatro Latino, posto que elle 
seja apenas uma fraca imitação do Theatro Grego, Terêncio hé 
picante e offerece muitas passagens que se podem aplicar em 
momentos de azedume. Em resposta á pergunta que me faz so- 
bre o custo de um Curso feito ultimamente aqui sobre o Theatro 
Latino, por um Auctor de que não sabe o nome, devo dizer-lhe 
que o Curso foi feito pelo meu amigo e collega Magnia. Alguns 
pedaços publicarão-se na Revue des Deux Mondes, mas o A. deu 
uma nova forma ao seu trabalho e publicou uma obra prima de 
erudição, d'estilo, e d'interesse com o titulo seguinte : 

«Les origines du Théâtre Moderne ou histoire du génie Dra- 



VISCONDE DE SANTARÉM 87 



«matique depuis le 1/ jusqu'au XV]. ^ Siècle précédé d'une in- 
«troduction contenant des études sur les origines du Théâtre an- 
«tique (1838).» 

Até agora temos o 1.^ vol. que contem 422 pag. Quasi todo 
contem a mais erudita introducção. O 2.^ vai apparecer em 
breve. Mr. Magnin tem-nos lido em diversas sessões da Acade- 
mia a continuação. Esta sabia companhia decidio ultimamente 
que uma destas partes fosse lida em sessão publica a saber — 
La mise en scène chez les anciens — E não só foi fortemente 
aplaudida, mas os Jornaes fizeram os maiores elogios. 

No volume que vai apparecer venho citado em diversas par- 
tes, visto que tenho dado mais de 30 notas a Mr. Magnin, tanto 
sobre uma passagem de Dion Cassius, que eu corrigi, por outra 
de Plinio e de Syrus, mas também por outras sobre o theatro 
na Idade Média, e sobre as ruinas dos antigos theatros que exis- 
tem em a Península ou segundo consta d'Inscripções, de pas- 
sagens de diversos autores. Até lhe desencatei uma passagem 
das obras dlsidoro de Sevilha, sábio que viveu no tempo dos 
godos, que prova que durante a dominação delles havia theatros 
em Espanha, quando aliaz os eruditos sustentavão até agora que 
depois da expulsão dos Romanos até aos Mysterios do XV.» sé- 
culo alli não houvera Theatro. 

Não lhe posso dizer quanto custa a obra de Mr. Magnin, por- 
que o exemplar que tenho me foi dado por elle. Entretanto tra- 
tarei de lhe descobrir um. 

Mas como o conde se occupa agora deste ramo de litteratura 
não posso resistir á tentação de lhe citar quanto ao theatro la- 
tino uma dissertação critica mui curiosa que vem na obra de 
Nizard, Recherches sur les Poetes Latins de la Decadence, posto 
que ella diz só respeito a Séneca o Trágico. 

Alem disto nas Memorias d' Academia das Inscripções e Bel- 
las-Lettras encontrará as seguintes Memorias do maior interesse 
sobre a Historia do Theatro Grego e Latino. 

«De Fart Dramatique, Mémoire oíi on prouve que les Romains 
«n'eurent pas de Théâtre National — T. V. 283, 284 = Examen 
et réfutacion de l'opinion qui attribue Torigine de Tart dramati- 
que à des orgies champêtres = VIII, 254. 



88 CORRESPONDÊNCIA SCIF.NTIFICA E LITTERARIA 

Ses progrés à Rome pendant la seconde guerre punique, III, 
381. 

Tableau de la licence dramatique chez les grecs,^VIII, 272. 
Diverses espèces de drames counues des Latins, Ibi. 

Par qui et à quelle époque fut établi le premier Théâtre à 
Rome, Vil, 150. 

Magnificence du théâtre de M. Scaurus, ÍII, 20 — Celui de 
Pompéo couvert tout entier ea or par ordre de Néron, VII, 156. 

Des expériences faites sur les propriétés acoustiques des 
théâtres des anciens pour prouver combien ils étaint souores et 
avec quelle facilite la voix des acteurs s'y faisait euteudre (Hist. 
de TAcad. T. l.*' 258, VII, 85.) Les femmes n'y montayent pas 
sur la scène, et leurs roles étaient remplis par les hommes, 86. 

Muito mais lhe podia citar, mas receio com razão que ahi 
não encontre esta vasta e preciosa collecção, que se compõem 
de mais 200 volumes, 

AD.« 

Mil respeitosos cumprimentos á Sr. Condessa. 

M. F. Santarém 

Continuação 

Paris 15 de Março 

Esta carta não tendo podido partir pelo correio passado apro- 
veito este retardo para o instruir do seguinte neg.° e pedir-lhe 
que falle nelle á Viscondessa a quem escrevo a carta junta, 
pedindo-lhe que lha mande entregar. 

Eis aqui o negocio. A' 6 annos que vivo neste paiz sem ser 
inquietado nem pelas moscas — quando antes d'hontem me appa- 
receo aqui o Vice-Consul com uma papeleta a que na fraze 
rabolistica se chama deprecada, e consistia em uma citação que 
me he feita como herdeiro do Visconde de V.^Nova (1) para pagar 



(1) Visconde de Villa Nova da Rainlia. 



VISCONDE DE SANTAREiM 89 

uns Tapetes que elle comprara em 1807 isto hé á 33 annos ! ! ! 
Ora he até onde pode chegar o systema que ahi se segue de não 
deixar ninguém quieto mesmo a 500 legoas de distancia, e p/ 
uma divida que conforme as Leys de todos os paizes já prescre- 
veo por passar de 30 annos. Ainda mesmo que não ajão recibos 
isso não faz ao caso, visto que ninguém é obrigado a conserval-os 
depois da prescripção da Ley em dividas taes. 

Tanto mais que isto foi no anno em que a Corte partio para o 
Brazil, e agora depois de terem estado calados todo este tempo 
vêem agora bater comigo ! 

Recomendo pois este negocio. 

AD.^ 

P. S. Parabéns do casamento do Gigante. ' 

Ainda não me respondeu a uma pregunta que lhe tenho feito 

3 vezes, a saber — se recebeo pelo Daupias as m.^^ Recherches 

sur Vespuce ? 



Do Visconde de Santarém para o conde da Ponte 
Paris, 27 de Março de 1840 

Meu querido Sobrinho e Amigo do Coração 

Estava esta manhã ainda na cama repousando-me das fadigas 
da na noite passada em uma das mais bellas reuniões que tenho 
visto, eis que se me entrega a sua interessante carta de 15 do 
corrente, e com ella o duplicado prazer de ver lettras suas, e 
saber ou antes ver confirmada a opinião em que estava que ahi 
ainda não sou de todo esquecido dos amigos verdadeiros. 

As poucas hnhas da sua carta são p.^ mim preciozas em ou- 
tros pontos. Elias confirmão o q.^ eu julgava de que apesar das 
grandes mudanças politicas que o nosso paiz tem experimentado 
ainda as cousas que tocão a religião ou antes o culto externo 
estão como estavam nos dias dos séculos xvi e xvn. Hé real- 
mente curiosa a particulari.*^^ e a coincidência de lhe ir para a 



90 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

mâo a m.1 carta sobre os factos do Carnaval de Paris no mo- 
mento em que se achava na terrível calçada de S'*° André vendo 
passar a Procissão dos Passos da Graça! 

Pela sua carta vejo também sem me restar a menor duvida 
de que tendo recebido a m.'» carta, que lhe escrevi pelo Daupias, 
comtudo não recebera o meu trabalho sobre Vespucio impresso 
que lhe remetti também p/ elle, e que o Conde me tinha pedido. 
Veja e indague se isto ficou na Secretaria d'Estado, ou em casa 
do Ratou onde elle provavelmente foi hospedar-se. Como qJ que 
seja vários livros importantes que forão por elle por via da Le- 
gação não se receberão ahi! Entre estes hião dois exemplares da 
famosa obra de Mj Jal — L' Archéologie Navale — sendo um p.* 
o Governo (1), e outro que eu pude obter deste sábio historio- 
grapho da Marinha p.« a Academia das Sciencias de Lisboa. Por 
essa occasião escreve elle a Macedo uma carta em que modesta- 
mente lhe dizia; 

«Encouragé par votre savant confrère M."" le V'^ de S. etc. 
je fais hommage, etc.» 

Mas nem elle, nem eu, temos resposta do Secretario da Aca- 
demia !!! 

Na verdade muito cavalheirescamente p.a não me servir dou- 
tros termos, se tratão ahi os neg.°^ litterarios, e até — Les con- 
venances — . Custa a crer que tudo isto esteja perdido. Varnhagen 
que p."^ essa occasião de Daupias devia receber também a m.'^ 
1.3 carta, não só a não recebeo, mas pede-me que lhe indique 
onde a poderá procurar para ter, e conservar a serie chronolo; 
gica das minhas cartas. 

N'este laberyntho não sei o que pense d'este negocio. O Se- 
cretario d' Academia escreve p/'^ aqui regularm.''^ e até a mim me 
respondeo á tempos com a maior ponctualidade. 

O que o Coude me diz no fim da sua carta é admirável — 

«No nosso paiz nada se imprime, diz o Conde, comtudo ha 
«dias vi um annuncio interessante em uma Gazeta. 



(1) Muito provavelmente é este o exemplar que está na bibliotheca da 
Escola Naval. 



VISCONDE DE SANTARÉM 91 

LITTERATURA 

Livros em branco para qualq/ Escriptorio !! 

Este annuncio excede os muitos que ha mJo^ annos vemos 
publicar no próprio Diário do Governo — Publicações litterarias 
— Sahio á luz a novena de Ns.'' S.^ — Custa 120 réis — Trezena 
de S/'' António, 40 réis. Decreto mandando etc. 

Ora será d'estas obras d'erudiç3o cheias de doença das cita- 
ções de que fallava o Correio de Lisboa que me remetteo ? 

E diz-me o Varnhagem que tendo m'*°s talentos está ainda 
m.'o verde = lambem por cá se estuda ! 

Concordo, mas o que produz esse estudo? 

Não basta só estudar é necessário produzir. Em 6 annos as 
únicas obras que me consta terem sabido das imprensas portu- 
guezas consistem quanto á Academia — a primeira parte do Tomo 
das suas Memorias (1837) 362 pag. 

Nos annos de 38 e 39 não nos consta aqui que publicasse 
nenhum Tomo das Memorias — publicou a Historia da Ilha de 
Ceylão, de Ribeiro que aliaz já tinha sido publicada em francez 
por Le Grand. Esta obra é verdade que é mui precioza, mas não 
lhe juntarão um commentario, etc. Publicou uma addição para 
completar o vol. v das Noticias Ultramarinas isto é á relação 
acima. Compoem-se ainda este Tomo v de uma das reflexões de 
Varnhagem sobre a obra de Gabriel Soares. Publicou ultima- 
ultimam.'« a mesma Academia o 1.» vol. da traducção do Geo- 
grapho Árabe Ibn-Batuta, de que já havia uma traducção ingleza. 

Assim depois que estou aqui tem a Academia publicado 3 vol. 
em 6 annos. 

Passando das publicações do 1.° corpo scientifico da nação, 
ás publicações dos particulares -- apenas nos consta aqui — 1.» 
da do Roteiro da viagem de V.» da Gama, feita no Porto. He 
feita de defeitos e erros geographicos dos editores apesar de 
serem Lentes da Escola Polythecnica, e já Castanheda tinha 
publicado na sua Historia da índia quasi todo o d.« do Roteiro. 
2.° O que acaba pubHcar Varnhagen. 



92 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



Eis aqui pois as obras históricas e scientificas, visto que não 
me parece poder comprehenderem-se rigorosamente nesta cate- 
goria a de Sebastião Botelho sobre as Colónias da Africa orien- 
tal — nem a Memoria sobre a Escravatura do V.'^^ de Sá, escripto 
na verdade muito bem feito, e bem escripto, ainda que contem 
m>s cousas históricas curiosas. 

, Esqueceo-me mencionar nas obras pubicadas pela Academia 
— uma nova edição da Vida de D. João de Castro p/ Jacinto 
Freire com docum.'» e notas. 

Assim temos 5 obras da Academia n'estes últimos 6 an- 
nos. 

Se ahi se tem publicado mais alguma cousa nas sciencias, e 
nas lettras, peço ao Conde tenha a bondade de mo indicar p.^ 
m.^ instrucção. 

Quanto á publicação de Fernando Deniz de que o Conde me 
falia, consiste em uma cabidella de pedaços e fragmentos de 
Chronicas e romances Espanhoes e Portuguezes desde o 13.° 
século até á comedia — do Tesselão de Segóvia do 17.» em dois 
volumes era Francez. Este género de producções é mui fácil de 
fazer, e não he nada scientifico, visto que consiste em compilar 
e traduzir pedaços que não tem mesmo ligação entre si. Uns são 
tradiccionaes até p."^ alguns críticos reputados fabulosos — como 
o dos 7 Infantes de Lara, outros como a Legenda Espanhola de 
S.^^ Casilda do xi." século é de uma natureza — mytho-romanesca, 
e m.'o conhecida dos eruditos. He extraída de uma Historia de 
Toledo impressa em 1554. Segue-se a tomada d'Evora no 12.» 
século extrahida da chronica de Cister de Brito. Todo o mundo 
instruído sabe o pouco credito de verídico que mereceo aquelle 
chronista quando se tratava de factos antigos e embrulhados, 
e que se deixou illudir pelas relações do falsario S. Roman. 
Segue-se um extracto das Chronicas impressas de D.*^ Nunes 
de Leão. Segue-se outro extracto da Chron. de Ruy de Pina 
também impressa, etc. etc. 

Ora estes fragmentos são mui curtos. Os 2 volumes contem 
grande numero. Elle juntou-lhes algumas notas. Este livro é o 
que se pode dizer aqui — três amusant. A sua leitura é tanto 
mais fácil quanto de õ em 5 minutos se pôde fechar e interrom- 



VISCONDE DE SANTARÉM 93 

per a leitura visto que a leitura da maior p.'^ das peças não leva 
mais tempo. 

Todavia estes mesmos fragmentos podem servir a um sábio, 
e a um critico para dissertações históricas e philosoficas sobre 
os costumes das duas nações peninsulares nos fins da Idade 
Media. 

Mas o bom Deniz não chega lá. Elle conhece que assim os 
seus livros são interessantes para o commum dos Leitores. 

Aqui tem pois em duas palavras o que é a obra ultimam.*^ pu- 
blicada por Fernando Deniz. Veremos como elle escreve o Por- 
tugal Pittoresque para o Universe Pittoresque de Didot. 

Vários amigos de Didot, e também meus quizerão que eu me 
encarregasse d'aquelle trabalho. Didot mesmo seg.*^" me dice o 
Chev.'^ Artaud m.*° o desejou, mas já tinha feito o seu contracto 
com Deniz. 

Entretanto eu m.*° estimei que assim tivesse acontecido, por 
que sendo aquella empreza uma das que se chamão aqui de 
Libiairie, o Editor apezar do seu g.*^^ nome quer que se faça ás 
carreiras, com pouca erudição, muito anedótico, em fim pitto- 
resco. Ao bom e instruído orientalista Dubeux, a quem elle 
carregou a Pérsia Pittoresca = dice-lhe logo = ne me faltes pas 
trop de géographie, temendo que as conquistas dos antigos per- 
sas sob Dário y Cyro, etc. occupassem muito espaço e que em 
logar de um vol. se achasse com 2<^^ . Mas em tudo isto ha aqui 
m.'* intelligencia nesta gente. 

Quando se trata de uma publicação tal, vê-se que se não deve 
fazer com aquella gravidade das obras puramente scientificas, 
em quanto o m.™» Didot publica uma das obras mais importantes 
de philologia grega = o seu Thesaurus, assim como outras. Mas 
nesta ultima trabalhão os helenistas allemães, francezes e de 
outros paizes, e a erudição alli é tudo, 

Visto q.^ estou n'este capitulo — vou-lhe citar uma excellente 
obra scientifíca que appareceo ultimam.'^, é esta a de M.*^ Am- 
pere = «Histoire Litteraire de la France avant le xii.^ siècle.» 

Os famosos Benedictinos da Congregação de S. Mauro tinhão 
escripto, e publicado uma vasta Historia litteraria de França 
desde os tempos mais remotos que ficou incompleta. A Acade- 



94 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERAKIA 

mia das Inscripções e Bellas Lettras tem continuado este estu- 
pendo trabalho, e no anno passado publicou-se o Tom. 19 em 
4.° o q.' chega até ao meado do século xiii. 

A obra d' Ampere é um resumo, mas feito com outras vistas, 
e tratada de uma maneira admirável em meu entender. 

Nas relações e quasi uniformidade que existia em m.^^* cou- 
sas principalm.*^ na litteratura Latina, Romande, et. na Idade 
Media entre todos os paizes meridionaes, estas obras tem uma 
conecção mui grande com a nossa historia d'aquelles períodos. 
Mas ainda ninguém em Portugal desde o principio da Monarquia 
até hoje se occupou de tratar deste exame histórico e ao m.'"° 
tempo filosófico. 

Eu aqui tenho tentado. Já tenho promptos 3 volumes. 
M.*"^ Magniu, Lenormand, Lajard e outros a quem tenho feito 
leituras, me perguntão ás vezes quand publierez-vous ce bel et 
admirable ouvrage? Mas eu ainda não estou contente com ella. 
Ainda a não dou por feita. Que raivas causaria ella pelas im- 
mensas citações aos homens que não são capazes de as faze- 
rem! 

Nós temos certamente uma litteratura mui rica, e bellissima 
desde os cancioneiros isto é desde os fins do xiii.» século, tempo 
a que se pôde fazer remontar uma parte d'ella. Mas até agora 
ainda nenhum portuguez se occupou de nos dar uma Historia 
litteraria. Tudo o que temos n'este género o devemos a 3 es- 
trangeiros ou antes a 2.", a Bouterwek e a Sismondi, e a Fer- 
nando Diniz! (1) 

Até os Espanhoes tem um começo ou p.^ milhor um grande 
casco, d'Historia Litteraria a dos dois irmãos Mohedanos apezar 
dos seus defeitos. 

E n'esta penúria diz-me Varnhagen também por cá se estuda 
e ha os meios que ahi sobejão! O rapaz confunde tudo, e não 
sabe o que diz! 



(1) Fernando Diniz. Viajante e escriptor francez que foi biliothecario da 
instrucção publica e que escreveu, entre varias cousas o Resumo da Historia 
de Portugal e do Brazil, alem de romances, narrativas de viagens, etc. Tam- 
bém escreveu chrographias, quadros e históricos. Nasceu em 1798. 



VISCONDE DE SANTAREíM 95 

Lê-se, lê-se, estudão alguns, mas não produzem. Se ha os 
meios, como na realidade para a p.*^ documental porque se 
não produz? Do mesmo modo que não temos historia litteraria, 
também não temos uma Historia geral e scientifica das nossas 
descobertas e conquistas. Existem é verdade os grandes historia- 
dores como Barros, Couto e Castanheda, e m.*°^ tratados par- 
ciaes, mas isto não é historia geral e scientifica de uma das épo- 
cas mais brilhantes da gloria do nosso paiz. 

Tãobem não temos uma collecção dos nossos documentos 
como tem a Itália em m.*^* collecções pubhcas entre ellas a pre- 
ciosíssima de Muratori. A França nas de Martens e Durand, na 
Bréquigny e mil outras, a Hespauha em Bortodano, etc. Agora 
mesmo dois Reynos de 3.''^ ordem, a Sardanha, e a Suécia publi- 
cão uma collecção geral dos seus documentos e até o pequeno 
Reyno do Hanbvre publica a sua! 

Dir-se-ha a isto, mas faltão os meios pecuniários e outros. 
Concedo, mas então para que se diz ironicamente tãobem por cá 
se estuda, e não faltão os meios? Repetirei que é mesmo um 
desatino querer comparar um estudo ainda quando fosse real, 
que é improductivo, com o que se se produz cá fora. E' pois 
melhor sermos sinceros. Deplorarmos que não nos faltando os 
materiaes, os obreiros p.*^ uma parte tenhão mais presumpção do 
que saber, e pela outra, os pecuniários sejão tão escaços que 
nos não permittem fazer o que faz mesmo não digo a Sardanha, 
a da Suécia, mas a bicoca do Hanovre! Seria melhor que tal se 
não dicesse, visto que a Nação que teve ás suas ordens por sé- 
culos as riquezas dos dois maiores continentes do mundo, não 
pode hoje p."^ uma sorte fatalissima publicar os milhares de do- 
cumentos, de obras scientificas ! 

O nosso joven vespucianista tinha necessid.^ de ler o que es- 
crevia o famoso P.^ Vieira em uma carta datada de Paris em 25 
de S.*""" de 1647 á perto de dois séculos escripta a um Min.° 
d'Estado. 

«Quanto mais ando pelo mundo (diz elle) mais me confirmo 
«nesta verdade, e se os que estão nesse reino tiverão saido 
«delle, também sairião da cegueira em que vivem n'esta e em ou- 
tras «matérias. Baste o exemplo de Marquez de Niza, e do seu Fr. 



96 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

«Francisco de Macedo, os quaes tendo sido de tão contraria 
«opinião,que que um deo conselhos, e outro escreveo livros con- 
«tra ella, depois que virão o inundo, se lhes abrirão os olhos, de 
«maneira que ambos se tem retractado» etc. (1) 

Ora se o nosso progreço de civilisação, de critica, e de scien- 
cia se julgasse pelo que me escreveo um moço aliaz d'istrucção, 
podia dizer-se que estávamos no mesmo estado em que estáva- 
mos ha 200 annos! 

Sinto não lhe poder remetter uma copia da carta que escrevi 
a Varnhagen em 23 deste, ella continha 28 paginas em 4.°. Foi 
em replica aos fracos argumentos e objecções que elle me fez 
em resposta ás minhas. Parece que tudo quanto alli lhe dice 
q.^ não tem replica. Destrui-lhe argumento p.*^ argm.'", palavra 
p.*" palavra, e confeço que m.*° estimo ter tido esta controvérsia 
pois ella tem augmentado uma quantidade de provas nas ques- 
tões que tenho tratado relativas ás descobertas que me não ti- 
nham occorrido visto que ninguém tinha feito objecção formal 
ao que eu tinha escripto. 

Entre tanto a publicação de tudo isto está suspença p."" q.^ Var- 
nhagen me pede que não publique os argumentos e arguições 
contra elle. Assim o tenho feito na questão de Vespucio, e con- 
servarei este silencio até ver o que elle faz. 

Veja o Conde se este peditório não mostra o que são os nos- 
sos girios ! Elle attacou-me em publico, lisongeou-me em parti- 
cular para diminuir a impressão que me deveria merecer o que 
escrevera, e pelo receio da replica publica, e finalmente vendo a 
bateria que lhe preparava pede o meu silencio em publico á 
custa da minha reputação litteraria para que a sua não padeça, 
e a minha não triumphe ! ! ! 

Por isto lhe dizia eu se fosse um critico francez ou allemão 
etc. não diria etc. e é assim. Qual seria o critico francez que 



(1) D. Vasco Luiz da Gama, Marquez da Vidigueira e de Niza, almirante 
do mar de índia, Ministro de D. João IV em Paris e nomeado para Roma. 
Plenipotenciário da Paz com Hespanha. Muito dedicado ao estudo. Pediu a Nu- 
nes da Costa um Atlas mondi com que trabalhou. A sua bibiiotheca era notá- 
vel. Morreu em 1676. 



VISCO NfDE DE SANTARÉM 97 



uma vez tendo tratado contradictoria e publicamente uma ques- 
tão, pedisse ao seu contrario o silencio da replica? 

Faço-lhe pois por ora a vontade, por que a minha reputação 
litteraria nada soffre, nada com o que dice Varnhagen na sua 
nota impressa, e dou-lhe uma lição magna que espero lhe apro- 
veitará no futuro. 

* 

Esqueceo-me citar-lhe entre as obras que ahi se tem publi- 
cado as que me mandou ultimamente um poeta que eu não co- 
nheço = Martins Bastos = consistem em 2 vol. in-12 de poesias 
delle, uma traducção de Pérsio, e outra de Juvenal. E uma Geo- 
grafia elementar publicada no Porto por um Espanhol chamado 
Urcullu. Hé uma compilação do Abrégé de Balbi e outras, entre- 
tanto os jornaes ahi fizerão grande apologia, e elle imprimio os 
elogios com a obra. 

Esperava poder mandar-lhe por este correio o meu artigo 
analytico da obra publicada por Varnhagen, o qual já se publi- 
cou na obra = Nouvelles Annales des Voyages d'este mez, mas 
ainda não recebi a tirage a part. Contem este meu artigo 47 a 
50 pag. d'imprensa. 

AD.s meu Conde recommende-me á sua interessante esposa, 
e acredite que sou deveras seu 

Tio e Am.° verd.° 

Manuel 

P. S. 

Queira ter a bondade de entregar a inclusa a seu Pay. 

Visto que lhe f aliei em outra, e fallo n'esta nòs Annales des 
Voyages, para que o C. faça idea do movimento scientifico que 
vai cá por fora direi que n'este Trimestre as obras de sciencias 
publicadas cá fora montão ao numero de 153! 

No mesmo período de 3 mezes = segundo a Revue de Biblio- 
graphie Analytique d'ouevres scientifiques, ethautelitterature.= 
Em obras deste género = 314! 

Ora que Varnhagen venha dizer-me também por cá se lê!!! 
e acaso em 3 mezes pubhcarão 467 obras scientificas ? 

Vol. VI 7 



98 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

Do Visconde de Santarém para o Conde da Ponte 

Paris, 6 d' Abril 1840 

Mev q.'^° Sobr.° e Am." do C. 

Apenas lhe citei o correio passado a excellente obra d'Am- 
père da — Histoire Littéraire de la Franca avani le xii« siècle — 
cuja leitura tanto me tinha instruído e deleitado, eis que acaba 
de se publicnr outra obra em Lyão, que estou lendo e que é do 
maior interesse — O seu titulo é o seguinte: 

— Histoire des Lettres Latines au iv^ siècle de Vère Ciiré- 
tienne. 

O seo A. já nos tinha dado nestes últimos dois annos uma 
excellente traducção acompanhada de notas e commentarios das 
duas famosas obras de Salviano, e de Sidonius Apolinaris, escri- 
ptores os mais brilhantes do v.° século, e que são uma mina his- 
tórica de uma das mais curiosas épocas de transformação social. 
O mundo Romano invadido pelos Bárbaros, ou chamados taes, e 
a antiga civilisação clássica desappareceudo, e dando logar aos 
esforços scientificos dos grandes atheletas do Christianismo. A 
par d'estas obras aqui tenho outra, que é um primor, a nova 
edição de VHistoire de la Civilisation de VEurope por Mr. Guizot. 

Preguntaria ao nosso Vespucianista se é por ahi que só se lê? 

A propósito conto preguntar-lhe em uma das mesmas primei- 
ras cartas qual é ahi o Livreiro que seja Autor e autor estimado! 
Sei de' certo q. a resposta será negativa. Pois aqui á uns poucos. 

Didot é um hellenista. — Muitos artigos do seu Ttiesaurus são 
delle. Craplet outro Livreiro e impressor é autor de muitas obras 
estimadas. Ha dias me enviou elle duas brochuras da sua com- 
posição muito importantes, e que foram analyzadas nos Jornaes 
scientificos = Des ouurages imprimes par les Etiènes = ou Robert 
Etiéne et François P'' e outra sobre o Cardeal de Richelieu. 

Outro Livreiro = Renouard=compoz e publicou uma obra 
de bibliografia critica mui curiosa, e que é clássica neste género 
= Sobre as edições sabidas das imprensas dos famosos Aldes. 



VISCONDE DE SANTARÉM 99 



Panckouk = outro Livreiro que tem 100:000 francos de renda 
é um latinista, e archeologo destincto. A' pouco traduziu e publi- 
cou nada menos do que as obras de Tácito. 

Repito pois o que dizia o Padre Vieira, que é necessário vir 
tomar ares cá fora, mas acrescentarei que é necessário que 
tenhão disposições para isso, e que não venhão como o D'Ordaz 
que exclamava no meio dos jardins das Tuilleries que a Serra 
do Cântaro era mais bonita ! 

A nossa Escola Diplomática foi creada pelo Conde de Linha- 
res mais 20 annos antes que houvesse na França um estabeleci- 
mento tão útil. Aquelle ministro creou a cadeira na universidade, 
e determinou os exercícios práticos no Archivo sob a direcção 
dos dois Lentes João Pedro Ribeiro e Dos (sic) Guimarães. Os 
Alumnos excellentes que sahirão desta Aula começarão a publicar 
memorias do mais alto interesse. Mas estas producções só virão 
a luz publica dois annos 1814 e 1815, e consistem em duas me- 
morias. Ninguém quasi as leo, ainda menos se venderão. O go- 
verno não se importou mais nem com a Aula, nem com os Pro- 
fessores, nem se os empregados que erão admittidos no Archivo 
erão ou não descipulos daquella aula, conforme estabelecia sabia- 
mente a Ley da creação. Os Guardas-móres até á mesma entra- 
da, nomearão quem quizerão contra a Ley, até que eu fui posto 
á testa daquelle estabelecimento, e que estabeleci os Cursos pú- 
blicos dos alumnos afim de serem nomeados sem favor os mais 
beneméritos. 

Em França creou-se a mesma aula 24 annos depois da nossa. 
— Mas que cousas tem feito os seus discípulos, que magníficos 
trabalhos que tem publicado!!! Parece incrível quando se com- 
param os dois paízes. 

Os cursos não tiverão nunca interrupção. Quasi todos os Ar- 
chivistas e Bibliothecarios nas cidades da França sahirão desta 
Aula. Uma Societé de Vécole des Charles foi creada. Esta publica 
um Journal de paleographía e em que se dão á luz dissertações 
sobre documentos interessantíssimos todos inéditos. Publicão 
Memorias etc. Ora que diga Varnhagen — também por cá se lê 
e não faltão os meios que por lá sobejão ? 

A propósito ahi lhe remetto o 1.» artigo que publiquei na 



100 . CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

excellente Collecção — des Annales cies Voyages, sobre à publi- 
cação de Varnhagen. 

Desejo que me accuse a recepção, visto que algumas cartas 
e até livros que para ahi se tem remettido se extrayião. 

AD.« 

P. S. 

Peço os meus respeitosos 
cumprim.*°* p.=* a S/^ Condessa. E acredite 

que sou seu Tio e Am.° f. 

M. V. Santarém 
2 P. S. 

Paris, 13 d'Abril. 

Acabo de receber uma longa e obrigante carta de Varnhagen 
de 28 do passado na qual me annuncia que vae fazer uma pe- 
quena viagem scientifica, mas não me diz aonde. Peço-lhe que 
indague onde é esta viagem. 



De Jules Feugnières para o Visconde de Santarém 

Monsieur le Vicomte 

Voici la réponse : Mr. Jomard a f ait f aire une copie du Globe 
en question, qu'il se propose de publier, il désire me conuaítre, 
et veut bien mettre cette copie à ma disposition je n'ai pas cru 
dévoir lui demander à faire une copie d'après la sienne, qui est 
un peu lourde, ni même d'après le Globe sans votre assenti- 
ment, comme il ne Ta pas encore publier, si vous pouvez avoir 
un exemplaire là, on il a été publié en premier lieu, en me de- 
pêchaut vous pourriez arriver le premier, voilà porquoi je n'ai 
pas voulu pousser cette affaire plus loin. 

Votre três humble serviteur 

Jules Feugnières 
Paris le 16 Avril 1840. 



VISCONDE DE SANTARÉM * 101 

Do Visconde de Santarém para o Conde da Ponte 

Paris 22 d' Abril 1840 
Meu q.'^° Sohr° do C. 

Recebi hontem com o mais vivo prazer a sua interessante 
carta de 5 do corrente. O Conde tem razão em reconhecer que 
lhe faço uma fineza e que lhe dou uma prova de verdadeira ami- 
zade sustentando quasi todos os correios uma longa correspon- 
dência. Com effeito, se visse o que eu tenho a fazer, o que eu 
leio, o que eu escrevo, e a vida que eu aqui passo agora admi- 
rar-se-hia mais de que me reste tempo p.^ escrever longas car- 
tas. Não tenho um instante vago. A esphera dos meus trabalhos 
tem augmentado a tal ponto que não se passa quasi um dia sem 
me negar a encarregar-me de um novo trabalho. As noções ex- 
tremamente variadas que todos os dias me são pedidas bastavão 
para me occupar. A minha correspondência litteraria não se li- 
mita hoje a Paris, mas abrange não só m.*^^ das Academias e 
Sociedades sabias das Províncias, mas até se estende á Allema- 
nha, Inglaterra e Itália. O meu zelo cresce na proporção das im- 
mensas distincções com que aqui me tratão, e em geral cá por 
fora. On me gate. Mas, apezar d'estes meus afazeres, experimento 
um grande prazer em conversar de longe por este modo com o 
Conde já que infehzmente o não posso fazer de perto. 

Quanto á pregunta que me faz sobre a famosa nota attri- 
buida ao grande Pombal direi em pouco o que me parece a este 
respeito (1). 

Começarei pelo histórico deste documento. 

Os Jezuitas banidos de Portugal publicarão, depois da queda 
do Marquez de Pombal, uma obra anonyma em Itália, e em ita- 
liano fizerão traduzir em francez. e a que derão o titulo para a 
fazerem lêr provavelmente pelos mesmos affeiçoados ao g.^ Min." 
= Mémoires du Marquis de Pombal. 



(1) E' muito interessante esta passagem, e serve de exemplo do cuidado 
que Santarém applicava ás suas investigações históricas. 



102 CORRESPONDÊNCIA SCiF.NTlMCA E LITTEKAKIA 

_ , ! 

Mas em 1786 appareceo impressa em Amsterdam uma refuta- 
ção victoriosa daquelle Libello intitulada = Administration dii 
Marqiiis de Pombal etc, 4 vol. in-8." (obra mui curiosa, recheada 
de boa e fina critica, e hoje muito rara). Foi no tomo 3 desta 
obra que vi pela primeira vez a famosa nota ou antes as 3 fa- 
mosas notas passadas, segundo se diz, em consequência dos In- 
glezes terem queimado os Navios fraucezes em Lagos. 

Eis aqui as expressões do Autor: 

«L'Angleterre contiuuant à' user de sou Autorité ordinaire, 
«avait brulè sur la cote de Lagos plusieurs vaisseaux français 
«aux ordres de M^ de la Clue. Cette violence étant contraire 
«au Droit des Gens, le Ministre en demanda satisfaction à la cour 
«de Londres. II exigea une satisfaction proportionée à la gran- 
«deur de Toffeuse, Comme ou réfusa de la lui faire de la ma- 
«nière qu'il le désirait, il insista sur cette fermeté à laquelle le 
«roi Georges, avant lui n'avait pas été accoutumé. 

As expressões que se seguem são importantes como mostra- 
rei mais abaixo: 

«Comme il n'y a point de secret en Angleterre et que les 
«af f aires de FEtat sont les af f aires de tout le monde, il transpira 
«à Londres, quelques unes de ces dépêches à ce sujet auprès 
«d' une nation qui, quoiqu'elle aime à dominer, aime à voir les 
«autres chercher à se rendre indépendantes.» 

Seguem as chamadas notas — 

Rabbe, no seu arrenegado Resume de VHistoire du Portugal/ 
traz copiada em uma só peça as que o A. auonymo de V Admi- 
nistration de Pombal traz em duas, e o primeiro omite uma pe- 
quena que o 2.0 produz. Parece, pois, que Rabbe não copiara 
desta fonte, ou então que alterara a disposição dos taes do- 
cumentos, o que ainda mais faz suspeitar a sua authenticidade. 

Seria comtudo importante examinar á vista do ultimo § que 
acima transcrevo do A. de V Administration de P. se nos jornaes 



VISCONDE DE SANTARÉM 103 



Inglezes de 1788 se refutou esta parte da obra publicada em que 
appareciâo aquelles documentos, e mesmo se na época em que 
elles se dizem passados ao Gov.° B., os Jornaes se occuparão. 
Seria igualm.'^ conveniente examinar se elles forão impugnados 
em algumas bibliografias analyticas que então se publicarão. 

O Journal des Savants daquella época analysava mui super- 
ficialm.'^ as obras que sahião, ou antes não as analysava. O fa- 
moso Journal de Trévoux era optimamente redigido, e occupava 
então na Republica dos sábios o logar que hoje occupa o «Jour- 
nal des Savants», mas os redactores eram Jesuítas. As famosas 
Acta Eruditoriim, de Leyde, naturalmente não se occuparão 
desta producção mais politica do que scieutifica. Se tivesse tempo, 
examinaria este ponto aliaz curioso, ainda que me parece que o 
exame capital devia dirigir-se aos Jornaes Inglezes. 

Não me recordo se se trata ou não desta questão nas 32 car- 
tas sobre a administração do Marquez de Pombal, que forão 
attribuidas a Stiphns e que sâo apologéticas da administração 
daquelle Ministro. São m.^° curiosas. Eu tinha-as quando ahi 
possui Mss. e uma Livraria. 

Isto é tudo quanto lhe posso p."" agora dizer do histórico da 
tal nota. Agora direi o que me parece deste documento. 

Julgo o apócrifo 1.'' por que a sua redacção é inteiramente 
differente da redacção diplomática usada já desde os princípios 
do século 18.". 2.*^ Por que parte dos contestos são indecorosos 
pelo modo por que pinta o estado da administração económica 
do paiz — como p."" exemplo — par une stupidite qui n'a point 
d'exemple dans Thistoire universelle du monde économique nous 
vous permettons de nous habiller, etc. Expressões estas que ja- 
mais um ministro de Estado empregaria mesmo em um Despa- 
cho Confidencial a um agente nacional seu súbdito, quanto mais 
a um Min.o Estrangeiro. 

S.° Porque até agora as copias ou transumptos desta preten- 
dida nota tem apparecido sem data, sem subscripção ou assigna- 
tura do Ministro, nem indicação a quem forão derigidas. 

4.** Porque o stylo é inteiramente differente do bem conhe- 
cido stylo do Marquez usado não só em milhares de documen- 
tos officiaes dos 28 annos do seu ministério, mas até das suas 



104 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

cartas particulares, e minutas que se coaservão, e eu vi, nos ar- 
chivos da casa de Pombal, e na Secretaria particular da Coroa 
no Rio de Janeiro. 

Alem destes fundamentos que tenho para julgar apocryfa 
aquella peça, acrescem os seguintes motivos de politica d'Estado 
e de conveniência nacional que obstão a acreditar tal documento 
como verdadeiro. 

Pelo estudo das nossas transacções Diplomáticas e das Ins- 
trucções reservadas passadas aos nossos Agentes, se vê que 
depois da Restauração do Dominio de Hespanha em 1640 o gabi- 
nete Portuguez vio claramente que lhe era indispensável sob 
pena de deixar de ser potencia marítima e colonial o ligar-se 
cada vez mais á Inglaterra cuja preponderância naval cada dia 
crescia da m.''^ mais gigantesca, vio por outro lado que convi- 
nha á sua integridade territorial na Europa ter sempre p."^ sua 
p.*^ esta Alliada natural p.^ conter em respeito a Hespanha sem- 
pre prompta a reclamar a posse de Portugal, a domiualo, e a 
tentar contra a sua independência. Vio que o dilema entre a sua 
Alliança com a França ou com a Inglaterra era fácil de resolver, 
visto que a primeira seria sempre Alhada de Hespanha natural 
inemiga da independência de Portugal, em quanto a seg.''^ garan- 
tiria sempre aquella independência p."^ mil motivos de conve- 
niência que seria longo apontar aqui. 

A esta pohtica de intima alliança com Inglaterra pelos moti- 
vos que deixo dito deveo Portugal immenso, e para se conse- 
guir tal alliança, e sobre tudo o foedris etc. se fizerão conces- 
sões immensas á Inglaterra, extremamente onerosas e taes, que 
Nação alguma té então tinha feito a outra. 

O M. de Pombal que era homem d'Estado conheceo a impor- 
tância deste systema politico. Elle começou a sustentalo já na 
sua enviatura de Londres durante o Ministério do Duque de 
New Castle (1). Quando El-Rey D. J.^ o collocou atesta do governo 
elle bem pouco se desviou desta vereda, e antes a seguio com 



(li Thomaz Fillipe Holl, que foi ao poder em 1754, 1756 e 1765. Morreu 
em 1768. 



VISCONDE DE SANTARÉM 105 

mais vigor logo que o famoso Tratado do Pacto de hamilia. veio 
mostrar a importância da Alliança ingleza no sentido principal- 
mente da conservação das vastas Colónias de Portugal, da sua 
marinha e do extenso commercio que ainda então tínhamos. 
Foi pois p.r esta politica que aquelle Ministro na resposta dada 
ás notas collectivas dos Ministros de França e de Espanha em 
1762 a que se seguio a guerra — se sérvio dos termos que El-Rey 
Fidelíssimo antes deixaria cahir a ultima telha do seu R. Palácio 
do que desligar-se da Alliança Ingleza. 

Ora nem a pohtica que deixo indicada, nem os documentos 
que cito e que são authenticos, estão em harmonia^com as ex- 
pressões e contexto da pretendida nota. 

Alem disso a redacção mesma dos Manifestos de declaração 
de guerra — são conforme o stylo diplomático, fortes nas razões 
e fundamentos, e moderados e dignos nas expressões. 

E taes documentos são os que um governo e?í'pede na ultima 
extremd.^ de uma desavença com outra Nação logo que passa 
ao estado de hostilidade aberta. Como pois a tal nota pode ser 
verdadeira, quando a sua phrase, o seu contheudo, e outras 
rasões já ditas são todas oppostas á politica e rasão d'Estado, 
ao decoro nacional, parecendo advogalo, e aos usos Diplomáticos? 

Eu examinei mais de 20 volumes da correspondência do Em- 
baixador Martinho de Mello (1) durante a sua Legação em Lon- 
dres no Ministério de Pombal e não me lembro ter encontrado 
nem sombra de tal nota. Examinei tudo quanto se encontra no 
precioso Cartório da Casa de Pombal, e toda a correspondência 
que se acha nos Archivos da Secretaria d'Estado dos Neg.'** 
Estrangeiros, e nunca encontrei nem sombra das taes notas. 

Na m.3 Introducção ao Quadro Elementar cito em detalhe 
estas correspondências officiaes. Consequentemente julgo que 
poucas pessoas estarão no caso de dizerem a este respeito o que 
acima digo. 

Aqui tem pois em resumo o que lhe posso dizer á pressa em 
resposta á sua pergunta. 



(1) Ministro da Marinha no tempo de D. Maria I. 



106 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

Quanto ao Discurso do Garrett achei-o excellente pelo espi- 
rito, e mesmo em muitas partes. Entretanto aqui p.a nós a lin- 
guagem é entortillée e parece-me ler um morceau de S.'*^ Hilá- 
rio ou de outros Padres do vi século nos quaes a erudição ^clás- 
sica brigava com a erudição biblica. Aquelle discurso apresenta 
uma época de decadência litteraria semilhante á dos primeiros 
tempos da Idade Media. E' cheio de emphasis, de allegorias, de 
pleonasmos e tropos. Entre outras passagens a do Pyreu deu-me 
no goto. Estou persuadido que este discurso se fosse repetido 
em Hugoagem corrente e nervosa produziria um effeito pasmoso 
visto que ficaria ao alcance de toda a gente, e é para o povo 
principalmente que se falia em uma tribuna publica, e é ás 
massas principalmente a quem se devem dirigir taes idéas e 
princípios no estado em que as cousas ahi se tem achado. 

Garrett mostrou, o que todos sabem, que tinha lido muito da 
historia sagrada e profana. Que sabia da existência dos myste- 
rios Eleusinos, que dos Gracchos se podem fazer Catilinas, e dos 
Marios Dictadores, que nem os serviços de fhemistocles, nem as 
virtudes de Aristides mettem medo á nossa Republica: sabe se 
se pode dizer ou não aos Romanos que despenhem da rocha 
Tarpea as Estatuas dos seus Brutos e dos seus Camillos. Sabe o 
que são Atticos motejos, e que é douda a elegância do stylo 
d' Alcibíades. Sabe o que é crapulosa mas poética felicid.o do 
género aristophanico. 

Tudo isto me pareceo mais próprio de um Discurso para 
receber o gráo de Doutor, do que um discurso parlamentar. 
Muitos críticos notão mesmo a Sir R. Peei o escapar-lhe ás vezes 
uma citação latina. 

Mas apezar destas m.^^ insignificantes observações, o Dis- 
curso de Garrett tem a maior opportunid.^ e tem cousas excel- 
lentes. E' em m.'^^ partes eloquente ; e apezar de o ter lido todo, 
estimarei que o Conde me mande um exemplar que desejo con- 
servar. Este docum.*" prova a enorme modificação que tem expe- 
rimentado ahi em 6 annos as idéas e os homens. 

Varnhagem tem-me escripto quasi todos os correios, e me 
tem dado bastantes provas de ter recebido uma excellente edu- 



VISCONDE DE SANTARÉM ' 107 

cação. Pela ultima carta que é de 8 do corrente participa-me que 
vai fazer uma viagem scientifica ao Brazil e talvez ao Rio da 
Prata. Remetteu-me varias notas bastante interessantes para a 
Sociedade Geographica. 

A propósito esta Sociedade na sua ultima sessão publica — 
nom.eou Presidente o Ministro do Interior, e a mim nomeou-me 
Vice-Presidente. 

A seu Pay respondo sobre as estupendas loucuras dos M. nas 
eleições. 

Aqui temos tido um tempo delicioso todo este mez. O ther- 
mometro entre 13 e 18 de Reaumur. Como faz calor eu estou 
são como um pêro. Levanto-me ás 4 \i 5 horas da manhã, leio 
e trabalho, paceio, vejo os homens com quem posso instruir-me 
e fallar nos assumptos do meu gosto, mas experimento uma falta 
immensa em o não ter aqui, e a seu Pay, visto que disgraçadamente 
não posso fallar na minha lingoa, com outras pessoas que tem 
outras ideas que tudo deitarão a perder. 

Adeus meu Conde acredite que sou deveras 

Seu Tio e Amigo verdadeiro 

•M. V. Santarém 

P. S. . 

Entre os artigos que me pedirão para a Encyclopedia du xix^ 
Siècle um é da Biografia do Conde de Barbacena Pay. Eu sei 
quasi todas as particularidades que dizem respeito a este fidalgo, 
entretanto não tenho meio de obter aqui as datas do nascimento 
nem dos empregos que sérvio. A parte chronologica sendo indis- 
pensável é totalmente impossível poder sem ella fazer o seu ar- 
tigo. 

Se estivesse ahi este negocio era muito fácil o artigo ; podia 
colhel-as todas nas Genealógicas manuscritas do Cónego de 
S. Vicente Huet na parte em que trata da Familia de Barbacena. 
Os manuscritos deste Frade devem estar hoje ou na Bibliotheca 
Publica, ou na de São Francisco da Cidade onde parece que for- 
marão das Livrarias dos extinctos conventos. 



108 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

Muito me obrigará o Conde se me poder obter estas noções. 
Julgo que o Conde da Barbacena, Francisco, as poderia dar tam- 
bém. Desejo ao menos uma resposta breve sobre este mesmo 
assumpto. 

De Pinchart para o Visconde de Santarém 

Monsieur le Vicomte 

Je m'empresse de vous faire parvenir le fac símile du mss. 
intitule le Marini Senuts, que vous m'avez demande, il y a long 
temps ; je vous prie de croir Monsieur le Vicomte, que ce n'est 
pas par négligence que ce travail ne vous ait pas parvenu plus 
tôt, mais bien par le grand temps qu'il m'a demande, le manus- 
crit ayant été mal relié, la partie du milieu de la carte, reste par 
consequeut invisible, il m'a faliu recourir aux nombreuses et 
mauvaises copies gravées, pour informer un travail parfait, j'ai 
réussi, et j'espére Monsieur le Vicomte, que vous me pardonné- 
rez mon retard en considération du travail, que j'ai du faire. 

En espérant Monsieur le Vicomte, que vous aurez la bonté 
de m'informer le plus tôt possible si cette carte est arrivée à sa 
destination, je vous prie de me croire. 

Bruxelles le 30 Avril le 1840. 

Monsieur le Vicomte, votre três 
dévoué serviteur 

F. J. Pinchart 

Attaché à la Bibliothèque Royale 

P. S. — Les deux ilots marquees au rouge aux iles mayorque. 



(1) Família Barbacena, Casa muito illustre a qual pertencia o illustre, 
chefe de estado maior de D. Miguel. O l.o \isconde de Barbacena obteve o ti- 
tulo em maio de 1661 mas já era o õ.o senhor da vilia. 



VISCONDE DE SANTARÉM 109 



Do Visconde de Santarém para o Conde da Ponte 
(Com outra lettra) Recebida em 6 de Junho 
Paris 18 de Maio de 1840. Rua Blanche, n.'' 40; 

Meu querido Sobrinho e Amigo do Coração : 

Ponho de parte a analyse de um precioso manuscripto do xv^ 
século destinado ao Racued des Savants Étrangers para lhe agra- 
decer as suas estimáveis cartas de 16 e 26 do passado que muito 
prazer me derão. 

Muito teria a dizer ás divisões que Garret fez da Historia, 
mas uma carta tem limites tão estreitos que não é possível con- 
vertela em um trabalho, ou em uma Dissertação. Entretanto vejo 
com prazer que dicessem ahi pela primeira vez cousas novas, e 
importantes a que não estavão costumados ouvidos portuguezes. 
As observações que por agora eu farei consistem em as se- 
guintes : 

l.a Que entende elle por historia Barbara ? A cultura e civi- 
lisação humana não acabou de todo no t.° século com a invazâo 
dos Povos no Norte. No vi*^ e vn° século que forão os da maior 
barbárie em França não o forão na Peninsvila, nem na Itália 
mesmo. Os Godos erão mui diferentes dos Francos. Theodorico 
ha os clássicos, presava as sciencias. Na Península Hispânica 
havia escriptores encyclopedicos como Izidoro de Sevilha ou de 
Beja, e os Godos promulgarão um Código. Ora um povo que pro- 
mulga um Código de Leys não é Bárbaro. Esta é a maneira de 
pensar de todos os críticos, e de todos os publicistas. Ao que vejo 
pela sua carta elle tocou em algumas d'estas cousas. Mas pro- 
fundou-as elle? Julgo que não. A Península não teve em meu 
entender uma época de Historia Barbara, senão a anterior á dos 
Phenicios, e isso mesmo é muito duvidoso quando se lê uma pas- 



110 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

sagem d'Herodoto que cito e analyso na minha obra (1), e outra 
de Cicero sobre a observação de um eclipse feita em Gadix no 
anno de Roma 350. Saltando d'estes tempos remotos ao que elle 
diz que se não poderá entender a historia d'Affonso d'Albuquer- 
que sem ler São Francisco Xavier (2) e Fernão Mendes Pinto (3), 
direi que delia se não entenderá nada se se fizer esta só leitura, 
Que para se entender é necessário ler as tradicções transmittidas 
desde Heródoto, Ctesias, Plinio e Agatharchide, e Marco Polo, 
e Cosmas que prepararão os Planos do Gabinete Portuguez suc- 
cessivamente, e influirão no animo do grande e terrível Albu- 
querque. — Eis-aqui o que digo em um §.° da minha introducção 
á grande obra que preparo. 

«Tous les historiens nationaux ou étrangers ont partagé cette 
admiration et cette surprise d'autant plus sincèremeut qu'ils n'en 
avaient pas su, il faut le dire, apercevoir la moindre trace des 
causes qui preparèrent ce peuple à entreprendre et à exécuter 
les]expeditions maritimes qui ont f ait rejaillir sur lui une si grande 
gloire. 

«lis n'ont point remarque comme Ta fait un illustre savant: 
qu'à toutes les époques de la vie des peuples ce qui tient à pro- 
pager la raison, au perfectionnement de Tintelligence, a ses ra- 
cines dans la passe, dans les siècles antérieurs et cette divisou 
des ages, consacrée par les historiens modernes, tent à séparer ce 
qui est lié par un enchaínement mutuei. 

«Souvent au milieu <l'une inertie apparente des grandes idées 
ont germe dans quelques esprits supérieurs. Dans le cours d'un 
développement intellectuel non interrompu, mais limite pour ainsi 
dire dans un petit espace, de mémorables découvertes on été 
dues à (?) des impulsions lointaines et presque mêmes inaper- 
çues (4). 



(1) Esta allusão á «minha obra» referir-se-ha á mesma de que logo adiante 
fala? 

(2) S. Francisco Xavier o celebre patriarca das índias. 

(3) Fernão Mendes Pinto, Celeberrimo viajante que escreveu interessan- 
tissimos livros d'aventuras e viagens no oriente. Morreu em 1580. 

(4) Humboldt — Exam. Crit du Nov, Cont. (Nota do A.) 



VISCONDE DE SANTARExM 111 

«L'examen des causes successives qui ont amené le peuple 
Portugais à preudre dès le xv» siècle le premier rang dans la 
carrière des découvertes maritimes n'a pas encore été tente. 

«Cest de cet examen que nous allons nous occuper, car cha- 
que époque du genré humain n'est intelligible qu'autant qu'on 
rétudie à Taide d'une connaissence aprofondie des époque ante- 
rieures. 

«L'étude destraditionsmêmesqui se sont transmises d'âge en 
âge devient essentielle dans ces sortes de recherches par Fin- 
fluence immense qu'elles exercèrent sur Fesprit des peuples et 
sur les événements. 

«Les récits d'Herodot sur Texpédition des Tyrien qui fit le 
tour de TAfrique, ceux des Possidonius sur une expédition sem- 
blable renouvelée sous le regue de Darius, ceux de Pliue sur le 
Périple d'Hanon, ceux d'Heraclide de Pont et d'Eudoxe de Cysi- 
que, de Cornelius Nepos, et plutard ceux des Árabes dans le 
Moyen-âge, tous ces recits, n'en doutons pas, ont exerce la plus 
grande influence sur la première tentative qui fút faite par Bar- 
thelemy Dias pour passer le Cap des Tourmeats, et à son tour 
le voyage du célebre marin portugais, fit naítre la résolution à 
laquelle 1'Europe fut plutard redevable de Texpédition de Gama. 

«Déjà antérieurement, etc.» 

N. B. Seria mui longo transcrever aqui a continuação para 
lhe mostrar como os acontecimentos seencadeião e a influencia da 
leitura clássica, e das tradições. Apenas transcreverei outra pas- 
sagem relativa a Albuquerque e o Conde apreciará as minhas 
idéas, e poderá comparal-as com o systema histórico do mesmo 
Garrett. 

«De même Tindication qui dans la rélation du voyage de 
Néarque nous apprend que ITle aujourd-hui appelée Ormuz était 
Tentrepôt du commerce de la cannelle et des marchandises de 
rinde, de même dis-je cette indication suffit pour déterminer 
Albuquerque à s'emparer d'Ormuz, et à se rendre maítre par-lá 
de la plus grande partie du commerce de la Perse avec Finde. 



112 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



D'un autre côté ce savant General conçut le dessein de dérober 
de Nil à TEgypte pour tirer vengeance de Soudaa qui s'opposait 
aux entreprises commerciales des portugais dans la mer Rouge, 
il faut reconnaítre Tinfluence qu'avait exercée sur son esprit les 
récits de Tambassade que dans le XII«> siècle le Calife d'Egypte 
avait envoyé au roi d'Ethyopie pour obteuir qu'il lachât les éclu- 
ses au Nil en faveur de TEgypte, récits auxquels il faut ajouter 
ceux qu' Albuquerque avait trouvés dans rhistoire de Jean Can- 
tacuzéne oíi il est dit que le Soudan TEgypte craygnaut que les 
Jacobites qui étaient établis sur les rives du Nil ne fussent ten- 
tes de changer le cours des eaux de ce fleuve, ne negligea rien 
pour concilier les bonnes dispositions de ces religieux (1).» 



(1) Lendo estes dois extratos, vendo a insistência e o desvanecimento com 
que Santarém se refere tantas vezes á sua obra, e sabendo-se que em 1842 
appareceu o livro intitulado Recherches sur la prioriié ■ (de que se trata na 
Carta xviil), poderia suppôr-se que seria esta o obra citada, ou que pelo menos 
n'ella se incluiria o assumpto especial de que esses trechos se occupam. Per- 
correndo, porém, o vol. das Recherches, n'elle a pag. cm da Introducção, se lê 
o seguinte : «Dans un autre volume que nous nous proposons de mettre sous 
presse dans le courant de cette année, et dans lequel nous examinons les cau- 
ses qui auraient pu préparer les Portugais et les Espagnols à entreprendre au 
xve siècle leurs grandes expéditions maritimes, nous developperons plusieurs 
points de Thistoire des systèmes cosmographiques et des cartes, que nous 
n'avons fait qu'effleurer dans cet ouvrage.» 

Ora o livro publicado em seguida ao das Recherches foi o Essai sur 1'his- 
toíre de la Cosmographie, e poderia então suppor-se que n'elle se incluiria a 
obra de Santarém. Percorrendo cuidadosamente os três volumes publicados da 
Historia da Cosmographia, nada encontrei que se parecesse com os trechos 
transcriptos n'esta Carta; nem as matérias tratadas n'esses três volumes pe- 
diam taes trechos. Entrariam, porém, elles nos subsequentes volumes, segundo 
o plano do auctor ? 

Esse plano é apresentado na Introducção da obra (Tom. l, pag. LX), e por 
elle se vê que esta deveria compôr-se de cinco partes. Os três volumes publi- 
cados por Santarém abrangem a l.a e a 2.a parte, pois, não obstante a pag. 305 
do tomo I se escreve : Fin de la deuxième partie», certo é que os tomos ii e 
m contéem apenas a Suite de la deuxième partie >, e a pag. 459 do tomo iii 
novamente se lê: Fin de la deuxième partie». E foi tudo quanto se publicou. 
Segundo o plano, na 3.a parte deveria o auctor tratar do estado dos conheci- 
mentos hydrographicos na Idade Media; na 4.a dos progressos dos conheci- 



VISCONDE DE SANTARÉM 113 



Cito-lhe apenas estas passagens da m.a obra p.^ que veja que 
não é só pelas obras de S. Francisco Xavier, e de Fernão Men- 
des Pinto que se pode entender a historia d'Aff. " d' Albuquer- 
que. 

Peço ao Conde que não diga m.'» por ahi o systema que sigo 
neste trabalho porque sei que alguém tem feito todas as dilligen- 
cias para mo pilhar antes da publicação e aproveitar-se das m.^^ 
ídeas. Tenho-me negado até agora a fazer a menor communica- 
ção excepto aos gros bonnets da Academia aqui, e que me tem 
não só animado, mas instado com todas as forças para que o 
publique q.*» antes. 

Estou em arranjo com um Liv.° veremos o que se poderá 
fazer. 

Aproposito de publicações remetto incluso um prospecto de 
uma que temos aqui entre mãos e de que já se começou a im- 
pressão. 

Diga-me se a S." D. Leonor da Camará (1) gostou de ler a 
analyse da publicação de Vernhagen? 

Continue a escrever-me as suas interessantes cartas senão 
por todos os paquetes ao menos de 15 em 15 dias. 

Ad.s meu Conde não tenho hoje tempo para mais. Tenho a 
corregir as provas das minhas notas a Schaefer que publica o 



mentos cosmographicos e geographicos devidos aos descobrimentos dos Por- 
tuguezes e Hespanhoes; e finalmente na õ.a parte trataria dos progressos da hy- 
drographia devidos aos descobrimentos dos marinheiros das duas nações. Por 
este prograrama não é facil admittir que a obra de Santarém entrasse na 4.a 
ou na õ.a parte, salvo se o primeiro plano tivesse sido modificado depois. 

Demais, como aliás já se disse n'outra nota, Santarém na sua Carta de 29 
de setembro de 1844, fala em dar a ultima demão á sua ultima obra de erudi- 
ção, na qual se abrange a matéria a que os trechos citados pertencem. 

E assim, considerando tudo isto, somos levados a concluir que a obra se 
perdeu, ou pelo menos que não sabemos onde existe o manuscrito ! 

Como dissemos todas as notas das cartas ao conde da Ponte são do sr. Al- 
meida d'Eça. 

(1) D. Leonor da Camará era aia da rainha D. Maria II e marqueza de 
Ponte Delgada. 

VOL. VI R 



114 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



Liv.° Parent Desbarres e as dos art.o« d. Henrique, e João de 
Barros para as Encyclopédies des Gens du Monde, et du xix» 
Siècle. 

Seu Tio e Am.° f. e Obrg.''" 

Manuel 

P. S. — Recados aos seus e aos meus. Não se esqueça de me 
mandar as notas que lhe pedi sobre o Conde de Barbacena pay. 



Do Visconde de Santarém para Rodrigo da Fonseca Magalhães (1) 



III.""' e Ex.""" Snr. 

Apreço-me em accusar a recepção da obrigante Carta que 
V. Ex.^ me fez a honra de dirigir em data de 8 do corrente e 
que houtem recebi, e agradeço ao mesmo tempo e sem demora 
a íjusliça que V. Ex.« me fez contando que me achará sempre 
prompto para concorrer com os meus fracos meios para tudo 
quanto possa interessar a nossa Pátria. 

Pelo correio próximo espero pois poder remetter a V. Ex.^ 
uma memoria sobre os nossos indubitáveis direitos, e legítimos 
títulos de posse do território Africano hoje chamado casamança, 
remessa que me não é possível fazer em tão curto intervalo. 

4s pertenções dos Francezes sobre a prioridade da desco- 
berta da Guifié tem sido p.' mim aqui refutadas em diversos 



(1) Rodrigo da Fonseca Magalhães, grande liberal, um dos homens de 
1820. Esteve na emigração onde. serviu denodamente D. Pedro. Ministro varias 
vezes, sócio* da Academia. O Visconde de Santarém manteve com elle aturada 
e magnifica correspondência. Morreu em 1858. 

A Correspondência do Visconde de Santarém para Rodrigo da Fonseca Ma- 
galhães, foi copiada do original por deferência do Ex.mo Sr. Conde do Almar- 
jão para com o 3. o Visconde de Santarém de quem é amigo. 



VISCONDE DE SANTARÉM 115 

trabalhos desde que appareceu em 1832 uma obra do Deputado 
Estancelin intitulada = Recherches sur les voyages et découvertes 
des Navigateurs Normands en Afrique obra da qual tirarão quasi 
todos os pretendidos ou suppostos direitos de fantástica priori- 
dade da descoberta da Costa de Guiné, os redactores da obra 
publicada no anno passado por ordem do Almirante Duperré, 
intitulada = iVoí/ces statístique sur les colonies Françaises; III.« 
Partie, ainda que esta ultima é fundada, desde o século 17, em 
documentos, de que aliás é desprovida a parte essencial da 
questão da prioridade, ou anterioridade dos estabelecimentos 
Francezes aos nossos na Costa da Africa Occidental. 

Julgo pois que é a esta obra que V. Ex.^ se refere na sua 
carta. Trato de obter conhecimento dos Tratados que elles alli 
fizerão ou antes dictarão os Chefes Africanos sobre Casamança 
em data de 24 de Março de 1837 e d'Abril de 1838, tratados que 
ameação os nossos estabelecimentos situados naquella parte do 
Globo. 

Posso todavia desde já affirmar a V. Ex.^ que' na famosa, 
chronica da conquista de Guiné, que aqui publicamos, e na qual 
se encontrão detalhes e particularidades mui curiosas sobre as 
nossas primeiras descobertas d' Africa nem uma só palavra se 
diz de terem os Portuguezes encontrado naquellas regiões ves- 
tigio algum d'estabelecimento fundado pelos Europeus, isto é, ou 
de lá do famoso Cabo-Não. Ora este precioso monumento é não 
só authentico, e mandado copiar com grande luxo por El-Rey 
D. Affonso V.° na sua Livraria, mas também tendo-se acabado 
de copiar em 1453 ainda em vida do Infante D. Henrique é como 
uma base, e fundamento documental d'indubitavel fé dos nossos 
direitos. 

Alem daquelle silencio, não é presumível também que, se os 
marítimos de Normandia tivessem estabelecido feitorias na Costa 
de Guiné em 1365 perto de um século antes de nós aportar-mos 
áquellas paragens, como se diz nas duas obras citadas, não é 
presumível, repito, que a Europa inteira ignorá-se, e que os Por- 
tuguezes no meado do «eculo seguinte não encontrassem o me- 
nor vestígio daquelles estabelecim.t^s nem entre os indígenas a 
menor noção a este respeito, nem palavras ou termos da língoa 



116 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

dos primeiros suppostos descobridores. Não é também presumí- 
vel que a França deixa-se de protestar e de nos disputar a posse 
daquelles territórios como fez com os frequentes' armamentos 
contra o Brazil desde o principio da nossa descoberta daquella 
vasta região, indo alli fundar feitorias clandestinam.''' e commer- 
ciar clandestinamente também com os índios. Mas nada disto 
aconteceo com as nossas possessões d' Africa. Nem um só docu- 
mento apparece que possa provar aquella supposta prioridade 
d'estabelecimentos e de direitos. 

Desculpe V. Ex.^ esta digressão antecipada. Densenvolverei 
esta matéria na Memoria que espero ter a honra de derigir a 
V. Ex.=» pelo próximo correio. Rogo entretanto a V. Ex.^ que 
queira sempre contar sem reserva com a vontade e com os dese- 
jos que tenho de servir a V. Ex.« e digne-se aceitar as expres- 
sões de particular estima e alta consideração com que sou 

De V. Ex.^ 

Q^jpg do servidor e f. cap.^° 

M. V. de Santarém (1) 

Paris 19 dè junho de 1840. 



Da Academie Royale des Sciences Belles-Lettres et Arts de 
Roucn para o visconde de Santarém. 

Monsieur le Vicomie 
Rouen 22 Juin 1840. 

J'ai rhonneur de vous accuser la récéption des ouvrages et 
de la lettre qui vous avez bien voulu bien m'adresser et que je 
me suis empressè de presenter à TAcadémie dans la séance de 
vendredi dernier. Une commission a ètè nommée suivant nos 
usages, pour eu faire Texamen e M. le Secrètaire de la Classe 



(1) Os originaes de toda esta correspondência pertencem ao mesmo 
ex.mo snr. conde d'Almarjão descendente do illustre estadista. 



VISCONDE DE SANTARÉM 117 



des Lettres et aura Thonneur de vous ècrire ultérieurement à ce 
sujet. 

J'ignore, Moiisieur le Vicomte, à quelle heureuse circonstance 
je dois la faveur que vous m'avez accordée personuellement, 
mais j'accepte, avec reconnaisance, Toffre que vous avez en la 
bonté de une faire de quelques uns de vos intéressants ouvrages. 

Daignez agréez, avec mes remerciraents Tassurances de ma 
haute et respectueuse considèratiou. 

J'ai rhonneur d'être 

Monsieur le Vicomte 

Votre très humble 

et très obeissant serviteur 

Baslin 

Archiviste de l'Acad. Royal de Roueu — Directeur du Mout 
de Pieté de la même Ville. 

P. S.- 

Votre bonté m'enhardir à vous adresser une demande par la 
quelle je crois de me rendre. 



Do Visconde de Santarém para Rodrigo da Fonseca Maga- 
lhães. 

111.'"° e Ex.""" Sr. 
26 de Julho de 1840. 

Apresso-me em accusar a recepção da Carta que V. Ex.^ me 
fez a honra de dirigir pelo. ultimo Paquete, em resposta a que eu 
escrevera ao Sr. Conde de Viila Real em 19 do pp. Permitta-me 
V. Ex.'* que antes de tratar do assumpto a que a mesma se re- 
fere, lhe agradeça cordialmente as finas, e obsequiosas expres- 
sões de que V. Ex.'^ se serve a meu respeito, e que lhe segure 
ao mesmo tempo, que terei sempre o maior prazer não só em 



lis CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

continuar a communicar a V. Ex." todos os esclarecimentos que 
possão interessar a dignidade da nossa Nação, mas também, 
quaesquer outros que possão interessar particularmente a V. Ex.^. 

Em 4 e 19 do corrente dirigi ao Sr. Conde de Villa Real a 
copia de uma Memoria que fiz, acerca dos nossos direitos á 
posse, e domínio da Casamansa. 

A estas horas, V. Ex." terá já em seu poder a dita Memoria. 
Pelo próximo correio conto enviar a V. Ex." a jcontinuação, isto 
é o § X.*^ no qual provo pelo exame das antigas cartas geográ- 
ficas desde o século XV muitas das quaes são inéditas, que as 
denominações de Petit-Dieppe e Sestro-Paris senão encontrão 
senão nas Cartas Francezas posteriores á obra de Villa ut de 
Bellefont, isto é ao meado do século 17, e que em as ditas Car- 
tas anteriores áquella época se encontrão legendas, ou notas, e 
o Guião Portuguez na Casamansa, ou indicação usada na Carto- 
grafia da nossa posse, conforme o uso praticado pelos Cosmó- 
grafos, da Idade Media, e continuado pelos successores até quasi 
aos fins do XVII.» século. 

Pela parte da dita Memoria já remettida,'não terá por certo 
escapado á penetração de V. Ex.a, pela leitura delia, que eu tra- 
tei de desbaratar em primeiro logar os argumentos de algumas 
obras Francezas, argumentos, que produzirão as asserções for- 
mais que se encontrão na obra publicada ultimamente pelo Mi- 
nistério da Marinha, e por me parecer que a dita refutação era 
essencial, visto que tem sido pela propagação de taes erros que 
os Francezes julgarão ter direitas á Casamansa, e concederão 
privilégios a companhias commerciais, com faculdade áe funda- 
rem Feitorias naquelle território, o qualem meu entender nos 
pertence pelo descobrimento, pela posse indisputada, por mais de 
2 séculos, por estar comprehendido dentro das antigas demarca- 
ções geográficas dos domiuios Portuguezes de marcações reco- 
nhecidas pelo Direito Publico, e Convencional antigo, e que de- 
mais nos não foram contestadas, antes reconhecidas, pelos 
soberanos Francezes. 

Alem dos documentos que devem ser consultados, e que citei 
no § IX.*' parece-me mui conveniente que V. Ex.*^ haja de man- 
dar examinar na Torre do Tombo os numerosos documentos das 



VISCONDE DE SANTARÉM 



119 



disputas que tivemos com a França sobre prezas feitas pelos 
Francezes, e piratarias por elles comettidas no reinado d'El-Rei 

D. João 3.« 

E' verdade que a maior parte destes documentos dizem res- 
peito as questões que houverão entre nós e a França sobre as 
viagens clandestinas que os Francezes então fazião ao Brazil, e 
aos estabelecimentos que á força alli fundarão também clandes- 
tinamente (depois do nosso descobrimento daquelle continente) 
afim de fazerem o contrabando do páo Brazil &.^ mas entre os 
ditos documentos, ou das passagens d' alguns d'elles, talvez se 
possão colher noticias preciosas para esclarecer ainda mais a 
questão das nossas possessões, e commercio exclusivo da Africa 
Occidental. Francisco d' Andrade na chronica d'El-Rey D. João 
3." falia da embaixada que no anno de 1522 este soberano man- 
dara a Francisco 1.° para reclamar prezas, e evitar que os Fran- 
cezes se fossem estabelecer no Brazil, e Conquistas. Mas este 
chronista, assim como todos os nossos historiadores são mui só- 
brios em relações, e nas particularidades dos factos que interes- 
são á Politica, e por estes respeitos é necessário a cada passo 
examinar os documentos conforme a critica da Escola filosófica, 
e positiva dos nossos dias. 

Para esta negociação foi pois nomeado João da Silveira. De- 
rão-se-lhe instrucções datadas de 5 de Fevereiro de 1522 para 
reclamar a restituição das prezas feitas pelos piratas Francezes. 
(Achão-se na Torre do Tombo Corp. Chron. P. 1.^ maç. 27, doe. 
103). 

Forão expeclidas ao dito Embaixador novas instrucções em 
18 de Fevereiro do dito anno (do Arch. Corp. Chron. Part.^ 1.^ 
maç. 27, doe. 109). 

Em 25 d'Abril do anno seguinte de 1523 o dito Embaixador 
escreveo sobre as prezas que os Francezes fizerão de navios 
nossos (Ibi maç. 29, doe. 64) e por outro documento de 12 de 
Setembro deste anno, parece que os Francezes havião capturado 
navios nossos perto d'Azamor (Ibi Gav. 20, Maç. 5', nP 16). A es- 
tas depradações seguirão-se represálias por parte de Portugal 
em consequência do que Francisco I mandou estabelecer em 22 
de Março de 1525, uma commissão de .Juizes em Bayona para 



120 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

sentenciarem as causas sobre prezas entre os seus vassallos, e 
os de Portugal (Ibid. Gaveta 15 maç. 24, n.« 2). 

Todavia estas contestações não indispozerão muito as duas 
Cortes, visto que se tratou ao mesmo tempo do casamento da 
Infanta D. Maria com o Delfin, e que El-Rey D. João III mandou, 
por seu Embaixador em Hespanha, visitar Francisco I que então 
se achava prisioneiro no Castello de Madrid, e se interessou 
muito pela sua liberdade como consta pelas negociações, e pela 
carta do mesmo Francisco í de 14 d'outubro de 1525, que está 
na Torre do Tombo, (corp. chron. P.^ 1. uu. 33 doe. 12). 

Sem embargo disto, e dos matrimónios entre as duas Famí- 
lias de Portugal e França, sem embargo, digo da parte que tive- 
mos na soltura de Francisco I este soberano se apossou em 1527 
a titulo de empréstimo para a guerra, do dinheiro das prezas 
dos navios portuguezes, como se vê de uma carta de Jacome 
Monteiro, residente em França de 10 de Março (Ibi Corp. Chron. 
Parte 1." maç. 36, doe. 30). 

As piratarias comettidas pelos' Francezes sobre os nossos na- 
vios que vinhão das conquistas, e as represálias por nossa parte 
continuarão durante os annos de 1528, 29, 30 e 31, mas no anno 
seguinte de 1532 encontro um documento do maior interesse no 
que diz respeito aos nossos direitos a parte da Africa Occidental, 
e á Casamansa, documento que conjunctamente com as outras 
provas e argumentos que produzo na minha Memoria, prova a 
nossa justiça. Este documento, é uma ordem datada de 28 de 
Junho de 1532, a reclamação da embaixada de Portugal em 
França pela qual o Almirante de França prohibe hirem navios 
de guerra a Guiné, e ao Brazil (Arch. da Torre do Tombo Corp. 
Chron. Parte 1.^ maç, 49, doe. 32). 

Ora se os Francezes tivessem fundado estabelecimentos na 
Guiné, e na Africa Occidental, se elles tivessem a Uberdade de 
estabelecer Feitorias na Casamansa, o Almirante Francez prohi- 
biria aos navios aos Navios da sua Nação de irem áquellas pa- 
ragens? Certamente não. 

Portanto os Francezes reconhecião o nosso direito naquellas 
possessões, e territórios, e ao seu commercio exclusivo com os 
ditos territórios. 



VISCONDE DE SANTARÉM 121 



Tres ânuos depois (9 de Fevereiro de 1835) forão nomeados 
commissarios para julgar dos roubos e represálias (Doe. gav. lõ, 
maç. 1, n.o 2) e seguirão-se as conferencias de Bayona das 
quaes ha muitos documentos e até allegações jurídicas, que con- 
viria talvez examinar, e sobre tudo o Tratado de 15 de Julho de 
1536 entre Portugal e França, o qual é inédito, e de que apenas 
tenho aqui a indicação, e que existe no Archivo Corp. Chron. 
Parte 1.^ maç. 57, doe. 65. Francisco I mandou observar este tra- 
tratado e suas Estipulações por carta de 8 de Agosto do dito 
anuo (Ibi Corp. Chron. Parte 1.^ maç. 57, doe. 80). 

Finalmente por carta de Francisco I, datada de 27 d' Agosto 
do dito anno de 1536, aquelle soberano mandou restituir as to- 
m adi as aos Portuguezes e Castigar os culpados como quebranta- 
dores da Paz (Ibi corp. chron. Parte 1.^ maç, 57, doe. 94). 

Mas sem embargo desta ordem os armadores Francezes con- 
tinuarão a ir fazer o commercio de contrabando ao Brazil, e 
mesmo á índia, e a capturarem e a roubarem os nossos navios, 
e por nossa parte continuarão também as represálias e as nego- 
ciações, de maneira que ainda isto durava no anno de 1550 
tempo em que existião duas commissões uma em Lisboa e outra 
em Paris para julgarem das prezas, como vejo de vários extrac- 
tos que tirei em outro tempo da preciosa collecção de Mss. de 
S. Vicente de Fora. 

Resta-me finalmente pedir a V. Ex.» mil desculpas por esta 
longa e enfadonha carta, e que acredite nos sentimentos da alta 
consideração com que tenho a honra de ser. 



De V. Ex.a 
o mais att.o serv.'^*"' ef cap.*^ 

Visconde de Santarém 



122 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

Do Visconde de Santarém para o conde da Ponte 

(Tem no fim a data de 8 d'Agosto de 1840) 

Meu querido Sobrinfio e Amigo do Coração 

Os novos regulamentos do Correio em Inglaterra vierão lan- 
çar uma incrível perturbação em os meios que antes tinhamos 
para escrever para ahi. Por este motivo o meu silencio tem sido 
tão longo. Tem-me este obstáculo afligido muito, visto que veiu 
mal e sem e sem propósito cortar correspondências litterarias 
que pela primeira vez começava a estabelecer com algumas pes- 
soas dessa terra, e mui particularmente privar-me de lhe escre- 
ver, o que me custava mais do que tudo. Aqui tem pois a justi- 
ficação do meu silencio. Agora agradecerei a boa cartinha que 
me escreveu em data de 18 do p. da fresca e bella Cintra, onde 
passei dias bem agradáveis em outro tempo. 

Falla-me do que ahi se passou a meu respeito na Camará 
dos Deputados. Com effeito vi com admiração que se resusci-, 
tasse um morto como eu, em tal distancia, e esquecido á tantos 
tempos ! Comtudo como eu com o meu paiz, sou como os aman- 
tes que apesar de conhecerem os mil defeitos da sua querida, 
nem por isso deixam de ser apaixonados, não deixei, nem deixo 
de muito me interessar por elle. 

Em todo este negocio estou muito obrigado a seu sogro que 
tanto que me escreveo, como no que fez me deu novas provas 
de antigo cavalheiro. 

Quanto á pergunta que me faz de quando publico a minha 
obra, respondo, que logo que um Editor queira fazer a despeza 
da impressão. Comtudo neste intervallo tenho publicado muitas 
cousas, e diversas obras teem publicado notas minhas. 

Recebi as notas para a biografia do conde de'Barbacena Pay. 
O artigo já está impresso e hontem corrigi a ultima prova. In- 
cluo aqui um pequeno artigo biográfico do Infante D. Henrique. 

Quanto ao seu projecto da publicação da correspondência de 
Fernando Dourado que encontrou entre os Mss. do Sr. Marquez 



VISCONDE DE SANTARÉM 123 

de Sande, approvo-o muito tanto mais que o maior serviço que 
se pode fazer á Historia de um paiz, é publicar os documentos 
inéditos dellle. Quanto á vida de Fernando Dourado, algumas no- 
ções tinha já colligido, delia, para a minha grande historia diplo- 
mática. Mas onde existirá isso hoje? Entretanto mandar-lhe-ei 
sem embargo disso, uma noticia acerca delle a qual poderá ser 
publicada como diz. 

Diz-me que me divirta, e que goze d'este Paraizo. Bem desejo 
poder divertir-me, mas desgraçadamente faltão-me até os meios 
quasi indispensáveis para viver! Tem sido um milagre ter podido 
existir aqui á 6 annos sem receber d'ahi um real á mais de 5 ! ! 
Tenho tido momentos da maior aflicção durante este tempo, e 
se não fosse a minha constância, e o grande sangue frio que 
conservo na adversidade já á muito teria succumbido mesmo no 
centro destas delicias ! Os annos, e os trabalhos não se passam 
debalde ! Começo a sentir-me cançado, vejo que se aproxima a 
passos largos o termo desta tragi-comedia, e a barbaridade de 
me vêr privado de tudo, depois de trinta annos de serviços, 
unida ap rigor dos Invernos, bem depressa darão cabo de mim. 

Segundo me consta, por alem via, o conde de Vianna, e a fa- 
mília, o rechunxudo Freire e M.'"'^ e a sua preta, e não sei quem 
mais, vão partir para esse Reino a 20 deste mez. 

O trabalho que enviei sobre as possessões d'Africa Occiden- 
tal, é muito curioso apesar de ter sido feito com a maior rapidez 
em pouco mais de uma semana, isto consagrando-lhe apenas 
duas horas pela manhã (1). Estou com muita curiosidade de ver 
o que o S. Luiz (2) hoje Patriarcha, fez sobre o mesmo objecto, e 
que o Ministro do Reyno annunciou na Gamara achar-se já no 
prelo. Entretanto estou certo que apesar do muito saber daquelle 
litterato, lhe seria impossível fazer em Portugal sobre este obje- 
cto o trabalho que acabo de fazer aqui, visto que nesse Reyno 
faltão os subsídios que aqui sobejão. Somos pobríssimos ahi em 



(1) Este trabalho não é citado por Innocencio. 

(2) Foi Francisco de S. Luiz, cardeal Saraiva, successor de Fr. Patrício da 
Silva no Patriarchado de Lisboa. 



124 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

Cartografia. Muitos dos nossos monumentos geográficos, e digo 
mais, os principaes estão aqui, e alguns dos séculos xv e xvi a 
que servirão d'elementos as cartas náuticas dos nossos primei- 
ros descobridores estão igualmente aqui, e no museu Britauuieo 
dos quaes existem aqui as copias, bem como as das famosas 
Cartas Italianas, e das Bibliothecas Allemãs. A Repartição das 
Cartas Geográficas da Bibliotheca Real, o Dépôt de la Guerre, 
a Bibliotheca da Marinha offerecem de 100 mil cartas; conse- 
quentemente só em Paris se podem fazer trabalhos deste género 
Aqui existe reunido em collecção tudo quanto se acha espalhado 
pelo mundo. Em breve este meu trabalho vai ser impresso aqui, 
visto que tenho editor que mui liberalmente se offereceo para 
fazer as despezas. Estou certo que ganhará na venda, e eu fi- 
quei muito contente apesar do enorme trabalho que esta parte 
me tem dado de achar quem me fizesse a despeza ! ! ! 

ADs. meu bom amigo. Continue a gosar dos ares de Cintra. 
Esse paiz é clássico em souvenirs. Ha ahi restos Romanos, Ára- 
bes, dos Templários, da Idade Media, dos triumphos da índia, e 
da celebre revolução feita por uma franceza que fez prender o 
Marido para casar com outro, e que não contente da bagatella 
do divorcio, concorreo para que se lhe tirasse a Coroa. 

Peço os meus cumprimentos para a Sr.^» Condessa, e muito 
estimarei que os ares de Cintra dêem a S. Ex.^ tudo quanto me- 
rece. 

Seu tio e amigo fiel 
M. V. Santarém 

Paris 8 d'agosto de 1840. 

PS. — Esquecia-me dizer-lhe que me mudo para não passar 
segundo inverno ao pé das Barreiras. Vou para o n.° 17 Rue de 
Larochefaucauld, mas isto só terá logar no meado de Setembro. 



VISCONDE DE SANTAREiM 125 



Do Visconde de Santarém para Rodrigo da Fonseca de Ma- 
galhães. 

Ex.'"" Sr. 

Pelo ultimo Paquete tive o gosto de receber a carta que 
V. Ex.a teve a bondade de me escrever, em data de 19 do p. pela 
qual me annuncia que pelo próximo Paquete mandará ordem 
para serem postas á minha disposição 200 £ S. a fim de se pa- 
gar a impressão da obra que fiz relativa á prioridade dos nos- 
sos descobrimentos na Costa d' Africa, e aos direitos que temos 
á Casamansa. 

Queira V. Ex.a receber os meus agradecimentos, e ao mesmo 
tempo acreditar no sentimento profundo que tenho de que as 
minhas actuaes circumstancias me não permittão fazer estas des- 
pezas á minha custa em um objecto de interesse nacional, no 
que eu teria uma verdadeira satisfação. Mas desgraçadamente 
não tenho agora os meios que tinha á 20 annos quando gastei, 
só para os trabalhos da minha grande obra do Corpo Diplomá- 
tico dos Tratados de Portugal com as Potencias estrangeiras, mais 
de 4 contos de reis. 

Logo que recebi a carta de V. Ex.^ fui tratar da continuação 
da impressão, e espero que este trabalho acabará para sempre 
com taes pertenções estrangeiras, e ao mesmo tempo servirá de 
dar á Historia das nossas gloriosas navegações e descobrimentos 
a illustração documental, e scientifica que até agora se lhes não 
tinha dado. 

Permitta-me V. Ex.\ pelo vivo interesse que V. Ex.^ tem 
tomado nesta importante empreza, que acrescente que, me pa- 
rece ser do mais alto interesse que ao mesmo tempo que o mais 
antigo, e precioso monumento histórico Portuguez vai ser divul- 
gado e restituído á nação, isto é a Chronica d'Asurara, lhe sejão 
igualmente restituídas, pelo menos parte das preciosas Cartas 
inéditas que existem aqui, isto é só a parte da nomenclatura 
hydro-geografica acompanhando a parte das costas e territórios 
onde tremulão os estandartes Portuguezes como testemunhos 
indubitáveis da nossa posse e dominio. 



126 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

Se V. Ex.« pois approvar o meu projecto, farei tirar os Fac- 
Similes das ditas Cartas em lithographia por ser mais barato, e 
juntalos-ei como provas nos documentos da Memoria, a qual 
serve igualmente d'illustraçâo á Chronica, e ficará por este modo 
o nosso Portugal com as bases publicas, e incontestáveis dos 
seus direitos, e dos testemunhos da sua gloria, tanto na dita 
Chronica da Conquista de Guiné por Azurara, á qual tenho jun- 
tado mais de 150 notas históricas, geográficas, philologicas &. 
mas tão bem com as cartas dos seus cosmógrafos dos séculos xv 
e xvi«^ que attestão que forão os Portuguezes que fornecerão pelos 
seus descobrimentos e conquistas os elementos históricos e 
hydrograficos á cartografia de todas as nações modernas e com 
esta publicação se cortará pela raiz toda a pertenção e toda a 
discussão scientifica e politica acerca do assumpto relativo ao 
descobrimento e posse daquelles territórios. 

O Governo Hespanhol faz publicar aqui á 2 annos a esta 
parte uma nova Historia geográfica, militar, politica, e natural 
da ilha de Cuba por La Sagra, cuja publicação se continua. Este 
trabalho é feito com muito luxo, e tem custado muito dinheiro, 
e isto acerca de um paiz, sobre o qual se não agitarão as ques- 
tões que acerca dos nossos descobrimentos se tem levantado, e 
de cuja ilha tem já estava muito bem descripta a sua Historia. 

Na dita obra se publicarão os Fac-similes da ilha de Cuba, 
taes quaes se achão nas antigas cartas, e La Sagra publicou tão 
bem uma grande porção da famosa Carta de João de La Cosa 
de 1500, e cujo original existe tão bem aqui. 

O mesmo direi acerca da obra sobre as ilhas Canárias que 
Webb e Berthelot publicão aqui desde o ultimo ministério de 
Mr. Guizot, e com o auxilio pecuniário do Ministério da Instruc- 
ção-Publica, á qual vão juntar os Fac-similes das duas ilhas tira- 
dos das cartas de Beniucasa de 1466, e de Testu de lõõõ. Mas 
sobre este assumpto não darei passo algum sem ulteriores deci- 
sões de V. Ex.^ 

Sinto dizer a V. Ex.^- que desgraçadamente o opúsculo do 
Sr. S. Luiz de que V. Ex.'' me anuuncia a remessa, me não foi 
entregue, e sinto isto tanto mais, quanto o meu desejo de ver 
este trabalho é impaciente, e bem justo. 



VISCONDE DE SANTARÉM 127 

Peço a V. Ex.^ mil desculpas por abuzar da sua bondade 
com uma tão longa Carta e queira aceitar as expressões de 
estima e alta consideração com que tenho a honra de ser 

111.™° Ex™° Snr, Rodrigo da Fonseca de Magalhães. 

De V. Ex.3 
M.*° obg.^° serv.'^°'' af. c.^ 

Visconde de Santarém 
2 de Nov.« de 1840. 



Do Visconde de Santarém para Rodrigo da Fonseca 

III.""' e Ex.""' Sr. 

Apreço-me em accusar a recepção das duas cartas que V. Ex.^ 
me fez a honra d'escrever nas datas de 22 e 23 do p., e renovo 
os meus agradecimentos pelas expressões que a meu respeito 
V. Ex.» se digna dirigir-me em ambas ellas. 

Recebi igualmente uma communicação do Presidente da com- 
missão do Thesoiro em Londres acerca das ordens que lhe tinhão 
sido enviadas. Finalmente recebi pelo mesmo correio os 6 exem- 
plares do opúsculo feito pelo Sr. S. Luis, cuja remessa muito agra- 
deço também a V. Ex.^ 

Felizmente a forma da ultima folha da minha 1^ Memoria 
não tinha sido ainda desmanchada, mandei logo prevenir o Im- 
pressor de que hia continuar a enviar-lhe mais manuscripto. 
Por esta forma este trabalho sendo seguido, e methodico, fica 
mais regular, e scientifico do que, se as addições ficassem sen- 
do mais extenças do que a parte principal da obra. 

Tenho a honra d'enviar a V. Ex.» outras duas boas folhas. 

Estou certo que V. Ex.« achará n'estas grandes differenças 
do mss. que tive a honra d'enviar, e isto tanto no que diz res- 
peito á discussão, como nas das provas e fundamentos delias. 

Fique V. Ex.^ descançado que não só aparecerá a traducção, 
mas também nos Jornaes scientificos, e poUticos aparecerão em 



128 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTF.RARIA 

seu devido tempo, extractos, e analyses deste trabalho, as quaes 
hão-de infalivelmente exercer uma grande influencia tanto na 
opinião aqui, como nos outros paizes. Todas as analyses serão, 
como espero favoráveis pois tenho disto a mais firme convicção 
em razão da minha posição litteraria neste paiz, e das relações 
que tenho com os homens mais influentes nas Sciencias, e nas 
Lettras, tanto mais que sendo eu mesmo um dos collaboradores 
dos =^ Annales des Voyages, do Buletin, e das Memorias da So- 
ciedade Geográfica, e hoje Presidente da mesma, em consequên- 
cia do impedimento do Min.'' d'Estado, tenho meio de dispor des- 
tas importantes publicações. 

Agora direi a V. Ex.'' que, quando se começou a impressão 
da minha Memoria, o meu projecto foi de enviar a V. Ex.^ 200 
exemplares desta publicação, e distribuir aqui, e em Londres 
alguns, e enviar um exemplar a cada uma das grandes Acade- 
mias da Europa de que sou Membro, e fazer vender os outros 
para o embolço de uma parte da despeza pelo menos, mas des- 
de que V. Ex.« teve a bondade de me annunciar que autorisaria 
as despezas que eu fizesse com esta empreza, desde esse mo- 
mento fui desfazer o arranjo que tinha feito com o Livreiro edi- 
tor, e hoje, tanto o que se acha já impresso, e prompto, como a 
continuação que se vai imprimindo, pertence toda ao Governo, 
e por tanto pedirei em tempo opportuno as ulteriores ordens de 
V. Ex.^, acerca do numero de exemplares que poderei conservar 
afim de os distribuir cá por fora. Quanto á totalidade, esta será 
por mim enviada a V. Ex."^ para lhes dar o destino que lhe pa- 
recer opportuno 

Pelo que respeita porém á traducção Franceza, em outro 
Paquete terei a honra de dizer alguma cousa sobre este as- 
sumpto. 

Sobre a Carta do Atlas de Vaz Dourado que existe no R. Ar- 
chivo da Torre do Tombo, o favor que a este respeito pedi a 
V. Ex.» consistia no seguinte. 

Necessito pois que se me envie a nomenclatura que existe 
na Costa Occidental d' Africa a partir do Cabo Bojador para o 
Sul, e que o dito Cosmógrafo indicou na Carta daquella região 
que se encontra no seu Atlas ; e outrosim que se me diga quaes 



VISCONDE DE SANTARÉM 129 

são os Pavilhões, ou Estandartes que se vêem pintados sobre a 
dita Costa, ou no interior das terras, e as nações a que per- 
tencem. 

Aproveito de novo mais esta occasião para renovar as ex- 
pressões de alta consideração com que tenho a honra de ser 

De V. Ex.a 
Paris, 8 de Novembro de 1840. 

M.*° obgr.'*'' Servidor e f. cr. 

M. V. de Santarém 

Do Visconde de Santarém para Rodrigo da Fonseca 

III."''' e ExJ"° Sr. 

Tenho a honra d'accusar a recepção da Carta que V. Ex.« 
teve a bondade de me escrever em data do 1.° do corrente, e 
que acompanhava a copia da Carta d' Africa Occidental do Atlas 
de Vaz Dourado. 

Muito agradeço a V. Ex.^ esta importante remessa. A dita 
copia é na verdade um trabalho de primor pela nitidez com que 
foi feito, e muito importante pelas noções, e provas scientificas, 
e históricas que fornece mesmo para um dos pontos mais inte- 
ressantes da discussão diplomática. 

Muito estimei também ver que me tinha antecipado na mi- 
nha carta de 8 do corrente a corresponder em parte aos desejos 
que V. Ex.» tem a bondade de me manifestar nesta sua ultima 
carta, tendo enviado a V. Ex.'^ a continuação da Memoria até 
pag. 64, e ao mesmo tempo participado a V. Ex.^ do aviso que 
me tinha sido feito pelo Presidente da Commissão do l^hesouro. 
Agora tenho a honra de certificar a V. Ex/^ que as 200 £ me 
foram já aqui entregues hontem. 

Espero em breve poder enviar a V. Ex.^ outra boa folha que 
vai até pag. 80. Tantos os §§.°s ou capítulos que já estão impres- 

VOL. VI 9 ' 



13Ò CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

SOS, como os de que já dei o mss. para a impressão são os se- 
guintes, os quaes são mais extensos, e mais fortes em provas do 
que os que existem já em poder de V. Ex.=» 

§VIÍ 

«Mostra-se que assim como a supposta priori- 
dade dos descobrimentos d' Africa Occidental pelos 
Normandos só foi sustentada por alguns escripto- 
res Francezes do século xvii.^ do mesmo modo os 
documentos públicos officiaes ultimamente citados 
na obra = Notices Statistiques &.. Só datão do mea- 
do do mesmo século. 

§ VIII 

Prova-se que o Rio, e Território da Casamansa 
foi igualmente descoberto pelos Portuguezes, que 
delle tomarão posse á perto de quatro séculos, e 
dito território fica comprehendido nas demarcações 
Portuguezas. 

§.« IX.o 

Prova-se pelo exame das cartas geográficas dos 
XV e xv!."" séculos que as denominações de Petit 
Díeppe, e de Serto — Paris só se encontrão pela 
primeira vez em uma carta mss. de um cosmógrafo 
de Dieppe posterior de perto de 2 séculos ao des- 
cobrimento da Costa da Mina pelos Portuguezes. 

§.« X.O 

Mostra-se que as Historias de França, e as mes- 
mas Chronicas Normandas não fazem menção algu- 
ma dos suppostos descobrimentos dos Normandos 
na Costa d'x\frica Occidental. 



VISCONDE DE SANTARÉM 131 



Ponderão-se algumas razões pelas quaes se mos- 
tra a impossibilidade de terem os marítimos de 
Dieppe atravessado o Atlântico no xiv.° século para 
se dirigirem directamente á parailela de 5 gr. N. 
da Linha. 

§.° XII.° 

Prova-se que os Portuguezes do mesmo modo 
que fizerão conhecer á Europa a Costa Occidental 
d' África além do cabo Bojador, forão igualmente 
os Pilotos Portuguezes que conduzirão os Estran- 
geiros áquellas paragens, principalmente os Nor- 
mandos. 

E como esta questão é da mais alta importância para nós, 
como V. Ex.'^ com luminosa politica, e verdadeiro aiiior da Pa- 
Lria, a considerou desde seu principio, pareceo-me opportuno 
acabar com ella por uma vez, e para sempre, e não deixar parte 
alguma sem uma demonstração e prova incontestável, visto que 
a mesma questão envolve em si mesma 1.^' uma demonstração, 
e uma usurpação tentada de uma parte integrante dos Domínios 
da Coroa de Portugal, 2,o por que uma vez encetada, esta pode 
ser seguida de outras mais consequentes, 3.° por que esse esbu- 
lho se pertende autorisar, disputando-nos, não titulos contestá- 
veis, e recentes, mas sim os mais autênticos documentos, os 
brazões, e os direitos mais legítimos da nossa gloria entre as 
Nações do Mundo, preparando-se a opinião cá por fora por meio 
da propagação de factos suppostos, e fabulosos por mais obras 
ahas interessantes, e por isso mesmo mais perigosas, nas quaes 
muitas vezes somos chamados Orgulhosos usurpadores !II tendo 
taes AA. em vista não a applicação delias a propósito de um 
ponto isolado como a Casamansa mas sim a toda a parte d' Africa 
por nós descoberta, e conquistada, e que dois delles, que alias 
são ambos Membros da Camará dos Deputados, levarão ainda 
mais longe, pertendendo que os Normandos dobrarão até o Cabo 



132 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

da Boa Esperança, e navegarão no mar Indico, e em outras par- 
tes antes de nós!! 

Em quanto um, ou outro viajante preocupado de prejuízos 
Provincianos, e carregado de ignorância dizia antigamente des- 
propozitos taes, tanto a relação da sua viagem, como os taes 
desatinos recebião o castigo proverbial do despreso pelas men- 
tiras que sempre se attribuião ás habituaes exagerações delles, 
mas hoje não acontece o mesmo neste caso, já não é Villau, 
nem o Abbade Demanet, são homens collocados em cargos emi- 
nentes que propagão estes factos suppostos, e que apesar de 
serem fabulosos recebem o apoio pratico de governos podero- 
sos, como se os direitos fossem reaes, e verdadeiros, como ve- 
mos na questão da Casamansa. 

Alem d'isto, permitta-me V. Ex.^ que lhe diga confidencial- 
mente, visto que V. Ex.« me autorizou a dizer-lhe alguma cousa 
na parte politica, pela carta que me fez a honra d'escrever em 
23 do p, que observo aqui depois da extensão que se tem dado 
á conquista d'Argel, um grande movimento nos espíritos. Todas 
as vistas se voltão para a Africa, e para a extensão dos seus 
domínios naquella parte do Globo. As sciencias ganhão sempre 
immenso com as explorações Francezas. Ninguém mais do que eu 
as admira, mas por outro lado não deixa de se aperceber a ten- 
dência que se desenvolve a passos de gigante para as cousas 
d'Africa em uma grande escala. A esta tendência dá grande im- 
pulso a febre de especulação que á poucos annos a esta parte 
se tem desenvolvido aqui. Todos os escriptos de homens aliás 
de merecimento respirão este espirito, e algumas vezes atravez 
deste se manifesta o desejo do domiuio. A mesma Abyssinia tem 
sido, e é neste momento theatro de excursões neste sentido. 
Escreve-se para aqui indicando quaes devão ser as mercadorias 
que para alli devem ser exportadas, e até se indica a conveniên- 
cia de animar, e mesmo de extender os elementos do catholi- 
cismo que existem naquelle paiz, como mais um meio de fazer 
alli preponderar a França. D'Abbadie, e seu Irmão, Linant, (1) 



(1) Linant de Belleronds que foi explorador da região do Alto Nilo e da 



VISCONDE DE SANTARÉM 133 

Combe, e Tamissier, e outros exercem já neste assumpto grande 
influencia naquelle paiz pelas relações que tem com os naturaes 
e aqui pela opinião em razão das suas publicações, e das suas 
correspondências. Em quanto por outra parte os escriptos tomão 
um caracter mais decisivo. A' pouco se publicou um sobre as 
relações com o Império de Marrocos, e do partido que destas se 
deve tirar para o augmento do dominio Francez em Africa. AUi 
vem citadas as nossas conquistas, e fundação de Praças de guerra 
em todo litoral daquelle Império, como um exemplo profícuo para 
circunscrever militarmente os Marroquinos, e se apossar do com- 
mercio exclusivo, ou pelo menos faze-lo passar por mãos desta na- 
ção impedir o Imperador de prestar soccorros a Abdel Kader(l). 
Em quanto por outra parte sob os auspícios do Ministério da 
Marinha e Colónias, e á custa deste se acaba de publicar uma 
obra mui interessante que tem o titulo: 

«De la Pêche sur la Cote Occidental d' Afrique et des établis- 
sements les plus utiles aux progrés de cette industrie». 

Nesta obra se mostra ao Governo a grande vantagem de for- 
mar estabelecimentos de Pesca desde o Cabo de Gher até ao 
Gambia. E' acompanhada de uma bella Carta onde se indicão as 
emigrações dos peixes, e o catalogo das espécies é mui curioso. 

Em breve se publicará outra ainda mais importante, e igual- 
mente á custa do Governo em 3 vol. de que é A. Mr. Bonet (2) 
acompanhada de um Atlas. Esta trata da exploração, e reconhe- 
cimento de todas as Costas na Guiné, dos seus portos, enseadas 



Syria. Morreu no Cairo em 1881 o fez os primeiros trabalhos d'exploração do 
canal de Suez. 

(1 ) Abdel Kader foi o grande amir árabe que deu, durante 15 annos, com- 
bate aos francezes depois de pregar a guerra santa e formar um verdadeiro 
reino com Mascara por capital. Contra elle bateram-se Clausel, Cavaignac e 
Bugeaud. O duque d'Aumale foi quem tomou a sua smalah em 1843. Rendeu-se 
em 1847 e foi internado em Toulon e restituído á liberdade em 1853. Tornou-se 
amigo de França, que dá uma pensão aos seus descendentes. Morreu em 1883. 

(2) Pedro Ossian Bonet celebre mathematico francez e professor de as- 
tronomia que escreveu numerosas obras de mathematicas e mechanica. 



134 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

&.« e sobre tudo do commercio que se faz pelos mesmos portos, 
e das vantagens que podem resultar de alli commerciarem &.^ 

Para não escapar nada neste assumpto até se publicou ulti- 
mamente uma Memoria inédita dirigida a Luiz 14 sobre a con- 
quista do Egypto, escripto pelo famoso Leibnitz (1), e acompanhada 
de notas. 

Não entro em mais detalhes para não abusar da paciência de 
V. Ex.^ Fiz apenas as precedentes observações para mostrar a 
tendência que existe aqui acerca desta interessante matéria; e 
para corresponder á recomendação de V. Ex.a mostrando por 
este modo como testemunha ocular o progresso que a este res- 
peito tem feito aqui a opinião tanto mais que a nosso respeito 
esta tem chegado já a resultados práticos como vemos na ques- 
tão da Casamansa, onde se estabelecem Feitorias em pontos mais 
favoráveis do que as em que se achão situadas as nossas, e se 
argumenta em virtude de titulos suppostos, dizendo-se que tudo 
isto é em virtude de direitos de prioridade do descobrimento &.^! 

Villaut escreveo, á perto de 200 annos, foi seguido por muitos 
outros que o copiarão até aos fins do século passado, nenhuma 
refutação se fez por parte de Portugal, veio a época actual na 
qual os escriptos, e a Imprensa dominão tudo, e as pertensões de 
que ninguém fez caso durante tanto tempo converte-se em uma 
discussão de Direitos! 

A publicação da Memoria, e da sua traducção, a dos extra- 
ctos, e artigos analyticos nos Jornaes scientificos e políticos, vai 
preparar a opinião publica em favor dos nossos incontestáveis 
direitos, e apoiar fortemente as transacções Diplomáticas as 
quaes serve de base, e isto no intervalo que tem a existência do 
privilegio da Companhia actual do Galam e da Casamansa, o 
qual expira em Junho de 1842. 

Desculpe V. Ex.^ esta longa, e fastidiosa carta, e digne-se 



(1) Goetfried Leibnitz, o celebre philosopho que descobriu ao mesmo 
tempo que Newton as bases do culculo defferencial, imaginou em philosophia 
o systema das monadas segundo o qual havia entre a alma e o corpo uma 
harmonia prestablecida. Deixou obras magnificas e morreu em 1716. O seu 
nome ligou-se ao seu svsthema. 



VISCONDE DE SANTARÉM 



135 



acreditar nos sentimentos de estima, e alta consideração com 
que tenho a honra de ser. 

Ij mo e Ex.™" Sr. Rodrigo da Fonseca de Magalhães. 

De V. Ex.« 
Obrg.™° servidor e af. Cr. 

Paris, 15 de Novembro de 1840. 

Visconde de Santarém 



Do Visconde de Santarém para Rodrigo da Fonseca Maga- 
lhães 

III.'"'' e Ex. . e Ex.'"" Snr. 

Na conformidade do que V. Ex.-^ teve a bondade de me escre- 
ver nas suas cartas de 2, e 23 d'Outubro e do l.« do corrente na 
previsão de que a somma posta á minha disposição para a pu- 
blicação da Memoria sobre as nossas possessões na Costa d' Afri- 
ca, não seria sufficiente, terei em cosequencia a honra de submet- 
ter nesta carta á consideração de V. Ex.a alguns detalhes acerca 
da parte pratica e financeira concernente á publicação da dita 
Memoria, e seus documentos, e addições, bem como da traduc- 
ção Franceza, e publicação d'extractos nos Jornaes, analyses &.« 

O que vou ter a honra d'expor a V. Ex.% é em resultado da 
experiência que tenho adquirido, em rasão de ter estudado as 
cousas deste paiz, e por ser também escriptor, e por trabalhar 
em diversas, obras scientificas que se tem aqui publicado, e con- 
tinuão a publicar, finalmente por estar em relações com grande 
numero de A. A. de Editores, e mesmo de impressores. 

A imprensa é actualmente mui cara nesta terra por vários 
motivos, sendo um dos principaes, o do augmento dos salários 
dos compositores. Os mesmos Jornaes políticos como o Século 
que se tirão a 43, e 45:000 exemplares experimeutão difficulda- 
des, e só se mantém pelos proveitos que tirão da publicação dos 



136 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

annuncios. Está calculado, direi melhor, está provado, que uma 
Memoria Scíentifica, principalmente sendo uma obra d'erudição, 
e que por isso é acompanhada de notas, e de textos em diver- 
sas lingoas, custa tanto, ou mais em razão das correcções que se 
pagão alem da composição, do que um grosso volume de 500 pa- 
ginas de Litteratura ligeira. Esta despeza é ainda mais conside- 
rável quando a obra é originalmente composta em uma lingoa 
estrangeira. Para isto concorre entre outras a seguinte circunstan- 
cia, a saber que se se exceptua a Imprensa Regia (onde aliás as 
obras custão mais do dobro no que as que se imprimem nos pre- 
los de Didot, e de Crapelet que são as melhores depois delia) 
em todas as outras, os impressores á annos a esta parte para 
diminuírem os salários tem admittido compositores miseráveis, 
e ainda mais correctores ignorantíssimos, de maneira que os A. 
A. são obrigados a corregirem até 7 provas da mesma folha e 
isto mesmo de escriptos compostos em lingoa vulgar! 

A Memoria que publico, é justamente da natureza das publi- 
cações mais dispendiosas pelos motivos que acima pondero e de 
mais pelo resultado de investigações successivas que continuo a 
fazer durante a mesma composição na Imprensa, e em razão de 
novos documentos que descubro e que convém citar pelo menos 
pela sua importância decisiva em tão grave questão, sendo então 
forçoso introduzir o que os compositores chamão = Car/o/z = fi- 
cando assim duas paginas inúteis, e compondo-se duas outras 
de novo; systema que é aliás seguido aqui por todos os A. A. de 
obras desta natureza. 

Para citar a V. Ex.a um exemplo disto, direi que a pag. 39 
da Memoria refutando Villaut quando diz que a palavra Mala- 
guetta é d'origem Franceza, servi-me de uma passagem de Bar- 
ros, como V. Ex.^ verá nas Folhas ultimamente remettidas, não 
tendo encontrado em nenhum naturalista, nem em nenhum Dic- 
cionario a verdadeira etymologia delia, mas parecendo-me que 
o género assim chamado tinha, ou devia ter a sua etymologia 
em lingoa Africana daquellas paragens por ter dado aquelle 
nome a uma parte da Costa da Guiné, continuei as investigações 
a fim de achar uma autoridade que confirmasse o meu juizo, e 
tendo encontrado a confirmação do meu juizo na obra de Samuel 



VISCONDE DE SANTARÉM 137 

Brunon (1617) e na do celebre Gerardo Mercator (1), foi forçoso in- 
troduzir na parte já impressa um dos taes = Cartons = cora estas 
importantes citações, as quaes deitão por terra a asserção de 
Villaut, e dos que o seguirão, e que da tal supposta etymologia 
Franceza tiravão um argumento mais da supposta prioridade 
dos descobrimentos Normandos. 

Alem destas despezas existem outras cujos detalhes são de 
tal maneira minuciosos que seria em mim grande imprudência 
fatigar V. Ex.*» com a delles. 

Comtudo alem do custo da impressão do original, temos a 
despeza com a traducção, a qual posto que não seja tão consi- 
ravel como a do original, tem consigo outras, e avultará quando, 
o importe desta se reunir ao do original, e ambos formarão mais 
de 500 paginas segundo o meu calculo. 

A inserção dos extractos nos Jornaes politicos, é igualmente 
muito dispendiosa, visto que de dois arbítrios que a este respeito 
se podem tomar, ambos são custosos como V. Ex.a mui bem pré- 
vio. Se os extractos são simplices, cada linha custará mais de 1 
franco, e se para se poupar despeza, estes se encurtão, a força 
dos argumentos, e das provas, sendo mutiladas, o effeito que 
necessitamos que elles produzão diminue, e por tanto só podem 
ser os ditos extractos publicados em artigos feitos pelos redacto- 
res da parte litteraria, e scientifica dos mesmos Jornaes, mas 
aqui neste paiz no qual o espirito de ganho domina tudo, estes 
senhores f azem-se pagar mesmo pelos seus maiores amigos. Este 
espirito de ganho é tal, que não só Mr. de Chateaubriand vende 
as suas obras aos livreiros para que lhe paguem as suas dividas, 
e para lhe fazerem, como fizerão uma pensão vitalícia, mas até 
dois homens d'Estado, e ambos ricos e que por vezes tem sido Mi- 
nistros, cada um delles se fez pagar ultimamente 28 e 3$ fran- 
cos por dois artigos biográficos que derão para o Diccionario da 
Conservação, e para uma das Encyclopedias em razão da voga 
dos seus nomes. 



(1) Gerardo Mercaíor foi mathematico e geoprapho. Era flamengo. Morreu 
em 1Õ94. 



138 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



Quanto a alj^uns dos jornaes scieutificos principaes, com es- 
ses mui pouco haverá a dispender, e menos ainda com aquelles 
de que eu sou collaborador como tive a honra de informar a 
V. Ex.^ pelo correio passado, visto que os artigos alli serão pu- 
blicados em virtude de arranjos que farei com a direcção dos 
mesmos jornaes. 

A' vista do que acima tenho a honra de ponderar, entendo, 
pois, que, para todas estas despezas, e a que se deve fazer com 
os Fac-similes de algumas cartas, documentos aliás preciosos, e 
essenciaes, bastarão mais 200 £ alem das que V. Ex." se sérvio 
mandar-me entregar, isto no caso porem de V. Ex.« approvar 
que os Fac-similes das cartas se devão publicar em razão do 
augmento da despeza. 

Quanto ao tempo, e methodo da publicação espero que até 
aos fins do mez que vem a impressão, e publicação do original 
Portuguez poderá estar terminada apesar do Ímprobo trabalho 
das correcções &.'^ 

Puz de parte todos os meus trabalhos para me occupar exclu- 
sivamente deste. A publicação dos documentos, e addições, as 
taboas da nomenclatura hydro-geographica Portugueza, dispostas 
por ordem chronologica das cartas inéditas seguir-se-ha depois, 
e a publicação dos Fac-similes das principaes no caso de V. Ex.* 
approvar também esta ultima publicação. 

As cartas de que me proponho publicar os Fac-similes são 
as seguintes : 

xiv.o Século 

1367 — Carta de Parma dos dois Pizzigani. 

1375 _ Carta do Atlas Catalão da Bibliotheca R. 

1384 — Carta de Pinelli. 

Por estes preciosos monumentos se prova que até aquelle 
tempo nenhum ponto da Costa d'Africa era conhecido alem do 
Cabo Bojador, e que todos os cosmógrafos terminarão a Costa 
d' Africa Occidental naquelle ponto, o que não aconteceria assim 
se os Francezes tivessem formado estabelecimentos desde o anno 
de 1364 alem daquelle ponto, isto é no Senegal, e na Guiné &i.^ 



VISCONDE DE SANTARÉM 139 



xv.o Século 



1436 — Carta d'Andrea Bianco — Extensão da Costa d'Africa 
em consequência dos descobrimentos Portuguezes, nomes Portu- 
guezes, e hydrographia-geographica já marcada segundo os mes- 
mos descobrimentos, como prova irrefragavel da nossa proprie- 
dade. ♦ 

xvi.° Século 



1500 — A do celebre João de la Cosa (1) cujo original existe 
aqui. 

1529 — A de Diogo Ribeiro (2) que foi um dos cosmógrafos que 
assistio ao Congresso d'Elvas no tempo de Carlos v.», e que 
existe na Biblioteca de Weimar e da qual tenho uma copia (é 
igualmente inédita). 

1543 — C. Portugueza da Biblioteca R. de Paris. 

1546 — C. do Atlas do Portuguez João Freire inédito, que se 
conserva na Bibliotheca do Barão Taylor (3). 

1555 — C. do Atlas do Cosmógrafo Francez Testu, inédito. 

Estas cartas provão muitas outras particularides do mais alto 
interesse quanto á prioridade dos nossos descobrimentos. 



(1 1 João de la Cosa era geógrafo e navegador hespanhol que acompauhou 
Colombo na sua primeira viagem e na segunda lhe serviu de hydrographo. Pi- 
loto de Murzo de Hojeda, em 1499 ; em 1504 foi explorar as terras descober- 
tas. Em 1507 encarregaram-no da defeza das costas hespanholas contra os 
portuguezes. 

i2) Diogo Ribeiro foi um missionário jesuita que durante 20 annos propa- 
gou a fé em Salsete. Era muito versado na lingua canianariana e reviu até um 
tratado do padre Thomaz Esteves intitulado Arte da lingua Canariana. Deixou 
manuscripto um vocabulário. Morreu em 16.82. 

(3) O barão Taylor viajante e literato francez que escreveu curiosíssimas 
narrativas. Contribuio para a fundação de diversas aggremiações em favor dos 
artistas e homens de letras. 



140 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



xvii.o Século 

As das cartas dos próprios cosmógrafos de Dieppe ainda iné- 
ditas a saber de 1601, 1625 e 1631, e de outros Francezes de 
1613, e 1666 as quaes são de maior importância porque por ellas 
se provão os nossos direitos. 

Mandei buscar informações, e copias das cartas que perten- 
cerão a Lord Oxford (1) e da do Cosmógrafo de Dieppe Rhoti, 
que que esteve ao serviço de Henrique viii.", as quaes se con- 
servão no Museu Britannico, e do mesmo modo encommendei a 
um collega meu no Instituto de França que se acha actualmente 
em Florença de me enviar as nomenclaturas de outras que alli 
existem, e que são igualmente importantes. 

Pelo que respeita á traducção Franceza esta será publicada 
o mais breve que for possível e depois do original, e traducção 
impressas farei successivamente publicar os artigos analyticos, 
e os extractos dor pontos mais concludentes. 

Resta-me pedir a V. Ex.* mil perdões por abusar do favor de 
V. Ex.3 dando-lhe o trabalho de ler estas minhas longas e fasti- 
diosas cartas. 

Tenho a honra de ser com a mais alta consideração e estima. 

Paris 16 de Novembro de 1840. 

De V. Ex.a 
Obrigadissimo Servidor e fiel creado 

Visconde de Santarém 



(1) Roberto Harley, Conde d'Oxford, chefe do partido Tory e fez o trata- 
do de união com a Escossia. Depois foi accusado de traição pelo seu partido; 
esteve encarcerado dois annos na Torre de Londres e morreu em 1724 



VISCONDE DE SANTARÉM 141 



Do Visconde de Santarém para Rodrigo da Fonseca Maga- 
lhães 

IH.'"o e Ex.'"" Sr. 

Tenho a honra de enviar a V. Ex.« mais outra folha da Me- 
moria sobre a prioridade dos nossos descobrimentos a qual vai 
até pag. èo, e ao mesmo tempo de lhe participar que continuo 
a obter novos, e importantíssimos, documentos sobre este as- 
sumpto. 

Renovo por esta occasião as expressões da alta estima e con- 
sideração estima. 

Paris 23 de Novembro de 1840. 

De V. Ex.^ 
Obrigadissimo Servidor e fiel creado 

Visconde de Santarém 

Do Visconde de Santarém para Rodrigo da Fonseca Maga- 
lhães 

III.'"'' e Ex.""" Sr, 

Não encontro termos assaz expressivos para manifestar a 
V. Ex.a o meu reconhecimento por tudo quanto V. Ex.a me diz 
nas duas Cartas que me fez a honra de escrever em 23 do pas- 
sado, nas quaes cada palavra é uma fineza, e cada expressão 
um novo motivo para a minha gratidão. Certificando pois a 
V Ex.« destes meus sentimento? terei agora a honra de respon- 
der á pergunta que V. Ej^.- me fez, se terei ou não duvida em 
pôr o meu nome na obra cuja publicação integral é aliás devida 
patriotismo e ao zelo illustrado de V. Ex." 

Antes de me resolver a pôr o meu nome na 1.^ pagina, hesi- 
tei alguns momentos se devia ou não proceder assim pelos se- 
guintes motivos. Pareceo-me que a publicação de uma obra na 
qual combatia, do modo mais vigoroso, um facto posto que fabu- 
loso, mas que alguns escriptores, e entre estes, um em nome do 
Governo, tinhão feito acreditar como verdadeiro, do qual resul- 



142 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

tava grande Gloria a esta nação, parece-me, digo que uma tal 
publicação poderia ser considerada aqui como menos delicada 
da minha parte, e pouco conforme com os distinctos, continua- 
dos e extraordinários obséquios que se me tem feito não só em 
Paris, sem excepção de pessoa, nem de Repartição, mas tão bem 
em toda a França, não havendo uma s6 Academia das priuci- 
paes que tenha deixado de me enviar um Diploma de Membro 
delia, mas a estas considerações succederão logo no meu espirito 
outras mais poderosas as quaes exporei a V. Ex.^ com a mesma 
franqueza. 

Julguei, pois, por uma parte, que como homem honrado, devia 
fazer a guerra ás claras, e não a coberto do anonymo, e por 
outras que em uma questão de honra, e gloria nacional, todas 
as considerações por mais relevantes que fossem, devião desa- 
parecer em presença do interesse do meu paiz, tanto mais que 
este arbitrib era o único que podia corresponder tão bem á con- 
fiança que V. Ex.a em mim tinha posto neste negocio aliaz tão 
importante. 

V. Ex.^ verá, pois, por estes respeitos, a Memoria publicada 
com o meu nome, como V. Éx.a desejava, e com a mesma fran- 
queza tenho dito já a muitos sábios, Htteratos e até a emprega- 
dos, que trabalho em uma obra na qual refuto com provas au- 
thenticas os suppostos descobrimentos dos Normandos nas Costas 
Occidentaes d' Africa. Apezar disto tenho tido a satisfação de vêr 
que todos me respondem temos razão. Mesmo um dos da Repar- 
tição da Marinha, e que é aliás muito instruído, mas que era te- 
naz e acérrimo em acreditar os suppostos descobrimentos de que 
se trata, disse-me ainda os dias passados. «Eu serei o primeiro 
a fazer justiça a taes fundamentos, a retractar-me, e a publicar 
a analyse do trabalho de V.» 

A impressão da nossa Chronina d' Azurara vai continuando, 
mas de vagar em razão das muitas correções que ha a fazer ás 
provas, da confrontação destas com o texto original, das notas 
que lhe addiciono, e do glossário dos termos antiquados que lhe 
junto no fim. Estas tem sido em parte as causas da demora da 
publicação, e principalmente por se tirarem no mesmo tempo as 
duas edições, a de 8.° e a de 4.'^ que é bellissima, ornada de tar- 



VISCONDE DE SANTARÉM 143 

jas &.^ provem tão bera esta demora dos enfadonhos e insopor- 
taveis retardos dos impressores, os quaes teem sempre a maior 
parte dos operários occupados com a impressão de um diluvio 
de joruaes de folhas volantes, d'annuncios de toda a espécie, cu- 
jas publicações são de natureza de não poderem sofrer demora, 
mas apesar destes motivos que tem retardado esta publicação, 
já estão impressas 19 folhas das duas edições. • 

Antes da recommendação que V. Ex.^ me fez, já eu tinha ten- 
ção de offerecer a V. Ex.» o 1.° exemplar que o editor me des- 
tinasse. Antes pois da dita obra ser enviada para essa Corte, e 
se pôr á venda e distribuir pelos subscriptores, será enviado um 
exemplar a V. Ex.», a quem, por todos os motivos, esta offerta 
é de dever, e de justiça. 

Hontem se principiou o trabalho dos Fac-similes das cartas, 
algumas das quaes me tem sido confiadas, e que tenho em meu 
poder. Amanhã espero vêr o General Pelet, Director do Depo- 
sito do Ministério da Guerra, afim de lhe pedir licença para se 
tirarem os da que estão na sua Repartição, visto que esta licença 
em razão de não poder eu p.' mim mesmo tirar os ditos Fac- 
similes, e ser necessário autorisar o gravador para proceder ao 
dito trabalho naquella Reparjtição. 

Graças ao zelo e incrível actividade, e illustrado patriotismo 
de V. Ex.^, aparecerá pela primeira vez uma memoria ou Tra- 
tado sobre a prioridade dos nossos descobrimentos, e a Chroníca 
d'Azurara, acompanhada destes documentos authenticos, os quaes 
além do interesse scientifico que resulta do conhecimento delles, 
provão de um modo incontestável os nossos direitos, e reinvin- 
dicão a nossa gloria nacional. 

Renovo, por esta occasião, as expressões de alta consideração, 
e estima com que tenho a honra de ser 

\\\.^° e Ex.'"^ Snr. Rodrigo da Fonceca de Magalhães. 

De V. Ex.'"^ Obrig.'"o servidor e f. c. 

Visconde de Santarém 

Paris 6 de Dezembro de 1840. 



144 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



Do Visconde de Santarém para Rodrigo da Fonseca Maga- 
lhães 

Ill.'"o e Ex."^» Sr. 

Não me foi possível escrever a V. Ex.' pelo correio passado, 
em consequência de ter soffrido muito de uma forte constipação 
produzida pelo rigorosíssimo frio de 14 graus de que fomos 
quasi repentinamente accommettidos, hoje, porém, que me acho 
restabelecido, faço estas duas regras para dar conta a V. Ex. ' do 
progresso que tem feito os nossos trabalhos desde a ultima vez 
que tive a honra de escrever a V. Ex."" 

Em primeiro logar tenho a honra de enviar a folha 6% que 
já está tirada, e que vai até á pag. 96, e espero pelo próximo 
correio enviar a 7."^ que alcança até 112. 

Nesta semana se comprarão mais pedras para se gravarem 
algumas outras cartas, e já obtive outras licenças necessárias 
para o gravador poder tirar alguns Fac-similes em outras Repar- 
tições. 

Entretanto, permitta-me V. Ex.'' que lhe rogue o favor de dar 
as suas ordens para que eu possa ter aqui uma copia do Tra- 
tado de 10 d'Abril de 1388, celebrado entre Portugal e Hespa- 
nha, ácêrca das Possessões Portuguezas, e terras e ilhas situadas 
desde o Cabo Não e Bojador até á Guiné, o qual se acha no 
Real Archivo da Torre do Tombo, Gaveta 18, maço 6, n.° 17, 
pois conto juntar este documento, ou pelo menos um extracto, 
ás provas e addições á Memoria. 

Aproveito mais esta occasião para renovar as expressões de 
alta consideração e estima com que tenho a honra de ser 

111.'"° e Ex.™° Snr. Rodrigo da Fonceca de Magalhães. 

De V. Ex.'' 
Obrig.'"° servidor e f. c. 

Visconde de Santarém 
Paris, 20 de Dezembro de 1840. 



VISCONDE DE SANTARÉM 145 



Do Visconde de Santarém para Rodrigo da Fonseca de 
Magalhães 

III.""' e Ex.'"" Snr. 

Tenho a houra d'enviar a V. Ex.» a folha 7.^ da Memoria 
sobre a prioridade dos nossos descobrimentos, cuja folha alcança 
até pag. 112. A 8.^ e 9.^ já se estão tirando. Muito me tem mor- 
tificado o vagar dos impressores apezar dos vivos e continuados 
esforços que tenho feito para ultimar esta publicação, tudo lhes 
tem servido de desculpa. A composição em uma lingoa estran- 
geira, as ferias que os operários tem tomado em razão das con- 
tinuadas procissões aos inválidos para verem o tumulo de 
Napoleão, as festas do Natal, e os muitos trabalhos que tem a 
fazer, tudo isto pois tem servido de outros tantos pretextos para 
faltarem ás suas promessas. 

Queira V. Ex.'^ aceitar por esta occasião os votos que faço 
com a entrada do novo anno para que V. Ex.* tenha todas as 
prosperidades, desejando que V. Ex.^ aceite tão bem as protes- 
tações de alta estima com que tenho a honra de ser 

111.™° e Ex.™» Sr. Rodrigo da Fonseca de Magalhães 

De V. Ex.a 
M.*° obrg.*^" Servidor ef. cr. 

Visconde de Santarém. 
Paris 2 de Janeiro de 1841. 



Do Visconde de Santarém para Rodrigo da Fonseca de 
Magalhães 

111."'° e Ex.""" Snr. 

Tenho a honra d'accusar a recepção da obrigante carta que 
V. Ex.a teve a bondade de me escrever em data de 4 do corrente 
pela qual dou a V. Ex.a mil agradecimentos, e estes bem since- 
ros, tanto mais que não posso deixar de manifestar a minha 

VOL. VI 10 



146 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

admiração de ver que V. Ex.*» na presença de tantos e tão graves 
negócios que o occupão, pode ainda destinar um instante para 
me dar o prazer da sua carta. 

Concordo inteiramente com o parecer, e patrióticos senti- 
mentos de V. Ex.^ acerca da grande importância, e da necessi- 
dade da união em épocas de crise como as em que nos achamos, 
a fim de nos poder salvar de tantos inimigos. Eu pela minlfa 
parte, e pelo amor que consagro ao meu paiz, desejo do coração 
esta união pelos meus próprios sentimentos, por politica, e pela 
gloria e utilidade nacional. 

Já tenho em meu poder as primeiras provas dos Fac-similes 
de 6 cartas para o Atlas. Ficarão óptimas, e parece-me que hão 
de merecer a approvação de V. Ex.^ 

Em breve espero poder responder d'espaço acerca da generosa 
offerta que V. Ex.*» se digna fazer-me com tanta franqueza, ten- 
cionando propor a V. Ex.''^ um negocio litterario antigamente 
sancionado pelo Ministério dos Negócios do Reyno no reinado 
do S."" Rey D. João 6.", e confirmado de novo durante a Regência 
da S.''^ Infanta D. Izabel, de cujo proseguimento, e conclusão 
tiraria proveito a nação, e V. Ex.*» gloria de o ter protegido. 

Renovo por esta occasião os protestos de* alta consideração, 
e estima com que tenho a honra de ser 

111."'° e Ex."'° Snr. Rodrigo da Fonseca de Magalhães 

De V. Ex.a 
Affectuoso servidor, e mui obrg.*^" cr. 

Visconde de Santarém 
Paris 18 de Janeiro de 1841. 



Do Visconde de Santarém para Rodrigo da Fonseca de 

111.""° e Ex."'° Snr. 



Magalhães 



Tenho a honra d'enviar a V. Ex.^ a folha 9 da minha Memoria 
sobre a prioridade dos nossos descobrimentos Africanos, e que 
alcança até pag. 144. 



VISCONDE DE SANTARÉM 147 



Nesta folha verá V. Ex.a que comecei a destruir também as 
preterições que tinhão os Castelhanos acerca da prioridade do 
descobrimento da Guiné. Na folha 10 que espero enviar a V. Ex.« 
pelo primeiro Paquete, a dita pretenção fica também refutada 
de um modo que me parece sem replica. 

Não me é possivel ser hoje mais extenso como desejava, 
em razão de um grande incommodo que estou soffrendo em 
consequência do rigor da estação. 

Aproveito de novo mais esta occasião para renovar os pro- 
testos de alta estima e gratidão com que tenho a honra de ser 

íll.'"o e Ex.'"^ Snr. Rodrigo da Fonseca de Magalhães. 

De V. Ex.« 
Obrg."^» Servidor, e f. cr. 

Visconde de Santarém 
Paris 25 de Janeiro de 1841. 



Do Visconde de Santarém para Rodrigo da Fonseca de 

Magalhães 

III.""' e Ex.'"" Snr. 

Apreço-me em dar a V. Ex.'^ mil agradecimentos por tudo 
V. Ex.'^ se sérvio communicar-me ija sua obrigante carta de 17 
do corrente e ao mesmo tempo significar-lhe que mui penhorado 
fiquei com a benigna approvação de SS. MM.^^^ 

Se o amor pelo meu paiz necessitasse de ser estimulado, o 
que se passou na Camará dos Deputados a meu respeito na 
sessão do dia 16 bastaria para lhe dar novo vigor (1). Confesso a 



(1) Discutiu-se no parlamento a questão da navegação entre Hespanha e 
o deputado A. Albano referindo-se ao tratado de 1S29 feito com uma Compa- 
nhia Hespanhola e direi serem bem diversos os tempos em que renasce o 
usurpador o quai fazia todos os obséquios á nação visinha mas que hou- 
vesse um ministro que quiz inhibir que se fizesse o tratado como se deseja 



,148 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

V. Ex.« que não poude ler sem experimentar a mais profunda 
emoção, as palavras que alli se disserão a meu respeito, e o 
apoio que ellas receberão da Camará e de V. Ex.^ 

Conforme o que tive a honra de communícar a V. Ex.a em a 
minha carta de 18 do corrente em resposta á generosa offerta 
que V. Ex.a se dignou fazer-me na sua de 4 deste, tenho a honra 
de propor a V. Ex." o seguinte negocio da conclusão do qual 
poderá tirar grande proveito a Nação, e V. Ex.* muita gloria de 
o ter protegido. 

Este negocio consiste na publicação do Corpo Diplomático 
Portuguez, ou Corpo do nosso Direito Publico Exterior, mas por 
agora no da simples publicação dos 5 volumes do Quadro Ele- 
mentar das novas relações com as Potencias Estrangeiras desde 
o principio da Monarchia o qual comprehende mais de cinco mil 
indicações summarias de docum.'°^ desta cathegoria dos quaes 
perto de 4$ são inéditos, e até agora não conhecidos nem citados. 
Este grande trabalho está concluído, e tem-me custado 31 annos 
de investigações, e despezas incríveis, e o mss. existe aqui em 
meu poder. Afim de que V. Ex.=> possa formar uma idea desta 
obra rogo a V. Ex.^ queira ter a bondade de lançar os olhos 
sobre a Introducção que tenho a honra d'incluir (1). A traducção 



ao comercio. Continuava dizendo qae, apesar de ministro do usurpador era 
um homem muitíssimo de bem, d' instrucção europea e probidade reconhecida 
seja-me licito dar-lhe este testemunho sem vós. Quem é?! 
O sr. ministro do reino: o visconde de Santarém. 

(Diário das Sessões, 1841 — 16 de Janeiro). 

Na sessão de 15 também se tratava do assumpto. 

(1) Havendo-me representado o visconce de >antarem que as presidências 
que Eu Fui Servido dar em outro tempo para que tivesse o seu prompto com- 
plemento o interessante trabalho de hum Corpo de Direito Publico Externo 
Diplomático da Monarquia Portugueza, em qi^ o mesmo visconde meritoria- 
mente se tem empregado reduzindo a ordem systematica hum grande numero 
de documentos e arestos da Historia Politica d'estes Meus Reinos, não houves- 
sem procurado todo o effeito desejado e Querendo Eu promover esta empreza 
litteraria, não só pela utilidade que delia pode resultar para o Estado, mas 
também pelo accrescentamento de gloria que do mesmo deve provir para a 



VISCONDE DE SANTARÉM 149 

franceza desta introducção foi muito mal feita, e tendo sido 
publicada estando eu então impossibilitado de a rever não tem 
a correcção de estilo de outros trabalhos que tenho aqui publicado 
em Francez. Releve V. Ex.a pois por estes respeitos algumas 
faltas que alli poderá notar. 

No anno de 1814 em Junho ou Julho o S.' Rey D. João VI 
foi servido pelo Ministério do Reyno, hoje a cargo de V. Ex.», 
não só approvar por dois decretos este meu trabalho, mas tam- 
bém em virtude delle uomear-me futuro successor do Visconde 
d' Azurara, e depois Guarda-Mór do R. Archivo como recompensa 
por uma parte, e pela outra com o fim especificado no Decreto 
de poder assim melhor ultimar esta importante obra nacional. 

A' penetração de V. Ex.a e ao seu saber não escaparão por 
certo as immensas vantagens que resultarão para os negócios, e 



memoria dos Senhores Reis, Meus Augustos Predecessores; considerando outro- 
sim que em quasi todos os Reinos extranho existem públicos cargos dos seus 
Tratados e transacções Politicas, que tem merecido a immediata protecção dos 
Soberanos, e que em Portugal aonde viu se não havia tentado huma collecção 
desta natureza ; e Querendo dar já ao mesmo visconde de Santarém hum teste- 
munho de apreço, em que tenha o seu trabalho no estado em que actualmente 
se acha, e por confiar no seu zelo que o concluirá em breve tempo : E sendo 
outro só de mui grave importância, e preciosidade o meu real Archivo da Torre 
de Tombe, onde o serviço do mesmo visconde veio a ser de muita utilidade; 
por todos estes respeitos : Hei por bem conceder-lhe a Supervivencia do Logar 
de Guarda-Mór do mesmo Real Archivo que actualmente occupa mui distincta- 
mente o visconde de Azurara para n'elle lhe succeder, começando desde já a 
fazer do mesmo ordenado que compete ao mesmo logar : Determinando outro- 
sim que para os trabalhos de que está encarregado, relativos ao Corpo Diplo- 
mático se lhe facilite a entrada na Casa denominado de Coroa, assim como to- 
dos os documentos que elle exigir ; dando-se-lhes dessas copias authenticas, 
extrahidas, ex-offício, e não se lhe levando pelos traslados emmolumento algum, 
na conformidade do Capitulo vigessimo segundo do Requerimento áo dito Ar- 
chivo de 27 de Junho de 1753 e Portaria de 17 de Junho de 1799. O marquez 
de Palmella, meu Conselheiro de Estado, Ministro e Secretario d'Estado dos 
Negócios Estrangeiros, ao presente Encarregado do Ministeri<)s dos Negócios 
do Reino o tenha assim entendido e o faça executar, expedindo as participa- 
ções do estilo onde competir, Palácio da Bemposta, em 13 de Junho de 1824. 
Com a rubrica de Sua Magestade. 

(Documento publicado na Gazeia de Lisboa, em 23 de Junho de 1824.) 



150 CORRESPONDÊNCIA SClEXTlFiCA E LITTERARIA 

relações com as Potencias Estrangeiras, o terem os nossos Minis- 
tros, e Legações, pelo menos um Quadro System atiço no qual 
em poucos momentos se podem pôr ao facto dos precedentes de 
qualquer Tratado, ou negociação, e das fontes onde todos esses 
precedentes se encontrão, bem como na mesma Secretaria 
d'Esíado dos Negócios Estrangeiros pela economia de tempo, 
poder-se alli saber a que documentos recorrer em tal, ou tal 
questão quando esta tem as suas bases em tempos anteriores á 
época dos documentos que existem na mesma Secretaria e que 
alias são todos de uma data recente, pois não remontão ao dela 
dos fins do reinado d'El-Rey D. José, offerecendo esses mesmos 
muitas lacunas. 

Desejo pois deixar á minha Pátria mais esta prova de que 
me occupei delia, ainda mesmo nos momentos mais difficeis da 
minha vida, e este meu desejo é cada dia maior em razão da ra- 
pidez com que os annos desapparecem e me encurtão a existência. 

Tendo pois em meu poder o Mss. do Quadro Elementar, e 
podendo-se imprimir aqui em boa edição, debaixo da minha 
direcção, V. Ex.* me faria um novo, e grandíssimo obsequio se 
auctorisasse esta publicação quando, e como lhe parecer oppor- 
tuno. Parece-me que seria talvez possível poderem publicar-se 
dois vol. cada anuo, e assim em dois annos e meio Portugal 
possuiria esta obra cuja propried.'^ pertenceria ao Governo. 

Para não tomar mais o tempo a V. Ex.a que é alias tão pré-^ 
cioso, reservo-mo para entrar em alguns detalhes práticos a este 
respeito para outra occasião. 

E' comtudo do meu dever de declarar desde já a V. Ex.'^, e 
mui sinceramente, que, ainda que por um motivo qualquer a 
realização do projecto experimente alguma difficuldade, nem por 
isso o meu profundo reconhecimento, e verdadeira affeição e 
respeito por V. Ex.'"^ experimentarão a menor mingoa. 

Tenho a honra de ser 

ni.™° e Ex.^o S.' Rodrigo da Fonseca de Magalhães 

De V- Ex.« 
Obrg."^° e Servidor, e f. cr. 

Paris 31 de Janeiro de 1841. Visconde de Santarém 



VISCONDE DE SANTARÉM 151 

Do Visconde de Santarém para Rodrigo da Fonseca de 

111."'° e Ex.'"'' Snr. 



Magalhães 



Pelo ultimo Paquete tive a honra de submetter a V. Ex.'^ o 
projecto da publicação do Quadro Elmentar das Relações Diplo- 
máticas de Portugal com as diversas Potencias, nesta accrescen- 
tarei ao que então tive a honra de dizer o seguinte. 

A publicação daquella obra feita neste paiz é certamente 
preferível á publicação da mesma obra feita em Lisboa, por isso 
que seria impraticável imprimir-se ahi, fora das minhas vistas 
sem resultarem muitos inconvenientes ; alem do que sendo esta 
publicação feita aqui será mais completa em razão das muitas 
addições com que a vou enriquecendo todos os dias. Por outra 
parte necessito fazer algumas mudanças na mesma Introducção 
principalmente na parte em que fallo da época do domínio dos 
Árabes. Quando escrevi aquellas linhas todo o meu estudo acerca 
da época do domínio dos Árabes na Península tinha sido feito 
nas Livros, e Historiadores Christãos, e consequentemente conhe- 
cia só este ponto por um lado e pelo mais parcial, mas á 6 annos 
a esta parte tenho feito um estudo profundo de todos os escríptos 
dos Árabes que se tem publicado, e de todos os commentaríos 
dos diversos orientalístas, e o meu juízo acerca delles experi- 
mentou uma grande modificação. Graças as conversações do meu 
illustre amigo M."" de Sacy (1), e á minha admissão na Sociedade 
Aziatica em 1834, hoje aprecio a Epocha Árabe por outro modo. 
Permitta-me V. Ex.^ um pequeno desabafo. Quando vejo, não 
digo a Inglaterra publicar a immensa, e preciosa collecção dos 
seus documentos históricos, apezar de já possuir a vasta colle- 
cção do Rymer (2) e de seus continuadores, quando vejo não digo 



(1) António Isac, barão Silvestre de Sacy, orientalista e iniciador dos estu- 
dos árabes em França. Escreveu a gramática árabe e morreu em 1838. 

(2) Thomaz Rymer sábio historiador inglez. Nasceu em Jafforth. Foi quem 
iniciou os Tratados Diplomáticos. Morreu em 1713. 



152 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

a França publicar as suas infinitas collecções históricas, não digo 
estas nações que pelas suas riquezas financeiras não tem com- 
paração comnosco, o meu amor próprio nacional não se recente, 
por isso que não podemos competir com ellas, mas quando vejo 
a Sardenha publicar neste momento a preciosa collecção de seus 
documentos históricos, a Suécia a sua collecção de Documenta 
Suecana e que até o pequeníssimo Reino do Hanovre se occupa 
neste momento de uma tal publicação, e que Portugal, que, aliás 
possue tantas riquezas, e tão gloriosas neste género, a maior 
parte das quaes existe desgraçadamente em paizes estrangeiros 
nada publica, confeço a V. Ex.^ que quando penso nisto experi- 
mento profunda tristeza tanto mais que apezar das nossas diffi- 
culdades financeiras não imagino que uma somma de 500 ou 
600 £. aunuaes destinadas para este objecto, e isto com limite de 
um certo periodo de tempo, podesse augmentar essas difficul- 
dades. 

Peço perdão a V. Ex.» de lhe tomar o tempo com este assum- 
pto, mas este meu desabafo é nascido da convicção intima em 
que estou de que uma Nação que se illustra pela publicação de 
seus escriptos se engradece, e se faz respeitar interna, e exter- 
namente. 

Renovo as expressões de alta consideração com que teuho a 
honra de ser 

111."^» Q Ex.^o Snr. Rodrigo da Fonseca de Magalhães 

De V. Ex.« 
' Muito obrig.''^ servidor e f. cr. 

Visconde de Santarém 

Do Visconde de Santarém para Rodrigo da Fonseca Maga- 
lhães 

Paris 8 de Fevereiro de 1841. 

III.""' e Ex.""" Snr. 

Mal sabe V. Ex.^ o prazer que me deu com a decisão que se 
sérvio communicar-me na sua estimável carta de 22 de Feve- 



VISCONDE DE SANTARÉM 153 



reiro passado de acceder á proposta que tive a honra de fazer 
acerca da publicação do Quadro Elementar das nossas relações 
exteriores. Dou pois a V. Ex.^ mil agradecimentos por esta nova 
bondade de V. Ex.^ com a qual penhora ainda mais a minha gra- 
tidão, e considero esta divida para com V. Ex.^ tanto maior 
quanto são obrigantes as expressões de sua carta, e do interesse 
que manifesta pelo autor. 

Mas permitta-me V. Ex.^ que lhe diga com toda a franqueza 
que este teve sempre em vista mais os interesses nacionaes de 
que os seus próprios. Tenho pois e tive sempre uma invencível 
repugnância de tratar destes quando trato dos interesses públi- 
cos. Vejo com um prazer inexplicável que V. Ex.a, como homem 
d'Estado mui illustrado, e imparcial apprecia em muito estes tra- 
balhos aos quaes tenho consagrado a minha vida, e os melhores 
annos delia, e que os julga como na realidade são, de interesse 
nacional; mas eu desejaria que a pubhcação da minha obra 
sobre a prioridade dos nossos descobrimentos fizesse antes ahi 
o seu devido effeito 'nas camarás, e na opinião publica. Esta 
obra, e o precioso Atlas que acompanha (o primeiro deste gé- 
nero que se pubhca na Europa). Serão em breve enviados a 
V. Ex.a afim ^q jhes dar o destino que lhe parecer opportuno, e 
então me aproveitarei da nova e mui generosa offerta de 
V. Ex.\ 

Por agora tudo quanto desejo é justamente o que V. Ex.*» tão 
generosamente acaba de sanccionar, isto é o costeamento da 
publicação do Quadro Elementar das nossas relações diplomáti- 
cas. 

Calculei a somma de 500 a 600 £ annuaes, para as despezas 
materiaes da impressão, e outras, como a do pagamento de dous 
alumnos da Ecole des Charles que me proponho empregar nos 
Archivos dos Negócios Estrangeiros, e nos do Reino, e nas Biblio- 
thecas para extrahirem os summarios dos documentos p.'' mim 
apontados, e que tenho addicionado á minha antiga obra. Esta 
somma não é em meu entender o maximun mas julgo mui pro- 
vável que poderei annualmente com esta desempenhar o que 
disse a V. Ex.» na m.^ carta de 8 do passado, 

A impressão da nossa Chronica d'Eannes d' Azurara, e a mi- 



154 CORRESPONDtiNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

nha Memoria dos descobrimentos, estando quasi ultimadas, fico 
no fim d'Abril mais desembaraçado para me poder occupar desta 
importante publicação; tendo-me para esse effeito recusado já 
hontem, depois de receber a estimável carta de V. Ex.», a aceitar 
as propostas que o Comité dos Livreiros principaes de Paris me 
fez p.a comprar a duas grandes obras que se vão publicar. Se 
pois para esta primeira despeza, digo somma, conforme o que 
V. Ex.^ me fez a honra de dizer na sua carta, não é necessário 
pedi-la ás cortes, este expediente me parece neste momento o 
melhor, pois mais tarde V. Ex.** terá já em seu poder os resulta- 
dos práticos, isto é a primeira publicação que comprehende já a 
noticia systematica de mais de 1$500 documentos, e indicações 
diplomáticas; e eu terei conhecido por experiência a quanto 
montará a impressão total desta obra, isto é, a da segunda parte 
delia, a saber a do Corpo integral dos Tratados, e Actos Diplo- 
máticos, para publicação da qual a intervenção das cortes será 
talvez necessária no caso que effectivamente se decida que esta 
obra nacional que, aliás se compõem de três obras destinctas, 
posto que inteiramente ligadas entre si, seja completamente pu- 
blicada. Por agora tudo quanto eu ardentemente desejava, e me 
parecia de máxima utilidade nacional, e do serviço publico, era 
a publicação do Quadro Elementar, publicação que V. Ex.a se 
serviu sanccionar com admirável promptídão, e generosidade. 
Tratarei pois deste objecto immediatamente. 

Quanto á somma pedida, desejaria que V. Ex.^ desse as suas 
ordens, quando lhe parecer opportuno, para ella ser posta aqui 
á minha disposição do mesmo modo que V. Ex.^ ordenou para 
despezas da obra sobre a nossa questão Africana, no caso de 
não haver nisto o menor inconveniente. Alem da utilidade nacio- 
nal, o proveito que o estado poderá tirar uo futuro desta publi- 
cação parece-me incontestável, visto que um grande numero 
d'exeraplares serão comprados cá por fora, pois não se passa um 
só mez sem que se me escrevão cartas de toda a parte da Europa 
preguntando-se-me, quando se publicará, e se já está publicada, 
afim de a haverem para as Bibliothecas. Todos os annos as dif- 
ferentes casas de commercio de Livros de Allemanha me fazem 
pelos seus correspondentes aqui a mesma pregunta, e no anno 



VISCONDE DE SANTARÉM 155 



passado se accrescentava, que se lhes cedesse alguns exempla- 
res os pagarião pelo preço que eu exigisse. Esta exigência está 
em harmonia com o Espirito Scientifico de investigação histó- 
rica da Escola Allemã que se tem communicado á maior parte 
da Europa, e que é um dos caracteres deste século, como V. Ex.« 
sabe. 

Eu podia ter feito deste objecto um negocio de Especulação 
como aqui se fazem todos os deste género, mas nunca me decidi 
a isso por muitos motivos, e todos Portuguezes, que não podem 
escapar á penetração de V. Ex.'\ 

Tendo V. Ex.^, pois, sanccionado esta publicação, devo dizer 
que, pelo que respeita ao outro trabalho da commissão das co- 
pias dos manuscriptos Portuguezes existentes em Paris de que 
tive a honra de informar a V. Ex.a. na minha carta de 14 de 
Fevereiro passado, não tive em vista obter de V. Ex.^ ao mesmo 
tempo a decisão dos dous objectos por mim propostos, mas sim- 
plesmente pôr a V. Ex.^ ao facto do que se tinha passado tam- 
bém sobre este assumpto. 

Darei agora a V. Ex.* algumas noticias das nossas cousas 
litterarias, conforme a recomraendação que V. Ex.a me faz. 
Começarei, pois, pela Memoria sobre os nosssos descobrimentos 
Africanos da qual envio a V. Ex.» com esta a 11." folha que 
alcança até p. 176 e rogo a V. Ex." queira ter a bondade de 
passar pelos olhos a discussão sobre a questão relativa á Guiné 
dos Normandos, assumpto de geographia histórica e positiva que 
até hoje não tinha sido tratado por nenhum critico. 

Esta publicação tem hido mais de vagar do que eu desejava. 
Ha tempos disse a V. Ex.» os motivos que então retardarão a 
inteira publicação delia. No mez de Janeiro sobrevierão outros 
que em breve vou expor a V. Ex.^. 

Tendo-rae V. Ex.''^ dado carta branca sobre este negocio jul- 
guei que convinha para o fim a que nos propomos, communicar 
(em diversas leituras feitas em minha casa) o texto Portuguez 
aos homens mais notáveis que se occupão neste paiz destas 
matérias, e sobre tudo em discussões puramente verbaes dão 
uma idea aos influentes no Ministério da Marinha e Colónias, 
isto é aos geógrafos daquella Repartição entre outros M."" d' Ave- 



156 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



sac (1) um dos mais teimosos defensores da fabulosa prioridade dos 
Dieppeses posto que acrescente sempre = dit-on porque elle está 
convencido do contrario, mas como chefe de uma das direcções 
das Colónias tem sustentado esta impostura p/ motivos inteira- 
mente politicos, digo pois que juguei conveniente fazer mesmo 
em minha casa algumas leituras a estes senhores com o fim de 
ouvir as suas objecções se as fizessem para as distruir, e refu- 
tar, ou para os convencer antecipadamente, e convencer-me eu 
também que nâo teria nada a mudar na parte fundamental do 
meu trabalho na edição Franceza. Este arbítrio foi pois mui 
proveitoso pois me disserão que os argumentos erão incontestá- 
veis, e d'Avesac mesmo me tem repetido diversas vezes que nós 
fazemos muito bem em não admittir a prioridade nem as viagens 
dos Normandos do xiv.^ século. 

M/ Jal (2), historiographo da Marinha e um dos homens mais 
instruídos daquella Repartição, tem estudado muito as nossas 
antigas Chronicas para se aproveitar das noções que ellas for- 
necem para a excellente obra por elle composta e publicada á 
custa do Governo, intitulada = Arc/ieo/o5r/e hiavale em 2 magnífi- 
cos volumes acompanhados de grande numero d'Estampas. Este 
sábio official a qual tenho dado algumas notas para o seu Dic- 
cionario Naval da Idade Media, tomou tal enthusiasmo pela 
minha Memoria que me deu uma nota preciosa acerca da passa- 
gem da Chronica de Resende que citei a pag. 127 do §." xiv, 
sobre o estrangeiro de que se sérvio El-Rey D. João 2P para 
impedir que os navios redondos Estrangeiros ousassem hir aos 
mares da Guiné. Junto pois a dita nota no Appendix na qual 
M.*' Jal mostra por muitas razões náuticas a sabedoria com que 



(1) Mário Armando Avesac Maceya, geographo francez, chefe de reparti- 
ção no ministério da marinha, secretario geral da Sociedade Geographica e 
membro da Academia de Inscripções e Bellas Lettras. Morreu em 1875. 

(2) Agostinho Jal, Litterato francez que tomou parte na defesa de Paris, 
em 1815 e depois na de Lyão. Critico d'arte. Em 1831 adido á secção histórica 
no ministério da marinha desempenhou varias missões na Itália, Grécia e Tur- 
quia. 

Historiographo do Ministério e conservador dos archivos. 



VISCONDE DE SANTARÉM 157 

El-Rey de Portugal tomara aquella medida, e robora os seus 
effeitos pelo que respeita ás correntes com exemplos tirados dos 
diários náuticos de Navios Francezes. 

Espero pois que V. Ex.^ se servirá approvar o expediente que 
tomei, tendo-me parecido útil obrar assim não só por estes moti- 
vos puramente scientificos, mas também por motivos políticos 
tratando de convencer estes indivíduos que pela sua posição, e 
escriptos não são indiferentes. 

Permitta-me V. Ex.a que a propósito de Mr. Jal lhe diga duas 
palavras. Elle mandou aos governos das Potencias marítimas da 
Europa a sua excellente obra publicada á custa do Governo, 
como disse, e alem disso que fora coroada pelo Instituto, man- 
dou-a igualmente ao nosso Governo pela Legação nesta Corte, 
onde eu a enviei, foi remettida desta para Lisboa antes de V. Ex.'' 
ter a seu cargo a Repartição dos Negócios Estrangeiros. Pela 
mesma occasião enviou também outro exemplar para a Acade- 
mia em virtude da approvação que eu dera a seu trabalho, e de 
lhe dizer que julgava que seria mui bem recebido tal presente 
pela nossa Academia. Este exemplar desgraçadamente perdeo-se 
e a Academia nunca o recebeo, e o que fora destinado para o 
nosso Governo teve provavelmente a mesma sorte, visto que 
Mr. Jal não recebeo até hoje communicação alguma a este res- 
peito. Esta obra tem sido mui bem recebida pelos diversos Sobe- 
ranos, e o Autor tem recebido de alguns até cartas e condecora- 
ções. 

Mr. d'Avesac, de quem acima fallei, também intenta offerecer 
ao nosso Governo a sua obra sobre as viagens á Tartaria nos 
fins da Edade Media, em razão de tratar ali de um dos mais an- 
tigos viajantes Portuguezes do século xm de Fr. Lourenço de 
Portugal. Muitas vezes me tem fallado nisto, e pedido o meu 
conselho, mas eu tenho-lhe sempre respondido, que elle sabe 
mui bem que quando as Legações todas tem ordem de não acei- 
tarem of feitas de obras para os respectivos Governos sem pre- 
via licença desses mesmos Governos, muito menos me cabe in- 
tervir em taes assumptos. 

Voltando ao meu trabalho sobre a prioridade dos nossos des- 
cobrimentos, e dos nossos direitos, direi a V. Ex.^ que se estão 



158 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIMCA E LITTERARIA 

tirando as boas folhas da conclusão na qual V. Ex.« verá expos- 
tas com as convenientes remissões, ao texto, as bazes funda- 
mentaes do nosso direito. As addições estâo-se imprimindo, eucre 
estas publico um summario critico de todos os viajantes France- 
zes e Normandos anteriores á famosa patranha inventada nos 
fins do século xvii, e pelo qual se mostra que elles reconhecião 
que nós fomos os primeiros descobridores, e outros provão que 
não havia antes daquelle tempo nem tradição entre os Norman- 
dos das taes suppostas viagens, 

Já estão gravadas 12 cartas e Fac-similes, e se estão tirando 
150 exemplares de cada uma pela 1/* tiragem. Algumas destas 
cartas são coloridas conforme os originaes e de uma beleza tal 
que tem admirado a todos e estes artistas tem tido neste objecto 
o maior capricho. Esta parte da minha obra custa muito mais do 
dobro das duas edições do texto. Agora estou fazendo gravar o 
fac-simile da Carta d'Africa do famoso Mapamundi original de 
Juan de la Cosa Cosmographo, companheiro de Colombo, cujo 
original tenho em meu poder e me foi generosamente confiado 
para este objecto. 

Este fac-simile de um dos mais preciosos monumentos geo- 
graphicos que existe, importa em mais de 25 £. 

Tenho desejado enviar a V. Ex.a já algumas destas cartas, 
mas como isto se não pode fazer pelo correio, reservo-me para 
quando tudo estiver ultimado, e então terei a honra de enviar a 
V. Ex.a o Atlas completo com a introducção que lhe junto. 

Pelo que respeita á minha opinião que V. Ex.» me faz a honra 
de pedir acerca da parte poHtica deste negocio, pelo próximo 
correio direi a V. Ex.'^ alguma cousa, visto que temo abusar mais 
por esta vez da bondade de V. Ex.^ tomando-lhe mais tempo 
com a leitura desça carta já^assaz longa. Direi, comtudo, que, 
como o privilegio da Companhia do Golam e da Casamansa ex- 
pira só em Junho de 1842, parece-me, posto que não conheço 
cousa alguma das transacções que têm havido, e que se têm pas- 
sado entre o nosso Governo, e esta Corte, que haverá o tempo 
necessário para preparar as reclamações, e seguir a negociação 
a fim de se impedir a renovação do privilegio, porque ainda 
mesmo que esta corte cedesse antes de expirar o dito privilegio. 



VISCONDE DE SANTARÉM 159 



e isto era vista dos nossos incontestáveis direitos, é mui prová- 
vel que se exigisse alguma indemnidade para a Companhia, 
V. Ex.3 melhor do que eu pode pezar este negocio, e quando 
convém renovar as reclamações, entretanto repito que pelo pró- 
ximo correio direi mais d'espaço o que me parece. 

Renovo por esta occasião os meus protestos de alta estima e 
consideração com que me prezo ser. 

Paris 8 de Março de 1841. 

Ill.n^o e Ex.»"*» Snr. Rodrigo 

da Fonseca de Magalhães 

De V. Ex.^ 

Obrg.""" Servidor e fiel creado 
Visconde de Santarém 



Do Visconde de Santarém para Wolckenaner 

Le 22 Mars 1841. 

Mon cher et Excellent confrère 

•Je ne peux vous épargner la peine de lire cette lettre, car 
j'en ai besoin du secours de vos profondes connaissances, pour 
écrire en toute ajourance les observations, que je vous soumets. 

Baldelli, qui était selon moi un bien pauvre géographe dit 
Tom. L^»- pag. 154 du Miílone, que les Génois sont allés dans 
rinde cotoyant 1' Afrique, 25 lustres avant que le Prince Henri, 
le navigateur ai fait aller ces navigateurs à ces cotes. 

Pour les prouver (il dit) on ne peut trouver un document 
plus glorieux pour les Génois, que le Portulan Médicis dont il 
publie les deux cartes d' Afrique. Selon lui ces cartes sont de 1351. 

Je joins un calque, que j'ai tire des deux cartes de TAtlas de 
de Baldem (1). 



(1) Francois Baldelli, literato que serviu nos exércitos de Conde, viajou e 
foi governador de Lienne. 

Presidente da Academia de Cmscu. Fez edições das viagens de Marco 



160 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

11 voit dans le carte vii, non seulement le golfe de Guiné (?) 
le Benin, enfin le Cap de Bonne Esperance bien distinctement 
marquês. Quoique Timagination de cette italien lui a fait voir 
tout cela dans cette carte fondée dans les traditions les voyages 
(le Dória (1) et de Vivaldi de la lettre d'Antoneto de 1455 pu- 
bliée il avoue naivement, que TAfrique du Portulan Médicis est 
plus racourci d'orient en occident, à partir du détroit de Ba- 
bel-Mandeb de 16 degrés et de 34 (ou 850 lienes) du Nord-au- 
-Sud, enfin, que le prétendu Cap de Bonne Esperance était de 
17 degrés plus à Torient, que le vrai Cap de Bonne Esperance. 

Pour ne pas vous tourmenter avec tous les calculs et rapro- 
chements, que j'ai fait pour refuter les inductions de Baldelli, je 
me bornerai à dire: 

Que par la comparaison des deux cartes, que celle, qui pre- 
sente le JDrolongement de TAfrique, peut être un peu aude là 
n'est autre chose que TAfrique d'Erotosthenes, et les geogra- 
phes de TÉcole d'Alexandrie, que le prolongement que Baldelli 
prit pour le Cap de Bonne Esperance n'est, que ce qu'on savai au 
14.«^ siècle par les Mss. de Marco Polo, et par les Árabes, que 
TAfrique se prolongait du côté de Torient. 

II ue parait enfin que en comparant les deux cartes du même 
Portulan que le cosmografe indique dans une le trace de la cote 
d' Afrique et qu'il était connu des anciens et celle de n.» viii 
telle qu'on la connaissait de tout temps c'est à dire au 14.« 
siècle car dans cette derniere la cote occideutale d'Afrique s'ar- 
rête au Bojador à la parelelle des Canárias, car on y voit une 
rivière au Nord du Bojador, et on y \\'í = Brochadou = eX cette 
carte est entierement eu harmonie avec Tetat des connaissances 
geógraphiques de cette époque, et avec les documents authenti- 
ques, que je produis dans ma chronique et dans mes disserta- 
tions. 



Polo, além de varias obras sobre Machiavel, Petrarche e Boccacio. Morreu 
em 1831. 

( 1) Era membro d'uma illustre família italiana este André Dória que foi 
almirante das frotas de Carlos V e de Francisco I, ganhou aos turcos a bata- 
lha de Pianosa e foi o verdadeiro rei do mar do século xvi. 



VISCONDE DE SANTARÉM 161 



Quant à Thomme de natione nostra rencontré par Antoniotto 
ascende une dans la Gambia, dont il est question dans Ia carte 
de 1455 découverte aux Archives de Génova pour Graberg et 
qu'il criit être un de ceux (ex illis galeis credo Vivaldi qui se 
amireit sunt anni 170). 

Quant à cet homme n'est autre qu'un des trois Portugais qui 
restérent de l'equipage de la Caravelle de Fernando Affonso Se 
1437, comme je Tai démontré dans une passage três curieux de 
la Chronique Contemporaine de Guiné fait par Fernando Affonso 
et confisque par les négres. Ainsi donc Antoniotto a pris en 
1455 un des hommes de la caravelle de Fernando Affonso 
et de Valaste qui á reste dans ces parages depuis 1437 pour un 
de ceux des Gabres perdues 170 avant de Vivaldi et de Dória. 
Et ce fut en le rapprochant de ce document que Baldelli fit avec 
la carte en question que sou imagination s'égara et lui fit rever 
a deux périples d' Afrique par les Gênois de xiv.e siécle. 

Je vous prie, donc, de me dire, mon savant ami, si vous trou- 
vez mes raisons bonnes pour ne pas admettre les assertions de 
Baldelli et croyez moi etc. 



Do Visconde de Santarém para Rodrigo da Fonseca Maga- 
lhães. 

111.'"° e Ex.""" Snr. 

Tenho a honra d'enviar a V. Ex.^ a Folha 12 da Memoria so- 
bre a prioridade dos Descobrimentos Portuguezes na Africa. 
N'esta Folha V. Ex.» encontrará a conclusão, e as primeiras addi- 
ções. Espero poder enviar a V. Ex.^, pelos navios que partirem do 
Havre no próximo mez d'Abril, 200 a 300 exemplares d'este mez. 

Queira V. Ex.* aceitar as expressões de alta consideração, 
e estima com que me prezo ser, 

111.'"^ e Ex.'"^ Snr. Rodrigo da Fonseca Magalhães 

De V. Ex.a 
Obrig."i° Servidor ef. cr. 
Paris em 29 de Março de 1841. 

Visconde de Santarém 

VOL. VI .^ 11 



162 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



Do Visconde de Santarém para Rodrigo da Fonseca Maga- 
lhães 

III.'"'' e Ex.'"" Snr. 

Tenho a honra d'enviar a V. Ex.'' as folhas 13 e 14 da minha 
Memoria sobre a prioridade dos nossos descobrimentos na Africa, 
e que alcanção até p. 224. 

Tenho prevenido M/ Aillaud(l) para que lhe remettesse o pri- 
meiro exemplar da edição do 4." da Chroníca d'Azurara que se 
completasse a fim de o enviar a V. Ex.* antes de se espalharem 
ahi os outros, e se distribuírem iu\m pelos subscriptores ; pedio- 
me este que lhe permitti-se que fosse elle quem directamente 
enviasse o dicto exemplar a V. Ex.'', e me pedio isto com tantas 
instancias, e empenho, que me não foi possível impedir que elle 
o fizesse, visto ser elle o editor. Apezar d'isso para não faltar ao 
que prometti a V. Ex.", enviarei eu também pela minha parte 
outro exemplar. 

Só depois que tive a honra de escrever a V. Ex.* a minha 
ultima carta me chegou á mão o Diário do Governo de 4 do 
passado, no qual vi com a maior satisfação o que V. Ex.^ 
teve a bondade de dizer a meu respeito, e da minha obra Di- 
plomática, na sessão da Camará dos Deputados de 3 do dito 
mez. 

Permitta-me V. Ex.a pois que de novo lhe agradeça, com o 
mais vivo reconhecimento por este novo e distincto favor, e va- 
lioso obsequio que V. Ex.« accrescentou e tantos outros que me 
tem feito. 

Desejo muito que a minha extensa carta de 8 do passado que 
tive a honra de dirigir a V. Ex.^, em resposta ás determinações 
da de V. Ex.'*^, de 22 de Fevereiro, tenha chegado ás mãos de 



(1 ) Tratava-se do celebre livreiro estabelecido em Paris e cujo descendente 
é sócio da antiga livraria Bertrand no Chiado. 



VISCONDE DE SANTARÉM 163 



V. Ex.^ e que se digne acreditar nos invariáveis sentimentos de 
alta estima e gratidão com que tenho a honra de ser, 

111.'"^ e Ex."»» Snr. Rodrigo da Fonseca AAagalhães. 

De V. Ex.a 
Obrig.™** Servido ef. cr. 

Paris, 5 de Abril de 1841. Visconde de Santarém 



Do Visconde de Santarém para Rodrigo da Fonseca Maga- 
lhães 

III.'"'' e Ex.""" Snr. 

Uma forte indisposição que me sobreveio hontem, produzida 
pelo rigor do frio que de novo nos attacou, me priva, bem a meu 
pezar, de responder pelo correio d'hoje como devia e desejava á 
estimável carta confidencial de V. Ex.« de 29 de Março passado, 
e ao officio de V. Ex." me fez a honra de dirigir na mesma data. 
Esta impossibilidade é tanto maior quanto ella me privou tam- 
bém de poder iuformar-me se com effeito existem aqui, nos 
Archivos da Legação, algumas das transacções relativas á con- 
venção de 1786, posto que tenho uma idea, que os Archivos da 
antiga Embaixada Portugueza nesta corte, cujos documentos re- 
montavão ao Reinado d'El-Rei D. José, e que muitas vezes exa- 
minei, se recolherão a Portugal. 

Espero, pois, poder pelo próximo Paquete, responder a V. Ex.^ 
como devo, tendo summo pezar de o não poder ter feito nestes 
três dias que medearão entre a recepção do officio e da confi- 
dencial de V. Ex.3 e a partida deste correio. 

Renovo as expressões do invariável gratidão com que tenho 
a honra de ser, 

111.'"° e Ex.'"^ Snr. Rodrigo da Fonseca Magalhães. 

De V. Ex.« 
Obrig.™o Servidor ef. cr. 

Paris 12 d' Abril de 1841. Visconde de Santarém 



164 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

Do Visconde de Santarém para o Conde da Ponte 
Paris 8 d'Abril de 1841, Rue de La Rochefoucanld, 17 

Meu q.^J" Sobr.o Am.o do C. 

Sempre que pilho uma carta sua é para mim um dia de festa ! 
Finalmente recebi uma em papel quadrado, escripta em todas as 
4 paginas ! grandíssimo milagre foi este entre os muitos que a 
meu respeito se tem feito á tempos a esta parte. 

Ora pois não se arrependa. A' volta do correio não me dê só 
um dia de Festa, mas sim uma novena, escrevendo-me em logar 
de 4 paginas, 400, isto é um volume. Muito me obrigarão as suas 
expressões por tudo quanto se tem passado na Camará dos De- 
putados a meu respeito, e muito agradeço também a communi- 
cação que me faz da impressão que este acontecimento tem pro- 
duzido no publico ahi. 

Devo com effeito ao actual Ministro dos Negócios do Reyno, 
e Estrangeiros as maiores finezas, a delicadeza com que me tem 
tratado excede tudo quanto eu posso dizer. 

No fim d'este mez ahi aperciará uma obra minha a qual tem 
aqui merecido a approvação dos sábios, intitulada Da Prioridade^ 
do descobrimento da Costa Occidental d'Africa alem do Cabo 
Bojador pelos portiiguezes, acompanhada de um Atlas magnifico 
composto das cartas históricas dos xiv, xv e xwf séculos pela 
maior parte inéditas, e de outras que não o sendo, são todavia 
da niaior raridade, e estas todas em fac-similes, e portanto algu- 
mas illumiuadas primorosamente (1). 



(1) A Memoria sobre a prioridade dos descobrimentos portuguezes na costa 
de Africa occidental, para servir de illustração á Chronica da Conquista da 
Guiné, foi publicada em Paris, por Aillaud, 1841, 1 volume in-8, 2-40, p. e 1 de 
erratas. Innocencio apenas cita o titulo, accrescentando que a obra fora man- 
dada imprimir pelo Governo em numero de 500 ex., tirando-se 1:000 da trad. 
fr. Esía traducção é a ampliação do texto portuguez, como aliáz informa o con- 
tinuador de Innocencio (Dicc. Bibl., xvi, pag. 216/, e o seu titulo é Recherches 



VISCONDE DE SANTARÉM 165 

Ao mesmo tempo também ahi aparecerá a famosa Chronica 
do conquista da Guiné por Azurara, acompanhada de mais 200 
notas minhas, e de uma nova Introducção igualmente feita por 
mim (1). 

No fim deste mez começa a imprimir a minha grande Obra 
Diplomática, isto é a 1.''^ parte — o Quadro Elementar — mas tendo 
sido já declarada obra nacional, se decidio o Governo a fazer 
publicar a minha grande empreza do Corpo Diplomático, collec- 
ção que forma mais de 100 volumes. 

Aqui tem pois noticias detalhadas do que tenho feito ultima- 
mente, não lhe fallo das meudezas, isto é dos Artigos, pequenas 
Dissertações, etc, pois isto são bagatelas litterarias áVista do que 
acima deixo indicado. Entre estes artigos publicou-se um na Bio- 
graphie Univevselle de Michaud — que tem 22 colunas — dei outro 
por curioso á Encyclopedie cies Gens du Monde o artigo (Ibérie, 
Ibériens) o qual poderá ler ahi no exemplar desta Encyclopedia 
que possue o Conde de Vianna (2) que par ella subscreveo. Para a 



sur la priorité de la découverte des pai/s situes sur la cote occidentale d' Afrique 
que au-delà du Cap Bojodor, et sur les progrès de los science geõgraphiques 
après les navegaiions des Portugais au xve siècle ; accompagnées d'un Atlas 
composé de Mappemondes e de Cartes pour la plupart inédites, drèssées depuis 
le xie jusqu'au xviiie siècle. Paris. Imprimerie de V.*^ Doddey-Dupré. 1840, 
conforme é citado no Catalogo dos obras á venda na Typ. da Acad. Real das 
Sciencias, pelo sr. A. A. Girard, Lisboa, 1905, pag. 109. 

Como se vê, é n'esta Carta que pela primeira vez se fala no famoso Atlas, 
ou melhor, o Atlas que acompanhava a obra de que se trata, foi depois incor- 
porado no da Historia de Cosmographia, como explica o sr. Ferreira da Fon- 
seca na sua Memoria intitulada o Atlas do Visconde de Santarém (Boletim da 
Sociedade de Geographia de Lisboa, 21.a seriei. 

(1) Chronica do descobrimento e conquista de Guiné, por Gomes Eannes 
Azurara .. precedida de uma introducção e illustrada com algumas notas, pelo 
Visconde de Santarém. Paris, Aillaud, mdcccxli. A introducção é datada de — 
Paris, 30 de março de 1841, e assignada F" S. 

i2i O Conde de Vianna, D. João Manuel de Menezes, succedera na casa de 
seu pae era 1837. Casara com a filha dos 4.os condes da Cunha e levou uma 
larga vida de opulência que foi celebrisada em Lisboa. Era capitão-tenente 
reformado. 



166 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

mesma obra dei á dias as biographias dos 6 Joões, isto é d'El-Rei 
D. João 1.°, 2.«, 3.°, 4.«, 5.° e 6.«. 

Não sei se em outra minha lhe fallei da publicação que fez o 
periódico Scientifice Annales des Voyages da 1.^ Parte da minha 
Memoria sobre as instituições coloniaes da In^^laterra? 

Voltando agora para as noticias que me dá das publicações 
que ahi se tem feito, devo dizer-lhe que tenho muita curiosidade 
de saber como é feita a tal Statistica do Algarve. Se se compõem 
só das magras columnas de cyfras ou se é uma Statistica histó- 
rica, civil e commercial? 

Tenho também muita curiosidade de ver o Libello de José 
Liberato (1), sobre os acontecimentos políticos anteriores a 29. 
E' mui natural que eu alli tenha um bom quinhão nas finezas que 
este Catão costuma dizer nos seus escriptos. 

Diga mil cousas da minha parte ao Conde de Lavradio, a 
quem tenciono mandar um exemplar daminha obra sobre os des- 
cobrimentos. A propósito, ninguém aqui recebeu o Elogio do Tri- 
goso. Peço-lhe um exemplar para mim. 

Seja-lhes muito parabém pelo adiantamento que ahi tem feito 
a Arte Dramática, mas nada esperava menos do que saber a no- 
ticia singular que me conta de que o Pedrinho dos Sermões se 
acha convertido em autor dramático ! Quanto ao nosso Tio Mes- 
quitella(2) muito estimei saber que tinha emfim sabido da concha. 



(1) José Liberato era o celebre liberal que começara por aprender no mos- 
teiro de S. Vicente com os frades, recusara a vida ecclesiastica, vira os fran- 
cezes dominantes, entrara na revolução de 1820, fora deputado e director da 
Imprensa Regia. Depois emigrara ante a vinda de D. Miguel para regressar 
após o triumpho das suas ideas. Escriptor distincto. Morreu em avançada edade. 

(2) O conde de Mesquitella, D. Luiz, era casado com D. Maria Ignacia de 
Saldanha que era filha dos condes de Rio Maior e D. Maria Constança sua irmã, 
era da esposa do 6.» conde da Ponte e por isso aquelle titular era tio do 8.o conde 
do mesmo titulo. 

O visconde de Santarém casou com D. Maria Amália, filha do 6. o conde da 
Ponte. 

O mesmo parentesco havia entre o conde da Ponte e o raarquez de Pom- 
bal visto o 2.0 conde de Rio Maior ter casado com a filha dos 3 os marquezes 
d'este ultimo titulo. 



VISCONDE DE SANTARÉM 167 



Elle gostou sempre de pregar essas peças ao mundo. Mas emf im 
como elle vai apparecendo é o que importa. 

Agradeço-lhe muito as noticias que me dá dos meus filhos. 
Rogo-lhe queira sempre dar-me taes noticias pois recebo grande 
conforto com ellas nesta prolongada ausência d'elles. 

Não pode fazer idea quanto me interessou a leitura desta sua 
carta, até por esta noticias das cousas de Familia que nella pela 
primeira vez me contou. Mas não me diz nada das Tias. A Tia 
Pombal está ainda elegante? Reunem-se todas as noites? que 
fazem? etc, etc. 

Faça os meus cumprimentos á Sra. Condessa e acredite que 
sou deveras seu. 

Tio e Amigo fiel 

M. V. S. 



P. S. — Veja se faz com que o meu filho António dezencante 
dois Maços dos Summarios dos Bilhetes dos Reynados que me 
faltão nos que seu Pay me enviou, pois se se perderão soffrerei 
um terrível transtorno pois terei de começar um improbo traba- 
lho para suprir a falta delles. Consistem : 1.» nos maços grossos 
de uma das partes das relações com a Inglaterra desde El-Rey 
D. João 4.« até aos nossos dias, e da França na 1.^ Dynastia. Esta 
falta posso eu suprir com facilidade, mas a outra muito me dará 
que fazer. Do mesmo modo que encontrão 32 se devem encon- 
trar estes. Recommendo-lhe muito este negocio. 

He natural que os jornaes d'ahi se occupem da Chronica de 
Azurara logo que ella apparecer, e da minha obra sobre os nos- 
sos descobrimentos d'Africa, peço-lhe queira mandar-mos no caso 
que isto aconteça. 



168 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



Do Visconde de Sntarem para Rodrigo da Fonseca Maga- 
lhães 

(CONFIDENCIAL) 

111."^ e Ex.'"^ Sr. 

A carta confidencial que V. Ex.^ me fez a honra d'escrever 
em 29 de Março ultimo, veio augmentar a divida em que estou 
para com V. Ex.». Tudo quanto dizia a V. Ex.* a este respeito 
seria pouco, e insufficiente para lhe expressar o meu agradeci- 
mento, e muito principalmente pelo que V. Ex.» me diz a pro- 
pósito da nossa correspondeucia o que sobre maneira me lison- 
jeou. 

Recebi já da Agencia Financial do Thesouro em Londres, a 
autorisação para sacar pela somma de £ 800 nos prazos indica- 
dos na Portaria do Thesouro Publico expedida áquella commis- 
sâo em data de 30 do passado, isto é nos prazos de três e seis 
mezes daquella data. 

Muito e muito agradeço também a V. Ex.^ o acréscimo da 
quantia á que eu tinha aproximativamente calculado. As despe- 
zas destas empresas são consideráveis como V. Ex,^ mui bem 
prévio. Cada volume dos que publica cada uma das classes do 
Instituto, em pequeno 4.°, custa, para ser bem impresso, com as 
despezas meudas redação &, custa, 20$ fr. 800 £ e ás vezes mais. 
A collecção dos = Historiens de France em folio, custa cada vo- 
lume 1:300 £ e os das collecções dos autores orientaes ainda 
excedem esta somma, e eu proponho-me a publicar dois do 
Quadro Elementar, e bem impressos por menos talvez do que 
custa um só dos do Instituto. Entretanto calculei' 500 a 600 £ 
aproximadamente, mas só depois de pagar impressão e mais 
despezas dos dous primeiros volumes poderei saber melhor a 
exactidão, ou inexactidão, do meu calculo, visto que occorrem 
mil despezas meudas em correcções imprevistas na fundição de 
typos próprios á nossa lingoa, a gratificação mensal aos alura- 
nos da Ecole des Chartes com quem ainda não tratei definitiva- 
mente &; como quer que seja o acréscimo que V. Ex.^ mui ge- 



VISCONDE DE SANTARÉM 169 

nerosamente se sérvio ordenar será por mim applicado não só 
para fazer face ás ditas despezas imprevistas, mas igualmente 
ás que eu mesmo fizer para vigiar o andamento da impressão, 
e outras deste género conforme a auctorização que V. Ex.'"^ se 
sérvio dar-me na carta o que tenho a honra de responder. 

A decizão tomada pelo Governo, e por V. Ex/'^, de fazer pu- 
blicar as integras das Collecções dos Tratados, e Actos Diplo- 
máticos, e de se declarar esta obra de interesse nacional, é da 
maior importância. Portugal deverá, pois, á influencia de V. Ex.^ 
e ao seu illustrado patriotismo, uma publicação mais importante 
do que as que tem apparecido na maior parte das grandes na- 
ções da Europa, neste género. 

Muito estimei também e muito agradeço a approvação dada 
por V. Ex.a ao arbítrio que tomei de ter feito leituras da Memo- 
ria a alguns dos geographos da Repartição da Marinha e Coló- 
nias que se occupão das cousas d'Africa. E com effeito todos os 
dias me convenço mais da vantagem deste arbítrio, pois na edi- 
ção Franceza dou outra classificação ás matérias, o que me não 
foi possível fazer no texto Portuguez por ter sido este feito em 
resultado das primeiras investigações, e das discussão dos tex- 
tos, e documentos á medida que hião sendo por mim examina- 
dos, e pelo vivo desejo que tinha de dar conta de mim no es- 
paço mais breve possível, e corresponder assim ás vistas, e 
plano de V. Ex.^, e por este motivo fiz em poucos mezes um 
trabalho que exigia em outras circunstancias mais tempo. Os 
exemplares da edição franceza são pois os que devem ser mais 
lidos na Europa, e os que de preferencia devem ser distribuídos 
de preferencia aos Diplomáticos. 

Como V. Ex.» se sérvio dar-me carta branca sobre este as- 
sumpto, espero que V. Ex.^ se servirá approvar ulteriormente o 
que eu fizer aqui sobre este objecto, e terei a honra d'informar 
successivamente a V. Ex.a de tudo quanto occorrer a este res- 
peito. Sobre esta distribuição entender-me-hei com o S."" Nuno 
Barbosa na conformidade das ordens transmittidas por V. Ex.» 
a esta Legação. 

Na conformidade também das ditas ordens confidenciaes de 
V. Ex.^ este encarregado de Negócios me communicou toda a 



170 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

transacção que tinha tido logar entre a Legação e este Governo 
a respeito da questão da = Casamansa. 

Limita-se esta a um documento importante, a saber: a Nota 
do Conde Mole (1) de 27 de Janeiro de 1839 da qual o S/ Vis- 
conde da Carreira (2) enviou ao Ministério, hoje a cargo de 
V. Ex.% a competente copia com o seu officio n.*^ 10 de 4 de 
Fevereiro do dito anno. 

Com esta carta tenho a honra d'enviar a V. Ex.a algumas 
observações que fiz á mesma Nota, e que submetto a V. Ex.* 
podendo talvez servir para o progresso ulterior desta negocia- 
ção, por se acharem combatidos todos os argumentos, ou antes 
fundamentos da dita Nota em a minha Memoria e destruídos 
com provas tiradas de documentos e de autoridades de indubi- 
tável fé, e de maior importância. 

Combinando, todavia, o teor desta Nota com o Discurso de 
V. Ex-íí, pronunciado na Camará dos Deputados na sessão de 7 
de Julho do anno passado, e com a informação que me deu este 
Encarregado de Negócios vejo que este assumpto progredio em 
Lisboa entre o Governo, e o Ministro de França nessa Corte. 

Pelo que respeita á convenção de 1786, nem esta, nem as 
negociações que a precederão existem aqui, pois os Archivos 
actuaes desta Legação não remontão alem de 1801, tendo sido 
recolhidos a esse Reino os antigos documentos delles como eu 
presumia, e conforme tive a honra de dizer a V. Ex.^ na minha 
carta de 12 do corrente. 

Esta convenção é tão pouco conhecida, que Martens (3) na sua 



(1) Luiz, Conde de Mole, ministro da Marinha do gabinete de Richelieu. 
Em 1837 formou gabinete de conciliação — isic) do qual foram excluídos os 
chefes dos partidos. Alas logo Thiers. Barrot e Guizot o derrubaram. Con- 
demnou o golpe de estado como deputado e morreu em 18õõ. 

(2) Luiz António d'Abreu e Lima, constitucional, ministro nos Paizes 
Baixos, logar de se demittiu quando D. Miguel se proclamou rei. Foi nomea- 
do visconde da Carreira após o triumpho constitucional e publicou um 
livro notável de sua correspondência que Palmella excluirá da que mandara 
publicar. 

(3) Jorge Frederico de Martens, Diplomata e professor de direito em Goet- 



VISCONDE DE SANTARÉM 171 



collecção de Tratados (Tom. iv., p. 466) limita-se apenas a pro- 
duzir a capitulação do Forte de Cabinda, e as proposições feitas 
a M.'" de Marigny (1) pelo Tenente Coronel commandante dos Es- 
tabelecimentos Portuguezes naquella parte d' Africa, e as respos- 
tas do official Francez. A parte mais interessante desta nego- 
ciação deve ser a das razões allegadas por nossa parte acerca 
do direito ao commercio exclusivo, e á posse igualmente exclu- 
siva do território, diante das quaes a França cedeo, apezar das 
hostilidades, e reconhece© os nossos direitos por uma convenção. 

Alem da copia da dita convenção, e das transacções que a 
precederão, das quaes apenas tenho aqui summarios na secção 
XV do Quadro Elementar muito me obrigaria V. Ex.^ se qui- 
zesse ter a bondade de expedir as convenientes ordens ao R. 
Archivo da Torre do Tombo para se tirarem as copias dos do- 
cumentos indicados em a lista que tenho a honra de juntar a 
esta carta, a fim de serem enviados, visto que elles augmentão 
as provas de a que França reconhecia os nossos direitos sobre a 
Guiné, e territórios Africanos, e mais conquistas. 

As ditas copias vem ainda a tempo para delias me servir 
seja para os últimos §§."s da edição Franceza, seja para o Ap- 
pendix á mesma edição. 

Renovo por esta occasião os protestos de alta consideração 

com que tenho a honra de ser 

De V. Ex.^ 



Obrg.™ Servidor e f. cr. 
Visconde de Santarém 



111.'"'' e Ex."'° Sr. Rodrigo da 
Fonseca Magalhães 

Paris 19 d' Abril de 1841. 



tingue. Foi presidente da secção financeira no conselho d'Estado da Westhe- 
phalia. CoUigio vários tratados diplomáticos. 

(li Carlos Renato, visconde de Marigny que conduziu Franklim aos 
Estados Unidos a bordo da Belle Poule que commandava. Combatera em Oues- 
sant e fez uma expedição contra o forte portuguez de Angola em 1784. Morreu 
em 1816. 



172 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

OBSERVAÇÕES 

Sobre a Nota do Conde Mole, de 27 de Janeiro de 1839, acerca 
da «Casamansa». 

O espirito, a lettra e os fundamentos desta Nota deixarão ao 
nosso Governo toda a latitude para declarar, depois de maduro 
exame, das razões allegadas pelo Ministro Francez se as devia 
admetir, ou se com effeito as nossas erão melhores do que as 
em que este Governo se fundara para se negar a admettir im- 
mediatamente a justiça da nossa reclamação. Tal me parece ser 
o espirito das seguintes expressões. 

«Le Gouvernement du Roi d'aprés les príncipes de loyautè 
«et de conciliation qui Tont toujours dirige, n'hesiterait point á 
«accueillir cette réclamation, si elle avait á ses yeux le caracter 
«d'une demande fondée. 

«Le Gouvernement du Roi, en se déterminant á autoriser 
«ces établissemens n'a donc agi qu'avec la conviction intime du 
«droit de la France de participer á la Navigation, aussi qu'au 
«commerce de la Casamanse &.. 

«La loyautè du Gouvernement de Sa Majesté et ses sentimens 
«bien connus pour la cour de Lisbonne garantissent assez qu'en 
«cela il n'a été mu, par aucune pensée contraire á la bienveil- 
«lant et sincere amitié dont il aimera toujours á lui renouveler 
«les témoiguages. 

Finalmente as seguintes 

«J'aime á penser qu'elles (as razões por este Ministro allega- 
«das) seront apprecieés par le Gouvernement de Sa Majesté Três 
«Fidéle et qu'il en reconnaitra toute la gravite». 

E' pois sobre estes princípios conciliadores que animao a 
França d^ que devemos prevalecer-nos para exigir desta Poten- 
cia a evacuação da Casamansa á vista dos fundamentos do nosso 
indisputável direito resultante do exame das provas, e documen- 
tos a cujo exame o nosso Governo mandou proceder não só por- 



VISCONDE DE SANTARÉM 173 



que a integridade territorial dos Dominios de Portugal era alta- 
mente interessada nesta causa, mas também pela certeza em 
que está de que este Governo nos fará plena justiça á vista das 
ditas provas e documentos inconcussos do nosso direito. 

O Ministro replica ao nosso Representante que se nós allega- 
mos posse, e soberania da Casamansa por mais de 2 séculos, 
elle responde que sem remontar até 1564 (1) época da fundação 
do primeiro estabelecimento francez no Senegal, a França pelo 
facto da conquista (2) ou em virtude de Tratados concluidos com 
os Reis indígenas (3) exerceo os direitos reaes de soberano, de 
possessão e de commercio (4) desde o Cabo Branco até ao Rio 
da Serra Leoa, inclusivamente, e em Cacheo, nos Bissagós, e na 
Casamansa (õ). 

Diz que as provas históricas destas asserções são abundantes 
ou numerosas por parte da^ França. 

Deve entender-se que o Ministro falia, ou allude aqui ás pro- 
vas históricas posteriores ao primeiro estabelecimento Francez 
no Senegal. Ora as que nós offerecemos não só remontão a mais 
de um século antes daquella mesma data, mas não soffrerão 



(1) Esta data da primeira fundação no Senegal não é conforme com os 
documentos, pois foi muito posterior áquella^epoca a fundação de Estabeleci- 
mentos Francezes naquella costa (vide Mem. sobre a prioridade &. § vil p. 65'. 

(2) Se a França pretende derivar um direito Conquista como pode negar 
este mesmo direito a Portugal sendo o nosso melhor, mais perfeito, pois se 
funda na prioridade do descobrimento, na anterioridade da posse, de mais de 
um século a essa mesma data de 1564, e no mesmo reconhecimento desses 
direitos pelos reis de França vide a m.a Memoria p. 71, 72 e 203). 

(3) Os que celebrámos com os soberanos daquelle paiz, isto é com os sobe- 
ranos do Senegal, e do Gambia são igualmente anteriores aos celebrados pela 
França (vid. Memoria pag. 73, e addição 13.» p. 201). 

(4) Pela mesma razão o nosso direito é melhor, pois é anterior e provado 
por documentos, e Historiadores Contemporâneos (Ibi p. 72, e 73). 

• (õ) Os mesmos direitos exerceo Portugal em toda esta costa, desde o 
século XV até a metade do século xvii, os Francezes só conseguirão estabele- 
cer-se pela primeira vez em Arguim em 1678 (vid. a nota que inserimos a 
p. 100 da Chronica d' Azurara i e nós possuímos aquelles paizes, e exercemos 
os mesmos Direitos, com que se nos argumenta, nos mesmos territórios sem 
interrupção t vide Memoria § o vii de pag. 67 a 73. 



174 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

também interrupção, nem apresentâo lacuna como se mostra pelo 
que substanciei no § VIIL« da Memoria pag. 73, a 77 e addição 
n.° 14. 

Mas examinemos mais d'espaço quaes são estas provas his- 
tóricas com que o Ministro pretende mostrar que a França tem 
o direito que deriva da conquista, dos Tratados com os reis indí- 
genas, e o de posse e de commercio. 

Estas provas são: 

«Les nombreux edits royaux et lettres patentes qu'a diverses 
«epoques ont constitué les compagnies aux quelles était dévolu 
«le privilége du Commerce Français á la Cote d'Afrique sur toute 
«rétendue des Cotes que je viens de mentionner». 

Se me não engano estas concessões não constituem tal direito, 
só pelo facto da concessão. Os privilégios commerciaes que uma 
nação concede a uma porção de seus súbditos para fazerem um 
trafico exclusivo em um paiz que não forma parte integrante do 
território, e dos domínios dessa nação, não implica titulo algum 
de soberania, de posse, ou de conquista do paiz estrangeiro para 
o commercio exclusivo do qual essa nação concede a uma por- 
ção de seus súbditos esse privilegio exclusivo. 

Para me explicar melhor, e produzir um exemplo. A França 
concede um privilegio exclusivo a uma companhia para o com- 
mercio, e navegação por meio dos Barcos de Vapor do Havre 
para os Portos da Península, e outro privilegio a outra para fazer 
o commercio com os do Báltico, por ventura poderá isso servir 
de argumento ou de prova de exercido da posse, e da sobera- 
nia sobre esses paizes? Certamente não. Prova de uma maneira 
directa ou indirecta que seus súbditos navegão, ou commerceião 
naquelles paizes. Mas nem isto se prova quanto á Casamansa, 
pois qualquer que fosse a extenção dos privilégios concedidos ás 
companhias Francezas, estas só agora tratarão de formar esta- 
belecimentos na Casamansa, e de commerciar com este paiz. 

Se este argumento tem alguma importância nesta questão 
elle é inteiramente em favor de Portugal, pois por nenhum modo 
os edictos de privilégios das Companhias Francezas podem des- 
truir os direitos inalienáveis da soberania da Coroa de Portugal 
na parte dos paizes Africanos dos quaes esta coroa possuidora 



VISCONDE DE SANTARÉM 175 

por títulos legitimos, delles não fizera expressa renuncia por Tra- 
tados formaes. 

Mas supponhamos que este argumento tinha alguma impor- 
tância nesta questão, neste caso a França, por essa mesma razão, 
deveria reconhecer também que os nossos direitos erão incon- 
cussos como mostrámos pelas immensas provas de que os Reis 
de Portugal crearão, (e muitos séculos antes de Luiz XIV.*') (1) 
companhias para o commercio daquelles mesmos paizes, e isto 
sem interrupção até aos fins do século passado (2). 

A parte substancial dos factos que se citão em a Nota, prova 
mesmo, em meu entender, que a mesma França reconhece, que 
taes edictos não podem violar os direitos das outras nações, pois 
diz «actes qui n'admettent de concurrence que celle des Anglais 
«établis sur la Gambie, et celle des Portugais en raison de leur 
«comptoirs a Cacheo ete dans Tile de Bissao». 

Não entrarei aqui na discussão sobre a antinomia que offe- 
rece esta asserção entre concorrência commercial, e fundação 
de feitorias em território de uma coroa estrangeira no qual ella 
tem os direitos exclusivos, e aos quaes não renunciou por acto, 
ou concessão alguma tacita ou expressamente (3). 

Passarei a tratar da outra prova em que a Nota se funda 
para se negar a admittir a nossa reclamação, consiste esta nas 
«nombreuses confinations de navires étrangers saisis dans ces 
«parages par les armemens de la compagnie en vertu de son 
«privilége». Se estes factos conferem direitos ,ou são provas des- 
ses direitos, nós, por nossa parte, poderemos produzir immensos 
exemplos (4) e o que mais importante é que o nosso direito sobre 



(1) Vide §.o VII da Memoria de pag. 65 a 73. 

(2) Ibi — §.» citado. 

(3) Ainda mesmo que os Francezes commerciassem na Casamansa com 
consentimento do Governo Portuguez estavão no Caso que diz Vattel «une 
''simple permission de faire le commerce ne donne aucun droit parfait á ce 
«commerce. Car si je vous permets purement et simplement de faire quelque 
«chose, je ne vous donne aucun droit de le faire dans la suite malgré moi: 
«&. Vattel = Droit des Gens. Tom. l.o p. 121 edição de Paris de 1839 com algu- 
mas addições novamente publicadas. 

(4) Vide-Memorias §.o iv p 29 e 30, e §.o vi.» p, 54 e 55 & p. 150, 151, 



176 CORRESPONDÊNCIA SCIEXTIFICA E LITTERARIA 

este ponto era tão claro que até nos mesmos Portos de França 
erão confiscados os navios Francezes, a requerimento das auto- 
ridades Portuguezas, ou embargados os que armavão para se diri- 
girem áquellas paragens sobre as quaes a França nos disputa 
hoje o nosso direito, a nossa posse, e commercio exclusivo (1). 

A outra prova consiste em que as Companhias Francezas 
«estavão autorizadas a fundar Feitorias sobre o littoral, e nos 
«Rios do Senegal desde o Cabo Branco até ao Rio da Serra 
«Leoa até que os acontecimentos da ultima guerra determinarão 
«o abandono dos estabelecimentos alli formados». A replica a 
esta prova, que aliaz se não pode chamar tal, é obvia ao menos 
em meu entender, e consiste que nenhuma nação tem direito de 
conceder uma tal autoridade sem que proceda uma concessão da 
Potencia que possue este paiz, ou que o mesmo território lhe 
pertença por descobrimento, e conquista, ou por soberania indis- 
putada, e reconhecida. 

Finalmente o Ministro Francez funda-se em que ultimamente 
se estabelecera uma Feitoria, e posto militar em Sedhion, sobre 
uma parte do território comprado aos naturaes do paiz. 

Mas se tal compra foi feita contra os direitos da soberania de 
Portugal, e é a venda feita pelos habitantes do paiz que para 
isso erão inhabeis em razão de um contrato anterior, ou de con- 
quista, e posse, tal venda é nulla conforme o Direito das Gentes. 

Não desenvolverei aqu: este ponto para não demorar estas 
observações, mas conforme todos os princípios do Direito das 
Gentes tal venda é nulla ainda mesmo quando os negros da Ca- 
samansa fossem considerados como se fizessem ou formassem 
uma nação independente e civilisada, pois desde que uma Nação 
celebrou contractos formaes com outra, ella não pode conceder 
a outra aquillo que já não lhe é permittido dispor, por isso que 
se privou da liberdade de o fazer (2). 

A' vista das observações que acabo de fazer, e dos funda- 
mentos em que estas se apoião substanciados com a Memoria 



(1) Ibid. §.o iv — p. 29 e 30, e §.o xvi, p. lõQ, e 151. 

1 2) Vide Vatel ^ Liv. II, cap. 2, § 30 compare-se com a doctrina do viltimo 
período do § 203 do Liv. I, C. 18 e com o § 204, e com o § 209 e 210. 



VISCONDE DE SANTARÉM 177 



sobre a prioridade dos nossos descobrimentos Africanos, não pa- 
rece ficar a liienor duvida de que o nosso direito é perfeito, e 
que as razões produzidas, e ai legadas em a Nota de 27 de Ja- 
neiro de 1839 são insubsistentes e infundadas, e que nós pode- 
mos com melhor razão e direito reclamar deste Governo a exe- 
cução, digo admissão, do seguinte principio do Direito das Gentes 
que se fez valer para se nos negar o que exigíamos, isto é a 
evacuação da Casamansa. 

«L'iaterrupcion accidentelle de Fexercice d'un droit ne sau- 
«rait invalider ce droit lui-même tant que la Puissance qui le 
«posséde n'y renonce pas expressement, et la France n'a jamais 
«abandonné celui que lui á toujours appartenu de s'établir et de 
«trafiquer dans la Casamance. 

Por este mesmo principio Portugal, assistido de melhor direito, 
não pode abandonar esse mesmo direito ao qual não só nunca 
renunciou, mas que tão bem não soffreo mesmo interrupção, e 
que remonta a 2 séculos antes da fundação do primeiro estabe- 
lecimento na Costa d'Africa, direito que lhe é conferido pela 
prioridade do descobrimento que fez do mesmo paiz, pela posse 
que delle tomou (1) pelos tratados e ajustes feitos com os chefes 
do paiz, e pelo reconhecimento deste mesmo direito exclusivo 
effectuado por todas as Nações da Europa, e pela mesma 
França, (2) a qual só agora veio alli fundar um estabelecimento. 



Do Visconde de Santarém para Rodrigo da Fonseca Maga- 
lhães 

III.""' e Ex.'"" Sr. 

Tenho a honra d'enviar a V. Ex.^ as ultimas folhas do texto 
Portuguez da minha Memoria sobre a prioridade dos nossos des- 
cobrimentos Africanos. 

Pelo primeiro Navio que partir do Havre para essa capital, 



(1) Memoria § viii de pag. 73 a 77 e Addições n.o 14 pag. 202. 

(2) Mem. § iv pag. 29 a 31 e addição n.o 6, p. 192. 

VOL. VI 12 



178 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



remetterei a V. Ex." 300 exemplares da dita Memoria para 
V. Ex.a lhes dar o destino que lhe parecer opportuno. A partida, 
porem, do dito navio parece que só terá logar no mez de Maio 
próximo. 

Estou tratando da traducção Franceza, e trabalho para que 
algumas analyses sejão feitas pelos Jornaes Litterarios e Scienti- 
ficos sobre o mesmo texto Portuguez. 

Aqui tem havido uma epidemia de grippe á qual eu não esca- 
pei, e estou ainda mui fraco, e por esse motivo não escrevo hoje 
a V. Ex.^ tão largamente como desejava. Apesar, porem, do meu 
incommodo não tenho cessado um só instante de me occupar do 
que está a meu cargo, e entre outras cousas do Ímprobo, e incrí- 
vel trabalho da revisão das provas das cartas gravadas para o Atlas. 

Permitta-me V. Ex.** que haja de lhe pedir queira ter a bon- 
dade de expedir as suas ordens afim de que eu possa ter aqui 
a integra dos seguintes documentos, que existem nos Manuscri- 
tos da Collecção da Bibliotheca do extincto Mosteiro de S. Vicente 
de Fora em uma collecção em 4 Tomos in-4." de papeis pela 
maior parte diplomáticos. 

1544 — 6 de Dezembro = Instrucções d'El-Rei D. João iii para 
D. Francisco de Lima que mandou ao Príncipe de Castella so- 
bre um Assento e accordo que entre o Imperador Carlos v e 
El-Rei de França se fazia acerca das Demarcações entre os Reis 
de Castella, e os de Portugal nas cousas do Mar, Terras e Ilhas 
descobertas e por descobrir. 

Existe no Tom. 4.^ foi. 79 da dita collecção. 

No mesmo volume existe a pag. digo foi. 94 uma carta para 
o Príncipe de Castella sobre o mesmo objecto e outra dirigida ao 
Commeudador Mór de Leão (foi. 98 Ibi) e a D. Aleixo de Menezes 
(Ibi foi. 100) á qual está junta uma Lista dos Papeis que o secre- 
tario Pedro d' Alcáçova (1) entregou ao dito D. Francisco de Lima (2) 



(1 ) Pedro d'Alcaçova Carneiro, secretario dos reis D. Affonso v e D. João ii. 

(2) Aio de D. Sebastião, esteve na Tomada d'Azamor, batera-se também 
no Oriente. Embaixador junto de Carlos v. Foi nomeado mestre do real discí- 
pulo o aio Luiz Gonçalves da Camará. A companhia voltou-se contra o antigo 
aio que reprovara a escolha. Morreu em 1568. 



VISCONDE DE SANTARÉM 179 



e nos quaes se trata da navegação dos Francezes nos Mares de 
Portugal. 

Renovo as expressões de alta consideração e estima com que 
tenho a honra de ser. 

Paris 26 d' Abril de 1841. 

111.™° e Ex."io Snr. Rodrigo 
da Fonseca de Magalhães 

De V. Ex.a 
Oòrg.*"» Servidor e fiel creado 

Visconde de Santarém 



Do Visconde de Santarém para Rodrigo da Fonseca Maga- 
lhães 

Til.""' e Ex.""' Snr. 

Tenho a honra de participar a V. Ex.''* que acabo de enviar 
para a Legação 300 exemplares do texto Portuguez da Memoria 
sobre a prioridade dos nossos descobrimentos na Costa Occiden- 
tal d'Africa afim de serem remettidos a V. Ex.^ pelo navio que 
deve partir do Havre a 15 do corrente. 

Aproveito esta occasião para expressar a V. Ex.^ o meu sen- 
timento pela demora que tem experimentado esta remessa, e da 
qual eu não sou por certo culpado. 

Posto que V. Ex.''^ pela sua bondade se dignou approvar, pela 
sua confidencial de 29 de Março ultimo, o arbítrio que tomei de 
fazer leituras da Memoria a alguns sábios antes da sua publica- 
ção, todavia a minha consciência não ficaria descançada sem me 
justificar da demora que a conclusão deste negocio tem experi- 
mentado. 

Não pode escapar á douta sagacidade de V. Ex.^ que um tra- 
balho de critica, de confrontação de textos, e de discussão delles, 
e de mais a mais de investigação e de descoberta de muitos mo- 
numentos inéditos, que um trabalho, digo, que contem mais de 
270 autoridades citadas e discutidas, o espaço de tempo que em- 



180 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



preguei em o compor, ultimar e fazer imprimir não parecerá 
demasiado, quando se considerar que o pequeno opúsculo que 
Desborough Cooley acaba de publicar em Londres e que contem 
só 143 paginas, intitulado — The Negrolaml of the Arabs (a Terra 
dos Negros segundo os Escriptores Árabes levou mais de 2 annos 
a compor, sendo aliaz coadjuvado na parte principal pelo orien- 
talista Hespanhol Gayangos sendo portanto metade mesmo no 
formato da Memoria que eu fiz. Alem deste meu trabalho juntei 
ao mesmo tempo uma grande copia de materiaes na previsão de 
que estes me poderão servir no caso eventual que por ventura 
alguma replica possa ser feita, fiz mais de 215 notas á Chronica 
d'Azurara, e a introducção e corregi 14 cartas pela maior parte 
inéditas, trabalho insano, pois a correcção das provas de uma só 
occupa o dobro do tempo da revisão de 10 ou 12 folhas de pro- 
vas de um texto. 

Sinto que o Atlas não possa acompanhar os exemplares da 
Memoria que envio a V. Ex.^ mas esta demora é inevitável. Não 
se pode fazer idea do tempo que é necessário para gravar os 
Fac-similes das grandes cartas históricas as quaes são sobre car- 
regadas de milhares de nomes e de notas. Entre tanto em pouco 
tempo espero fazer esta remessa. As cartas que já estão gravadas 
são as seguintes: 

Cartas do XV século 

1.^ Anno de 1367 — Carta d' Africa de Pizzigani da Biblioteca 
de Parma. 

2.a de 1375 — Carta do famoso Atlas Catalão da Bilbiotheca 
R. de Paris (inédito). 

3.a de 1378 — Mappamundi das Chronicas de S. Denis assi- 
gnado por Carlos V Rei de França (inédito). 

4.^ de 1384 a 1400 — Carta Italiana da famosa collecção da 
Bibliotheca Pinelli (inédita). 

XV» século 

5.» de 1417 — Mappamundi conservado em um precioso Mss. de 
Pomponio Mela da Bibliotheca de Reims (medito). 



VISCONDE DE SANTARÉM 



181 



6.^ de 1424 — Corta da Bibliotheca de Weimar (inédito). 

7.3 de 1436 —Carta d'Andrea Bianco. 

8.a de 1436 — Planispherio do mesmo. 

9.3 de 1439 — Carta catalan de Gabriel Valsequa, de Malhorca 
(inédita). 

10.» de 1460 — Mappamundi de Fra Mauro. 

11.» de 1467 — Carta de Gracioso Benincassa, celebre cosmo- 
grapho veneziano (inédito) 

XVr século 
12.a de 1500 — Carta do famoso Juan de La Cosa, (inédita). 

N. B. — Esta carta serviu a Colombo na sua famosa viagem 
da descoberta da Terra Firme, e é um dos monumentos geogra- 
phicos mais preciosos. Fiz gravar o Fac-simile de toda a Africa 
pois é da maior importância para a historia e geographia dos nos- 
sos descobrimentos. 

13.3 de 1508 — Carta de Ruych a parte concernente ao con- 
tinente d' Africa e que foi feita pelas noticias das nossas explo- 
rações. Foi feita em Roma no dito anno. O meu illustre amigo 
Mr. de Humboldt fez gravar a parte concernente á America. 

14.a de 1529— A belíssima carta d' Africa do famoso cosmo- 
grapho do Imperador Carlos V, Diogo Ribeiro, conservada na 
Bibliotheca de Weimar, é medita. Este cosmographo foi um dos 
commissarios no congresso scientifico d'Elvas e de Badajoz, 
em h524 sobre as demarcações das terras descobertas por Por- 
tugal, e por Hespanha, conjunctamente com os cosmographos 
Portuguezes. 

15.a de 1567 — A bellissima carta illuminada de João Marti- 

nes (inédita). 

Para outro correio terei a honra d'informar a V. Ex.» das ou- 
tras cartas que se estão gravando. Espero receber em breve algu- 
mas que se conservão na Bibliotheca Imperial de Vienna, e outras 
da Vaticana das quaes o meu excellente amigo o Sr. Visconde 
da Carreira me mandou já algumas noções. 



182 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



Graças a V. Ex.« uma publicação, tal como esta, honra a Nação 
que a faz. Tenho nisto uma satisfação inexplicável por ter sido 
Portugal que primeiro o tivesse comprehendido com grande pro- 
veito da sciencia, independentemente da incontestável vantagem 
politica que resulta d'este publicação. 

Junto ao meu Atlas uma Introducção explicativa, e ahi digo 
que tanto a Memoria como o Atlas, forão publicados á custa e por 
ordem do Governo sob seus auspícios. 

Queira V. Ex." acceitar as mesmas novas protestações de alta 
consideração e estima com que me prezo ser, 

Ill.'"o e Ex."»» Sr. Rodrigo da Fonseca Magalhães. 

Paris, 10 de Maio de 1841. 

De V. Ex.a 
Obrig."'° Servidor ef. cr. 

Visconde de Santarém 



Do Visconde de Santarém para Joaquim José da Costa de Ma- 
cedo (1). 

111."'° Snr. 

Tenho a honra de accusar a recepção do officio que V. S.^ 
se sérvio dirigir-me em nome da Academia Real das Sciencias, 
em data de 15 do corrente, afim de me participar a resolução 
que a mesma Academia se dignou tomar a meu respeito em con- 
sideração aos serviços que julga ter-lhe prestado. 

O valor que a Academia deu ao cumprimento de um dever, 
meu de gratidão para com ella, dever que é também nascido dos 
vivos desejos que tenho de cooperar, quanto em mim couber, 
porá o adiantamento das Sciencias na nossa pátria, é para mim 



( 1) Conselheiro, secretario perpetuo da Academia, guarda-mór da Torre 
de Tombo. Distincto bibliographo. Demittiu-se do seu cargo nos archivos na- 
cionaes por um conflicto grave. Morreu em 1867. 



VISCONDE DE SANTARÉM 183 



uma recompensa immensa, e mais generosa da parte da Acade- 
mia do que bem merecida por mim, pois tenho em pouco o que 
tenho feito, sendo aliaz mui grande o meu dever para com a 
Academia, e para com a minha Pátria. 

Oxalá que eu possa, com o tempo, dar á Academia provas mais 
constantes e maiores, do meu zelo pelos interesses e gloria delia 
provando-lhe de tal sorte a minha profunda, e eterna gratidão. 

Seja-me hcito pedir a V. S.« queira, pois, agradecer em meu 
nome á Academia a honrosa mercê que acaba de fazer-me, e 
V. S.% a quem tanto devo, queira também receber as seguranças 
do meu reconhecimento pelas obrigantes expressões com que 
acompanhou esta para mim tão valiosa communicaçâo. 

D.°^ G.*^ a V. S.^, Paris, 30 de Maio de 1841. 

Visconde de Santarém. 

111.""" e Ex.n^o Snr. Joaquim José da Costa de Macedo, Secre- 
tario Perpetuo da Academia Real das Sciencias de Lisboa. 

Do Visconde de Santarém para Rodrigo da Fonseca Maga- 
lhães. 

III.""' e Ex.'"" Snr. 

Limito-me por este Paquete a agradecer a mais que todas 
obrigaute carta de V. Ex.'' de 31 do passado. Uma differença re- 
pentina de 26 grãos de temperatura renovou o meu incommodo 
de saúde, e tendo-me obrigado a ficar 6 dias de cama apenas 
posso hoje escrever estas Unhas, reservando-me para responder 
pelo correio seguinte como devo aos importantes pontos da carta 
com que V. Ex.^ me honrou ultimamente. 

Aceite V. Ex.^ de novo as expressões de alta estima e grati- 
dão com que tenho a honra de ser, 

111."!° e Ex.™° Snr. Rodrigo da Fonseca Magalhães. 

De V. Ex.^ 
Amigo e Obrig.'"o Servidor 

Paris 14 de Junho de 1841. Visconde de Santarém 



184 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



Do Visconde de Santarém para o Conde da Ponte 

Paris 15 de juuho de 1841 
Meu querido Sobr.'' do C. 

Recebi já á tempos a sua obrigante e mui interessante carta 
datada de Marseille de 13 do passado que me causou um grande 
prazer e ao mesmo tempo sentimento por não ter sabido a tempo 
da sua vinda áquelle ponto deste Reino, pois teria talvez ido ali 
dar-lhe um abraço. Não respondi logo á sua carta por me não 
ter sido possível saber o seu adresse, e não tendo podido hir vêr 
sua Irmã para lho preguntar. 

Só á dias vindo aqui o Ferrão me disse que a mandasse Poste 
Restante. Ahi vae pois por este modo, queira Deus que lhe vá 
parar á mão. A descripção da sua viagem é mui curioza, e pi- 
cante, e muito lha agradeço. 

Agora vou dar-lhe noticias minhas visto que por mim se in- 
teressa. Aqui vou continuando a residir neste pais delicioso o 
qual para o meu socego é o melhor do mundo, e o único em que 
desejaria acabar os meus dias. Cada vez a esphera dos meus 
conhecimentos e relações sociaes se augmenta aqui de uma ma- 
neira pasmoza. Já vou aos Ministros que são meus collegas no 
Instituto, e já aqui vêm também. 

Já remetti 320 exemplares para Lisboa da minha obra sobre 
a prioridade dos nossos descobrimentos que fiz por conta do 
Governo. Este trabalho tem merecido aqui grande favor dos sá- 
bios mais (?) e das auctoridades mais competentes n'estas maté- 
rias. N'este meu trabalho cito, e discuto mais de 375 autores, e 
Cartas históricas, e hydrographicas inéditas, e resolvi inteira- 
mente a questão da prioridade, e assentei de um modo incontes- 
tável, a questão de direito a certas porções de território Africano 
que nos erão disputadas. 

Desejo saber se quer que lhe mande o seu exemplar para 
Turim, ou para Lisboa. 

Remetti também para Portugal a bella edição da Chronica da 



VISCONDE DE SANTARÉM 185 



Conquista de Guiné por Azurara com uma introducção minha, e 
mais de 200 notas. 

O Governo tendo decidido que as minhas duas obras do Qua- 
dro Elementar das Relações Diplomáticas, e o Corpo Diplomático 
se imprimissem, e tendo já posto á m.« disposição parte dos fun- 
dos para o costeamento da 1.^ esta já aqui se está imprimindo (1). 
O meu grande Atlas composto pos Fac-similes das Cartas histó- 
ricas e inéditas dos xiv, xv e xvi.o séculos já está quasi completo, 
e contará mais de 30 monumentos geographicos de primeira im- 
portância e únicos os quaes se achão nas grandes Bibliothecas 
da Europa, e nas de alguns sábios. 



(1) O tomo do Quadro Elementar foi publicado em Paris em 1842. Como é 
sabido, o Visconde de Santarém publicou, além desses, os tomos ii, iii, iv (l.a 
e 2.a parte), v, vi, vii, viii, xiv e xv, do que elle dá conta a seu sobrinho nas 
cartas subsequentes. 

Por morte de Santarém, o governo encarregou a Academia, ou melhor o 
seu sócio Rebello da Silva, da continuação da grande obra. A esse respeito é 
interessante a reproducção do seguinte documento existente nos archivos da 
Academia, e cuja copia devo ao favor do meu presado amigo o sr. Alberto 
Girard. 

«Ministério dos Negócios Estrangeiros — Direcção Politica — Copia — 
111. mo e Ex.mo Sr. — Tendo sido commettida á Academia Real das Sciencias a 
continuação do Quadro Elementar das relações politicas e diplomáticas de 
Portugal cora as demais Potencias do mundo, e entregues ao seu sócio o sr. Luiz 
Augusto Rebello da Silva, em 6 d'Agosto do anno próximo passado, todos os 
papeis e manuscriptos que se encontraram no espolio, vindo de Paris, do falle- 
cido Visconde de Santarém, pertencentes á parte inédita do mesmo Quadro 
Elementar; e existindo n'esta Secretaria d'Estado 1175 volumes, sendo 180 de 
cada um dos tomos i, ii, iv l.a e 2.a parte, e v; 185 do iii; 10 do viii; 30 do xiv; 
20 do XV, e 30 do Corpo Diplomático : tenho a honra de communicar a V. Ex.a 
que ficam á disposição da mesma Academia os ditos volumes, ebem assim de 
enviar inclusa, para os fins convenientes, a relação das pessoas e corporações 
contempladas com as obras do mencionado Visconde ; rogando a V. Ex.a se 
sirva mandar-me remetterSG exemplares década um dos volumes que se forem 
publicando, a fim de serem distribuídos pelos Empregados d'e?te Ministério, 
cujo nomes se eliminarão da referida relação. Deus Guarde a V. Ex.a Secreta- 
ria d'Estado dos Negócios Estrangeiros em 29 de Setembro de 1858. — Ill.mo 
e Ex.mo Sr. Vice-Presidente da Academia Real das Sciencias. (assignado) Mar- 
quez de Loulé.» 



186 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



Apesar destes trabalhos deverem demorar-me aqui ainda 
alguns annos, ha comtudo mais do que desejo no nosso Paiz de 
que eu volte para lá. Heide pôr embargos tanto quanto poder, e 
mesmo embargos officiaes, e de utilidade das nossas cousas que 
fazem que a minha vida litteraria neste paiz seja effectivamente 
mais útil aqui do que lá. 

Ninguém durante mais de 5 annos me escreveo da Familia e 
mais pessoas, mas como lhes farejou que podia haver um futuro 
differente ser-me-hia necessário ter 2 secretários para responder 
ás cartas que recebo á 4 mezes a esta parte da nossa terra. O 
Tio J.^ Seb.^*" (1) escreveo-me uma da Quinta da Amora onde está 
com a Senhora Infanta; tão extensa que tem 6 laudas inteiras! 
Tudo isto me diverte, e me obriga pela lembrança que tem 
aquelles Senhores de mim depois de tanto tempo. 

Desejaria que o Conde fizesse ahi conhecimento com o meu 
excellente amigo, e Collega o D,'^'^ Bonafous, Director do Jardim 
Betauico de Turim, homem de extrema amabilidade, e que tem 
ahi as melhores relações. Se ahi se demorar e quizer uma carta 
para elle cem a melhor vontade lha inviarei, e do mesmo modo 
para Gazzera, Secretario da Academia Real das Sciencias, e para 
o Sábio Abb.« Peyrou (2) — finalmente para o meu sábio amigo o 
Conde Alberto de La Marmora (3) autor da óptima historia da 
Sardenha no 2.° volume da qual elle me citou relativamente ás 
antiguidades Célticas, e Phenicianas da antiga Lusitânia. 

Quando acabava de escrever estas linhas recebi cartas não 



(1) Filho do Conde de Rio Maior; era o celebre senhor de Pancas, ajudante 
d"ordens do príncipe Augusto de Inglaterra e coronel de milícias. Irmão de 
D. Maria Constança condessa da Ponte. 

(2) Abbade Victor Amadeu Peyron, orientalista italiano, doutor em theolo- 
gia. Estudou as empresas orientaes com o abbade \ allagre de Caluso a quem 
succedeu na cathedra. Membro da Academia de Turim, senador e membro da 
Academia de Inscripções e Bellas Lettras de Paris. Morreu em 1866. 

(3) Alberto Ferrero, Conde de La Marmora, escriptor e general italiano. 
Fez as ultimas campanhas do império. Em 1831 foi privado do seu posto de 
capitão e passou alguns annos na Sicília. Director da escola de minas e senador. 

Todas as notas das cartas para o Conde da Ponte são do sr. Almeida 
d'Eça que as colligio. 



VISCONDE DE SANTARÉM 187 



SÓ de seu sogro mas também de outras pessoas empregadas pelas 
quaes vejo que a crise ministerial se terminará pela sabida de 
Magalbães ministro que tinha dado um tão grande impulso á 
publicação dos meus trabalhos e apesar que se me diz que estas 
mudanças não hão-de alterar em cousa alguma o andamento 
d'estas cousas, comtudo quem pode hoje responder pela duração 
de um plano? ainda menos de um s^^stema? 

A Deus meu Conde, cada vez me convenço mais que o meu 
logar é nesta Bibhotheca Universal de Paris no meio dos Livros, 
e em socego, e bem arredado das tempestades da politica. 

Seja sempre meu amigo e acredite que sou deveras seu 

Tio e Am.'' f. e obrig.'^° 
Manoel 



Do Visconde de Santarém para Rodrigo da Fonseca Maga- 
lhães 

111.'"° e Ex.'"" Sr. 

Não me foi possível escrever a V. Ex.» pelo ultimo Paquete 
em consequência de ter continuado a soffrer de uma forte nevral- 
gia e febre que me obrigou a ficar de cama toda a semana pas- 
sada. Apezar deste meu incommodo, o andamento das cousas 
que estão a meu cargo não experimentarão a menor interrupção. 
O meu Atlas, que faz aqui a admiração de todos os sábios que 
o tem visto, está muito adiantado, a ultimação porem deste im- 
portante trabalho tem-se demorado pelos motivos que já em 
outras minhas cartas tive a honra de indicar a V. Ex.^ e por não 
ter ainda recebido os calques de três Cartas da Bibliothéca Impe- 
rial de Vienna, da Medicea de Florença, e da Vaticana de Roma. 
Quanto a esta ultima já o recebi. 

Vai-se trabalhando na edição Franceza da Memoria, e do 
1.° volume do Quadro Elementar já estão 10 folhas compostas. 

Tive um vivo desgosto com a noticia que V. Ex.a me deu nas 
suas duas ultimas cartas de deixar o Ministério, em cujo emprego 



188 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E I.ITTEKARIA 



V. Ex.« tão útil é á nossa Pátria sobre tudo nas difficultosas cir- 
cunstancias em que ella se acha; e pelo que me dizia respeito 
considerar também esta sua sabida como um novo contratempo 
acrescentar a tantos que tenho experimentado durante a minha 
carreira. 

Cumpre-me agradecer de novo tudo quanto V. Ex.« tencio- 
nava fazer em meu favor, segundo me annunciara na sua carta 
de 31 do passado. Grande prazer me deu V. Ex.'"^ tão bem com 
a certeza de que tinha achado bem feito o meu trabalho sobre 
a questão Africana. 

Aproveito finalmente mais esta occasião para repetir a V. Ex.* 
as seguranças de alta estima e reconhecimento com que me 
prezo ser 

111.""** e Ex.'"» Sr. Rodrigo da Fonseca Magalhães. 

De V. Ex.« 
Am.o e obrg.'"o servidor 

Visconde de Santarém 
Paris, 28 de Junho de 1841. 



Do Visconde de Santarém para Rodrigo da Fonseca Maga- 
lhães 

III.'"'' e Ex.""" Sr. 

Sempre que recebo uma carta de V. Ex.^ é para mim um dia 
de festa, tanto ellas me interessão por todos os motivos. Agra- 
deço por isso muito a V. Ex.a a que se sérvio escrever-me em 
data de 28 do passado, tanto mais que para esse effeito roubou 
um momento aos graves e multiplicados negócios públicos. 

Quanto á expedição dos Mappas da minha Memoria, espero 
poder enviar a V. Ex.''^, pelo navio que em poucos dias vai partir 
para essa capital, mais de mil folhas correspondentes a mais de 
100 exemplares de 18 cartas do meu Atlas, o titulo, e Lista im- 
pressa delias, e verei se os malditos impressores concluem a 
tiragem da Introducção para ser igualmente remettida. 



VISCONDE DE SANTARÉM 189 



São incríveis as difficuldades deste trabalho para poder sahir 
perfeito! Os artistas capazes de trabalhar neste negocio limitão- 
se a 2 ou 3, pois são os únicos que são instruídos em matérias 
geographicas, e que são capazes de lerem correctamente os no- 
mes estrangeiros escriptos de mais a mais em caracteres antigos 
nas cartas mss. 

Tentei para abreviar este expediente, fazer gravar algumas 
por um do Ministério da Marinha que grava as cartas modernas. 
Fez-me o negocio muito fácil, mas quando me trouxe a primeira 
prova, continha esta não só tantos erros quantos erão os nomes 
(os quaes passão de mil, nesta carta de Ribeiro (1) de 1529), mas 
tantos quantas erão as lettras ! Foi-me necessário manda-la gra- 
var por outro, e já está concluída, e é uma das que V. Ex.^ re- 
ceberá na l.a remessa. 

As operações são multiplicadas, e exigem guardar-se um certo 
espaço de tempo entre uns e outros processos. Tirão-se as car- 
tas em preto, é necessário deixa-las secar alguns dias para depois 
lhe darem a côr do pergaminho, e do modelo, ou Fac-simile. Nas 
que são coloridas, o processo é ainda mais vagaroso, por isso que 
depois daquelles intervalos é necessário um para cada côr. 

Ora as cartas que tem õ e 6 cores differentes são outros tan- 
tos tempos de demora, quando o artista não renuncia a tirados 
pela difficuldade da perfeição como me aconteceo já com uma 
das cartas, e na primeira officina de Paris, que no fim de 17 
dias não poderão obter o resultado desejado. Felizmente obti- 
vesse por meio de outro processo. Alem disto outras que tem 
ouro passão aos coloristas para lho introduzirem, o que se não 
faz por meio do que elles chamão transportes. Outras ha que a 
multiphcidade das dores, e de detalhes illuminados só á mão se 
podem fazer. V. Ex.* verá destas uma das mais magnificas, a de 
Juan de La Cosa de lõOO." 

Emfim não devo abusar da paciência e bondade de V. Ex.^ e 
só entro nestes detalhes para me justificar da demora que tem 
tido esta expedição, não só por estes motivos, mas tão bem por 



(1) Diogo Ribeiro. 



190 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



outros que já indique nas minhas precedentes cartas, sendo tão 
bem um dos principaes a falta de palavra dos artistas que a 
ella faltão por habito, e pelas muitas obras de que se encarre- 
gão principalmente quando são como estes os principaes, senão 
os únicos, conhecendo mui bem a dependência em que se está 
deiles. 

Eu pela minha parte tenho hido muitas vezes no mesmo' dia 
aos gravadores, e á Imprensa e isto em distancias enormes. Foi 
nesta ultima que pilhei a minha ultima doença. Escrevo por dia 
uma quantidade de bilhetes para dar a direcção a este negocio, 
e assim não me tenho poupado a trabalho algum para vêr ulti- 
mada esta tarefa. 

Aproveito de novo esta occasião para repetir as expressões 
de alta estima, e gratidão com que me prezo ser 

111.'"'' e Ex.""» Sr. Rodrigo da Fonseca Magalhães. 

De V. Ex.« 
Am;° obrg.'"o e fiel creado 

Visconde de Santarém 
Paris, 12 de Julho de 1841. 



Do Visconde de Santarém para Rodrigo da Fonseca Maga- 
lhães 

III.""' e Ex.""" Sr. 

Agradeço muito a V. Ex.a a sua estimável carta de 5 do cor- 
rente bem como pelo interesse que se digna tomar pela minha 
saúde. Felizmente á três dias estou um pouco melhor, mas ainda 
não tenho podido voltar á minha vida habitual, e até tenho fal- 
tado a muitas sessões do Instituto, e só tenho hido ás Imprensas 
para activar a ultimação da impressão da obra sobre a priori- 
dade dos nossos descobrimentos Africanos. 

A este respeito permitta-me V. Ex.a que lhe peça as conve- 
nientes instrucções relativamente aos exemplares que restarem 



VISCONDE DE SANTARÉM 191 



depois de feita a destribuição dos que se espalharem cá por fora 
na conformidade das instrucções de V. Ex.a 

Do texto Portuguez restão 150; e já várias pessoas tem man- 
dado a Aillaud pedir exemplares pelo preço por que elles se 
venderem, mas tendo eu dado ordem para que nenhum se ven- 
desse, por que antes disso desejava obter as instrucções de V. Ex.?; 
está por estes respeitos este negocio em suspenso. 

Este Governo costuma por estilo (quando manda imprimir á 
sua custa uma obra) dar subsídios, e gratificações aos autores, 
e uma porção d'exemplares, e outras vezes sendo o autor estran- 
geiro, como aconteceo com o Professor de Pádua Mr. Marsan (1) 
que fez o catalogo dos mss. Italianos da Bibliotheca Real, derão- 
Ihe alem das condecorações, a edição magnifica da sua obra re- 
servando apenas alguns exemplares para o Governo. Em Portu- 
gal a nossa Academia dá metade dos exemplares aos autores 
posto que sejão sócios delia; mas eu entendi isto por outro modo 
quanto á obra que fiz, pois apezar da nimia delicadeza com que 
V. Ex.a se sérvio dizer-me, depois de ter autorisado o costea- 
mento, que esperava que eu mandasse alguns exemplares ao 
Governo, desde logo declarei a V. Ex.a que tendo o Governo feito 
as despezas, toda a edição ficava pertencendo ao mesmo Gover-' 
no. Entretanto, parece-me conveniente não para a gloria nacio- 
nal, e para illustrar a Europa sobre os nossos direitos, mas tam- 
bém para a sciencia que se dê a maior publicidade a esta obra 
por meio da venda dos exemplares que sobejarem, principal- 
mente da edição Franceza. 

Se V. Ex.* julgar este arbítrio opportuno, pedirei então a fa- 
culdade de applicar o producto para um supplemento ás 20 car- 
tas do grande Atlas, fazendo successivamente gravar outros 
monumentos deste género todos inéditos e que augmentão as 
provas da prioridade dos nossos descobrimentos, e enriquecem 
o domínio da geografia histórica, e positiva, e mostrão os pro- 



(1) António Marsan, religioso. Grande admirador de Petrarcha reuniu 
tudo quanto lhe diz respeito em critica a toda a sua obra. Também era um 
illustre numismata. 



192 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



gressos da hydrographia devidos aos descobrimentos Portu- 
guezes. 

Muitas das obras impressas á custa deste Governo ra Im- 
prensa Regia, se põem á venda. Pela adopção deste exemplo não 
me parece que possa resultar inconveniente algum em menos 
cabo do decoro do nosso Governo, aliás eu não proporia esta 
medida. 

Finalmente este projecto que submetto á consideração de 
V. Ex.» é só na hypothese de não ter V. Ex.a tenção de dar ou- 
tro destino ao numero excedente dos exemplares das duas edi- 
ções da mencionada obra. 

Aceite V. Ex.-'' as novas protestaçpes do invariável reconhe- 
cimento e alta estima com que tenho a honra de ser 

111.""» e Ex.*"» Sr. Rodrigo da Fonseca Magalhães. 

De V. Ex.« 
Am.o e obrg. Cr. 



Visconde de Santarém 



Paris, 19 de Julho de 1841. 



Do Visconde de Santarém para Rodrigo da Fonseca Maga- 
lhães 

111."'° e Ex.""" Sr. 

Tenho a honra de participar a V. Ex.^ que hoje espero pela 
Legação de S. Mag.® nesta Corte, e por via do Havre, uma colle- 
cção de cartas da grande e pequena edição do Atlas da minha 
obra, as quaes dirijo a V. Ex.^ 

Por outro navio, que deve partir no dia 10 do mez próximo, 
expedirei a V. Ex.** um grande numero d'exemplares das cartas 
do mencionado Atlas acompanhados do competente titulo, lista 
chronologico-systematica das cartas e da introducção explica- 
tiva. 

Já estão na legação promptas para partir 450 folhas das car- 
tas de Weimar de 1424, Valsequa de 1439 e de Ruych de 1508, 



VISCONDE DE SANTARÉM 193 



e amanhã serão enviadas mais de mil outras folhas das outras 
cartas ; e esta remessa será dirigida a V. Ex.^ immediatamente. 

Neste momento se estão tirando os exemplares Francezes do 
titulo, lista e introducção do mesmo Atlas para se distribuir aqui 
quanto antes. 

Peço a V. Ex.« mil perdões pelo fastio que lhe devo causar 
com taes detalhes todos os correios e digne-se V. Ex.* acreditar 
nos sentimentos de invariável estima e gratidão com que tenho 
a honra de ser. 

Paris 26 de Julho de 1841. 



111.™° e Ex.™° Snr. Rodrigo 
da Fonseca de Magalhães 



De V. Ex.» 
Am.o fiel e obrg.™° creado 

Visconde de Santarém 



Do Visconde de Santarém para Rodrigo da Fonseca 

III.""' e Ex.""" Sr. 

Pelo ultimo Paquete tive o gosto de receber a estimadíssima 
carta de V. Ex.« de 26 do passado. Agradeço de novo a V. Ex.» 
as suas boas intenções a meu respeito. 

Pelo navio Liberdade, que ultimamente partio do Havre, onde 
esteve demorado em consequência dos ventos contrários, remetti 
a V. Ex.« uma collecção de cartas do meu Atlas para que V. Ex.* 
visse o estado deste trabalho, e para esse effeito enviei as folhas 
dos dois formatos. Conforme também com o que tive a honra de 
dizer a V. Ex.a, na minha carta de 26 do passado, não só já estão 
na Legação muitos exemplares das ditas cartas para serem remet- 
tidos, mas também os de outras cartas vão sendo successivamente 
mandados para alli a fim de serem expedidos pelo navio que 
parte neste mez. As folhas do titulo, hsta das cartas da edição 
Franceza já estão tiradas. Para que V. Ex.^ tenha também idea 
disto antes, ou pelo mesmo tempo que ahi chegar o navio que 

VOL. VI 13 



194 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

levou a pequena collecção, tomo a liberdade de enviar as inclu- 
sas provas do dito titulo, lista e advertência preliminar. E' natu- 
ral que V. Ex.^ ache como eu, que as Armas Reaes que vão no 
titulo do Atlas são horrendas, mas apesar de todas as diligencias 
feitas pelos impressores para descobrirem uma chapa destas ape- 
nas poderão obter a que se poz no titulo. Desgraçadamente em 
razão da urgência desta publicação não foi possível mandar gra- 
var umas mais bonitas. Conto porem faze-lo para outra tiragem. 
São incríveis as miudezas e difficuldades deste trabalho sobre- 
tudo quando é feito com urgência ! Em consequência do que 
V. Ex.^ se tinha servido escrever-me em suas presadissimas car- 
tas de 17 de Janeiro, 29 de Março, 31 de Maio e 7 de Junho úl- 
timos acerca da honra que S. Mag.« a Rainha se Dignara fazer- 
-me, e das suas Reaes e benignas intenções a meu respeito, 
tinha já feito tenção de offerecer a S. Mag.^ e a Seu Augusto 
Esposo, por intervenção de V. Ex.% dois exemplares da minha 
obra e do meu Atlas encadernados, e da grande edição. Tenho 
já tomado para este effeito as disposições necessárias. Do mesmo 
modo terei a honra de offerecer á mesma Augusta Senhora um 
exemplar do Quadro Elementar logo que o primeiro volume es- 
teja impresso o que não tardará muito. 

/ Já que trato deste objecto parece-me opportuno cumprir com 
um dever de gratidão, pedindo a V. Ex.'' queira ter a bondade 
de expressar a S. Mag.*^ a minha profunda gratidão. 

Estou certo e bem convencido do muito que V. Ex.* tem con- 
seguido para destruir alguns preconceitos vulgares que se mani- 
festam sobretudo nas desgraçadas épocas das grandes crises po- 
liticas e dos flagellos das guerras civis principalmente contra os 
homens mais probos, e que menos os merecem. Desejando pri- 
meiro que tudo o bem do meu paiz, e a consolidação e estabili- 
dade da Monarchia, a cujo principio pertenço por convicção, es- 
tou inteiramente d'accordo com V. Ex.^ que o único meio de 
salvar aquelle principio e a nação, consiste em dar de ganote 
(como V. Ex." dizia na sua carta de 31 de Maio) em as nossas 
dissenções com proveito da Nação, e honra dos contemporâneos, 
sob pena de passarmos por bárbaros. 

V. Ex. ' tem pois feito um dos mais relevantes serviços ao 



VISCONDE DE SANTARÉM 195 

paiz sustentando, e levando a effeito pratico esta politica salutar, 
obtendo quanto á exterior resultados em meu entender da maior 
importância, conseguindo por meio do reconhecimento da corte 
de Roma, acabar com um schisma religioso sempre perigosíssimo 
mesmo em tempos ordinários, mas muito mais consequente em 
tempos críticos, e tão contrario aos interesses do Throno, e do 
repouso da Nação ; conseguindo alem disso o reconhecimento do 
Gabinetes das Grandes Potencias, pelo que muito felicito a 
V. Ex.^ 

Aquelles homens d'estado que conseguirem fazer parar a tor- 
menta e o vértice fatal das revoluções tem o incontestável direito 
ao reconhecimento da Pátria. 

Oxalá que Portugal, cujos annaes são tão férteis em inimitá- 
veis, e gloriosíssimos feitos, apresente á Europa dos nossos dias 
este grande exemplo de civilisação que o tornara superior por 
elle só a outras grandes nações nas quaes a estabilidade social 
está todos os dias em problema. 

Acceite V. Ex.^ a renovação dos protestos da alta estima e 
consideração com que tenho a honra de ser. 

Paris 9 d' Agosto de 1841. 

111.™° e Ex.^° Snr. Rodrigo da Eouseca Magalhães 

De V. Ex.» 
M.*° obg.'^'" serv.'^^'' af. cJ 

Visconde de Santarém 



Do Visconde de Santarém para o Conde da Ponte 

Paris, 11 d' Agosto de 1841. 

Meu qJ^ Sobr° e Am° do C. 

Consta-me que já chegara a essa Corte, e m*° desejo que a 
sua viagem d'Italia para esse reino fosse feliz, e que pela pri- 



196 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

meira occasião me escreva os detalhes interessantes delia da 
mesmo modo que da q. seguio de Lisboa até Marseille. 

Durante a sua estada em Turim apenas tive noticias indire- 
ctas suas por sua Irmãa. Não sei o que foi feito de uma longa 
carta que dirigi para aquella Corte, e da qual não recebi res- 
posta? Muito sentirei que se tenha extraviado. 

Temos tido aqui um tempo horrível á 2 mezes e meio de ma- 
neira que não houve verão este anno ! Estive doente quasi todo 
o mez de Julho. Apezar d'isso os meus trabalhos forão conti- 
nuando, posto que estive m.'o» dias de cama. 

Ahi lhe terá constado da remessa que fiz da m.* Memoria 
sobre a prioridade dos nossos descobrimentos Africanos. Em- 
quanto não lhe envio um exemplar por portador seguro, peça a 
seu Sogro que lhe empreste um pois elle deve ter dous, um que 
lhe mandei e outro que devia receber na Camará dos Senadores. 
Talvez elle lhe poderá obter um, pois mandei 300 exemplares 
ao Min.° dos negócios Estrang.°«. 

Até agora só me consta que dois Jornaes dos que ahi se 
publicão se occupassem de dar conta desta minha obra, a saber 
um em Francez intitulado UAbeille n. 20, Vol. III pag. 335 — e 
outro intitulado — a Revolução de Setembro — de 8 de Julho, e 
que me mostrarão aqui na Legação. 

E' provável que o Panorama, se ainda existe, tenha dito algu- 
ma cousa em os números de Junho e Julho, e bem assim os 
Annaes Marítimos e Coloniaes dos mesmos mezes de Junho e 
Julho, ou deste mez. 

Este periódico é mensal, e vende-se na rua Augusta na Loge 
da Viuva Henriques. Peço-lhe qneira dizer-me se os taes senho- 
res dizem alguma cousa a este respeito. 

Recebi o escandaloso escripto do J.^ Liberato, (1) que me foi 
enviado pela Legação, e do mesmo modo recebi também com 



(1) Grande liberal. Emigrou. Foi deputado e director da Imprensa Nacio- 
nal e aposentado em 1838. Era sócio da Academia e do Instituto Histórico de 
Paris. O livro a que o visconde de Santarém se refere deve ser Annaes para 
a historia do tempo que durou a Usurpação de D. Miguel. 



VISCONDE DE SANTARÉM 197 

umas mui obrigantes linhas do meu antigo am.° Conde de Lavra- 
dio, o seu bem escripto e mui interessante elogio de Trigoso. 

Para lhe agradecer aquelle, e mais ainda as amigáveis recor- 
dações que tem de mim lhe escrevo a carta inclusa e pesso-lhe 
queira mandala entregar ao d.o Conde. 

Junto a esta uma resposta a uma longa carta que pela pri- 
meira vez depois de 7 annos d'ausencia de Portugal, me escreveo 
o Tio J.« Sebastião. Rogo-lhe o mesmo obsequio de mandar 
entregar. 

AD.^ não me é possível ser mais extenso por este Correio. 
Dê-me sempre noticias suas, e accuse o mais breve possível a 
recepção d'esta. 

Acredite que sou deveras seu 

Tio e Am.° f. e abrig.^ 
Manoel 



Do Visconde de Santarém para Rodrigo da Fonseca Maga- 
lhães 

III'^'' e ExJ^" Sm. 

Ainda pelo correio passado fiquei privado de cartas, e noti- 
cias de V. Ex.% estando ancioso por saber se chegou ás mãos de 
V. Ex.« a collecção de cartas que lhe enviei pelo navio que par- 
tio do Havre no principio d' Agosto, ainda que por aquella occa- 
sião limitei a remessa ás cartas que então se achavão prom- 
ptas. 

Já forão expedidos para o Havre dous caixotes contendo 50 
exemplares do Atlas, em preto, os quaes devem partir amanhã 
daquelle porto, segundo' o annuncio do armador. O vivo desejo 
que tenho de provar a V. Ex.^ os esforços que tenho feito para 
adiantar a conclusão deste negocio, me obrigou a fazer aquella 
remessa antes deste trabalho estar completamente ultimado. Per- 
mitta-me V. Ex.* que lhe repita que se não pode fazer ide a do 
iempo, e do cuidado que exige uma empreza desta natureza para 



193 CORRESPONDÊNCIA SClKNTiFICA E LITTERARIA 

ser bem feita. A mesma actividade que tenho posto para que ela 
se ultimasse com a maior brevidade, tem sido nociva, e longe de 
com isto se adiantar, antes muitas vezes os artistas se tem con- 
fundido, apesar de eu exercer sobre elles uma vigilância de todos 
os dias. Elles calculavão que serião necessários dous annos para 
isto se fazer bem feito. Felismente não aconteceo assim. A pressa 
com que esta publicação tem sido feita, em razão da urgência da 
questão diplomática, tem sido também nociva pelas modificações 
e algums alterações que me tenho visto obrigado a fazer. 

Entre estas foi uma a de alterar a publicação Portugueza do 
Atlas, e começar pela do Atlas francez, para este acompanhai* o 
texto escripto na mesma lingoa, pela importância desta ultima 
publicação, e em virtude do que V. Ex.^ se sérvio escrever-me 
officialmente acerca da distruição dos exemplares. Por outra parte 
o estudo e discussão das cartas mais capitães e que erão mais 
importantes para a questão me obrigarão a diversas alterações 
de plano primitivo. 

Permitta-me V. Ex.a que acrescente algumas outras explica- 
ções sobre certos pontos. Entres estes devo mencionar o se- 
guinte. Fiz marcar as cartas com o meu nome por que assim m'o 
persuadirão não só vários sábios, mas também os principaes 
artistas, é como La Sagra praticou com as cartas que deo na sua 
Historia da Ilha de Cuba apezar de ser esta obra também publi- 
cada á custa do Governo Hespanhol. Eis aqui a razão. Disserão 
elles que se as cartas inéditas sobre tudo, não fossem marcadas 
e catalogadas assim nos depósitos públicos, corria o risco de 
outros se aproveitarem delias, e fazerem-nas copiar, e gravar, e 
darem-nas em outras obras, e em nosso prejuízo visto que esta 
collecção é considerada como um verdadeiro monumento levan- 
tado á nossa gloria nacional, e ás sciencias. 

Outra explicação que devo dar a V. Ex.a é sobre ter remet- 
tido os jogos, ou exemplares sem seren? encadernados. Esta pra- 
tica é geralmente observada com as obras desta natureza, e mui 
particularmente a que se observa em França, pois ainda ultima- 
mente se nos enviou a instancias minhas, para a Academia das 
Sciencias de Lisboa a collecção de cartas publicada pelo Minis- 
tro da Guerra, e outra das cartas hydrographicas da Costa da 



VISCONDE DE SANTARÉM 199 



Africa Occidental pelo Almirante Roussin (1), que alcancei tam- 
bém para a x\cademia, e posto que delias nos fizessem presente, 
as folhas nos forão enviadas sem serem encadernadas. O mesmo 
fez este Governo com a grande obra da Expedição do Egj^pto 
que também alcancei para a nossa Academia. 

Quanto ás cartas ha nisto uma vantagem como V. Ex.a sabe, 
e que é se podem assim comparar melhor, do que encadernadas, 
e a despeza das encardenações de um grande numero de exem- 
plares seria exorbitante. 

A remessa subsequente á que fiz ultimamente será mais per- 
feita, e espero que satisfará as vistas de V. Ex.a. Por essa occa- 
sião hirão os exemplares para SS. Mag.^^^s para V. Ex.a e para 
os presentes mais importantes. 

Queira V. Ex.^ continuar a persuadir-se dos sentimentos de 
alta estima com que me prezo ser, 

111.°»° e Ex.""" Sr. Rodrigo da Fonseca Magalhães. 

Paris 4 d'outubro de 1841. 

De V. Ex.« 
Am.° è obrig.*"*^ cr. 

Visconde de Santarém 



Do Visconde de Santarém para Rodrigo da Fonseca de Ma- 
galhães 

111."'° e Ex.'^° Snr. 

Depois de ter escripto a carta junta, vi que me tinha esque- 
cido de dar a V. Ex.a as razões por que as cartas geographicas 
da primeira remessa, se não achão todas numeradas, como nos 
Atlas ordinários. Eis aqui o principal motivo : foi este causado 



(1) Albino Roussin o mesmo que viera com a sua esquadra, a Lisboa, apri- 
sionar os navios portuguezes, no tempo de D. Miguel. 



200 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

pela pressa com que este trabalho tem sido feito ; pois vendo-me 
no grande embaraço de fazer alterar o numero das Planchas á 
medida que alguns daquelles monumentos me chegavão á mão, 
como aconteceo com os cartas do Vaticano, ou ter em suspenso 
as tiragens e mesmo algumas gravuras de outras cartas, e isto 
em quanto todos os monumentos se não achassem reunidos, pre- 
feri, por brevidade, mandalas tirar assim, de que não resulta 
inconveniente algum, visto que tendo cada carta o seu titulo, e 
data chronologica, a classificação se pode fazer como a maior 
facilidade pela hsta chronologica-remissiva que juntei ao Prefa- 
cio. 

Desculpe V. Ex.a todos estes detalhes, mas entre os muitos 
defeitos que tenho, um destes é o da difuzão pois não fico satis- 
feito em quanto não dou razão do que faço. 

Renovo as expressões de alta estima com que tenho a honra 
de ser 

Paris 4 d'outubro de 1841. 

111.*"*» e Ex.^o Sr. Rodrigo da Fonseca Magalhães. 

De V. Ex.« 
Am." e obrig.™» cr. 

Visconde de Santarém 



Do Visconde de Santarém para Rodrigo da Fonseca Maga- 
lhães 

111'"° e Ex.'"" Sr. 

Tive a grande satisfação de receber, pelo ultimo Paquete, a 
estimadíssima e obrigante carta de V. Ex.a de 21 de Setembro 
ultimo, e muito senti por ella que o motivo do seu longo silen- 
cio proviera da inevitável fatahdade que persegue aquelles 
homens de bem que se sacrificão pelo paiz, e pelo serviço delle 
nos tempos em que vivemos! 

V. Ex.a fez-me justiça dizendo que eu sei apreciar a impor- 



VISCONDE DE SANTARÉM 201 

tancia das circumstancias, e por que aprecio esta, seja-me para 
isto permittido tão Í3em dizer a V. Ex.a, e para corresponder a 
este seu desabafo confidencial, que o único meio de triumphar 
delias, ou pelo menos de as modificar, é não fazer a vontade 
aos ineptos inimigos, aos invejosos, e aos intrigantes, pelo con- 
trario é hir sempre firme sem se lhes ceder o terreno e sem se 
desanimar. 

Agradeço, com a maior gratidão, tudo quanto V. Ex.a tem a 
bondade de me dizer acerca da sua tenção de propor á Camará 
dos Deputados, 1.° que eu seja encarregado de dirigir a publica- 
ção da grande obra do Corpo-Diplomatico até ao fim, 2 ^ que 
esta publicação seja annualmente costeada com a somma calcu- 
lada a 1$000 £ S. para a impressão, e mais despezas conforme 
tive a honra de escrever a V. Ex.* na minha carta de 17 de Maio 
deste anno. 3.° tenciona V. Ex.^ propor á mesma Camará que o 
titulo de gratificação eu receba uma quadtia correspondente. 

Quanto ao 1.° ponto de provocar uma decizão da Camará so- 
bre elle, parece-me importante, pois esta decisão cortará talvez 
difficuldades que de futuro se poderião oppor, e está em harmo- 
nia com a decisão tomada já pelo Governo de ter declarado a 
offerta destes trabalhos, e de ter declarado esta obra de inte- 
resse nacional, alem de que nenhuma recompensa, por maior que 
fosse poderia indemnizar-me de ver um trabalho que me tem 
custado tantos annos de fadiga, e tanta despeza confiado a ou- 
trem. Alem disso penso que nenhuma outra pessoa o poderia 
regular, e systematicamente levar ao fim senão eu, pelo conhe- 
cimento que tenho desta matéria, em que me tenho occupado á 
mais de 30 annos tanto mais que mesmo no decurso da impres- 
são ha muitos detalhes, e notas a accrescentar, e particularida- 
des a mencionar, qne me parece que nenhuma outra pessoa 
estará no caso de levar ao fim esta tarefa. 

Quanto ao 2.° ponto relativo á quantia annual para o costea- 
mento, remetto-me ao que tive a honra d'escrever a V. Ex.^ na 
minha carta de 17 de Maio deste anno, sobre este assumpto re- 
pito o que já disse a V. Ex.a que julgo que estes negócios não 
podem estar em melhores mãos do que nas de V. Ex.^. 

Quanto porem ao 3.° ponto reporto-me igualmente á minha 



202 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

carta de 30 de agosto ultimo. Pelo que respeita ao numero de 
volumes a que deitará a obra do corpo integral dos documentos 
diplomáticos, é mui difficil precisalo, julgo, porem, que sendo a 
publicação feita in 4.*^ deitará o dito n.*^ de 60 a 66 volumes, e 
em 8.° talvez a 100, pois ha peças que por si só deitarão a mais 
de meio volume, como são as demarcações territoriaes feitas em 
virtude de convenções, e de juizo de comissários, principalmente 
entre Hespanha e Portugal. 

O formato in foi. está quasi para assim dizer banido ; a 
moda em toda a Europa tem adoptado o formato in 4.*^ ou de 8.^ 
por ser mais commodo e occupar menos espaço, e muitas, e vo- 
lumosas collecções de Tratados tem sido sido publicadas em 8.*» 
desde o século passado taes como as de Rousset (1), Martens, &. 

Quanto a enviar a V. Ex.a uma espécie de Prospecto, não cabe 
no tempo da partida deste correio poder eccrever um capaz de 
ser apresentado. Na irftroducção do Quadro Elementar, que tive 
a honra d'enviar a V. Ex.a, e de que incluo aqui um segundo 
exemplar, pelo que digo a p. 19 e 20 V. Ex.a poderá indicar á 
camará as peças que entrão nestes corpo do Direito Publico Di- 
plomático Externo, e a pag. 51 e 52 as divisões, e classificação 
dos documentos por ordem de Potencias. V. Ex.a verá que este 
trabalho é o mais completo que se tem feito neste género, pois 
não consiste só com os mui estimados de Ry mer (2), e Dumont (3) em 
uma compilação pura dos Tratados, mas que este corpo é pre- 
cedido pela do Quadro Elementar que lhes serve de base e no 
qual se achão immensas notas históricas, chronologicas, criticas, 



(1) Jean Rousset de Missy, litterato, filho de protestantes. Foi perseguido. 
Escreveu a Historia de Alberoni. Historiographo do priucipe de Orange. Escre- 
veu Negociações da Paz d^Utrecht, Historia da Corte de Madrid desde Filipe V, 
Relação histórica da revolução de 17 47 .'Continuou o Mercúrio Histórico. íAor- 
reu em 1762. 

(2i Thomaz Rymer que fez a publicação de documentos das relações de 
Inglaterra com as outras nações. Escreveu uma Vida de Th Hobles, etc. Mor- 
reu em 1713. 

i3) Jean Dumont historiador francez que colligiu os Traídos de Alliança, 
depois da paz de Munstcr e Negociações secretas gara a mesma paz, Corpo 
Universal e Diplomático dos Direitos das Gentes. Morreu em 1726. 



VISCONDE DE SANTARÉM 203 

e politicas de mui grave importância, e é alem disso seguida da 
Historia Politica de Portugal a que estes documentos servem de 
base. Permitta-me V. Ex.a que alem disto lhe lembre acerca des- 
tas particularidades e d'outras relativas a esta obra o que tive a 
honra de lhe escrever no ultimo §.» da minha carta de 8 de Fe- 
vereiro deste anno. 

Aprecio como devo tudo quanto V. Ex.^ tem a bondade de 
me dizer acerca da nomeação do Andrade para servir debaixo 
das minhas ordens. Queira D.^ que elle saiba corresponder ao 
favor que V. Ex.'^ acaba de lhe fazer. 

Acabo de mandar para a Legação o exemplar da Revue de 
Bíbliographie Analytique em que vem o artigo de que copiei 
parte, e que V. Ex.^ deseja ter integral. Acompanho esta remessa 
de um numero do Recueil de la Société Polytechnique onde vêm 
um artigo sobre a chronica d' Azurara, e onde se cita = la prío- 
rlté incontestahle de la découvérte des cotes occidentales d' Afri- 
que pai les Portugais. Por outra occasião enviarei a V. Ex." o 
grande artigo publicado no Journal des Savants do mez de julho 
passado sobre a mesma Chronica d' Azurara, e que contem 19 
pag. in 4.° e em que se faz justiça á nossa gloria nos descobri- 
mentos Africanos. Este será seguido de outro que se publicará 
no mez de Dezembro. Enviarei, pela mesma occasião, outro artigo 
sobre o mesmo assumpto publicado no Jornal Scientif ico = Nou- 
'velle Annales des Voyages, uma das mais acreditadas publica- 
ções deste género. Este artigo apareceo em o n.*' do mez pas- 
sado, e contem 20 pag. Já alli se trata da minha obra Franceza 
sobre a prioridade dos nossos descobrimentos. 

A prioridade deste importantíssimo assumpto, devo dizer a 
V. Ex.^ que a opinião vai-se pronunciando tanto a nosso favor 
que os dias passados, em uma das sessões do congresso histórico, 
M.s Prat, Professor do Atheneo Real de Paris, citou-me, e os meus 
trabalhos sobre os nossos descobrimentos, e posto que eu não 
assistisse á sessão vierão logo vários Professores e litteratos 
contar-me o que se tinha passado. Mas se a opinião se hade 
pronunciar a nosso favor, como espero comtudo o receio de 
V. Ex.a g justíssimo, de que hade experimentar resistência da 
parte deste Governo, apezar da evidencia da nossa justiça. Se a 



204 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



sabedoria, e moderação d'EI-Rei, e de seus Ministros podessem 
obrar sós per si, mui natural seria, ver este negocio decidido 
sem essa resistência, mas este Governo tem a contemplar o 
ponto da mais delicada susceptibilidade desta Nação, a vaidade 
e a furiosa guerra que por todos os modos lhe faz a imprensa 
radical, e da opposição e legitimista, mas tãobem a difficuldade 
talvez de convencer o actual Ministro da Marinha, debaixo de 
cujos auspícios se publicou em 1839 a Statisque des Colonies, em 
cuja obra se deu p/ assim dizer uma sancção official da fabu- 
losa prioridade dos Normandos. A estes obstáculos, e resistência 
que temos a recear, accrescem outras razões que em parte subs- 
tanciei em a carta que tive a honra de escrever a V. Ex." em 
15 de Novembro do anno passado. Bem previ estes obstáculos, 
e por esse motivo quando V. Ex.* se sérvio á tempos pergun- 
tar-me a minha opinião, indiquei o recurso da Mediação Ingleza 
na qual eventualidade da prevista resistência, e muito estimo, e 
agradeço a noticia que V. Ex.^ me communica confidencialmente 
de que o Gabinete Inglez não recusa mediar á vista de uma 
expedição clara, e digna da nossa justiça. Ora tendo estes dois 
Governos concluindo segundo se diz a questão e disputa que 
entre elles existia sobre Portendick e do commercio da gomma 
que se faz por aquelle ponto da Costa Occidental d' Africa, e ter- 
minado esta disputa pela mediação ou bons officios da Prússia, 
mais livre se achará o Governo Britânico para nos prestar este 
serviço. Se os interesses Europeos, e da conservação da Paz, 
vierem a estreitar a alliança destas duas nações, os bons officios 
da Inglaterra na eventualidade não esperada de uma recusa 
formal de justiça poderão ser decisivos. Tenho nisto muita con- 
fiança por diversos motivos que não poderão escapar á penetra- 
ção de V. Ex.> e que não desenvolvo nesta carta, reservando-me 
para o fazer quando houver portador seguro, e no caso que 
V. Ex.* assim o exija. Resta-me responder á obrigantissima per- 
gunta que V. Ex.^ me faz, se julgo ser já tempo de renovar a 
pretenção da restituição. Julgo, e p.*^ motivos m.'° poderosos que 
esta reclamação seja deferida para o fim do mez que vêm, afim, 
de q.* neste intervalo a opinião publica aqui e nas outras partes 
da Europa se penetre bem da nossa justiça, e ao mesmo tempo 



ESCONDE DC SANTARÉM 205 



poderem os m.»°" governos, e sobretudo o Britânico, tomar conhe- 
cimento confidencial da nossa exposição, como primeiramente 
tive a honra de lembrar a V. Ex.*. A prova da urgência deste 
negocio, entendo que a sua importância é maior que a urgência 
delle, e que para ser bem apreciado, e ultimado como desejamos, 
um mez de mais, longe de o prejudicar antes lhe será profícuo. 
O 1.° volume do Quadro Elementar comprehendendo 1$282 
summarios de documentos, já impressos, e já estão compostas 7 
folhas do 2." volume. Ambos estes comprehendem as nossas 
relações com Hespanha. Já comprei o papel para 3 volumes, e 
se tiver a certeza de que a somma pertencente ao anno próximo 
a partir de 29 de Março em diante será posta á minha disposi- 
ção em Londres, farei aqui os arranjos necessários p." que se não 
interrompa esta importantíssima publicação, e a impressão do 
3.*^ e 4.° e talvez 5.° volumes será feita mesmo a partir de Ja- 
neiro próximo. 

De V. Ex.« 
Am."^ e obrg.'"^ servidor 

Visconde de Santarém 
Paris 11 d'Outubro de 1841. 



Do Visconde de Santarém para o Conde da Ponte 

Paris 27 d'outubro 1841. 

Meu q.'^^ Sobr.o e Am.» do C. 

Tive finalmente o gosto de receber duas cartas suas ; uma 
datada de 11 d' Agosto, e outra de Linda a Velha de 18 do pas- 
sado. Muito senti saber que tinha soffrido tanto. No fundo tudo 
anda desconcertado. Os asnos, os máos e os tolos andão pela 
maior parte anafados, e gosão de saúde de viado em quanto os 
homens de inteUigencia soffrem de saúde, e andão sempre a ba- 
talhar com os contratempos physicos, e moraes ! Pondo de parte 
estas melancólicas reflexões, passo a responder á sua carta an- 



206 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E VlTTERARIA 

tiga. Muito estimei saber por ella que a que lhe dirigi a Turim 
se não havia extraviado. 

Quanto á minha Memoria sobre os nossos Descobrimentos 
Africanos, e do nosso direito á Casamansa, já a estas horas Luiz 
Cândido lhe terá entregue um exemplar que para esse effeito 
lhe dei em mão própria. A dita memoria está hoje convertida 
em uma obra que está também quasi impressa, e em Francez, 
para se ler neste mundo ! Este trabalho e o Atlas que o acom- 
panha tem sido aqui considerado pelos sábios como importantís- 
simo para a historia das sciencias Geographicas, pois se discu- 
tem pela primeira vez pontos extremamente obscuros da historia 
da Idade Media e da transição, ou antes revolução scientifica 
produzida pelos nossos descobrimentos. Nem o celebre D' Anville (1) 
tentou isto. E' verdade que no seu tempo não havião ainda ou 
antes não erão conhecidos dos sábios os materiaes que ora se 
conhecem, nem a critica tinha feito os progressos que tem feito 
nos nossos dias. Quanto á Chronica d'Azurara, á qual fiz 210 
notas e uma Introducção, sinto não lha poder mandar pois só 
me couberão 12 exemplares que voarão immediatamente. Em- 
quanto lhe não remetto um, peça-a ao Conde do Lavradio, que 
falia muito n'ella na carta que me escreveo, e que a leo. 

Quanto ao Corpo Diplomático, já tenho impressos quasi dous 
volumes, que comprehendem os summarios de mais de 2$ do- 
cumentos das nossas relações com a Hespanha desde o princi- 
pio da Monarchia. 

Muito estimei que durante a sua residência em Turim frequen- 
tasse o Abbade Gazzera. Elle escreveo-me á dous mezes e en- 
viou-me a sua excellente Memoria sobre o documento relativo 
aos Cruzados que vierão a Portugal no século xii. Respondi-lhe? 
logo encarregando-se o marquez de Brignole, Emb.""" de Sardanha, 
de lhe enviar a mesma carta, e varias obras minhas que mandei 
por aquella occasião para a Academia de Turim. 



(1) Jeau Baptiste Borguigon DWnville, geographo do rei em 1750. Foi 
auctor de magnif icos trabalhos que muito adiantaram na sciencia geográfica. 
Morreu em 1784 e a sua obra foi editada por Manne. 



VISCONDE DE SANTAREAÍ 207 



Quanto aos descobrimentos Genovezes anteriores aos nossos, 
é outra patranha de que dou cabo em um longo Capitulo espe- 
cial da minha obra Franceza, ^mostrando com os Documentos 
Genovezes contemporâneos a falsidade do que os escriptores 
modernos desde Tiraboschi (1) para cá inventarão a este res- 
peito. 

Conhecia a anecdota d'Alfieri pelo meu bom, e amabilissimo 
Am.*^ Araújo, que varias vezes me fallava em Alfieri (2), etc. 

O francez que publicou a vida do Dante, foi o Chevalier 
Artaud (3), antigo Chargé d'Affaires de France à Rome. Muito 
me conta de que este trabalho de Mr. Artaud é uma traducção 
da obra do Conde de Balbo ! ! (4) De tanto não suppunha eu 
capaz o intrépido Chevalier ! Que elle não era capaz de dar uma 
vida do Dante como ella deve ser escripta sabia eu, pois em um 
circulo de Savans em que se tratava de que elle compunha esta 
obra, M^ ;de Laporte, Presidente da Société des Bibliophiles, 
homem de muito espirito, e amigo d' Artaud, perguntou-me o que 
me parecia d'aquella empreza. Respondi-lhe = O Dante, ou antes 
a obra do Dante, sendo uma Encyclopedia da Idade Media, e seu 
auctor contemporâneo de homens, e obras que tiverão uma 
grande influencia nos grandes acontecimentos posteriores que 
elles prepararão, é de esperar que o Chev/ Artaud encare o 
Dante, e a vida delle, e a sua obra como Hiirter considerou 
Innocencio IIÍ e seus contemporâneos, isto é que nos dê uma 



(1) Griolamo Tiraboschi litterato italiano. Escreveu a Historia de Literatura 
Italiana, a Bibliotheca modenega. Memorias históricas raodenesas, etc. iMor- 
reu em 1794. 

(2i Conde Victor de Alfieri, poeta italiano, nascido era 1749 eque compoz 
a Comedia dos poetas e a tragedia Cleópatra. Era 17 annos escreveu 14 trage- 
dias e muitas obras era prosa e verso. 

(3) Aleixo Francisco Artaud de Mentor, diplomata e litterato. Traduziu a 
Divina Comedia, escreveu uma historia de Pio Vil e mais um livro sobre o 
Estado da pintura em Itália em 1808. Morreu em 1849" ■• 

(4) César Balbo. — Homem de estado e litterato italiano que escreveu 
entre outras cousas : As Esperanças de Itália. Foi liberal mas não extreme, era 
um constitucional moderado e foi presidente do primeiro ministério de Carlos 
Alberto. 



208 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA C LITTERARIA 



historia do estado das sciencias no tempo do Dante, e do que 
elle sabia. 

Laporte percebeo logo a enorme tarefa que o seu am.^ tinha 
a fazer, e desconfiou que elle não seria capaz de a desempenhar, 
e replicou-me: por que lhe não dá V.* esse conselho, ou antes 
por que o não ajuda etc. pois vejo que o negocio é de marca 
maior. Os outros disserão logo que elle não tinha barbas p.a 
tanto, mas o que eu não previa é que além disso, elle se arro- 
jasse a fazer um plagiato formal da obra italiana publicada pelo 
C. de Balbo ! 

Meu Conde, ainda ninguém análysou scientificamente a 
grande obra do Dante. Tem a Divina Comedia, tido infenitos 
commentadores, mas que significa a philologia, e a analyse das 
bellezas poéticas, e litterarias, e mesmo a questão do Tesaureto 
de Bruneto Latini (1) se deu, ou não origem á idéa do Dante, em 
que se tem batido os commentadores, que significa isto á vista 
da importância scientifica, e da discussão das fontes onde bebeo 
o Dante, como por exemplo a famosa passagem astronómica 
sobre o Cruzeiro ? 

Hoje é necessário saber muito para apreciar os homens e as 
obras da Idade Media, e encadear os esforços da intelligencia 
desde a invasão dos povos do Norte, com as duas chamadas 
restaurações das Lettras, e das Sciencias. 

O nosso Camões tem tido a mesma sorte do Dante. Grandes 
calhamaços de commentadores. Faria e Sousa (2), 2 enormes in 
fólios, Garcez Pereira e Manoel Corrêa (3) etc. mas acaso tomarão 



(1) Bruneto Latini, encyclopedista italiano, teve uma grande reputação e 
foi mestre de Guido Cavalcanti e de Dante. Exilou-se escrevendo era França 
o seu Livro do thesouro e o Tesoureto, versos, a que se refere Santarém. 

(2) Manuel de Faria e Sousa, historiador, philologo, poeta. O marquez de 
Castello Rodrigo levou-o como secretario na sua embaixada a Roma em 1631. 
Publicou um Commentario aos Lusíadas e obras de tal valor em Portuguez e 
castelhano que o tornaram celebre nas duas literaturas. Morreu em 1649 em 
Madrid. 

(3) Manuel Correia, licenciado, que foi amigo de Camões, e escreveu uns 
Commentarios aos Lusíadas, contando varias peripécias da vida do poeta. 
A edição é de 1613. 



VISCONDE DE SANTARÉM 209 

elles, ou considerão elles Camões como o representante do estado 
scientifico da sua época '^ Analysarão elles o saber de Camões 
como historiador, como geographo, como philosopho ? Desencan- 
tarão elles as fontes onde elle bebeo o que sabia? Certamente 
não. Occuparão-se de Mercúrio, não do planeta, mas do maroto 
do alcoviteiro, de Vénus, de Marte, de N. S/^, e dos versos, e 
variantes etc. 

Ora já basta de secatura para um doente. Não quero ficar 
responsável por lhe renovar a doença com a leitura d'esta longa 
e atrapalhada epistola. 

A sobrinha Rita, vejo-a agora mui frequentemente pois ella 
teve a bondade de me dar um logar no seu bello camarote nos 
Italianos, e assim me regala 2.'»^ vezes por semana com a musica 
divinal daquellas goelas harmónicas de Tamburini (1), Labla- 
che (2), Grisi (3), etc, etc. Nos entreactos faço as competentes 
observações sobre o próximo que alli concorre, e hontem rio a 
sobrinha tanto que chorou como sua mãi. 

Paris continua a estar bellissimo, e se augmenta todos os 
dias de uma maneira espantoza. Vamos entrar na estação em 
que vivo engoiado. Paciência, é melhor isto do que apanhar 
moscas. 

Queira ter a bondade de mandar entregar as cartas juntas, 
e recommendar-me ás pessoas que por mim perguntarem. 

ADs. 

Seu tio e Am.o f. 

Manoel 



(1) António Tamburini. — Celebre basso italiano. Morreu em Nice 1876. 

(2) Cantor italiano d'origem franceza. Admirável voz como baixo e teve 
triumphos retumbantes em toda a Europa. Cantou pela primeira vez no thea- 
tro italiano de Paris em 1830. Morreu em 1881. 

(3) Cantora que fez um grande successo em 1832 em Paris. Casou com o 
conde de Barni e deixou o theatro. Sua irmã Júlia obteve successos enormes 
durante quinze annos em Paris e a ella é que se deve referir o visconde de 
Santarém. Casou com o conde de Melcye. 

VOL. VI 14 



210 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

Do Visconde de Santarém para o Conde da Ponte 

Paris 9 de Novembro de 1841. 

Meu q.'^" Conde 

Aproveito a partida de M/ Hiibner Secretario da Legação 
Austriaca e que vai partir para essa Corte para lhe escrever 
estas duas regras, e por elle remetter-lhe um outro exemplar da 
minha Memoria sobre a prioridade dos nossos descobrimentos 
Africanos, posto que já lhe enviei outro por Luiz Cândido. Na in- 
certeza porém se este lhe terá chegado á mão decido-me a remet- 
ter um segundo. Se receber ambos peço-lhe que dê um a^seu pai. 

O texto Francez desta obra está quasi impresso, e é muito 
mais importante pois mudei quasi tudo na classificação e dispo- 
sição dos Capítulos, e acrescentei mais de 120 paginas de im- 
pressão e 150 Addições novas, tendo as antigas do exemplar 
portuguez passado para o texto. 

Este ultimo trabalho é uma verdadeira obra scientifica. 

Recebi ultimamente uma carta de Mr. d'Humboldt de 22 de 
setembro na qual me diz o seguinte á cerca das notas que fiz á 
Chronica d' Azurara. 

«Je suis touché de Taimable et bienveillant souvenir de mon 
«illustre confrère Mr. le Vicomte de Santarém, et je le supplie 
«d'agréer Thommage de ma respectueuse reconnaissance. Le 
«volume est du plus-haut intérêt, magnifique d'exécution comme 
«une édition de Bodoni.et quant au texte, un des monuments les 
«plus iuattendus de Fhistoire de la géographie. Cest un noble 
«témoignage de la grandeur et de Theroisme d'une nation. Je 
«lis et j'ai lu avec un vif intérêt les notes que vous avez ajoutés, 
«et qui renfermeut comme toujours des trésors d'instruction etc.» 

Mr. Guizot (1) em 31 do passado escrevia-me tãobem o se- 
guinte : 



(1) Homem d*estado francez e historiador illustre. Presidente de Conselho 
de Luiz Fillipe sendo muito dedicado á politica ingleza. Liberal. Deixou obras 
importantes como a Histoire de Inglaterre e as suas memorias. 



VISCONDE DE SANTARÉM 211 



«J'ai toujours à coeur les études auxquelles vous vous livrez. 
«Elles feront un jour mon repôs, come elles font anjourd'hui le 
«vôtre. Je felicite mon pays d'être devenu la patrie de vos sa- 
«vants travaux etc.» 

AD» meu Conde acredite que sou deveras seu 

Tio e Am.° f. e obg.'^" 
Manoel ^ 

P. S, Rogo-lhe o favor de mandar entregar a casa de José 
Maria de Sales (1) a carta inclusa que é uma resposta a uma 
carta que elle me escreveo pelo official da Secretaria d'Estado 
dos Neg.''^ Estrangeiros que veio aqui debaixo das m.^^ ordens. 

De Jonh Holmes para o Visconde de Santarém 

British Museum 22 Dec. 1841. 

My dear Sir 

1 feel that many apologias are due to you from me, for suf- 
fering your letter to he unaneVered. It came here when I was 
in the country, and, since my asrival, many circumstances, and 
much occupation, hwe britherto presented me from writing to 
you I also hoped that a work on wheth 7 hov beenw far some 
time engaged would have been se far printed that I might have 
sent you part relating te the subject on which yon write. 

Of maps of Africa before the year 1500 we have first a facsi 
mile copy of the Mappa Monde of Fra Mauro which í do noi 
mention further ar you no doulet know it well, from the des- 
cription of Mittarelli, Zurla, and Viment. 

«A Portolano by Grazioso Benincasa, dated 1467 containing 
five charte of which the tast containe the castern coasts of Eu- 



(í) Empregado superior do Ministério dos Negócios Estrangeiros. 



212 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTEKARIA 

rope and Africa southward as far as Cap Russo a Portolano by 
hine dated 1466. 

If you wish far it I will send you a trecing of the coast of 
Africa ia order that you may compare thene two. 

«Another Portolano by Benincasa dated 1468, of eight The 
Bibliotheque du Roipoires charts or tables of which the seventh 
contaius the western coast of Portugal anel the Coast of Africa 
south ward to Cape Blanco, and the eighth from Cape Blanco, 
to Cape Monuh. These also I will trase or have traced for you, 
if yon wish. 

«The magnificent agremblage of charts which once belonged 
to the comaro family of Venice and was afterwards in the Li- 
brary of St. March of this volume you wil find a copious descri- 
ption (I dare to say will known to you) en Cardinal Zurla 
Dissertozioni di Marco Polo e deçjli altri viaggíatori Veneziani pise 
illustri, tom II pp. 353-356. Os several of these I have enclosed 
a rongh tracing showing the M. M. Coast of Africa: the smalten 
tracings you will easily identify by refering to Zurla evoch. 
The larger tracings is from to 30 (in Zurla) I have sent it in 
order to show you the scale on which the coast is drown, but 
I have inserted a few of the names ouly. The original is very 
fuU nos 31, 32, 33 continue the coast southward to cape Negro. 

(These are ali that me have dated before 1500. Of a later 
later date me have many). 

The St. Marh manuscript in not Ithink the work of the seve- 
ral geographers whose names ore given. I rather am of opinion 
that the volume contains copies executed in one uniforme man- 
ner of their respective schemes of the Worlel. 

If í can render you any further service on these points, I 
shall be happy to do so and by a more study reply he atone in 
some musure far the long delay of this answer to your letter. 

Behine me to he my dear Sir with much consideration le 
Vicomte de Santarém. 

Your very obedient servant 
John Holmes 



VISCONDE DE SANTARÉM 213 

Do Visconde de Santarém para o Conde da Ponte 

Paris, 15 de Jan.° de 1842. 

Meu Q-/^ Sobr° e Am." do C. 

Finalmente depois de ter estado longo tempo privado das 
suas estimáveis cartas, recebo pelo ultimo paquete a sua ultima 
do 1.*^ do corrente e que me deu muito prazer. Muito lhe agra- 
deço o interesse que por mim toma. Felizmente o meu trabalho, 
ou antes a m.^ obra Franceza sobre a prioridade dos descobri- 
mentos já está impressa. Puz n'este trabalho o maior disvelo. 
Discuti e citei mais de 350 autores. Fiz conhecer muitos autores 
e Mss. desconhecidos. Esta producçâo tem causado aqui muita 
sensassão. A Société de Géographie já publicou extractos. No 
Rapport dos trabalhos do anno fizeram-lhe os maiores elogios. 
Isto me dá grande satisfação p^ que é um verdadeiro triumpho, 
o fazer-lhes engulir a pilula, em uma questão que elles reputa- 
vão decidida a seu favor á 200 annos. O meu trabalho é pois 
importante para a historia das sciencias, e ao mesmo tempo 
para a questão politica da Casamansa, é decisivo. 

Consta me que ahi se está m.*° satisfeito, pelo modo por que 
preparei a opinião publica aqui a este 'respeito. Na obra france- 
za apenas conservei o fundo da Memoria Portugueza. Espero 
poder enviar m.^'' exemplares pelos navios que partirem no pró- 
ximo mez de Fevr.° Do meu Quadro Elementar já estão 2 volu- 
mes quasi publicados. 

Quanto ao que o Conde me diz do projecto que ahi ha de 
me restituírem o meu logar de Guarda Mór da Torre do Tombo, 
eis aqui como eu penso a este respeito, O logar nunca me devia 
ter sido tirado, porque era uma propriedade na qual me encar- 
tei, e paguei grossa somma de direitos; e nelle tinha feito rele- 
vantes serviços, como poderia provar em uma memoria. Mas na 
minha actual posição, uma simples restituição daquelle Emprego, 
com obrigação de ir residir, e sem mais nada a que me tornas- 
se, não me parece nem conveniente, nem que tal arbítrio po- 



214 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

desse aproveitar ao serviço. Pelo contrario a minha nomeação 
ou antes restituição áquelle Emprego, continuando aqui as Com- 
missões de que estou encarregado, seria o melhor arbítrio, até 
pela facilidade que haveria no serviço, entendendo-me eu dire- 
ctamente com o archivo. 

Vejo o que me diz do Barão de Marchai. Foi mui de propó- 
sito que a escolha recahio sobre um homem dotado da capaci- 
dade de bem se informar afim de pôr a sua Corte ao facto do 
verdadeiro estado do paiz. 

Alem das cartas de Humboldt, e de M."" Guisot em que me 
falia, recebi uma de M."" Villemain, Ministro da Instrucção Pu- 
blica (1), datada de 19 de Nov." passado, na qual entre outras 
cousas me diz acerca do exemplar que lhe dei da Chronica 
d' Azurara : 

«J'avais déjà lu quelques extraits de la Chronique d'Azura- 
«ra; mais il m'est particuliàrement précieux de recevoir des 
«mains même de Tillustre éditeur un exemplaire de Touvrage. 
«Je vous prie de croire, M."" le V.*^, à tout Tintérêt que j'y atta- 
«che. Une connaissauce imparfaite de la langue portugaise m'a 
«cependant permis de saisir les uobles pensèes exprimées dans 
«la courte et eloquente introduction qui precede cette Chronique 
«si importante par le sujet et par Tépoque». 

O resto da carta é igualmente admirável como tudo quanto 
escreve este autor da Historia da Litteratura au Moyen Age, e 
o melhor Secretario Perpetuo que tem tido a Academia Fran- 
ceza. 

Muito senti a morte de sua Sogra. Senhora de um raro, e 
bem raro merecimento!! O bom dura pouco, o máo é só dura- 
doiro ! Dê da m.^ p.'*' os sentimentos á Sr.^ Condessa. 

Peço-lhe queira ter a bondade de mandar entregar as cartas 
inclusas. 



(1) Escriptor e ministro de instrucção publica em França desde 1839 a 
1848. Autor do Curso de Litteratura. Morreu em 1870. 



VISCONDE DE SANTARÉM 215 



Do Visconde de Santarém para Rodrigo da Fonseca Maga- 
lhães 

111"'° e Ex.'"" Snr. 

Tive o grande gosto de receber ultimamente as estimadíssi- 
mas cartas que V. Ex.» rtie fez a honra de escrever em data de 
27 de Dezembro ultimo. Por ellas vi inexplicável satisfação q 
V. Ex.^ incansável em promover a publicação dos úteis trabalhos 
que emprehendi em favor da nossa Pátria, se não poupa a dar- 
Ihes todo o o impulso. 

Agradeço pois novamenie todos estes disvelos, e mui parti- 
cularmente o interesse d'amisade com que V. Ex.a me trata. O 
único meio que p"" agora tenho para mostrar á face da Europa 
a minha gratidão por V. Ex.* foi justamente aquelle a que recor- 
ri, declarando na Introducção da minha obra Franceza que, todos 
estes trabalhos úteis para a sciencia, e ao mesmo tempo para a 
gloria de Portugal, são devidos ao illustrado patriotismo, e ao 
apoio de V. Ex.» sem o qual nunca poderião vêr a luz publica. 
Muito istimo ter podido identificar o seu nome com um tal mo- 
numento. A Europa scientifica fará justiça a V. Ex.a como já 
aqui a fazem os sábios ao nosso Paiz por verem que elle pro- 
move taes publicações. Este arbítrio do Governo tem produzido 
aqui a maior e mais favorável impressão. 

O Relatório do Secretario Geral da Sociedade Geográfica já 
está quasi todo impresso, e allí verá V. Ex.^ o conceito que a 
Sociedade presidida p.'" M.'' Villemain fez do meu trabalho do 
Atlas. 

Este Ministro, a quem dei um exemplar da Chronica d' Azu- 
rara, acompanhado de uma carta em que lhe mostrava que este 
importante escripto provava a incontestável prioridade dos nos- 
sos descobrimentos Africanos, escreveo-me uma carta da qual 
transcrevo as seguintes expressões, não pelo que me respeita, 
mas sim pelo apreço que o autor da belíssima historia da Litte- 
ratura da Idade Media, fez do Livro d' Azurara, e da impressão 
que lhe causou, diz elle pois entre outras cousas na carta que 
me escreveo em 19 de Nov.°, o seíruinte : 



216 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

«J'avais dejá lu quelques extraits de la chrouique d' Azurara. 
«Mais il m'este particuliérement précieux de recevoir des mains 
«mème de Tillustre editeur un exemplaire de Touvrage. Je vous 
«prie se croire, M."" Le V.*^, á tout Tintérêt que j'y attache. Une 
«connaissance imparfait de la langue Portugaise m'a cepeudant 
«permis de saisir les nobles pensées exprimées dans la courte 
«et eloquente introduction qui precede cette chronique si impor- 
«tante par le sujet, et par Tépoque. Je compte bien en étudier 
«aussi quelques parties, autant qu'on le peut dans une situation 
«qui ne detruit par le gout de la Science, mais qui ôte tout 
«loisir pour s'en occuper. Je n'attendrais pas ce loisir, pour fixer 
«mon attention sur des recherches et des souveniers aux quels 
«s'atache votre uom. 

Estas remessas que tenho feito, tem poderosam.*^ influído 
aqui na opinião, e parece-me ter por esta forma correspondido 
em parte ás vistas de V. Ex.a aplanando talvez a maior difficul- 
dade. Tenho tratado tudo isto com bastante precaução para dis- 
por os ânimos sem attacar o amor próprio nacional destes se- 
nhores. 

Quanto á verba dos 6 contos de reis annuaes para as despe- 
zas da grande collecção, já V. Ex.'* tinha tido a bondade de me 
avisar pela sua carta do 1.° de Novembro ultimo, que tinha 
introduzido na ley dos meios a dita verba. A carta porem a que 
tenho a honra de responder, é mais explicada, pois V. Ex.^ diz 
que se empregarão 4:õ00S e que o 1,5008 reis restante serão 
applicados para uma gratificação que será concedida, e alguma 
despeza mais com o trabalho das copias. Além disto V. Ex.^ tem 
a bondade de acrescentar que o Governo me deve dar os exem- 
plares que eu quizer destas obras. Finalmente V. Ex.a exige res- 
posta minha a este respeito, indicando-me ao m."»» tempo a 
intenção em que está de exigir uma recompensa para mim por 
estes trabalhos. 

Quanto á somma para o costeamento, julgo-a sufficiente, e 
mui generosa da parte de V. Ex.» tudo quanto se propõem fazer 
a este respeito, bem como muito me satisfará a somma annual 
que me é destinada. Quanto porem ao numero de exemplares 
destas obras para meu uso, o costume da Academia R. das 



VISCONDE DE SANTARÉM 217 

Sciencias de Lisboa, é de dar metade da edição ao autor. O 
Governo Francez dá muitas vezes a obra inteira reservando 
para si alguns exemplares como faz com o catalogo dos Mss. Ita- 
lianos do Professor de Pádua M.^ Marsan. 

Quanto á somma mandada por V. Ex.« para o costeamento 
do Quadro Elementar, foi a somma anniial ^pada por mim. e 
approvada por V. Ex.a, na sua carta de 22 de Fevereiro do anno 
passado, e na sua estimável confidencial de 29 de Março» do d.*" 
anno. Assim a dita prestação já sanccionada, deverá continuar 
este anno, e no anno futuro para a conclusão desta importantís- 
sima obra, cuja publicação não deverá ser interrompida, pois 
não 'só é um Reportório Diplomático único deste género, mas 
lambem é a base do Corpo Diplomático, e£da Historia Politica. 
O Quadro Elementar compoem-se dos seguintes volumes. 2 Rela- 
ções entre Portugal e Hespanha, 1 com a França, 2 com a Cúria 
de Roma, 1 com as Potencias italianas, 2 com a Inglaterra, 1 com 
o Império, Allemanha, Suécia, Rússia, Dinamarca, e Hollanda, 1 
com a Africa e Azia, 1 com a America, finalmente um de Taboa 
de matérias. Em tudo 9 volumes de 8.° contendo mais de 68000 
summarios e indicações de transacções de documentos diplomá- 
ticas. A remessa, pois, dos 3 contos e 5008 Rs. que V. Ex.^ me 
annunciou para o correio seguinte de 27 de Dezembro, virá mui 
a propósito para a continuação da impressão desta obra, e acres- 
centarei mesmo que é indispensável, pois contando com estas 
remessas annuaes fiz para melhor utilidade do serviço, e nitidez 
da obra, comprar uma grande quantidade de papel de primeira 
qualidade, que se fabrica d'encomeuda. Espero pois anciosa- 
mente a dita remessa. A propósito do Quadro Elemeetar, achan- 
do-se já impressos os dois primeiros volumes, rogo a V. Ex.* 
queira dizer-me que numero d'exemplares quer que lhe remetta, 

Aceite V. Ex.^ as Boas Festas, e Bons Annos, e acredite nos inva- 
riáveis sentimentos de Alta estima e gratidão com que meprezo ser 

111.™° e Ex.™o Snr. Rodrigo da Fonseca Magalhães 

De V. Ex.a 
Am.° f. e obrg.^o cr. 

Paris 16 de Janeiro de 1842. Visconde de Santarém 



218 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



Do Visconde de Santarém para Rodrigo da Fonseca Maga- 
lhães 

Paris 22 de Janeiro de 1842. 

^ 111'"° e ExJ"° Sr. 

, Tefaho a honra d'en"^iar a V. Ex."' o Bulletin da Sociedade 
Geograpliica de Paris no qual V. encontrará o Relatório do Se- 
cretario Geral feito á Sociedade, e pronunciado na Sessão Pu- 
blica de 3 de Dezembro passado, sob a Presidência do Ministro 
e Secretario de Estado da Instrucção Publica, em cujo Relatório 
se tratou do meu Atlas, e de ter por elle provado a incontestá- 
vel prioridade dos nossos descobrimentos na Africa Occidental. 
Renovo, por esta occasião, as seguranças de alta estima com 
que tenho a honra de ser 

111.»"» e Ex.™o Snr. Rodrigo da Fonseca Magalhães 

De V. Ex." 
Am.° obrg.»"» e fiel creado 

Visconde de Santarém 



Do Visconde de Santarém para Rodrigo da Fonseca Maga- 
lhães 

III.'"" e Ex.'"" Sr. 

Acabo de remetter a V. Ex.^ pela Legação de S. M. nesta 
Corte, o Relatório feito pelo Secretario geral da Sociedade Geo- 
graphica de Paris, e recitado na Sessão Publica de 3 de Dezem- 
bro ultimo, e presidida por Mr. Villemain, Ministro da Instrucção 
Publica, e em cujo relatório se trata da publicação da minha 
obra, e do Atlas que a acompanha. Receando porem que o dito 
relatório em razão do seu volume, se não possa expedir pela 
Malla com a correspondência da Legação, tomo o partido d'en- 



VISCONDE DE SANTARÉM 219 

viar a V. Ex."" a folha inclusa, afim de que V. Ex.* tenha conhe- 
cimento immediato deste importante negocio. Em meu entender, 
isto é um verdadeiro triumpho da nossa justiça, dos nossos di- 
reitos, e da nossa gloria nacional, tendo obtido que aquelles mes- 
mos que nos disputavão tudo isto, sejâo hoje pelo tribunal scien- 
tifico competente, os mesmos que digão, e confessem que estes 
direitos são incontestáveis. 

Porece-me que seria opportuno para a gloria nacional, que 
no Diário do Governo se publicasse uma traducção desta parte 
do Relatório, mas como cousa do Redactor. 

Ao mesmo tempo que a Sociedade Geographica pelo órgão 
do seu secretario, e sob a presidência d'um Ministro da Coroa, 
acaba de publicar a justiça dos nossos direitos de um modo tão 
concludente, por outra parte o Journal des Savants cujo comité 
é presidido por outro Ministro da Coroa (O Garde des Scéaux) 
diz no segundo artigo analytico da Chronica d'Azurara, n.° de 
Dezembro passado p. 173, o seguinte «Mr. Le Vicomte de San- 
«tarem dout les notes jettent tant de jour sur cette importante 
«partie de la Chronique de Guiné, vient de traiter á fond ce su- 
«jet dans une dissertation pleine de science et de logique, inti- 
«tulée : Memoria sobre a prioridade dos descobrimentos Portu- 
«guezes na Costa Occidental d' Africa, 1 vol. in-S.». L'auteur publie 
«daus ce moment une edition française de cette interessant tra- 
«vail. 

Os redactores tiverão sem duvida em vista prepararem a opi- 
nião para a analyse da minha obra Franceza, pois em outra parte 
servem-se ainda de termos mais positivos, que eu não transcrevo 
por me dizerem respeito de um modo mais directo, e pessoal em 
razão do modo porque tratei as questões históricas e geogra- 
phicas. 

Permitta-me V. Ex.^ que accrescente aqui duas palavras 
acerca da importância do Jornal dos Sábios, ainda que já á muito 
fallei neste assumpto em uma das minhas cartas. Este Jornal 
conta século e meio d'existencia, é considerado como o primeiro 
Jornal Scientifico do Mundo, e mesmo antigamente quando se 
publicavão as = Acta Eruditorum de Leipsick, este foi sempre 
considerado em toda a Europa como superior. Os seus Redacto- 



220 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

res são os homens mais eminentes das classes do Instituto, e da 
Universidade, e tem uma dotação permanente annual do Gov.» 
de 608 francos; limitão-se os seus redactores a 12, e 4 assisten- 
tes sob a presidência do Ministro, 

Nada ha tão honroso e ao mesmo tempo tão difficil, como 
obter que uma obra seja analysada neste Jornal consagrado 
somente ás obras dos sábios. Por estes motivos esta publicação 
exerce uma influencia decisiva não só neste paiz, mas também 
em toda Europa Scientifica. Pelo que deixo substanciado, V. Ex.'' 
verá quanto temos ganho relativamente á nossa importantíssima 
questão. 

Pelos dois últimos Paquetes não tive a fortuna de receber 
cartas de V. Ex.' e que eu esperava em consequência da sua 
estimadíssima de 27 de Dezembro com que V. Ex.'' me honrou. 

Renovo finalmente as expressões de alta estima com que me 
preso ser 

Paris 24 de Janeiro de 1842. 

111.'"° e Ex."^o Sr. Rodrigo da Fonseca Magalhães 

De V. Ex.a 
Am.o fiel e obrg.'"'* creado 

Visconde de Santarém 



Do Visconde de Santarém para Rodrigo da Fonseca Maga- 
lhães 

III.""' e Ex.'"° Sr. 

Não me foi possível accusar mesmo a recepção da estimadís- 
sima carta com que V. Ex.» me honrou em 10 de Janeiro ultimo 
por ter ficado alguns dias de cama pagando o tributo annual aos 
rigorosos invernos desta terra. 

Na dita carta vejo novas provas dos esforços de V. Ex.» para 
ser levada ao fim a empreza nacional das duas grandes obras 



VISCONDE DE SANTARÉM 221 

diplomáticas. Apezar, porem, da noticia que V. Ex.^ teve ^ bon- 
dade de me communicar de que acabava de requisitar a somma 
de três contos de reis para os ditos trabalhos, cuido que pelo 
Thesouro ainda se não expedirão as convenientes ordens, pois 
os Agentes da. Commissão de Londres ainda me não fizerão par- 
ticipação alguma. 

Pelo navio que parte, ou cuja partida está annunciada para 
12 do corrente, remetto a V. Ex.^ 12 exemplares coloridos do 
Atlas os quaes comprehendem 400 folhas. Entre estas faltam as 
de duas cartas que não são coloridas, a saber: a de Benincasa 
de 1741 que obtive do Vaticano, e a de Ptolomeu de 1513, pois 
tendo sido tiradas em menor numero, e tendo eu já aqui distri- 
buído algumas e mandado outras para diversas partes da Europa 
me vierão a faltar a da grande edição. Já mandei tirar mais para 
completar estas series. Emquanto pois as não mando a V. Ex.^ 
poderá ordenar que sejão substituídas pelas dos exemplares que 
mandei em Outubro do anuo passado. V. Ex.* receberá igual- 
mente pelos navios què vão partir neste mez, os exemplares da 
obra Franceza e os Atlas coloridos e encadernados para SS. MM. 
e para V. Lx.a 

Quanto aos exemplares da obra Franceza, antes mesmo do 
grande numero que remetto pelo Havre, espero que V. Ex.^ re- 
ceba, por via d'Inglaterra, alguns, no caso da partida d'algum ex- 
presso, ou que se possa obter que na Embaixada Ingleza se quei- 
rão encarregar da dita remessa. 

Aproveito de novo mais esta occasião para expressar a 
V. Ex.^ dos sentimentos de alta consideração e estima com que 
me prezo ser 

Paris 6 de Fevereiro 1842. 

111.™° e Ex.™° Snr. Rodrigo da Fonseca Magalhães 

De V. Ex.« 
Am.° f. e obrg.™° creado 

Visconde de Santarém 



222 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



De Avezac para o M se onde de Santarém 

Monsieur Le Vicomte 

Je reçois à Tinstant une lettre de Londres, informant le pas- 
sage suivant, qui vous interesse. 

«I ivent down to the Geographical Society's roome with the 
person who made Joward's copy of the map, to look at it. Africa 
makes about a third of tlie whole; and he has since told me that 
calculating the time it would take, and considering that some 
parts of the work are as great for a part as the whole, he will 
make the fac-simile of Africa with the gold and colours, for 9 
pounds, or without gold and colours for 8 pouuds. It is grite as 
much as I expected, but I think he may fairly consider Africa 
as 73 of the map. 

If you will seud me word the highest sum the viscount de 
Santarém, wishes to give for it, I will falk further with him, and 
try to get him to reduce his price. 

Je suis tout à vos ordres pour la réponse, et je vous prie 
d'agréer en attendant, 

Monsieur Le Vicomte 

rhommage des respectueuses civilités de votre tout 
dévoué confrère 

D' Avezac (1) 

Mercredi, 2 h. 



(1) Mário Avezac e Maçava, geographo illustre, secretario geral da Socie- 
dade de Geographia de França e membro da Academia de Bellas Lettras. Mor- 
reu em 187Õ. 



VISCONDE DE SANTARÉM 223 

Do Visconde de Santarém para o Conde da Ponte 

Paris 20 de Março de 1842. 

Meu querido Sobrinho e Amigo do Coração 

Recebi ultimamente a sua estimável cartinha de 27 de Feve- 
reiro passado. Sempre que me vêem ás mãos lettras suas é para 
mim dia de festa. Agradeço muito o interesse que por mim toma. 
Com effeito a minha Memoria sobre a prioridade dos Descobri- 
mentos Portuguezes tem ahi dado brado, cousa talvez única nos 
fastos litterarios do nosso paiz, e este celebre acontecimento da 
minha vida tem-me causado grande satisfação. Espero que acon- 
teça ahi mais, no caso que tomem o partido de traduzir ou dar 
extractos da minha obra Franceza, que compreende a geografia 
scientifica da Idade Media, cousa que até agora ainda ninguém 
tinha tratado. Mr. Walkenaer, que é a melhor autoridade nestas 
matérias, diz a toda a gente : Toui le monde en a parle des sys- 
temes, mais personne pas même D'Anville en a osé nous en don- 
ner une idée scientifique. Espero igualmente que ahi fará tão 
bem alguma sensação o meu magnifico Atlas. Aqui tem isto feito 
uma impressão incrível, apezar do ciúme d'alguns de verem pu- 
blicar uma obra tal por um Estrangeiro. 

Mas todos estes trabalhos, e a assiduidade que tenho posto 
em os concluir tem-me gasto a saúde, além do rigor dos inver- 
nos. Este anno ainda mais do que os outros me tem sido fatal, 
os meus catarros tem augmentado, e ultimamente tive Dona 
Grippe que me arrancou as pernas, e até que as andorinhas e o 
sol de Junho não chegarem estarei convertido em marmotie den- 
tro do casulo. 

Apesar das alterações politicas que ahi occorreram, a minha 
posição, e relações com a Secretaria d'Estado parece que não ex- 
perimentarão alteração sensível segundo me consta por boa parte. 
Comtudo as mudanças alterão sempre pontos essenciaes, e mesmo 
mudão-nos inteiramente. O parecer que estava já prompto na 
Commissão de Fazenda das antigas Cortes, e tudo em andamento 



164 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

talvez fique em lettra morta para as novas Camarás etc, etc, é 
comtudo mui difficil para quem está longe como eu poder julgar 
e prever o futuro relativamente a estas cousas litterarias. Estimei 
comtudo saber pela sua carta que tudo continuaria n'este assum- 
pto como no tempo passado. E' natural que o conde soubesse 
isso de alguma auctoridade que conhece os homens e as cousas, 
e portanto que estava informado do que já se havia determinado 
a este respeito. 

Quanto á obra do Patriarcha, que me diz ter remettido, até 
agora ainda não recebi, e tenho vivo empenho em a ter. Natu- 
ralmente perderão ou na Secretaria ahi, ou em Londres. Veja 
pois se pode remediar esta falta mandando-me outro exemplar. 

Continue sempre a dar-me noticias suas, e do que souber por 
ahi a meu respeito, e acredite que sou deveras 

Seu Tio e Am.o f. e obg.° 

Manoel 



Sociètè Française de Statistique Universelle 
Paris (Place Vendôme n.^ 22) le 4 Mars 1842. 
A Monsieur le Vicomte de Santarém 

Monsieur le Vicomte e honorable Collègue 

La Sociètè vient de recevoir de M."" Adriano da Costa une 
ouvrage dont cet honorable Membre veut bien nous faire ho- 
mage. II renferme de precieux documents syr le Portugal, 
et pensant qu'il peut être exciter votre interêt, le Consfeil 



(1) Cardeal Saraiva. 



VISCONDE DE SANTARÉM 225 



d'admnistration de la Sociétè vient de decider qu'il vous serait 
envoyé avec prière de vouloir bien le examiner. 

Staprés cet examen, vous jugiez à propôs, Monsieur le Vi- 
cointe, de nous donner le rèsultat de vos observations sur ce 
travaíl, ou une analyse des documents qu'il renférme, la Societé 
se ferait une plaisir d'msérer dans ses publications le rèsultat de 
votre examen. 

Veuillez agréer, Monsieur le Vicomte, la nouvelle assurance 
de ma haute considération. 

Le Directeur de la Sociétè 

César Moreau 



Do Visconde de Santarém para Rodrigo da Fonseca Maga- 
lhães 

III.""' e Ex."'" Snr. 

Não escrevi a V. Ex.» pelo ultimo Paquete por que continuei 
a estar muito incommodado. Hoje, porém, que estou quasi de 
todo restabelecido, principio amanhã importunando a V. Ex.^ 
com a leitura desta. 

Nos Diários do Gov.° de 10 e 14 do passado vi com o maior 
prazer os art.o^ publicados, o 1.° pela Associação Marítima e 
Colonial de Lisboa, e o 2.° a parte do Relatório feito á Socie- 
dade Geográfica de Paris acerca do Atlas, e isto conforme o 
desejo que eu tinha manifestado a V. Ex.a em uma das minhas 
cartas. 

Vejo que tudo isto è obra de V. Ex.» nascida do seu zelo 
pelas cousas, donde resulta gloria para a Nação, e pelos seus 
gostos e inclinações litterarias, e ao mesmo tempo da verdadeira 
amisade- com que me honra. Receba V. Ex.'*, pois, novos agra- 
decimentos meus por mais este favor. Não posso tãobem deixar 
de considerar como idea de V. Ex.''^ a outra publicação que 
acabo de ver no Diário do Gov.° de 25 de Fev.o isto é, a de se 
publicar a m.^ Memoria integramente. A este respeito devo dizer 
a V. Ex.^ que me parecia opportuno que o §.° vir.*^ que trata da 
VoL, VI 15 



226 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



Casamaasa fosse substituído pelo da obra Franceza que envio 
incluso e que é mais completo e concludente. Devendo traduâr-se 
no caso que V. Ex.^» adopte este arbítrio. A Memoria Portugueza 
como V. Ex.a, verá, foi toda refundida e acrescentada quasi com 
o dobro na edição Franceza; mudei-lhe até a ordem dos cap.®*^ 
e hoje julgo a Portugueza mui diminuta principalm-t^ na parte 
scientifica. Se V. Ex.a, ainda mesmo antes de receber os exem- 
plares, tiver um momento para confrontar a parte relativa ás 
cartas que se publicou por extracto no Bolletin da Socied.^ Geo- 
gráfica, do mez d'outubro do anno passado, que tive a honra de 
lhe mandar, se a confrontar, digo, verá a differença entre uns, e 
outros. 

Queira V. Ex.^ dar-me sempre noticias suas e acreditar nos 
sentimentos de gratidão com que sou 

111.»"» e Ex.'"« Snr. Rodrigo da Fonseca Magalhães 

De V. E.a 
Am.o f. e obrg."i° cr. 

Visconde de Santarém 



Do Visconde de Santarém para Rodrigo da Fonseca Maga- 
lhães 

Paris 14 de Março de 1842. 

111.'"° e Ex.""" Snr. 

Aproveitando-me do avizo que acabo de receber da Legação 
escrevo estas duas regras a V. Ex.^ para lhe enviar um exem- 
plar do texto francez da nossa obra sobre os descobrimentos. 
Alli encontrará V. Ex.^ na introducção p. xix o seu nome identi- 
ficado com um trabalho que tãobem tem sido considerado aqui 
não só como um momento levantado á gloria Portugueza, mas 
tãobem á historia das sciencias. Em breve receberá V. Ex.^ esta 
obra completa pois determineime, a rogos de alguns sábios daqui, 



VISCONDE DE SANTARÉM 227 



d'Allemanha e d'Inglaterra a produzir pela primeira vez a his- 
toria dos differentes systemas cosmographicos dos sábios da 
Idade Media desde o v.'' século até aos descobrimentos dos Por- 
tuguezes, bem como* mostrar quaes erão as suas opiniões sobre 
a famoza questão das Zonas habitáveis e inhabitaveis. Acrescen- 
tei, pois, este trabalho á Introducção. Está já impresso : logo que 
as boas folhas se tirarem as enviarei a V. Ex.^. Por ellas ficão 
levados a ultima evidencia os incríveis e gloriosos serviços que 
os Portuguezes com os seus descobrimentos fizerão ás sciencias 
e ao conhecimento da terra que habitamos. 

Desejo que V. Ex.% em algum momento vago, possa compa- 
rar o volume que agora envio, com a Memoria Portugueza á 
m.^^ publicada. Este que remetto tem depois de completo mais 
do dobro do trabalho Portuguez. 

Aproveito tãobem esta occasião para enviar um volume do 
Quadro Elementar. A propósito deste, permitta-me V. Ex.^ que 
lhe rogue (se V. Ex.^ nisso não achar inconveniente) queira ter a 
bondade de lembrar ao actual Ministro da Fazenda a expedição 
das ordens para se porem á minha disposição os 3 contos que 
V. Ex.^ tinha yeclamado. Se toda ou parte desta somma não for 
posta a meu credito o mais tardar até ao fim do mez próximo, 
a falta delia me causará mesmo prejuízo, independentemente do 
atrazo em que ficará a publicação. 

Queira V. Ex.^ receber as expressões de fiel amizade e grati- 
dão com que me prezo ser 

De V. Ex.a 
Am.o f. e obrg.^o Cr. 



Visconde de Santarém 



Paris 19 de Março de 1842. 



P. S. — Acabo de saber neste momento que M.'' Eyriés, um 
dos mais sábios geógrafos Francezes, em uma analyse da obra 
sobre as Colónias Francezas publicada pelo Ministério da Mari- 
nha, refuta a questão dos suppostos descobrim.t*'^ Normandos, 
servindo-^se para isso das doctrinas da minha obra. 



Í2S CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



Do Visconde de Santarém para Rodrigo. da Fonseca Maga- 
lhães 

III.""' e Ex.'"" Sr. 

Continuo a agradecer a V. Ex.° a honrosa parcialidade com 
que me trata, tendo tido a bondade de fallar pela segunda vez 
ao Duque da Terceira sobre os nossos negócios litterarios; mas 
vejo Verificados os meus receios acerca das consequências que 
a sabida de V. Ex." do Ministério devia trazer ao progresso 
delles. Já em Junho do anno passado a sua temporária sabida, 
e outras causas que eu de longe mesmo presenti, obstarão sem 
duvida, a que V. Ex.« pozesse em pratica todas as suas illustra- 
das vistas e projectos relativamente a este e outros negócios. 
Se a impressão do Quadro Elementar parar, será uma vergonha 
para Portugal á face da Europa quando todo o mundo cá por 
fora sabe que a mesma anarchica Republica de Venezuela deu 
ultimam.'^ a Codazzi 82.S000 francos para publicar uma sua carta 
de Venezuela e um volume de texto em 8.^ e que demais lhe 
deu toda a edição; e que até o pequeno reino de Hanover gasta, 
e tem gasto sommas enormes com a publicação dos Monumenta 
Germânica que o meu collega Pertz publica, o qual além d'isso 
acaba de ser nomeado por El-Rei de Prússia Bibliothecario em 
Chefe da Bibliotheca de Berlim. 

Como quer que seja, a estas horas já V. Ex.^ terá recebido 
o 1.^ volume do Quadro Elementar que lhe remetti pelo correio 
expedido de Roma e que passou por aqui. 

Com esta remetto a V. Ex.« o artigo que a Revue de Biblio- 
grapliie Analytiqiie do mez de Março passado publicou a res- 
peito desta obra, a qual tem já aqui feito bastante impressão 
pela sua incontestável utilidade Europea. 

O Journal des Savants publicará outros artigos que abran- 
gem os dous primeiros volumes desta obra. 

Continue V. Ex.» a dar-me o prazer das suas importantes 



VISCONDE DE SANTARÉM 229 

noticias, e a acreditar nos sentimentos invariáveis de fiel amizade 
e gratidão com que me prezo ser 

De V. Ex.» 
Am.° f. e Obfif.'"^ Cr. 



Visconde de Santarém 



Paris 3 de Abril de 1842. 



Do Visconde de Santarém para o Conde da Ponte 

Paris, 3 d'Abril de 1842. 

Meu q." Sob.'"' e Am." do C. 

Recebi hontem finalmente o índice Chrouologico das Nave- 
gações e viagens dos Portuguezes composto pelo Sr. Patriarcha e 
que veio acompanhado da sua boa cartinha datada de 13 de 
Novembro do anno passado ! ! ! Nada menos de 4 mezes e meio 
em caminho ! Recebemos aqui noticias da China em menos tem- 
po. Esteve pois este livro encalhado ou em Lisboa, ou mais pro- 
vavelmente em Londres á espera de portador. 

Li-o com attenção, e pareceo-me um trabalho útil pela conci- 
zão, E' um compendio, ou antes Índice como bem lhe chamou o 
Autor dos descobrimentos e viagens que facilita ao investigador 
a indagação dos factos pelas datas, comtudo entre nós e aqui 
para nós, a sua utilidade histórica seria maior se o Autor tivesse 
tido o cuidado de citar sempre as fontes como fazem os sábios 
cá por fora, e mesmo aquelles que o não são. Ainda não ha 
muito vi eu os excellentes resumos históricos approvados pelo 
Conselho desta Universidade, nos quaes não só se citão as fon- 
tes em as notas, mas até os textos. A razão disto é bem clara. 
Consiste em que uma regra de critica histórica nos impoêm o 
dever de citar a autoridade, pois nós não temos nenhuma para 
affirmarmos factos que se passarão nos tempos e séculos ante- 
riores. 

A pag. 234 quando trata do Preste-João faltou-lhe a erudição 



230 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



necessária para mostrar quando, e como começou na Europa a 
tratar-se da existência daquella personagem Nestoriana no Orien- 
te, onde o collocarão nos séculos 12, 13 e 14, finalmente quando 
o transportarão para a Africa Oriental. 

Mas todos estes pequenos reparos não diminuem cousa algu- 
ma na importância, e utilidade do Livro, perfeitamente escripto, 
como elle costuma, e ao que elle presta e dá a preferencia em 
todas as suas composições. Eu vou dar conta deste opúsculo em 
um artigo dos Annales des Voyages, e conto fazer-lhe elogio, por 
que penso como se pensa cá por fora. S. Em." a única vez em 
que fallou no meu nome foi em a nota a p. iv da Instrucção, 
dizendo, e dizendo bem ou por outra fez bem em o dizer. «Quan- 
do isto escrevíamos ainda não tinha apparecido a edição da 
obra de Azurara, ha pouco publicada em Paris pelo Sr. Visconde 
de Santarém.» Em quanto a pag. 15G fallando da publicação do 
Diário da navegação de Martim Affonso de Souza, diz (veja-se 
o Diário desta navegação ha pouco publicado pelo Sr. F. A. de 
Varnhagem com mui eruditas e interessantes Notas.) 

Dois formidáveis artigos publicados pelo Journal des Savants 
sobre a Chronica de Azurara e o meu trabalho das notas me 
consolão da preterição que S. Em.'» me fez preferindo o rapaz 
novato, ao veterano que ganhou todos os postos á ponta da 
penna, e isto sem cessar, á 35 annos a esta parte. 

Tãobem tratando de D. João de Castro, (1) do seu saber esque- 
ceo-lhe dizer como eu pela primeira vez o tinha provado em 
uma Dissertação publicada pela Sociedade geographica de Pa- 
ris, tanto mais que ahi fiz elogio a S. Em.^ pela sua nova edição 
da vida de D. João de Castro por Jacinto Freire, apesar de S. 
Em.'^ publicar anexas varias cartas, e documentos, tirados dos 
meus Manuscriptos que me levarão para a Torre do Tombo, 
tirados da minha casa, e sem citar a collecção, nem tão pouco 
citar as cartas escriptas por El-Rei D. João IIÍ áquelle grande 



(1) O celebre vice -rei da índia que empenhou as barbas para salvar a 
pátria. Fez actos prodigiosos para estender o mappa portuguez. Morreu 
com 48 annos em 1548. 



VISCONDE DE SANTARÉM 



231 



homem de que eu tinha dado a lista chronologica em uma longa 
nota da minha obra obra publicada pela Academia em 1872 
intitulada Noticia dos Mss. Portuguezes existentes em Paris, obra 
que elle conhece perfeitamente. 

Repito a este respeito o que dizia o P.^ Vieira — Que é neces- 
sário vir tomar ares cá para fora — «que o P^^ que tinha escripto 
«em Portugal uma cousa, quando veio tomar ares escreveo o 
contrario». 

Isto dizia o sagaz Jesuita já no século 17, e que progresso 
que tudo tem feito por cá desde aquella época ! ! 

Conto enviar a S. Em.a (apesar destes esquecimentos) um 
exemplar colorido do meu Atlas acompanhado de um volume de 
texto de mais de 400 paginas, e que impresso em maior cara- 
cter daria dous, e tem o seguinte titulo — 

«Recherches sur la priorité de la découverte des Pays situes 
sur la Cote Occidentale d' Afrique au dela du Cap Bojador, et 
sur les progrès de la Science géographique, après les naviga- 
tions des Portugais au xv« siècle — accompagnées d'un Atlas 
composé de Mappemondes et de Cartes pour la plupart inédites 
dressées depuis le xi« jusqu'au xvii« Siècle.» (1) 

Fiz pela primeira vez n'esta obra, ou para melhor dizer dis- 
cuto, e publico todos os Systemas Cosmographicos de toda a 
Idade Média até aos descobrimentos dos Portuguezes no xv.« 
século. Começo pois em Macrobio, Orosio, Prisciano e Philos- 
torge no v.« século e corro os 10 séculos até aos nossos desco- 
brimentos. Alli publico pela primeira vez tãobem muitos textos 
dos Cosmographos, e geógrafos Árabes inéditos, desde Alby- 
roung até Ibn-Khaldoun contemporâneo de Azurara, todos os 
dos Cosmographos Christãos. Trato da famoza questão das Zo- 
nas habitáveis, e inhabitaveis, e mostro mathematicamente que 
a maior parte do Globo deveo o seu descobrimento aos Portu- 
guezes e isto por provas irrefragaveis. 

M."" Walckenaer um dos homens mais eminentes da Europa 
como geógrafo profundamente sábio — dice-me — quando eu lhe 



(1) Veja-se a nota 1 á Caria XVIII. 



232 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



mostrei as primeiras folhas impressas — «Comment?. . . Tout le 
monde en a parle de cela mais jamais personne a eu ni le savoir 
ni le courage, et Téruditiou profonde iudispeusable pour le fai- 
re». Este verdadeiro sábio, tão leal nos seus procedimentos por 
isso mesmo que sendo riquíssimo de saber não tem inveja de 
ninguém, está nos ares com este meu trabalho, fallou publica- 
mente delle na Sessão do Instituto, e não tem cessado de andai* 
por toda a parte a fallar nisto, 

Recommendo-lhe de novo que não dê ao Conde do Lavradio 
a menor idéa d© que me resenti da pouca delicadeza litteraria 
do seu amigo para comigo. Tudo quanto acima digo é uma con- 
versa com o Conde, e nada mais. 

Dê muitos recados da minha parte a seu Pai, acredite que 
sou seu 

Tio e Am.o f. e obrg.*^° 

Manoel 

S. P. — Quanto ao meu Atlas mandei para o Gov.<', haverá 
cousa de 8 mezes, 50 exemplares, e-á perto de 2 mezes-20 exem- 
plares coloridos da grande edição que Rodrigo da Fonseca me 
tinha pedido para se distribuírem ahi. Mas este Ministro homem 
ao meu vêr de um zelo e intelligeucia bem rara em matérias 
que interessão a gloria nocional, tendo sabido do Ministério, 
até agora nem uma palavra se me escreveo para me accusar 
ao menos a recepção. 

Queira mandar entregar a inclusa ao Conde do Lavradio. 



Do Visconde de Santarém para Rodrigo da Fonseca Maga- 
lhães 

III.""' e Ex.'^" Snr. 

Tive hontem o gosto de receber a obrigantissima carta de 
V. Ex.» de 21 do pesado, e com estas novas e abundantes pro- 
vas da verdadeira amizade com que V. Ex.^ se digna honrar-me, 



VISCONDE DE SANTARÉM 233 



e que eu lhe mereço pelo vivo interesse, e seja-me permittida a 
expressão, pela admiração que tenho pelas suas elevadas e bem 
raras qualidades. 

Tenho recebido pelo Paquete de 26 um officio do Duque da 
Terceira communicando-me que S. Mag.*^^ Fora servida conceder 
3 mezes de hcença ao official da secretaria d'Estado Andrade 
que se acha nesta corte servindo debaixo das m.^^ ordens, jul- 
guei que poderia parecer ao Duque affectação minha o meu si- 
lencio sobre as publicações de que fui encarregado, e de que me 
occupo, e que elle poderia estranhar que eu não dissesse uma 
palavra prevendo que V. Ex.^ me escreveria sobre o propósito 
em que elle estava de continuar neste assumpto o que V. Ex.^ 
tão sabia como generosamente tinha começado no seu Ministé- 
rio, aproveitei, pois, a occasião de accusar a recepção do Despa- 
cho delle para lhe dirigir uma carta particular, animado tãobem 
pelo que V. Ex.a se sérvio participar-me. Na minha d.'* carta 
agradeço ao Duque a conservação da sua amisade, que data desde 
a minha infância, isto é, de quasi 30 annos, e lhe falo na conti- 
nuação da publicação das nossas obras. Não entrei em detalhes, 
remettendo-me a este respeito a tudo quanto lhe tem dito 
um amigo efficassissimo, e bem raro nos tempos em que vi- 
vemos, amigo illustrado que avaha quanto são importantes 
mesmo politicamente fallando as publicações de que se trata, 
tanto para a gloria nacional, como para credito do Governo, e 
do Ministro que lhes deu o impulso. 

Espero que V. Ex.'^ approvará esta attitude inteiramente 
particular, e ditada pelos motivos que deixo ditos. Quaesquer 
que sejão os resultados, em todo o caso, tudo será devido a 
V. Ex.» aos seus esforços, á sua amizade e ao seu interesse pelas 
nossas cousas nacionaes. 

• Apezar das efficazes diligencias de V. Ex.« e do que me diz 
na sua carta, cuido que as ordens para Londres não forão expe- 
didas nem pelo Paquete de 21, nem pelo de 26 pois até agora 
ainda não recebi o avizo do estilo do Presid.^ da Commissão do 
Thesouro. 

Muito me admira que V. Ex.^, accusando-me a minha carta de 
19 de Março ultimo, me diga que não recebera o exemplar Fran- 



234 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



cez da minha Memoria, pois o d,° exemplar bem como um do l.» 
volume do Quadro Elementar hião fechados com a carta daquella 
data, e forão levados pelo Husson que foi expedido em correio 
para levar as Bulias, e a roza d'ouro que o Papa mandou. Tão- 
bem expedi a V. Ex.^ á 3 mezes um caixote que foi mandado 
pela Legação para o Havre com os exemplares dos Mappas 
coloridos, ou illuminados. Queira V. Ex.» ter a bondade de se 
informar deste negocio. 

Repito as expressões de inalterável estima e gratidão com 
que sou e serei sempre 

De V. Ex.a 
Am.° fiel e obrg.'"° cr. 

Visconde de Santarém 



Do Visconde de Santarém para Rodrigo da Fonseca Maga- 
Ifiães 

Paris 11 d' Abril de 1842. 

111.'"" e ExJ"" Snr. 

Posto que já agradeci a V. Ex.^ do fundo do coração, pelo 
correio passado em resposta á sua obrigantissima carta de 2 de 
Março, tudo quanto tem feito a meu respeito renovo nesta outro 
agradecimento pelo muito que me penhora a confiança que se 
digna pôr na minha opinião acerca da avaliação dos motivos que 
o obrigarão a sahir do Ministério. V. Ex.^ de certo se recorda de 
que em 9 d'Agosto do anno passado lhe dizia o seguinte: «Aquel- 
les homens de estado que conseguirem fazer parar a tormenta, 
e o vórtice fatal das revoluções, e das reacções politicas tem o 
direito incontestável ao maior reconhecim.'^ da Pátria. 

V. Ex.^ diz-me que, quanto mais se poêm distante da politica 
mais se aproxima da litteratura a cujo estudo deve algumas horas 
felizes da sua agitada vida. 

Não posso deixar de me felicitar cada vez mais de ter encon- 



VISCONDE DE SANTARÉM 235 



trado em V. Ex.^ um am.° em todos os sentidos, das mesmas 
sympathias, e do m.^^^ modo de pensar. 

Que teria sido de mim sem o estudo, sem.os livros, sem a 
philosophia que elles inspirão na adversidade ! Ao estudo devo 
consolações, e confortos que sem este não encontraria em cir- 
cumstancia alguma, e que nenhum poder humano me podia dar; 
ao estudo, e á cultura das sciencias devo o que todas as honras 
do Mundo, e todas as riquezas materiaes me não podião dar, a 
a consideração geral da Europa augmentada de dia em dia depois 
da minha queda do pináculo das dignidades politicas pelas 
revoluções do meu paiz. E' aos livros que devo a tolerância dos 
principios, e as convições profundas da indispensável necessi- 
dade de ordem nas sociedades humanas: é ao estudo que devo 
um numero incrível d'amigos, é a este que devo a amizade 
daquelle que mais provas me tem dado de affecto, é por certo 
a este que eu devo o primeiro de todos, aquelle que mais prezo. 
E' finalmente aos livros e aos meus trabalhos litterarios que devo 
a conquista de um homem como V. Ex.'^. Continuemos, pois, as 
nossas tarefas litterarias em beneficio da pátria, e em honra 
delia, e nisto lhe faremos grande, e importantíssimo serviço, 
serviço real, mesmo politicamente fallando, pois as publicações 
das obras, e escriptos que recordão os grandes feitos de uma 
nação, sobre tudo quando ella se tem achado entregue ás com- 
moções civis, divergem a attenção para as cousas úteis, e para. 
os exemplos de patriotismo, e infiltrão as boas doctrinas no povo, 
formão mesmo insensivelmente uma opinião conservadora da 
ordem, e admiradora da gloria Nacional, civilizão as nações e 
tornão por fim nullas, ou pelo menos neutralizão os perniciozos 
effeitos das ambições dos partidos políticos, que a propagação 
das mesmas doctrinas desarma, e confunde. A propagação das 
obras históricas dos factos de uma Nação, em um povo pequeno 
pelo território, e pelos recursos phisicos, e materiaes, é em meu 
entender ainda mais importante do que nas grandes Nações. Nas 
pequenas é necessário que o amor da pátria supra a pequenez 
phisica, em quanto nas grandes Nações o mesmo prestigio da sua 
força, e grandeza as faz respeitar mesmo nas épocas de sua deca- 
dência, ou de dissolução civil pelas reacções, e convulções politicas. 



236 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



Responderei agora á ultima importantissima carta de V, Ex.« 
datada de 3 do corrente. Muito me lisongea a approvação que 
V. Ex.^ se digna dar á minha obra Franceza sobre os nossos 
descobrimentos. A parte que está na imprensa é uma continua- 
ção da introducção, e forma uma dissertação preliminar, e para 
a ligar com o que já estava composto, introduzia de pag. xxv 
em diante, e estão já compostas 5 folhas. Nesta dissertação provo 
que durante os 10 séculos da Idade Media que precederão os 
nossos descobrimentos, os sábios, e marítimos da Europa, e os 
mesmos geógrafos mathematicos Árabes, não conhecerão metade 
do Globo, e que o conhecimento deste foi só devido aos Portu- 
guezes, a cujo impulso se deveo a descoberta da America se- 
gundo se vê por documentos relativos a Colombo. 

A dita dissertação é pois uma continuação da introducção, e 
vai todas nos volumes desta obra. Em outra fallarei neste nego- 
cio mais de espaço afim de pôr a V. Ex.*» melhor ao facto deste 
accrescentamento, e bem assim de 8 monumentos de primeira 
ordem que ajuntei ao meu Atlas, por me parecer que devia le- 
vantar para sempre um monumento á gloria do nosso Paiz e im- 
pedir de futuro que esta lhe seja disputada. 

Mandarei a V. Ex.'» todos os exemplares que quizer da minha 
obra para os distribuir pelos seus amigos. 

Quanto ao espinhoso negocio da minha non^eação de Guarda 
Mór do Archivo Real, devo dizer a V. Ex.^'^ que me deixou atur- 
dido, pois esta nomeação posto que sobremaneira honrosa como 
tudo quanto emana do Throno, e muito mais em meu favor, me 
parece que acerca delia devia ter sido previamente consultado 
de um modo indirecto ou confidencial, para me não exporem em 
conjunctura tão dehcada sobre tudo na minha posição a uma 
acceitação, ou recusa que os partidos políticos dentro e fora de 
Portugal não deixarão de commentar a seu sabor. 

Não recebi até agora participação alguma official, de maneira 
que desta nomeação só tenho conhecimento pelos Jornaes, e pe- 
las cartas particulares dos amigos de Lisboa e Londres. Logo 
pois que me chegar á mão a participação official responderei 
como devo, e direi a impossilidade em que me acho a este res- 
peito. 



VISCONDE DE SANTARÉM 237 



O governo está ao facto de que eu estou encarregado d'uma 
publicação, ou antes de publicações nacionaes de máximo inte- 
resse, e que eu só posso dirigir, e continuar, que estas se fazem 
em Paris que já se tem dispendido fundos para esse effeito, que 
já lhes dei principio, e grande publicidade em proveito da Nação, 
que alem disso muitos arranjamentos concernentes a este obje- 
cto estão feitos, finalmente que a Europa inteira tem conheci- 
mento disto. 

O Governo sabe emfim que estes serviços são mais proficuos, 
e mais importantes do que aquelles que mesmo em tempos ordi- 
nários pratiquei no Archivo que dirigi durante 10 annos. Se não 
fossem as circumstancias que V. Ex.a pondera na sua carta a no- 
meação de que se trata poderia ser de grande vantagem para os 
trabalhos de que estou encarregado, pois a minha reintegração 
na direcção do Archivo podia permittir a continuação das pu- 
blicações e da minha residência em Paris, conservando aquelle 
logar, pois isto facilitaria a minha communicação official, e di- 
recta com aquella repartição, em quanto por outra parte na forma 
do estilo outro empregado seria encarregado interinamente, e no 
meu impedimento de dirigir o expediente dos negócios como se 
praticou muitas vezes nos tempos do marquez de Ponte de Lima, (1) 
visconde de Balsemão, (2) José de Seabra &.^ (3). A respeito da 
grande publicação da collecção dos documentos diplomáticos, te- 
rei a honra de escrever a V. Ex.^ peio Paquete próximo, e res- 
ponderei ao que V. Ex.^ tem a boudade de me dizer a este res- 
peito e que me deu o maior prazer, bem como o annuncio da 
remessa certa de fundos para a continuação da publicação do 



(1 ) Marquez de Ponte de Lima, D. Thomaz Xavier de Lima, ministro de 
D. Maria L apesar de estar interdicto. Durante o seu ministério apenas mu- 
dou a côr das fitas das condecorações de Christo, S. Thiago e Aviz. Morreu em 
1800. 

(2t Visconde de Balsemão, Luiz Tristão de Sousa Coutinho, conselheiro de 
estado de D. Maria L Era fraco politico. 

(3) José de Seabra da Silva, ministro com o marquez de Pombal que o 
desterrou para Africa, em vista de ter narrado aos partidários de D. Maria I a 
combinação d'aquelle ministro para a excluir do throno em beneficio do prín- 
cipe D. José. Voltou ao ministério quando D. Maria foi rainha. 



238 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



Quadro Elementar! Quanto a esta remessa por V. Ex.^ prometlida, 
ainda por este ultimo Paquete não vierão as competentes ordens. 

Espero-as pois estas pelo de 11. 

Aceite V. Ex.^ as expressões de reconhecimento e fiel ami- 
zade com me preso ser 

Paris 18 d' Abril 1842. 

De V. Ex.« 
Am.° fiel e obrg.'"» creado 

Visconde de Santarém 

Para o Duque da Terceira (1) 

Paris 22 de Abril de 1842. 

III.""' e Exr° Sr. 

Tenho a honra d'enviar a V. Ex.« o 1.° volumee do Quadro 
Elementar dar Relações Diplomáticas de Portugal, &. 

Por outro Navio remmetterei o 2.° volume d'esta obra no qual 
termiuão os summarios das nossas Transacções Commerciaes 
com a Hespanha montando os ditos summarios só destes dois 
volumes a mais de 2:000. 

O começo mesmo d'esta publicação, feita por ordem do Go- 
verno, tem produzido já aqui e em toda a Europa uma indisivel 
impressão em favor do mesmo Governo que lhe prestou o seu 
apoio. 

Rogo a V. Ex.^ queira ter a bondade de me indicar o numero 
de exemplares desta obra que para ahi devo mandar a fim de 
me poder regular sobre este objecto. 



Deus Guarde a V. Ex.% &. 



(1) Duque de Terceira, o celebre conde de Vila Flor, que foi um grande 
guerreiro e tomou Lisboa, após a conquista do Algarve aos miguelistas. Liberal, 
Presidente do conselho em 1836. Adversário da revolução de setembro e em 
1837 revolucionou o paiz, fazendo parte da celebre revolta dos marechaes. 



VISCONDE DE SANTARÉM 239 



Do Visconde de Santarém para Rodrigo da Fonseca Maga- 
lhães 

, III""' e Ex.'"" Sr. 

Com esta encontrará V. Ex.^ a que tive a honra de lhe es- 
crever em 18 mas que não tendo chegado a tempo de partir 
juntamente com um maço para a Academia e que devia levar o 
Mousinho da Silveira (1), ficou tudo assim retardado. 

Pelo ultimo Paquete de 11 do corrente fiquei privado de carta 
de V. Ex.^. Não recebi igualmente a participação da remessa do 
dinheiro, que o Senhor Ministro da Fazenda tinha não só prom- 
mettido a V. Ex.^ mas que V. Ex.^ me segurava que de certo vi- 
ria por este ultimo Paquete. 

Não recebi tão pouco a indispensauel communicação official 
da minha nomeação para o Archivo, e portanto acho-me ainda 
impossibihtado de dar a referida resposta. 

Na presença destas difficuldades, espero tudo da actividade, 
e do incansável favor de V. Ex.^ a fim de que trabalhe, quanto 
possa para que as nossas empresas litterarias não soffrão inter- 
rupção alguma por pequena que seja. 

Quanto á publicação da grande collecção sobre a qual V. Ex.''^ 
me diz na sua ultima carta que o Duque da Terceira conviera de 
pôr em pratica o seu plano, nada tenho a dizer se não repetir 
novos agradecimentos, e de todo o coração, e que não acho ou- 
tro plano melhor do que aquelle que V. Ex.^ proposer, a offere- 
cer ao Duque a este respeito. 

Resta-me só fazer votos para que o dito plano se realize, e 
que me deixem em paz desempenha-lo para honra da Pátria, 
e do homem illustre que o promoveo, finalmente para minha 
própria gloria, acabando os dias que me restão cheio de satisfa- 
ção de ter sempre feito serviços úteis ao meu paiz, e os mais 
importantes quando mesmo vivi longe d'elle, privado de todos os 



(Ij Mousinho da Silveira, o celebre liberal que fez as notáveis leis e refor- 
mas do constitucionalismo. Morreu em 1849, mas desde 1840 que não entrava 
na politica. 



240 CORRESPONDÊNCIA SCIÉNTIFICA E LITTERARIA 



empregos, proveitos, e ordenados que me tinhão sido conferidos 
durante os tempos em que o servi. 

Espero, pois, com a maior anciedade a continuação das pre- 
ciosas cartas de V. Ex.^ para saber como me heide haver nestes 
importantes negócios. 

Para pôr a V. Ex.^ ao facto das nossas publicações litterarias 
naciouaes que intentamos aqui, remetto o Prospecto incluso da 
publicação do Leal Conselheiro d'El-Rei D. Duarte. 

Devo, porem, prevenir a V. Ex.'^ que nesta publicação não 
tenho outro interesse, ou outra intervenção, do que a da parte 
litteraria. Prestei a minha cooperação com a condição de só me 
reservarem 2Q exemplares para as Academias principaes da Eu- 
ropa de que sou Membro e ás quaes é de rigor dar as obras em 
que tomo parte. Um dos meus exemplares será destinado a V. Ex.^ 
e por tanto não nem necessita V. Ex.'' subscrever para esta obra. 

Acceite V. ^x.'^ as constantes protestações de eterno reco- 
conhecimento com que sou, 



Paris, 25 de Abril de 1842. 



De V. Ex.« 
Am.« f. e obrig.™o cr. 

Visconde de Santarém 



Do Visconde de Santarém para Joaquim José da Costa de 
Macedo 

III.""' Sr. 

Rogo a V. S.^ queira ter a bondade de offerecer da minha 
parte á nossa Academia um exemplar do meu trabalho intitu- 
lado = Recherches Historiques, Critiques et Bibliographiques sur 
Améric Verpuse et sur Voyages e egualmente um exemplar da 
obra de Mr. Eduard Briot (1) intitulada De rAbolition de UEscla- 



( 1) Eduard Constant Briot, Amologo francez, investigador histórico e escre- 
veu memorias. Alumno da Academia de Descripções e Bellas Artes, morreu 
em 18Õ0. 



VISCONDE DE SANTARÉM 241 

vage Ancien en Occident. O Estimável autor desta obra tendo-me 
feito presente de dous exemplares, julgo do meu dever offerecer 
um á Academia para ser depositado na sua Bibliotheca. 
D.« G.e a V. S.^, Paris, 27 de Abril de 1842. 

Visconde de Santarém 

111.'"° Sr. Joaquim José da Costa de Macedo. 

* 

Carta do Visconde de Santarém 
III.""' e Ex.'"° Sr. 

Pelo Paquete de hoje tive o gosto de receber a interessan- 
tíssima carta de V. Ex.^ de 17 do corrente, e com esta o Diário 
do Governo de 18 com o artigo relativo ao Quadro Elementar 
que V. Ex." teve a bondade de fazer publicar tão opportuna- 
mente naquelle periódico. 

Este arbítrio pareceo-me excellente, pela popularidade que se 
vai dar ahi a uma publicação tão importante para a nação, e isto 
antes da abertura das camarás e mesmo em certas eventualida- 
des, como por exemplo suppondo mesmo que esta primeira 
legislatura não seja favorável a respeito do seguimento deste 
negocio, e ao plano que V. Ex.» concertará com o Duque, e com 
o Sr. Ministro da Fazenda, todavia a dita publicação do artigo, 
e a impressão que elle ahi deve produzir, poderá servir com 
outros de aresto para remover talvez os obstáculos que por ven- 
tura alguém lhe queira oppor. 

Recebi tãobem por este Paquete um Despacho do Duque da 
Terceira datado de 12 communicando-me que a somma dos 3 
contos tinha sido posta á minha disposição em Londres para 
occorrer ás despezas da commissão de que fui encarregado pelo 
Governo de S. Mag.''^; e em consequência recebi tãobem pela 
mesma occasião a communicação da Agencia Financial de Lon- 
dres datada de 20 do corrente. Apenas recebi estas importantes 
participações, não perdi um momento em dar o maior impulso á 

VoL. VI 16 



242 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



continuação da impressão do Quadro Elementar, afim de que 
esta caminhe em maior escala, e com maior brevidade. Graças 
pois aos milagres de V. Ex.^ hirei continuando esta importante 
tarefa. 

Recebi igualmente por esta occasião a copia do Decreto da 
minha nomeação de Guarda Mór do Archivo acompanhada só de 
uma Portaria do Sr. Ministro do Reino remettida com outro offi- 
cio de participação assiguado pelo Duque e datado de 11, por 
consequência anterior ao que respeita á commissão de que estou 
encarregado. 

Tenho pesado maduramente Digo. Conto responder pelo cor- 
reio de 2.^ fr.^ 2 de Maio a esta participação. Mas em que tortu- 
ras cruéis me tem posto esta nomeação apezar de ser tão 
honrosa ! ! ! 

Tenho pesado maduramente todos os inconvenientes da acei- 
tação, e da recusa, e quanto mais os analyso mais difficuldades 
lhe encontro pela situação do paiz, como ainda mais pela minha 
melindrosa posição, pois temo que os partidos oppostos ao 
Governo tomem a minha recusa como huma prova de adheren- 
cia ás suas vistas, e planos, e que outros indeviduos influentes 
considerem, e mesmo talvez para terem assumpto contra mim, 
façãò acreditar que eu me recuso a aceitar uma graça tal da 
Rainha. Quanto a estes a resposta está na aceitação que fiz das 
honrosas commissões de que me tenho encarregado á 2 annos a 
esta parte. Mas poderão estes indivíduos pela sua influencia 
actual fazer mallograr por estes respeitos, e em consequência da 
minha recuza, a pubHcação do mesmo Quadro Elementar? Pode- 
rão dar a commissão por acabada, ou exigir que ejla acabe ? Eis 
aqui o que eu mais temo. 

V. Ex.''* que está ao facto melhor do que ninguém do que ahi 
se passa, é quem me pode francamente instruir sobre este 
assumpto á volta do correio. 

Se aceito, os inconvenientes são tãobem immensos. Abstrac- 
ção feita das ponderações tão sensatas que V. Ex.^ me fez na 
sua penúltima carta, direi que o emprego de que se trata tirei 
delle carta no tempo do Sr. Rei D. João 6.'' paguei novos, e 
velhos Direitos. Era por tanto antigamente um emprego vitali- 



VISCONDE DE SANTARÉM 243 

cio, mas pelo que vejo não será elle agora um emprego politico, 
e amovível, que uma simples mudança de Ministro, ou de Minis- 
tério poderá revogar? Deveria aceitando pagar outra vez novos, 
e velhos direitos, e encartar-me? 

Se o dito emprego está convertido nos desta natureza precá- 
ria, e incerta, deverei eu arriscar a minha posição tranquila e 
certa aqui, e mesmo em outro paizes em quaesquer eventuali- 
dades, por um logar que pela sua natureza eminentemente litte- 
raria exige para bem se servir, ser permanente? Consentir-se-hia 
que eu residisse fora do Reino por alguns annos em quanto 
duravão os trabalhos de que estou encarregado? 

Não me parece por agora possível poder sahir airosa, e con- 
venientemente deste labyrinto de difficuldades. Tenciono pois 
pelo próximo correio accusar a recepção, e acrescentar que em 
outros officios submetterei ao Governo graves, e importantes 
ponderações acerca da minha nomeação. 

Concluirei dizendo a V. Ex.^ que tendo citado varias vezes na 
minha obra franceza sobre os descobrimentos (p. 187, 193, e 195) 
outra obra minha intitulada = /?ec/zerc/zes historiques critiques 
&.« Sur Améric Vespuce et ses voyages, aproveito esta partida do 
navio, e do Andrade para enviar a V. Ex.*» um exemplar delia, 
onde V. Ex.« encontrará algumas noticias curiosas principalmente 
as relativas ás primeiras cartas da America. O exemplar que 
envio compõem-se só de boas folhas, com uma má capa, do que 
peço desculpa a V. Ex.^ mas logo que tenha outros enviarei a 
V. Ex.''^ um bem tratado. 

Renovo as expressôss de fiel amizade, e gratidão com que 
me prezo ser 

De V. Ex.a 
Am.° f. obrg.mo s. 

Visconde de Santarém 

Paris, 28 de Abril de 1842. 
P. S. 

Desculpe V. Ex.» o mal ahnhavado desta carta que foi escri- 
pta ás carreiras para hir a tempo para a Legação. 



244 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



Carta do Visconde de Santarém 

111.""° e Ex."'" Sr. 

Tendo-me aproveitado da partida do Andrade para essa 
corte, a quem se encarregou um saco de Despachos da Legação, 
por elle escrevia a V. Ex.'» uma longa carta tanto acerca dos 
nossos negócios litterarios, como do importantissimo da minha 
nomeação, encarada de tantas differentes maneiras por tanta 
gente ! 

Pela mesma occasião agradeci a V. Ex.a do fundo do coração 
o que tinha feito relativamente á remessa dos fundos para a 
continuação da publicação do Quadro Elementar, expedirão-se 
com effeito as ordens conforme me avisou o Duque em Despa- 
cho de 12 do passado, e o Presidente da Agencia Financial em 
Londres em officio de 20. Consequentemente este negocio está a 
caminho. Na mesma carta agradeci tãobem a V. Ex.^ não só 
tudo quanto me dizia na estimadíssima de 17 mas igualmente a 
pubicação no Diário do Governo do artigo da Revue de Biblio- 
graphie analytique que dizia respeito ao Quadro Elementar. Pela 
mesma occasião remetti a V. Ex.^ com a dita carta um exemplar 
da minha obra sobre e descobrimento da America, isto é sobre 
Américo Vespucio (1) e suas viagens. 

Não me é possível ser hoje mais extenso, pois estou algum 
tanto incommodado com a grippe — Acredite |^. Ex.a entretanto 
nos invariáveis sentimentos de quem se preza ser 

De V. Ex.« 
Am.° f. e obrg."^° cr. 



Visconde de Santarém 



Paris, 1.'' de Maio de 1842. 



(1) Américo Vespucio, Navegador florentino que serviu na península e 
visitou o novo mundo que Colombo já descobrira. Os cartographos deram 
aquella região o seu nome : America. 



VISCONDE DE SANTARÉM 245 

Para o Duque da Terceira 
Illr' Sr. 



Paris 2 de Maio de 1842. 

Pelo ultimo paquete tive a honra de receber o Despacho n.° 
2 que V. Ex.^ se sérvio dirigir-me em data de 12 d' Abril ultimo 
prevenindo-me de se terem expedido as ordens do Thesouro Pu- 
blico á Agencia Financial em Londres para aceitar e pagar em 
seu devido tempo uma Lettra sacada por mim sobre a Commis- 
são pela importância de £ 668» 15 iguaes a 3:0008000 de Rs. 
para occorrer ás despezas da commissão de que me acho encar- 
regado pelo Governo de S. Mag.^ 

Na conformidade das sobreditas ordens recebi da Agencia a 
conveniente participação. 

Permitta-me V. Ex.=> que haja de lhe manifestar os meus agra- 
decimentos nor esta importante medida que segura a continua- 
ção de trabalhos de tão alto interesse nacional, e Europeo e de 
tanta gloria para o Governo que os proteja. Em consequência 
pois d'esta communicação de V. Ex.a procedi logo a tomar todas 
as medidas para a continuação do desempenho dos trabalhos de 
que me acho encarregado. Pelo navio que parte do Havre para 
essa Corte nos primeiros dias d'este mez tive a honra de remet- 
ter a V. Ex.» o 1.° volume do Quadro, e em breve remetterei o 
2.° e 3.° 

Deos Guarde, etc. 

Visconde de Santarém 



Para o Duque da Terceira 
111.'"° Snr. 



Paris 4 de Maio de 1842. 



Tenho a honra d'enviar a V. Ex.^ a sello volante o officio 
junto para o Sr. Ministro dos Negócios do Reino em resposta á 
Portaria que o dito Ministro me dirigio, e que acompanhava o 



246 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

Decreto da minha nomeação para o emprego de Guarda Mór do 
Real Archivo da Torre do Tombo, e que V. Ex." se sérvio remet- 
ter-me com o seu despacho de 11 d'Abril ultimo pelo que me par- 
ticipou a minha nomeação para aquelle Emprego. Rogo pois a 
V. Ex.^ queira ter a bondade de o transmittir a S. Ex.» depois de 
tomar conhecimento delle. 
Deos Guarde, etc. 

Visconde de Santarém 



Do Visconde de Santarém para Rodrigo da Fonseca Ala^a- 
Ihães 

III'"'' Snr. 

Tive a honra de receber ultimamente a estimadíssima carta 
de V. Ex.a de 24 de Abril ultimo, na qual me dá V. Ex.» novas 
provas de verdadeira amizade, e de favor que aprecio como 
devo. 

Muito penhorado fiquei com a approvação de V. Ex.» acerca 
dos Mappas, do Quadro Elementar, e da minha obra Franceza 
sobre os Descobrimentos. 

Quanto aos Mappas desejo e necessito saber por meio d'uma 
lista quaes são os que V. Ex.^ tem em seu poder, pois tendo 
augmentado o numero dos monumentos aos que para ahi forão 
remettidos, logo que tiver a certeza dos que estão em seu poder 
tratarei de completar o seu, ou seus exemplares, principalmente 
com os 8 Monumentos importantíssimos que completão a grande 
collecção e que são todos anteriores aos da l.*» Plancha dos exem- 
plares que para ahi remetti. Remetterei igualmente o novo texto 
ou introducção ao Atlas. Desejo igualmente para poder saber o 
destino que tiverão todos os exemplares que remetti, que V. Ex.* 
tenha a bondade, se isso for possível de indagar, se ao Sr. Pa- 
triarcha elleito se deu algum exemplar colorido, se se mandarão 
ás Bibliothecas Real, e Publica de Lisboa, ás de Évora, Beja, 
Porto e Coimbra. Quanto ás da Academia Real das Sciencias sei 
pela correspondência semanal da mesma Academia commigo que 
espera que eu lhe mande os exemplares. Desculpe V. Ex.a estas 



VISCONDE DE SANTARÉM 247 

impertinências, mas isto é negocio para mim mui importante pelo 
enorme valor de cada exemplar não podendo fazer outras tira- 
gens sobre tudo dos coloridos sem novos subsídios do Governo, 
pois é incrível a despeza feita com esta obra. Já mandei exem- 
plares coloridos para Petersburgo, Londres, Nápoles, Berlim, &." 
6 aqui distribui vários não só na conformidade das instrucções 
de V. Ex.^ mas tão bem porque era essencial por muitos respei- 
tos. 

Esta publicação tem dado brado aqui, e por isso mesmo, pela 
importância que se lhe tem dado, não deixou de ferir a vaidade 
e ciumès de Mr. Jornard, Membro do Instituto, e meu collega na 
mesma classe, que não pode levar á paciência como elle diz que 
sendo director, e conservador da Repartição das Cartas da Biblio- 
theca Real, viesse um Governo Estrangeiro, e um estrangeiro 
fazer uma tal publicação em França, quando esta nação está á 
attesta das mais importantes publicações scientificas. 

Eu exulto de prazer vendo que foi um Ministro Portuguez 
que mandou fazer, e autorisou uma publicação desta importân- 
cia para a gloria de Portugal e para as Sciencias. Sinto todavia 
que ella não seja tão completa como desejava e convinha já que 
Portugal tomou a iniciativa, sinto por que seria bem módica a 
despeza que se faria para a completar dando todos os principaes 
monumentos da Idade Media. Eu tenho já os calques de quasi to- 
dos, mas não me atrevi a autorisar a despeza do grande Mappa- 
-Mundi que se acha na Cathedral de Hereford em Inglaterra, e 
que é inédito, sendo curiosíssimo. Alem deste ha ainda 7 ou 8 no 
Muzeo Britannico que se deveria juntar ao meu Atlas. Se o não 
fizer-mos, infallivelmente os publicarão aqui pela vaidade que 
tem em nos não ficarem atraz, posto que já não podem produ- 
zir os mais importantes, e ainda menos disputar-nos a prioridade 
d'esta idea, e desta publicação. Se eu tivesse a cferteza de que 
me serião abonadas as 200 a 300 £ havia de fazer apparecor to- 
dos com grande espanto destes Snrs. e muita honra para a Na- 
ção Portugueza. 

V. Ex.^ que conhece melhor do que ninguém a importância 
destes negócios faria um novo serviço se encontrasse meio de 
promover este negocio. Eu tomo já sobre a minha responsabili- 



248 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

dade de fazer copiar no Muzeo Britannico 4 destes Monumentos. 
Estas copias deverão chegar aqui dentro de um mez, a resposta 
de V. Ex.^ me servirá de governo para saber se devo, ou não 
manda-los gravar. 

Recebi pelo ultimo Paquete a obrigautissima carta do Duque 
que V. Ex.* me annunciara e muito penhorado fiquei com as ex- 
pressões e seguranças que elle me dirige. Tudo isto é obra de 
V. Ex.» bem como o empenho que o mesmo Duque contrahio de 
continuar a promover as nossas importantes publicações. 

Aquelle Ministro terá já communicado a V. Ex.^ a resposta 
que fiz ao Sr. Ministro do Reino sobre a minha nomeação de 
Guarda Mor da Torre do Tombo. Espero que V. Ex.'*^ se dignará 
approva-la. As minhas circumstancias, e posição particular são 
muito ponderozas para que houvesse em tal conjunctura de obrar 
sem segurar duas cousas, sendo isso possível, pelo menos ten- 
ta-lo, a saber: a continuação das publicações de que estou encar- 
regado, a da minha residência em Paris em quanto durasse esta 
commissão, e ao mesmo tempo não fechar a porta, ou não dar 
pretexto para que se me restitua ao menos parte do que me fora 
tirado, sendo o emprego de Guarda-Mór do Archivo uma dessas 
cousas, e para cujo emprego foi nomeado um amigo meu o 
Sr. Patriarcha elleito, que o acceitou, e sérvio até á Revolução 
de Setembro. 

Rogo pois a V. Ex.8 que debaixo destas bases V. Ex.^ se digne 
fazer-me o favor de concertar com o Duque este plano, se elle 
merecer a sua approvação, levando aquelle Ministro a f aze-lo ado- 
ptar pelo Sr. Ministro do Reino, quanto á parte que toca aquelle 
Ministério ou dependente daquella Repartição. 

Tenho tido nestas duas ultimas semanas grandes tribulações 
pela morte de um dos meus amigos mais antigos neste paiz 
Mr. Mionnet, Membro do Instituto da minha classe, e o mais ce- 
lebre numismata que existio desde o famoso Eckell, e a perda 
igualmente fatal na horrível catastrophe do Caminho de Ferro do 
Almirante Dumont d'UrviIle que dois dias antes tinha conforme 
o seu costume passado aqui em minha casa mais de duas horas ! ! 
Tão bem me iucommodou o grande, e estrondoso testemunho que 
mais de metade da Academia acaba de me dar pela morte do 



VISCONDE DE SANTARÉM 249 

celebre Heeren um dos seus 8 sócios estrangeiros effectivos ; 
pois foi contra a minha opinião que 23 Membros se concertarão 
para me fazerem nomear em logar do Cardeal Angelo Mai, meu 
collega mais antigo na classe em que estou, e que se tornou ce- 
lebre pelas famosas descobertas, e publicações dos livros da Re- 
publica de Cicero, julgados perdidos, e de muitos importantes 
fragmentos de Frontinus &.^ De maneira que elle é reputado o 
Poggio moderno, e tinha por si todo o partido clássico dos Hel- 
lenistas, e philologos, e o ser mais antigo, sem embargo disso no 
primeiro escrutínio metade da Academia votou por mim, e deixei 
de ser elleito por um voto. Os dous Ministros Guizot (1) e Ville- 
main únicos que são Membros forão dos meus e para que o car- 
deal fosse elleito apezar do melhor direito que elle tinha foi ne- 
cessário me faltassem 7 por ausentes e doentes, de maneira que 
se dous dos meus ao 2° escrutínio se tivessem conservado, tinha 
igualmente sido elleito pois um dos hellenistas votou por mim no 
2." o que me dava a maioria. Toda a Academia me deu depois 
um testemunho de estima, e de consideração de que jamais me 
esquecerei. Tenho tido aqui a casa cheia destes Snrs. a darem-me 
toda a satisfação, e a felicitar-me porque em consequência deste 
precedente, é uso que na 1.'^ elleição o mais votado na prece- 
dente é quasi sempre o nomeado, e por ter tido um tal resultado 
apezar do que deixo dito. Sou pois o primeiro individuo das na- 
ções meridionaes da Europa, que obteve tantos votos no Insti- 
tuto para a mais eminente dignidade litteraria, que existe na 
Europa, e o cardeal Mai tão bem o primeiro nomeado pela Itá- 
lia pois em geral para os 8 logares só erão elleitos os primeiros 
sábios Inglezes e Allemães. 

Desculpe V. Ex.^ esta longa e fastidiosa carta e ainda mais 
que eu lhe tome o tempo com estas ultimas particularidades, 
mas como desejo ter a V. Ex.^ ao facto do que se passa por 
aqui a meu respeito, afim de habilitar um homem da importan- 



(1 ) Francisco Guizot, celebre homem de estado e historiador francez. Mi- 
nistro de Luiz Filippe muito conservador, sendo rival de Thiers. Muito temido 
ante a Inglaterra. Foi por sua culpa que se fez a revolução de 1848. 



250 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

cia de V. Ex.a e da sua penetração, e efficacia, para poder ahi 
esclarecer em certas eventualidades alguns factos relativos a um 
individuo que V. Ex.^ honra com a sua amizade. 

Renovo por esta occasião os protestos de invariável estima, e 
amizade com que me preso ser 

Paris 14 de Maio de 1842. 

De V. Ex.« 
Am.o fiel e obrg.°'° creado 

Visconde de Santarém 

Para o duque da Terceira 
Paris 16 de Maio de 1842. 

Meu querido Sobrinho e Amigo do Coração 

Mal sabe V. Ex.» o prazer que me deu com a sua estimadís- 
sima carta de 25 d' Abril ultimo, e sobretudo com as affectuosas 
expressões de que se serve a meu respeito. 

Consola-me a certeza que tenho de que lhe mereço a conti- 
nuação d'aquella antiga amizade e sympathia que os desgraça- 
dos acontecimentos do nosso paiz não poderão quebrar. 

A noticia que V. Ex.^ me dá da sua firme tenção de proteger 
e levar ao fim a publicação dos trabalhos importantíssimos de 
que estou encarregado, encheo-me do maior prazer. 

Espero que V. Ex.^ á vista do officio que dirigi ao Sr. Minis- 
tro do Reino acerca da minha nomeação fará quanto poder para 
que as ponderações que fiz no mesmo officio sejam admittidas 
provando-se durante a minha temporária residência em Paris ao 
serviço do Archivo na conformidade dos antigos exemplos, e pra- 
tica que por vezes se seguio em casos quasi idênticos (1). 

Deos Guarde a V. Ex.% &.^ 

Visconde de Santarém 



(1) N. B. Esta carta devia ter sido registada depois do meu officio n.° 4 
mas tendo ficado extraviada a Minuta muito tempo, só hoje 23 de dezembro 
de 1854 a pude registar. 



VISCONDE DE SANTARÉM 251 



Do Visconde de Santarém para Rodrigo da Fonseca Maga- 
Ifiães 

Paris 23 de Maio de 1842. 

///.™o e Ex.'^" Snr. 

* 

Tenho a honra de enviar a V. Ex.^ dous exemplares da 1.^ 
parte da minha obra intitulada = Rec/ierches historiques &.^ sur 
Vespuce, e que cito varias vezes na Memoria sobre a prioridade 
dos nossos descobrimentos, rogando a V. Ex-^* queira ter a bon- 
dade de acceitar um exem.plar, e fazer-me o obsequio de man- 
dar entregar o outro bem como o exemplar do 1.° volume do 
Quadro Elementar ao meu collega na Academia das Sciencias de 
Lisboa o Dr. Agostinho Albano, da Silveira Pinto. 

Renovo por esta occasião as seguranças de fiel amizade com 
que me preso ser 

De V. Ex.a 
Am.° fiel e obrg.™ creado 

Visconde de Santarém 



Do Visconde de Santarém para Rodrigo da Fonseca Maga- 
lhães 

Paris 23 de Maio de 1842. 

m.""" e Ex.""" Sr. 

Se a cada correio tivesse de agradecer como devia tudo quanto 
devo a V. Ex.^ seria necessário escrever-lhe um volume por todos 
os Paquetes ! As duas ultimas cartas de V. Ex.^ de 8 e 9 do cor- 
rente são para mim mais importantes do que todas as preceden- 
tes. V. Ex,* sabe as razões, excuso de me alargar muito acerca 
destas. Limitar-me-hei a dizer-lhe que, considero a entrada de 
V. Ex.a na Camará dos Deputados, como um acontecim.*» impor- 
tantíssimo para os interesses do paiz, e do melhor agouro por 



252 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

muitos respeitos que me não é licito de tão longe e p/ carta 
desenvolver. Tudo quanto V. Ex.a me diz na sua estimadissima 
de 8 acerca de julgar que não ha incompatibilidade de poder eu 
dirigir daqui directamente o Archivo, é para mim importantíssimo 
pois veio alliviar-me do grave cuidado em que estava sem saber 
se V. Ex."^ approvaria o arbítrio que tomei na resposta á commu- 
nicação official que me foi feita pelo Ministério do Reino. 

Pelas minhas cartas de 28 do passado e 14 do corrente, V. Ex.a 
veria a perplexidade em que estava a respeito do que devia fazer 
nesta conjunctura, sem ter o fio, ou ao menos alguns dados para 
bem julgar do estado presente, e eventual das cousas nesse paiz 
depois dos acontecimentos. Agradeço infinitamente a V. Ex.a a 
commuicação que fez a El-Rey. 

O Duque terá sem duvida communicado a V. Ex.a a minha 
resposta ao Min.° do Reino. Ella foi escripta e calculada de modo 
que sem recusar, fiz sobresahir a impossibilid.^ de deixar Paris 
por agora, e de interromper os trabalhos importantíssimos de que 
estava encarregado por ordem do Governo, e em beneficio e em 
utilidade da gloria nacional, sem estabelecer formalmente uma 
condição sine qua, non ficará evidente pela simples leitura que a 
palavra ponderações, e o que acrescentava que as minhas cir- 
cumstancias particulares provenientes da minha longa residência 
fora de Portugal unidas mesmo á utilidade do serviço, não con- 
sentião que deixasse immediatamente Paris, e nisto deixava vêr 
que haveria impossibilidade grave de hir preencher por agora o 
logar para que fui nomeado. 

Respondi directamente ao Min.° p."" ser este negocio, como 
V. Ex.'' sabe, não só da sua Repartição, e o Archivo dependente 
delia, mas tãobem por que a communicação do estilo me foi feita 
por elle e transmittida pelo Duque com Despacho de 12 do pas- 
sado. Remetti pois a m."^ resposta ao Duque a sello volante, e 
este deveria sem duvida communicala a V. Ex.''. 

Repito o que me parece ter já escripto a V. Ex.^ posto que 
em termos pouco explícitos, isto é que depois de madura reflexão 
pareceo-me que o conservar eu o logar de Guarda Mór do Archivo, 
e ao mesmo tempo a continuação da commissão da publicação 
das obras de que estou encarregado, seria um meio ou arbítrio 



VISCONDE DE SANTARÉM 253 

que facilitaria muito a dita publicação e seria para esta de uma 
importaucia immensa, pois assim poderei dirigir scientificamente 
o Arcliivo, e ao mesmo tempo tirar as copias necessárias para 
as nossas obras sem dependência do Miuisteriç do Reino de 
ordem expessificas expedidas ao mesmo Archivo, o que aliás já 
se tinha regulado no reinado do S/ Rei D. João VI.°, e conser- 
vando por outra parte um emprego que já servi, e que sendo-me 
restituído como o foi, pode no futuro ser-me útil hir preenche-lo. 

Calculando pois todas as cousas presentes, e as mesmas even- 
tualidades, me pareceo em todo o caso acertado não abrir mão 
de um negocio tão importante. 

Vejo pois com incrível satisfação que V. Ex.a julgou o nego- 
cio de baixo deste ponto de vista, principalm.*^ quanto ao ponto 
principal o = da continuação das nossas publicações, e quanto ao 
dilema em que me pozerão, que se resolve, como V. Ex.^ m,*» 
bem observa, pela minha ficada em Paris. 

Pelo que V. Ex.» me diz na sua primeira carta de 8, parece- 
me ter atinado com o meio de combinar o importante ponto da 
publicação das nossas obras, conforme as vistas de V. Ex.'^ com 
os meus interesses presentes, e posição futura. Aproveitando-me 
pois, do obrigautissimo offerecimento de V. Ex.^ e da sua fiel 
amizade, entrego todos estes negócios a V. Ex.^. Não podem elles 
estar em melhores mãos, pois V. Ex.' é em todos os respeitos 
um homem de primeira ordem, e seria em mim temeridade se 
lhe lembra-se os meios, ou traça-se o plano, muito mais depois do 
que V. Ex.^ me diz no fim da sua mais que todas obrigantissima 
carta de 8. 

Quanto á remessa do credito £ 668 para a continuação da 
publicação do Quadro Elementar de que tratão as duas cartas 
de V. Ex.a a que estou respondendo, já em outras minhas parti- 
cipei a V. Ex.» que tinha recebido as convenientes ordens. Gra- 
ças pois a V. Ex.a e receba novos agradecimentos. 

A propósito destas publicações permitta-me V. Ex.^ que tenha 
a honra de lhe remetter o Memorandum incluso que Aiílaud me 
envia neste instante. Se tivesse tido tempo, e o negocio não 
fosse urgente teria feito uma 'copia, ou o teria obrigado a modi- 
ficar muitas expressões, e mesmo lhe faria cortar uma parte do 



254 CORRESPONDÊNCIA. SCIENTIFICA E LITTERARIA 

tal Memorandum, mas V. Ex.^ deverá relevar a lingoagem e os 
termos em que este papel é escripto, pois um Livreiro que vê 
que os seus livros senão vendem nem tem despacho nas Alfan- 
degas e q. perdeo a tramontana : e é excusado quando esta 
gente trata de interesses materiaes offendidos, esperar delia a 
polida lingoagem, e as formas da rhetorica de bom tom e con- 
formes com o respeito devido a medidas tomadas por authorida- 
des constituídas. 

Se V. Ex,* não tiver, ou não achar inconveniente em dar pela 
sua influencia algum impulso a este negocio fará com isso mais 
outro serviço importante ás sciencias, e á litteratura em a nossa 
Pátria, promovendo por este meio tãobem a propagação delias. 

Quanto aos 8 Monumentos que acrescentei ao meu Atlas con- 
sistem nos seguintes: 1.° o celebre Planispherio do Mappamundi 
Anglo-Saxonico do x.® século que se acha no Museu Britânico, 
2.0 um Mappamundi, que existe na Bibliotheca Imperial de Vienna 
do xi.^ século, 3.° o importante Planispherio do xii.» século que 
se acha em um Mss. dos commentarios do Apocalypse na Biblio- 
theca Real de Turim, 4.^ o Planispherio de Lecco á'Ascoli Flo- 
rentino do xiii.° século, 5.° Mappamundi de forma extraordinária 
do xi.° século que se acha em um Mss. da Bibliotheca de Lei- 
pzick, 6.0 um Mappamundi topographico que se acha em um Mss. 
de Guilherme de Tripoh do xiv.» intitulado = Z>e Statu sarrace- 
norum existente na Bibliotheca R. de Paris, 7.» o Magnifico 
Mappamundi colorido de 1320 do celebre Musino Sanuto diffe- 
rente do que se acha na Bibliotheca do Vaticano e que Bongars (1) 
publicou. Tive eu a fortuna de publicar pela primeira vez este 
precioso monumento, que se encontra em um Mss. contemporâ- 
neo na Bibliotheca Real de Paris. 8.° a lindissima miniatura que 
se encontra no precioso Trata da Sphera, de Nicolau d'Oresme (2) 



(1) Jacques Bongars, sócio de Bauldry e dele Chesnay que publicou Gesta 
Dei per Francos e foi um diplomata illustre servindo Henrique IV em varias 
cortes. 

(2) Nicolau de Oresme. — Arcebispo de Lisieux e mestre do collegio de 
Navarra, preceptor de Carlos V. Auctor d'um Tratado de Moedas e traduziu 
Aristold. Morreu em 1382. 



VISCONDE DE SANTARÉM 255 

mestre de Carlos V.° de França datado de 1377 na qual se vê 
um Mappamuudi diante do qual o autor offerece ao dito Rei o 
seu tratado e a traducção do Livro d' Aristóteles do Ceo e do 
Mundo. Este interessante monumento contemporâneo das sup- 
postas, e fabulosas navegações dos Normandos á Guiné mostra 
sem replica que o mais celebre cosmographo Francez sendo 
Normando, e vivendo naquella época nâo conhecia senão metade 
do globo, e que seguia ainda o antigo systema ou a hypothese 
de que a parte inferior da terra estava submergida no mar. 

A estes 8 monumentos desejo juntar os seguintes — 1.° Pla- 
nispherio á'Honoré D'Autun (inédito) e que se encontra no seu 
livro de imago Miindi mss. do xiii.o século, 2.° o que representa 
o systema das zonas habitáveis e iuhabitaveis pelo mesmo A. 
S.'' o da sua theoria dos chmas tirado do systema dos geographos 
Árabes Mathematicos. 4.° um magnifico Mappamundi do Museo 
Britânico do xiii.° século, 4." outro do mesmo século que se acha 
na Bibliotheca Cottoniana, 6, e 7.» outros dois do XIV.** século 
que se achão na mesma Bibliotheca, e que se estão copiando 
neste momento. 

Os 4 primeiros já tenho os fac-similes, e os dos outros se 
estão tirando. Além destes e para completar esta importantíssima 
collecção mandei tirar os fac-similes dos pequenos planispherios 
do xm.'' século que se encontrão nos celebres livros Mss. de 
Gauthier de Méts nesta Bibliotheca Real — formando estes na 
minha serie os n.*'^ 8, 9, 10 e 11 dos inéditos, e os que se encon- 
trão nos preciosos Mss. do Thesaurus de Brunetto Latini, bem 
como o Plauispherio do Cardeal Pierre d'Ailly (P^trus de AUiaco) 
que se encontra no seu Wyvo =^ Imago Mundi = de 1410. 

Resumindo-me pois, direi a V. Ex.'' que estão já gravados e 
publicados os 8 primeiros, e formão parte do meu Atlas, e os 
11 outros de que trato acima estão inéditos. Que fortuna seria a 
minha se podesse publica-los ! Até para que seja o nosso paiz o 
primeiro que levante um tal monumento ás scieucias, e á sua 
gloria. Aqui está já muita gente espantada com esta publicação, 
da vaidade de alguns tem-se estimulado de ver que foi Portugal 
que primeiro enrequeceo a Sciencia com uma tão valiosa publi- 
cação. Se ella se não completa, estes S.'^^^ aqui não perderão um 



256 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTEKARIA 

momento em o fazer, e com os seus jornaes hão-de aturdir a 
Europa levando ás nuvens a publicação que fizerem, se nós lhes 
não quebramos as azas para sempre completando a dita collecção. 

Eu que os conheço bem de perto, e de tal modo que elles me 
chamão um dos seus e accrescentão que nenhum estrangeiro 
soube mais das cousas de F^rança em os negócios litterarios deste 
paiz do que eu, digo a V. Ex.a que a publicação dos 8 Monumen- 
tos que accrescentei no meu Atlas foi feita já mui de propósito 
para lhe tomar-mos a dianteira, mas isto não basta, existem ou- 
tros que cito acima isto é 11 que devem ser publicados. 

Tenho todavia a satisfação de participar a V. Ex.a que 
Mr. Guigniant meu collega no instituto e Professor na Sorbonne 
explica a geographia da Idade Media pelas cartas do meu Atlas, 
e pela theoria da Dissertação que fiz, e que outro Professor no 
Collegio R. de Bourbon faz no seu curso menção da historia da 
hydrographia pela obra que publiquei, e ensina não só a theoria 
pela que demonstrei, mas tão bem a historia dos descobrimentos, 
e consequentemente tendo nestes os Portuguezes a prioridade. 

E' excusado ponderar a importância destes factos, de vêr re- 
conquistada a nossa gloria não só nas publicações que se fazem 
aqui depois que apparecerão as minhas, ou antes as de V. Ex.^ 
mas até vê-la diffundida por meio do ensino publico, e pelos Pro- 
fessores. 

Desculpe V. Ex." esta longa carta e acredite que sou cada vez 
mais, e com maior reconhecimento 

De V. Ex.« 
Am.o fiel e obrg."'° creado 

Visconde de Santarém 

P. S. — Parecem-me na verdade tão acerbas as expressões 
de que Aillaud se serve no Memorandum de que acima trato 
acerca da prohibição da entrada ahi de Livros Portuguezes im- 
pressos em paizes estrangeiros que vou manda-la copiar, e farei 
tirar tudo quanto não é conforme, e no que elle aliás convém 
pela carta que me escreveo. Remeterei pois a V. Ex.^ este papel 
pelo próximo correio. 



VISCONDE DE SANTARÉM 257 



Do Visconde de Santarém para Rodrigo da Fonseca Maga- 
lhães 

Paris 30 de Maio de 1842. 

III.""' e Exr° Snr. 

Pelo ultimo Paquete que nos trouxe noticias de 16 não tive 
a honra de receber cartas de V. Ex ^ a que tenha de responder. 

Na minha ultima carta tive a honra de indicar a V. Ex.a quaes 
erão os 8 novos monumentos geographicos que juntei ao nosso 
Atlas para se julgar porém da importância delles, é necessário 
ter presente o texto francez da minha obra, não só o que já en- 
viei a V. Ex.a mas o que lhe vou remetter, e que accrescentei á 
Introducção, isto é o que contém a analyse histórica dos syste- 
mas cosmographicos dos 10 séculos da Idade Media. Tão bem 
nas minhas ultimas cartas toquei de leve no grande ciúme que 
esta publicação tem feito aqui em certas gentes, em uns por vai- 
dade nacional offendida por verem que um Governo estrangeiro 
foi o 1.0 que tentou, e levou a ef feito uma tal publicação, em 
outros por verem deitada por terra e para sempre a insigne im- 
postura dos suppostos descobrimentos dos Normandos no xiv.» 
século, por verem emfim que já nos cursos Públicos principal- 
mente no da Sorbonne não só as cartas do nosso Atlas tem ser- 
vido igualmente de texto para a explicação das doctrinas 
e do mesmo modo no Collegio Real de Bourbon no curso expli- 
cativo que alli faz Mr. Fleutelot. Posto que este ultimo curso seja 
menos importante que o da Sorbonne feito por Mr. Guigniant do 
Instituto, comtudo estas, e outras circumstancias tem dado que 
fazer a Mr. Jornard o qual depois de estarem já gravadas as mi- 
nhas cartas e nas mãos de todos, veio dizer que havia muitos 
annos que tinha o projecto de publicar uma collecção de monu- 
mentos geographicos da Idade Media, e que se este Governo e 
a Bibliotheca R. lhe desse os meios as publicaria. Ora a opinião 
de Mr. Walckenaer um dos homens mais sábios deste paiz e Se- 
cretario Perpetuo da mesma classe no Instituto, homem de uma 
probidade como ha por aqui poucos, é que Jornard, preguiçoso 

VOL. VI 1" 



258 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

como é, nunca hade fazer cousa alguma, e se o fizer não hade 
prestar para nada e que se torna inútil depois da nossa, tanto 
mais que elle é incapaz de fazer um texto : que emfim sempre o 
tem ouvido apregoar projectos depois que os outros publicâo as 
suas obras. 

Ora, tendo Portugal dotado a Sciencia com um monumento 
tal elevando a esta, e á gloria nacional, assentei em que convinha 
para honra delia, amplia-lo no meu plano primitivo, afim de con- 
servar-mos tão bem sobre este assumpto uma honrosa prioridade 
scientifica. 

Por estes respeitos fiz gravar os 8 Monumentos que V. Ex.a 
receberá pelo 1.° navio que partir do Havre. Vou fazer gravar 
immediatamente mais 5, e espero os que se estão copiando em 
fac-simile no Museo Britannico, e outros de Vienna d' Áustria que 
serão todos publicados, bem como algumas das bellissimas car- 
tas Portuguezas que existem inéditas e perdidas para nós, no 
cazo que a este respeito ahi se tome alguma resolução provo- 
cada pelo zelo, e saber de V. Ex.* que melhor do que ninguém 
sabe apreciar a importância scientifica, e nacional, e direi mesmo 
polHica de uma tal publicação. 

Estes Snrs. aqui são os homens mais invejosos, e mais vai- 
dosos do universo, e principalmente em cousas nacionaes, (o que 
eu lhes louvo muito) e isto a ponto que me consta que d'Avezac 
do Ministério da Marinha dissera outro dia, levando ás nuvens 
a nossa publicação, que «Cependant la France étant dans la pos- 
«sessíon de doter la science des plus beaux monuments scientífi- 
«quçs, ei étant à la tête de la civíUsation, ne doit pas permettre 
«que le Portugal lui fasse la barbe ! » 

Seria pois para nós dum certo desaire se lhes não tirássemos 
até ao ultimo cabelinho. 

Tenho a honra d'enviar a V. Ex.^ o Memorandum incluso de 
Aillaud, e de que tratei na minha precedente. 

Tenha V. Ex.^ todas as fortunas que lhe deseja quem tem a 
honra de ser 

De V. Ex.« 
Am." e obrig.^o cr. 

Visconde de Santarém 



VISCONDE DE SANTARÉM 259 



MEMORANDUM 

Considerando o Governo Portuguez o quanto cumpria a bem 
da Nação o facilitar a instrucção, e o derramamento de luzes, e 
conhecimentos de todo o género, de que são os livros os verda- 
deiros depósitos, houve por bem isentá-los de Direitos, como ef- 
fectivamente o forão, até o anno de 1827. 

Porém no de 37, esta disposição legislativa tão honrosa, como 
liberal, soffreo uma grandíssima alteração. Estabeleceo-se nesse 
anno o Direito de Rs. 80 por arrátel sobre todos os livros Portu- 
guezes, impressos fora do Reino indistinctamente ; quer fossem 
obras novas, e originaes, quer reimpressas ; e de Rs. 40 sobre os 
livros em linguas estrangeiras, vivas ou mortas, que fossem en- 
cadernados, ficando livres de direitos os desta qualidade, que se 
achassem em papel ou tão somente brochados. Por esta nova lei 
pesou sobre a lingua Portugueza uma espécie de proscripção, e 
o Portuguez residente fora do Reino encontrava uma barreira 
insuperável nos fortíssimos direitos de entrada, se por ventura 
tencionava enriquecer sua Pátria com os fructos dos conhecimen- 
tos, que colhera, peregrinando pelos reinos extranhos ; ao passo 
que um estrangeiro, que escrevia em sua própria lingua, e pro- 
priamente para os seus, e não para os Portuguezes, se achava 
favorecido. A este inconveniente accrescia ainda outro, cuja ano- 
malia é evidentíssima, e vem a ser, que se o mesmo Portuguez 
escrevia diversas obras, umas na lingua materna, e outras em 
qualquer das da Europa, via as primeiras senão regeitadas, pelo 
menos acolhidas com tão exhorbitantes direitos em sua própria 
Pátria e por aquelles para quem escrevera, que necessariamente 
devia de desanimar-se ; ao passo que das segundas, mormente 
se as enviasse em papel ou brochadas, só tinha motivos para se 
applaudir. 

Como quer que seja, tendo a Pauta da Alfandega consagrado 
estes Direitos, forçoso é obedecer-lhe, até que uma nova lei mais 
protectora venha revogar a que ora está em vigor. 

Portanto a presente Exposição se não encaminha a alterar- 
-Ihe as disposições , mais tarde e a seu tempo levar-mos á pre- 



260 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

sença dos Ministros de S. M. F. uma Representação, na certeza 
de que inteirados dos inconvenientes da actual legislação, ne- 
nhuma duvida porão em propor uma medida legislativa mais 
consentânea com a razão, com a justiça e com o interesse que 
merece a sciencia. 

Não é porém menos interessante o objecto do presente Memo- 
randum, como se verá pela succinta exposição que vamos fazer. 

Em Março de 1841, achando-se em vigor a actual legislação, 
appareceo na Pauta da Alfandega uma addição ao artigo = Li- 
vros = do theor seguinte. 

(a) Livros Portuguezes impressos fora do Reino sobre Edições 
publicadas em Portugal por arroba 20^000 reis. 

(ã) «Para pagar o menor direito (o de 2560 por arroba ou 
80 rs. por arrátel que vem a ser o direito estabelecido em 1837) 
deverá o Importador apresentar uma certidão da Bibliotheca 
Publica, que prove não se achão os livros que pretende impor- 
tar já impressos nas imprensas Nacionaes.» 

Quer isto dizer que tudo quanto são obras originaes, e tendo 
sabido pela primeira vez á luz fora do Reino, deverão continuar 
a pagar 80 rs. por arrátel, porém que se forem reimpressas sobre 
edições originaes publicadas em Portugal deverão pagar 20$000 
rs. por arroba, o que equivale a uma prohibição, visto ser o di- 
reito tão exorbitante. Não faz a pauta distincção alguma, nem 
entra no exame da nova reimpressão; se é ou não de uma obra 
antiga e rara, nem se é illustrada e enriquecida de notas, addita- 
mentos, ou qualquer outra perfeição; se é reimpressão de obras 
cabidas no dominio publico, e sem propriedade litteraría, se em- 
fim uma mera contrafacção d'obras, cujos autores estão ainda em 
vida, ou que finarão a obra de 20 annos, como se pratica em 
França e nos mais paizes d'Europa, onde se determina e em que 
deve consistir a propriedade litteraria. 

Semelhante confusão requer um prompto remédio, pois que 
a nação se vê privada de obras de grandíssimo merecimento, 
das quaes por dinheiro nenhum já se não podem haver as edi- 
ções originaes Portuguezas. Sirva de exemplo a reimpressão das 
obras de Gil Vicente, publicada em Hamburgo por um benemé- 
rito Portuguez sobre o exemplar descoberto na Bibliotheca de 



VISCONDE DE SANTAREÀI 261 

Goettingue; os Lusíadas de Camões cora as notas do Morgado 
de Matheus (1), o Cancioneiro de Resende, que estava para dar- 
se ao prelo com abundantes e importantíssimas notas e addições 
do eruditíssimo Snr. Visconde de Santarém &.« &.» Assim que, 
lançando-se o direito prohibítivo de 208000 rs. por arroba sobre 
as simples reimpressões, fecha-se a porta á publicação de obras 
d'uma raridade extrema, as quaes só em Pariz se podem publi- 
car, por ahi se acharem os preciosos manuscriptos da Bibliotheca 
Real, thesouro riquíssimo onde se podem colher documentos da 
mais alta importância. Mas deixando de parte esta questão, que 
merece toda a contemplação, volveremos á legislação actual. 

Pede-se que a Pauta, tal qual existe, seja executada : que os 
livros que devem pagar 2S560 rs. por arroba, paguem esse direi- 
to, e tenhão despacho nas alfandegas ; o que até aqui se não tem 
verificado ; porque exigindo a Pauta das Alfandegas uma certi- 
dão da Bibliotheca Publica, declarando não serem os livros, cujo 
despacho se requer, reimpressões de edições originaes Portugue- 
zas, não tem sido possível alcançar taes certidões, respondendo 
os BiblÍQthecarios, que não as podem dar, por não terem sobre 
esse assumpto recebido instrucção alguma do Governo, accres- 
centando que nenhuma noção desse nova disposição terião, se 
não a tiverâo visto nas Pautas das Alfandegas, e estas com al- 
guma razão se negão a despachar livros escritos em Portuguez, 
não se lhes apresentando a certidão ordenada, salvo pagando- 
Ihes o direito prohibítivo de 20S000 rs. por arroba, debaixo da 
condição de restituir ao Importador o excesso á vista do mencio- 
nado documento. 

Tal é o estado actual das cousas; estão as Alfandegas atu- 
lhadas com caixas de livros por despachar, com gravíssimo pre- 
juízo de seus donos; estão os amantes das sciencias privados do 
prazer de lerem as publicações Portuguezas originaes, que sahem 



(1) Morgado de Matheus D. José Maria de Sousa Botelho Monteiro e Vas- 
concellos, benemérito das lettras. Foi o marido de madame de Sousa, viuva 
do conde de Thelbemet e mandou fazer a edição monumental dos Lusíadas 
que lhe custou mais de 10 contos de reis. 



262 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

dos prelos estrangeiros; os livreiros Portuguezes atalhados em 
suas negociações, e tudo isto por falta de uma mera instrucção, 
dirigida aos Bibliothecarios em conformidade do que se acha 
declarado nas Pautas das Alfandegas! 

Apezar das reiteradas reclamações feitas no decurso de mais 
d'um anno não tem sido possível o fazer com que, tal qual é, 
seja posta em execução a lei que ora está em vigor, a ponto que 
livros impressos em Paris á custa do mesmo Governo Portuguez, 
com fundos votados ad hoc pelas cortes jazem sem despacho. 
Obras da maior importância, obras que andão nas mãos dos sá- 
bios de toda a Europa, como a Memoria sobre a prioridade dos 
Descobrimentos Portuguezes na Africa, a Chronica do Descobri- 
mento e Conquista de Guiné do celebre Azurara enriquecida de 
preciosissiinas notas pelo Snr. Visconde de Santarém, o Quadro 
das Relações Diplomáticas de Portugal com as Potencias Estran- 
geiras pelo mesmo estão sem despacho! E' para esperar que este 
estado de cousas, que tão nocivo é aos interesses do Governo, 
como sensível aos amigos das lettras, não dure mais, e assim o 
esperamos do Illustrado Ministério actualmente encarregado" da 
direcção dos públicos negócios, mormente, se, como é voz, já a 
Academia Real das Sciencias de Lisboa tomou a iniciativa nesta 
importante questão. 

Nisto se encerra a supplica que enviamos ao Governo de 
S. M. F., e é ella tão justa, e fundada em tanta razão, que espe- 
ramos que se nos defira, como pedimos. 

Paris, 6 de Junho de 1842. 



Carta do Visconde de Santarém 
III.""' e Ex.""" Sr. 

Pelos dous últimos Paquetes fiquei privado de noticias de 
V. Ex.^ Desejo ardentemente que este silencio não seja motivado 
por incommodo de saúde. 

Não tendo pois estimadíssimas cartas de V. Ex.^ a que res- 



VISCONDE DE SANTARÉM 263 

ponder, continuarei nesta a dar a V. Ex.*» algumas noticias litte- 
rarias das nossas cousas. 

A Conversão effectuada aqui pela publicação da minha obra 
contra as fantásticas descobertas dos normandos no xiv° século, 
vai continuando a fazer grandes progressos. 

Vejo com incrível satisfação que os homens mais eminentes 
declarão abertamente a nossa prioridade, e tomão o nosso par- 
tido, fazendo-nos justiça. 

Nos Annaes das Viagens em o n.» do mez de Maio ultimo, 
publicou Mr. Eyriés um dos mais sábios geographos francezes 
uma analyse da famosa obra publicada pelo Ministério da Mari- 
nha em que ultimamente se sustentou aquellas imposturas, isto 
é em as Notices Statistiques sur les Colonies Françaises &.^ E na 
dita analyse a p. 213 declara este meu sábio collega que se con- 
forma inteiramente com a minha opinião, e que adopta as minhas 
provas citando a parte da minha Memoria inserta no Bolletim da 
Sociedade Geographica de Outubro do anno passado que tive a 
honra de enviar a V. Ex.^ 

Se V. Ex.^ desejar ter este n.» enviar-lhe-hei. O mesmo Geo- 
grapho vai dar conta detalhada nos Annaes tanto da mesma 
obra Franceza sobre os nossos descobrimentos, como do Atlas. 
Espero com anciedade a resolução que ahi se terá tomado em 
consequência da minha resposta ao Ministro do Reino, e dos effi- 
cazes esforços da amizade de V. Ex.^ para se obter o arranja- 
mento que eu tanto desejo, e que será ao mesmo tempo mui 
profícuo para a continuação dos nossos trabalhos. 

Renovo as expressões de inalterável gratidão com que sou 

De V. Ex.« 
Am. o f. e obrg.í"» s. 

Visconde de Santarém 

Paris, 25 de Junho de 1842. 



2Ó4 CORRESPONDÊNCIA SCIENT1F{CA E LITTERARIA 



Carta do Visconde de Santarém 

III"''' e Ex.'"° Snr. 

Tive ultimamente o gosto de receber a estimadissima carta 
de V. Ex.^ de 4 do corrente que me trouxe novas provas da 
amizade com que V. Ex-^ me honra, e do seu zelo incansável 
pela gloria da nossa Pátria. 

Mil agradecimentos pois dou a V. Ex.a pelas boas noticias 
que me dá de estar arranjado tudo quanto respeita á minha 
ficada aqui, conservando a direcção dos Archivos, e continuando 
as publicações importantíssimas de que estou encarregado. 

Pelo que tive a honra de lhe escrever precedentem.*^ V. Ex.* 
poderá avaliar a satisfação que isto me terá causado. Desejo pois 
receber em breve as communicaçôes officiaes que hão-de regu- 
lar definitivamente estes negócios. 

Esta certeza, e a da approvação que V. Ex.'"^ obteve do nosso 
excellente aifligo Duque da Terceira, pela qual sou autorisado a 
completar a grande coUecção dos monumentos geographicos, veio 
dar-me o maior alento, e não descanso uiíi só instante. 

Não me sendo possível escrever hoje directamente a S. Ex.^ 
rogo a V. Ex.''^ queira ter a bondade de lhe agradecer mil vezes 
da minha parte esta boa decisão. Pelo próximo Paquete escre- 
verei a S. Ex.^ não só sobre este assumpto, mas tãobem para 
lhe pedir queira apresentar a S" Mag.*^^ a Rainha as expressões 
da minha gratidão. No officio que escrevi ao Sr. Min.» do Reino 
já lhe havia pedido quizesse agradecer a S. Mag.'^^ em meu 
nome a nomeação para os Archivos. 

A 1.^ sessão publica da Sociedade Geographica de Paris deste 
anno teve logar no dia 17 do corrente. Mr. Villemain Min,° da 
Tnstrucção Publica pronunciou um Discurso que foi publicado 
em quasi todos os Jornaes. 

Incluo nesta o dito discurso no qual na parte marcada com 
tinta vermelha, V. Ex.^ verá o que elle diz da minha obra Fran- 
ceza. Apezar da lingoagem reservada de que elle se sérvio como 
Min.° da Coroa relativamente á questão, não deixou comtudo de 



VISCONDE DE SANTARÉM 265 

mostrar a convicção em que estava da importância da obra, não 
só na parte scientifica até para a mesma illustração da historia 
de França. «I nstructions précieuses pour notre temps et poui 
notre pays. 

Pelo navio que está annunciado para partir do Havre a 15 do 
mez próximo,' remetterei a V. Ex.^ a continuação das cartas para 
hir completando o exemplar do seu Atlas, e já mandei para a 
Legação os exemplares do texto Francez da Memoria com a dis- 
sertação em que fallei em outras. 

Renovo as expressões de fiel amizade e gratidão com que me 
prezo ser 

De V. Ex.^ 
Am.'' f. e obrg.nio cr. 

Visconde de Santarém 



Do Visconde de Santarém para Joaquim José da Costa de 
Macedo 

~ ///.'"'' Sr. 

Rogo a V. S.a queira ter a bondade de offerecer em meu 
nome á Academia Real das Sciencias o exemplar incluso da mi- 
nha obra intitulada Recherches sur la découverte des Pays Situes 
la Cote Oocidentale d' Afrique, pedindo á Academia se digne aco- 
lher esta offerta como um testemunho do vivo interesse que 
tenho pela gloria d'ella, e da nossa Pátria. 

D.« G.« a V. S.a Paris 25 de Junho de 1842. 

Visconde de Santarém 



111."^° Sr. Joaquim José da Costa de Macedo, Secretario Per- 
petuo da Academia Real das Sciencias de Lisboa. 



266 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

I 



Carta do Visconde de Santarém para o Conde da Ponte 
Paris, 26 de Junho de 1842. 
(Com outra lettra) Recebida a 9 de julho Resp. a 10 id. 

Meu q.'^'' Sobr." e Am." do C. 

Se lhe não respondi logo á sua estimada carta do mez pas- 
sado em que me dava os parabéns pela minha nomeação de 
G.'^^ M. da Torre do Tombo foi por dous motivos: 1.° por que 
me constou que estava na Freiria, e por isso não quiz arriscar a 
carta a que se perdesse, e o 2.° porque esperava poder ann^n- 
ciar-lhe a resolução do Gov.o sobre a minha ficada por aqui 
ainda por algum tempo. 

Aqui tem pois duas desculpas do meu silencio com as quaes 
respondo á sua lacónica mas obrigante cartinha de 12 do cor- 
rente. Mon procés parait gagné. Espero pois ficar por aqui em- 
quanto publicar a 1."* parte do meu Quadro Elementar isto é uns 
13 volumes, e hirei para Portugal publicar os 70 de Documentos 
se até então D.^ me conservar a vida, etc. Este anno conto pu- 
blicar 5 volumes da 1.''^ destas obras. 2 já estão publicados, e 
pelo navio que parte a 15 do mez que vem lhe remetterei o 3.° 
que comprehende as relações com a França. Está na Imprensa, 
e nos fins d'agosto começa a imprimir-se o 4.° que respeita as 
relações com a Cúria de Roma a que se seguirá o 5.° com a 
mesma Potencia. No anno que vem espero hir mais depressa 
com esta magnifica, e importante publicação. Veremos se pode- 
rei fazer tudo quanto desejo. Um bom serviço me podia fazer o 
excellente e instruido Sobrinho, e consiste em tirar Summarios 
das cartas do S/ Marquez de Sande da parte que pertence á 
França, e Inglaterra, e ir remettendo-mos pouco a pouco pela 
Secretaria de Estado. 

Quanto ao meu Atlas tem merecido a admiração e o applauso 
não só deste paiz mas da Europa. Os exemplares coloridos são 
mui raros, dispendiosíssimos. Eu mandei á mezes 12 ao Gov.^ 



VISCONDE DE SANTARÉM 267 

que segundo me consta distribuio alguns. Continuo esta immensa 
publicação dos Monumentos geographicos da Idade Media. Aca- 
bão de gravar-se mais 8 Planispherios dos séculos 12, e 13, e 
estâo-se tirando fac-similes e outros no Museo Britânico, em 
Vienna, etc. 

Já mandei para a Legação um exemplar do volume do texto 
Francez da m.^ obra que acompanha o grande Atlas. Vai este 
exemplar com outro para seu Sogro a quem recomendo queira 
ter a bondade de lhe entregar o que destino ao Conde. Ahi che- 
garão nos fins do mez que vêm. 

Sinto tudo quanto me diz de seu Pai. Ha muito que não 
recebo cartas delle. Não sei que mal lhe fiz. A Marqueza de 
Taubatè (1) aqui me veio visitar um destes dias, e me disse que 
tinha recebido cartas delle. 

Rogo-lhe o obsequio de mandar entregar as inclusas á Vis- 
condessa, e a meu Irmão e acredite que sou deveras seu 

Tio e Am.o f. e m.t^ obrg.° 
Manoel 



Carta do Visconde de Santarém para Rodrigo da Fonseca 
Magalhães 

Paris 11 de Julho de 1842. 

///.'"" e ExJ^° Snr. 

Senti muito saber pela cartinha que V. Ex.^ me fez a honra 
de escrever pelo ultimo Paquete datada de 27 de Junho, que se 
achava incommodado de saúde. Desejo sinceramente o seu 
prompto restabelecimento, pois a sua saúde importa muito aos 
interesses do paiz, e aos amigos e justos admiradores das suas 
bellas qualidades. 



(1) Sofia Bum, esposa de Luiz Saldanha da Gama, filho do Conde da 
Ponte e que era Grande do Império Brasileiro e ministro em S. Petersburgo. 
Morreu em 1837 em Paris. 



268 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

Já expedi para o Havre a primeira remessa de exemplares 
do texto Francez da m."^ obra sobre os descobrimentos. Enviei 6 
para V. Ex.^ debaixo do sobrescripto do Duque a quem mandei 
26 para lhe dar o destino official que julgar opportuno. 

Por outra occasião remetterei a V. Ex.« outros, pois é neces- 
sário mandar brochar mais em consequência dos muitos que se 
tem espalhado pela Europa. 

Remetti igualmente pela mesma occasião a V. Ex.* a conti- 
nuação do Atlas, e que V. Ex.'^ terá a bondade de mandar recla- 
mar da Secretaria logo que chegar a Lisboa o navio. 

Dou a V. Ex.^ os Parabéns pela sua eleição para a Camará 
dos Deputados, e muito contente fiquei em ver que fora eleito 
por duas Províncias. 

Para o correio próximo conto ser mais extenso pois hoje estou 
tãobem um tanto incommodado com algumas vertigens em con- 
sequência do calor. 

Acceite V. Ex.*» as expressões de inalterável gratidão com 
que tenho a honra de ser 

De V. Ex.a 
Am.*^ f. è obrig.""» cr. 

Visconde de Santarém 



Para o Duque da Terceira 
(particular) 

Paris 11 de Julho de 1842. 

Meu q.o Duque e Am.» de C. Escrevo estas duas regras para 
lhe dar mil agradecimentos pela decisão que V. E.» toniou autho- 
rizando-me a completar o grande Atlas, isto é o monumento 
mais honroso que o Governo pôde levantar á antigo gloria Por- 
tugueza, e de que a Europa scientifica lhe ficará agradecida. 

Receba pois V. Ex.^'^ as expressões da minha gratidão pela 



VISCONDE DE SANTARÉM ^ 269 

confirmação d'esta decizão que o nosso Excellente Am. o Rodrigo 
da Fonseca me transmittio na sua carta de 4 de junho passado. 

Dirijo hoje a V. Ex.''^ um longo officio no qual exponho a 
parte principal do que tenho feito até este momento no impor- 
tante negocio relativo á Casamansa de que fui encarregado. 

Aproveitando a influencia que tenho aqui sobre os principaes 
redactorçs dos grandes jornaes obtive que antes do Ministro de 
S. M. passar a Mr. Guizot a Nota que V. Ex.'' lhe ordenou hou- 
vesse de dirigir sobre este assumpto, o Moniteur Universel, isto 
é o grande jornal official publicasse um extenso artigo sobre a 
minha obra, e sobre os nossos direitos. 

Este artigo deve aparecer hoje ou amanhãa, bem como outros 
nos diversos jornaes políticos. Permitta-me V. Ex.^ que lhe ma- 
nifeste o desejo que tenho, se V. Ex.» assim o julgar opportuno, 
que de 26 exemplares do texto francez da minha obra que re- 
metti a V. Ex.^ mande um exemplar para as seguintes Bibliothe- 
cas; 1.^ para a Real de Ajuda, 2.^ Publica, 3.^ de Évora, 4.a 
Coimbra, õ.a Publica do Porto. 

Se V. Ex.^ quizer mais Exemplares remettel-os-hei logo que 
V. Ex.^ o ordenar. 

Para o Duque da Terceira 

Paris 11 de Julho de 1842 

Confidencial 

///.'"'' e Ex.""" Snr. 

Acabo de expedir a V. Ex.^ pelo navio que deve partir do 
Havre no dia 15 um maço com 26 exemplares do texto Francez 
da minha obra sobre a prioridade dos nossos descobrimentos, e 
sobre a questão do Casamansa. 

Conservei n'esta ultima obra, não só toda a Memoria Portu- 
guesa que primeiramente escrevi sobre o assumpto, mas também 
dei-lhe outra forma, e juntei-lhe mais do dobro, convertendo-a 
ao mesmo tempo em uma obra formal, a fim de servir d'autho- 



270 CORRESPONDÊNCIA' SCIENTIFICA E LITTERARIA 

ridade nos pontos mais graves e curiosos da Historia da Geo- 
graphia e dos descobrimentos. 

Não escapará por certo á penetração de V. Ex.^ tudo quanto 
tinha de escabroso e de difficil este negocio, tratando-se por uma 
parte de derrubar para sempre uma pretenção que por ser falsa, 
não deixava de ser recebida entre as verdades históricas pela 
maior parte dos escriptores, e mesmo de alguns sábios d'este 
paiz e até sanccionar em 1839 em uma obra official publicada 
pelo Ministério da Marinha e pela outra parte de provar de tal 
modo os nossos direitos refutando as pretensões da supposta 
prioridade dos descobrimentos dos Francezes, sem ferir o amor 
próprio e vaidade nacional, antes, pela evidencia das provas 
scientificas e históricas do seu próprio paiz o reconheceram a 
nossa justiça. 

Foi-me, pois, necessário conduzir este negocio com summa 
deUcadeza e cautela, preparando pouco a pouco a opinião a nosso 
favor por meio de acção das Sociedades Scientificas, e das autho- 
ridades mais importantes, e isto de modo que antes mesmo de 
se ter publicado a obra, que envio a V. Ex.a, já a nossa questão 
se tinha ganho pelo juizo que as mesmas authoridades compe- 
tentes tinham feito á face da Europa. 

Em primeiro logar consegui que o Comité do Journal des Sa- 
vants, jornal que exerce uma influencia scientifica immensa, não 
só aqui mas em toda a Europa, publicasse 2 grandes artigos 
sobre a Chronica da Conquista da Guiné (N.o*' de Junho, e De- 
zembro do anno próximo passado) e nos quaes tratando-se, e ana- 
lysando-se as minhas Notas e Memorias Portuguezas se reconhe- 
ceo a prioridade dos nossos descobrimentos africanos, emquanto 
por outra parte consegui que no Bolletin da Sociedade de Geo- 
graphia de Paris do mez de outubro do dito anno se inserissem 
os Capítulos X, XI e xii do texto Francez que respeitava á parte 
da historia das cartas históricas e geographicas, capítulos que 
sós per si destruíam sem replica as pretenções dos escriptores 
francezes, e estabílicião para sempre scientifica e documental- 
mente os nossos direitos. Pelo mesmo tempo comecei a distribuir 
o Atlas tanto no Instituto Real de França, como na Sociedade 
Geographica e a alguns dos Ministros. E tão grande foi o eff eito 



VISCONDE DE SANTARÉM 



produzido só por estas publicações que o auctor de uma nova 
obra histórica da Marinha Franceza, na qual repetia os mesmos 
fabulosos descobrimentos dos Normandos, se retratou, e pelo 
contrario fez menção da minha obra para provar que aquella 
gloria, e aquelles direitos nos pertencião emquanto por outra 
parte a Sociedade Geographica pelo órgão do seu Secretario 
Geral em um relatório lido na sessão publica consagrava todas as 
doctrinas principaes, que eu sustentava sobre os nossos direitos, 
sendo a dita sessão prezidida por um Ministro da Coroa. 

As conclusões sobre este assumpto forão publicadas nas tran- 
sações da Sociedade e traduzidas no Diário do Governo ao qual 
me remetto. Em quanto isto se passava, via-se por outra parte o 
professor de Geographia da Faculdade das Lettras n'esta Uni- 
versidade Mr. Guigniant, do Instituto explicar a historia da Geo- 
graphia da Idade Media servindo-se das minhas notas á chronica 
d'Azurara, dos extractos da minha obra franceza publicada nas 
Memorias da Sociedade Geographica de que acima fallei, e final- 
mente pelas cartas do meu Atlas, emquanto Mr. Fleutelot, Mem- 
bro da Sociedade Geographica se servia egualmente d'estas para 
as suas lições no Collegio Real de Bourbon. 

Emquanto isto se passava em favor dos nossos direitos e da 
gloria de Portugal, um dos mais sábios geographos francezes, 
analysando em um artigo inserido nos Annaes das Viagens a 
obra publicada pelo Ministério da Marinha sustentou que os des- 
cobrimentos dos Francezes na Costa da Guiné anteriormente aos 
nossos e que na dita obra se mencionavão erão falsos, e se re- 
mettia para provar tal falsidade á parte da minha obra já publi- 
cada (Nouvelles Annales des Voyages. Cahier. . . Art. de' 
Mr. Erydès) (1). 

Por este mesmo tempo publiquei duas grandes memorias, e 
extractos do Tratado dos Reis da Guiné por André ^Alvares 
d' Almeida (1594) ultimamente publicado no Porto e com esta 



(1 1 Jeen Baptista Revirt Erydés, geographo francez illustre e que morreu 
em 1846. 



272 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTER'ARIA 

publicação reforcei de novo os meus argumentos em algumas 
notas. 

Finalmente na sessão publica annual da Sociedade Geogra- 
phica celebrada em 17 de Junho passado Mr. Villemain, Minis- 
tro do Instrucção Publica que a presidia, declarou do modo mais 
formal o seguinte, fallando da obra que publiquei o que trans- 
crevo. 

«Les recherches même d'érudition offrent, á part la curiosité 
scientifique un interêt d'utitité presente, parce que souvent elles 
remetteut nos sur yeux des choses qui n'ont pas changé, et que 
le passe même fait mieux comprendre. Cest ainsi que dans Ia 
reunion des documents les plus anciens pour rhistorie des decou- 
vertes sur la icote occidentale d'Afrique Mr. le Vicomte de San- 
tarém a rassemblé des instructions précieuses pour notre temps 
et pour ncíre pays». 

Este discurso foi immediatamente publicado no Moniteur 
Universel, no Messager, no Journal des Debates, e em outros. 

Para completar de alguma sorte o resumo histórico que 
tenho a honra de dirigir a V. Ex.^ sobre este assumpto, devo 
accrescentar que consegui fazer retractar um dos homens mais 
afferrados á questão da prioridade dos Normandos : 

Mr. d'Avezac e que a tinha sustentado em suas obras, indivi- 
duo que por sua posição official de Director da principal Reparti- 
ção das Colónias no Ministério da Marinha, era de todos o mais 
perigoso, pois que é ouvido n'aquella Repartição na parte scien- 
tifica, e diplomática d'ella, e que foi quem influio para que em a 
obra official publicada pelo dito Ministério em 1839, intitulada «No- 
tices Statistiques sur les Colonies Françaises» se sustentasse que 
os Normandos tinhão descoberto a Guiné um século antes de nós, 
publicação feita sem duvida para apoiar as pretençôes a Casa- 
mansa. 

Este empregado que é ao mesmo tempo um geographo hábil 
e muito instruído me communicou antes d'hontem a parte da 
obra que vai publicar sobre a Africa, e na qual elle diz que os 
suppostos descobrimentos Normandos forão refutados com as 
regras da critica documental mais severa e que são insustentáveis 
remettendo-se á minha obra. 



VISCONDE DE SANTARÉM 273 



Não é pois duvidoso o effeito que tem tido sobre a opinião 
publica n'este paiz a publicação das obras de que o Governo de 
S. M.« se serviu encarregar-me, e me parece ter conseguido res- 
tabelecer os direitos da Coroa de Portugal áquelles territórios e 
reivindicar para sempre, e sem replica para os seus faustos a 
gloria de que nos pretendião esbulhar. 

No momento em que tenho a honra de escrever este officio 
já em toda a Europa estão espalhados estes documentos e estas 
doutrinas, pois para toda a parte tenho mandado exemplares do 
texto francez e assim será dada a maior publicidade a este 
monumento levantado á gloria immortal da nossa Pátria. Resta- 
me pedir a V. Ex.^ queira em meu nome ter a bondade de agra- 
decer a S. M. a Rainha a honra que me fez escolhendo-me para 
obter estes importantes resultados em proveito da Coroa e da 
gloria nacional e por ter a mesma Augusta Senhora mandado 
generosamente pôr á minha disposição os meios necessários para 
levar ao fim uma empreza de tal magnitude e ao mesmo tempo 
para mim tão honrosa o todos os respeitos. 

Oxalá que o modo porque desempenhei as vistas do Governo 
possa merecer a benigna approvação de S. M. 

Deus~ Guarde a V. Ex.» etc. — Visconde de Santarém. 



Do Visconde de Santarém para o Duque da Terceira 

111.'"° e Ex.'"" Snr. 

Paris. 18 de Julho de 1842. 

Necessitando para ultimar a publicação do 3." volume do 
Quadro Elementar das nossas relações diplomáticas que já se 
acha na imprensa de obter da Secretaria d'Estado dos Negócios 
Estrangeiros os summarios chronologicos e remissivos de todos 
os officios e peça que se contem na correspondência do Princi- 
pal Saldanha (1) durante a sua missão na Corte de Paris no anno 



(1) O Principal Saldanha chamava-se D. Francisco de Saldanha, era des- 
tíendente dos condes da Ponte. Era principal em 1755 e cardeal no anno seguinte. 
Patriarcha em 1758. Conselheiro d'Estado de D. José I. Morreu em 1776. 

VOL. VI 18 



274 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTF.RARIA 

de J756 que se achão no Archivo da mesma Secretaria rogo a 
V. Ex/' queira ter a bondade, se assim o julgar opportuno, de 
dar as convenientes ordens a fim de se exlrahirem os sobredi- 
tos summarios sendo estes remettidos á medida que se forem ti- 
rando. 

Aproveito esta occasião para rogar também a V. Ex.a queira 
ter a bondade de expedir as convenientes ordens ao Ministro de 
S. Mag.*' na Corte de Londres para que faça tirar as copias dos 
importantes documentos que ali existem relativos ás nossas rela- 
ções com a Inglaterra, desde o reinado da Rainha Izabel e que 
se acham inéditos e dos quaes possuo os índices, pelos quaes 
poderei indicar ao dito Ministro quaes sejam os ditos documen- 
tos. Deus Guarde &c. 

Visconde de Santarém 



Do Visconde de Santarém para Rodrigo da Fonseca Maga- 
lhães, é 

Paris, 25 de Julho de 1842. 

///.""' e Ex.'"° Snr. 

Fiquei privado ainda de noticias de V. Ex.^ pelo ultimo Pa- 
quete, tive-as porém indirectas pelo Diário do Governo, de 11. 

Com esta encontrará V. Ex.a o Moniteur de 20 em que se 
publicou um artigo relativo á minha obra. O autor que eu não 
conheço, e que é um dos Redactores daquelle Jornal official, 
cahio em alguns erros, e não corregiu as provas. Confundiu 
Pliilasire com Nicolau á'Oresme, dizendo que o prim.» tinha sido 
mestre de Carlos V quando aliás fora o 2." que exercera estas 
funcçôes. Os nomes dos AA. Árabes estão todos estropiados; p.'' 
exemplo Ihn-A-ankal por Hancal, Drisi por Edrisi, Boulfeda por 
Aboulfeda, Bakoni por Bahoui. 

Em quanto ao que diz no ultimo §.° relativamente ás cartas, 
mostra que não tem conhecimento deste negocio. Em 1.° logar 
eu não necessitava para a demonstração fundamental do meu 
trabalho, dar a Africa toda da carta catalan. E' verdade que p.^ 
a utilidade scientifica, era melhor dá-la toda, mas tive receio da 



VISCONDE DE SANTARÉM 275 



despeza, pois haviâo outros monumentos mais importantes e de 
maior custo a dar; por esse motivo só fiz gravar a parte que 
serviu de prova á minha demonstração fundamental. Quanto ao 
outro reparo que «íoiifes les cartes ne soient pas teintes comme 
quelques unes cVentre elles» a resposta é obvia foi por quepubli- 
cando-as em fac-simile não podia faire teinter todas pois se tal 
se fizesse deixarião de ser fac-similes. 

O merecimento desta collecção consiste pois na reproducção 
fiel dos monumentos. 

Acabo de receber da Allemanha uma obra mui curiosa que 
me mandou o Professor Wappaiis de Gottinge ultimamente por 
elle publicada com o titulo = Unter sii chugen iiber die geogra- 
phischen eut deckungen du Portuguiesen & (Investigaçâes geo- 
graphicas sobre os descobrimentos dos Portuguezes sob o Infante 
D. Henrique, e sobre o commercio da Idade Media — P.^ 1.^. 
Nesta obra vem já citadas as minhas notas a Azurara e a collec- 
ção de Cartas do Atlas. 

Hontem tive noticia de Londres nas quaes M."" Wright me 
annuncia que a direcção do Museo Britânico tendo já á tempos 
concedido licença para se poderem alli copiar todos os monu- 
mentos geographicos que eu pedisse, se estavão ultimando em 
consequência as copias dos mais importantes. 

Renovo as expressões de alta estima e invariável gratidão 
com que tenho a honra de ser 

De V. Ex.'^ 
Am.° f. e obrg.'^° cr. 

V''. de Santarém 

P. S. — Para que V. Ex.a conheça o progresso da nossa publi- 
cação das cartas, incluo nesta uma prova de uma nova plancha 
que contem 7 Planispherios tirados de Mss. raríssimos, e todos 
anteriores aos novos descobrimentos. Logo que as boas folhas 
estiverem promptas e coloridas terei a honra de as remetter 
a V. Ex.^ 



276 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



Do Visconde de Santarém para o Conde da Ponte 

Paris 31 de Julho de 1842. 

(Com outra lettra) Recebida a 13 de Agosto 

Meu q.'^° Sohr." e Am." do C. 

Recebi ultimamente a sua amável cartinha de 10 do corrente, 
e muito agradeço as noticias que me dá dos Mss. do Snr. Mar- 
quez de Sande. Em quanto não puder descobrir estes interessan- 
tes papeis, peço-lhe encarecidamente que mande extractos sum- 
marios das cartas de Feliciano Dourado residente em Paris nos 
annos de 58, 59 etc, isto é das que contiverem noticias diplomá- 
ticas, ou que disserem respeito ás negociações ; tendo todo o cui- 
dado de marcar as datas, e o volume em que se achão. 

Os summarios tirão-se em um instante, pode pois mandar-nos 
á medida que se forem tirando. Remetta-os pois debaixo de so- 
bscripto para a Secretaria dos Negócios Estrangeiros. 

Incluso remetto o numero do Jornal official o Moniteur onde 
verá um longo artigo sobre a minha ultima obra. 

Aqui presenceamos uma horrível catastrophe, a da morte do 
Duque d'Orleans (1). Esta gente tão ligeira e tão amiga de dis- 
tracções, tem todavia dado nesta occasiâo as mais patentes de- 
monstrações de sentimento. A França inteira tem amargamente 
sentido este horrível acontecimento. Todos os jornaes mais revo- 
lucionários o tem deplorado, excepto a «Gazeta de França» que 
acaba de ser condemnada a 24$ francos. Todas os theatros es- 
tão fechados, quasi toda a gente está de lucto, etc. 



(1) A morte do duque de Orleans deu-se, indo o duque para Saint-Cloud, 
onde se encontrava a familia real. Tendo mandado atrelar o seu carro, puse- 
ram-se-lhe um cavallo fogoso que tomou o freio nos dentes e, virando o car- 
rinho, cuspio o duque contra uma pedra. Morreu em casa d'uma pobre vende- 
deira de hortaliça. Era o filho de Luiz Filipe e o herdeiro do Throno. 



VISCONDE DE SANTARÉM 277 



Que faz seu Pai ? Não me escreve ha 5 annos ! Dê-lhe reca- 
dos meus, e acredite que sou deveras seu 

Tio e Am.° f. e obg.'^^ 

Manoel 



Do Visconde de Santarém para o Duque da Terceira 

Paris 31 de Julho de 1842. 

Meu Duque e Amigo do Coração 



« 



Na miuha carta de 11 do corrente tive a honra de participar 
a V. Ex.^ que ia apparecer no Monitor um artigo relativo á obra 
sobre os nossos Direitos a Casamansa e á prioridade dos des- 
cobrimentos Portuguezes na Costa d'Africa. 

Pelo numero do dito Jornal Official que tenho a honra de in- 
cluir, V. Ex.a verá que, effecti vãmente se publicou o dito artigo. 
E' comtudo para sentir que Mr. Grim Redator em chefe d'aquelle 
jornal tivesse encarregado outro coUaborador de o redigir, pois 
este não só deixou passar sem correcção alguns nomes próprios 
que os compositores estropiarão, mas contradizendo-se poz três 
ou quatro regras da sua casa para indicar que a França não ne- 
cessita desta gloria disputada, e fez depois reparos sobre não 
serem todas as planchas do Atlas de côr de pergaminho. 

Entretanto o objecto principal está conseguido fazendo-se pre- 
gar até nos jornaes officiaes d'esta Corte as doutrinas e argu- 
mentos documentaes que provão sem replica os nossos direitos 
dos quaes ninguém hoje duvida. 

Deos Guarde a V. Ex.«, &.a 

Visconde de Santarém 



278 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

Do Visconde de Santarém para o Duque da Terceira 

Paris 13 de Agosto de 1842. 

Aheu Duque c Amigo do Coração 

Tive a honra de remetter a V. Ex/' na data de hoje por via 
da Legação de S. Mag.*= nesta Corte dons exemplares do Tomo ii 
do Quadro Elementar das Relações Politicas e Diplomáticas de 
Portugal com as diversas Potencias do Mundo. 

Desejo que o volume que remeto em que se encerra a conti- 
nuação dos summarios e indicações de nossas relações com a 
Hespanha, sendo muitas delias preciosíssimas e inéditas obtenha 
#a benigna approvação do Governo de S. Mag.^ 

Deus Guarde, &.« 

Visconde de Santarém. 



Do Visconde de Santarém para Rodrigo da Fonseca Maga- 
l/iães 

Paris 14 de Agosto de 1842. 

///.'"'' e Ex.'"" Snr. 

Já mandei para a Legação dous exemplares do 2.^ Tomo do 
Quadro I^lementar, um para V. Ex.« e outro que muito desejaria 
que V. Ex.*^ tivesse a bondade de mandar entregar ao meu col- 
lega o Sr. Albano. Juntei a essa remessa outro exemplar com- 
pleto do 1.^ e 2.*^ volumes da mesma obra para V. Ex.-'' lhe dar 
o destino que lhe parecer. Estes Livros vão dirigidos na forma 
do costume á Secretaria d'Estado dos Negócios Estrangeiros. 

Neste 2." volume encontrará V. Ex.''^ um grande n.° de docu- 
mentos e noções preciosas. Muitas destas justificão sem replica 
a attitude que o governou tomou durante o Ministério de V. Ex.» 
quando se tratou de repellir as altivas pretenções da Hespanha, 
e respondem em meu entender victoriosamente á opposição que 
então se fez contra as medidas adoptadas. 



VISCONDE DE SANTARÉM 279 

Os trabalhos de que estou encarregado, vão pois continuando 
com actividade como V. Ex.a pode ver por estas publicações. 

Quanto ás cartas geographicas, continuo tão bem a augmen- 
tar a collecção, contando com a realisação da promessa do Du- 
que, e auctorisação que V. Ex.*» obteve de S. Ex.=> pois o Atlas, 
e a despeza feita com os textos que o acompanhão, e outros so- 
bre aquelle assumpto excederão não só as 500 £ destinadas para 
esta publicação, mas absorverão as 200 extraordinárias que 
V. Ex.^ mui generosamente havia posto á minha disposição pelo 
primeiro credito para a publicação do Quadro Elementar ; pois eu 
assentei que não devia poupar cousa alguma para desempenhar 
por uma parte as vistas de V. Ex.^ e pela outra levantar um mo- 
numento nacional á nossa antiga gloria, e á Sciencia, V. Ex." 
receberá em breve uma das mais bellas, e mais custosas cartas 
que formão parte desta collecção, a de Guillaume Le Testu de 
1555, monumento que é obra prima de caligraphia, e de muito 
interesse como monumento geographico, bem como para a nossa 
questão. No meu texto Francez, citei o Atlas em que ella se acha 
a pag. cxii da Introducção na Lista das cartas, e a pag. 147. 

Tenha V. Ex.'' tudo quanto merece e lhe deseja quem tem a 
fortuna de ser 

De V. Ex.a 
Am.'^ f. e obrg.'"** creado 

Visconde de Santarém 



Do Visconde de Santarém para Rodrigo da Fonseca Maga- 
lhães 

Paris 4 de Setembro de 1842. 

■ 111."'° e Ex.'"" Snr. 

Agradeço a V. Ex. mui cordealmente o favor que me fez 
mandando publicar no Diário do Governo de 9 do passado o ar- 
tigo do Moniteur Universel relativo á obra Franceza e ao Atlas. 



280 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

Incluso encontrará V. Ex." outro artij^o sobre o mesmo as- 
sumpto publicado na Reviie de Bibliographie Analytiqiie do mez 
d' Agosto passado. 

O artigo não podia ser mais honroso para a nossa Pátria, 
sendo como é terminante na parte que respeita aos suppostos 
descobrimentos dos Dieppeses. Parece-me pois ter conseguido 
derrubar na opinião puplica deste pais, uma pretenção séria desta 
poderosa nação, e que aliás se achava já consagrada como uma 
verdade histórica durante 200 annos, e finalmente convertida 
nestes últimos tempos por este governo em um direito a uma 
porção do território da Coroa de de S. M. 

O artigo que tenho a honra de enviar a V. Ex.» me parece 
ainda mais importante do que o do Moniteur, e julgo por este 
respeito mui conveniente a sua publicação no Diário do Governo, 
tanto mais que ao monumento nacional de que ali se trata, de- 
vendo tudo a V. Ex.^, servirá tanto este artigo bem como outros 
que ali se publicarem para convecer a Nação, as camarás, e o 
publico da opinião da Europa em assumpto em que interessa em 
máximo grau a sua gloria, e a integridade dos domínios da Coroa 
Portugueza, e servirá de mostrar ainda mais os importantíssimos 
serviços que V. Ex.*'^ prestou durante o seu curto Ministério, ser- 
virá em fim esta publicação para convencer ahi a muita gente 
da utilidade nacional da continuação das nossas publicações. 
Pelo ulliiro Pai}uete recebi um Despacho do Duque que me en- 
cheo de muita satisfação approvaudo em nome de S. Mag.« tudo 
quanto fiz em desempenho das ordens que recebi, e do trabalho 
de que fui encarregado por V. Ex.a. 

Tenho pois de agradecer tão bem isto a V. Ex.^ pois é obra 
sua. 

Renovo as expressões de fiel aniisade, e alta consideração 
com que me preso ser 

De V. Ex.» 
KmP fiel e obrg."^" creado 

Visconde de Santarém 



VISCONDE DE SANTARÉM 281 



Do Visconde de Santarém para o Conde da Ponte 
Paris 8 de Setembro de 1842. 

Meu q/" Sobr." e Am." do C. 

Não ha pilhar-lfie carta sua! quando cá vem parar um bilhe- 
tinho é de século em século!.. . bem vejo que as suas actuaes^ 
occupações de Archivista da Camará dos Dignos Pares não lhe 
deixarão todo o tempo necessário para escrever duas regras a 
este novo* hermite de la Chaussée d'Aniin, mas o hermite é tam- 
bém Archivista Mór do Reino, e chega-lhe o tempo para escre- 
ver volumes e longas cartas aos sobrinhos. 

Dou-lhe p.'^ que todos os meus neg.°* de Archivo estão per- 
feitamente regulados, tendo-se o Governo conformado com as 
propostas que fiz, e já estou em Correspondência seguida com o 
Official Maior d'aquella Repartição. 

Agora depois destes embrulhados preliminares, vou dar-lhe 
conta dos meus últimos trabalhos e do que acerca delles se passa 
cá por esta Europa. 

O 2.« volume do Quadro Elementar das nossas Relações Di- 
plomáticas já para ahi o remetti, e termina as nossas relações 
com Hesp.a comprehendendo os 2.°^ primeiros Tomos 2:222 sum- 
marios e indicações de documentos. O 3.° Tomo Já está na im- 
prensa coutem a 1.^ P.^ das nossas relações com a França, e 
este é preciosíssimo pois tem mais de mil documentos inéditos. 
Espero remettelo dentro em 2 mezes. 

Quanto á m.a obra sobre os Descobrimentos tem dado brado 
cá por fora. Já varias obras Allemãas a tem citado e entre outras 
a de Wapaiis Professor de Gottinga. 

Antes de houtem se publicou separadamente extrahido dos 
Annaês das Viagens o meu trabalho sobre o Tratado dos Rios 
de Guiné por Alvares d'Almada composto em 1594. 

Aparecerão outros artigos meus na Encyclopedia, a saber o 
art.° Lisboa, e a biographia do famoso Fernando de Maga- 



282 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

Ihães (1). Além disto escrevo todos os dias uma multidão de Bi- 
lhetes para dar a conveniente direcção aos impressores, aos 
t^ravadores etc. forneço notas a muitos sábios francezes, AUe- 
mães, e Italianos, e para as sociedades sabias de Inglaterra, e 
estou em correspondência seguida com o Instituto do Rio de 
Janeiro etc, etc, etc 

Ora já vê que apesar de todo o labyrinto em que vivo não 
deixo de escrever longas missivas ao benemérito Archivista da 
Camará dos Dignos Pares. 

Além destes trabalhos que acima refiro em resumo, devo 
juntar o tempo que levo em caminhadas, em receber, e fazer 
visitas de infernal etiqueta, pois neste paiz como dizia mui acer- 
tadamente o Alaçaió (cuido que este nome macaco se escreve 
assim?) ninguém devia ter çapatos, nem casaca. Portanto quando 
receber uma carta minha desta dimensão deve agradecer-me 
logo no Correio seguinte pois lhe dou une preuve éclatante 
íVamitié, et Je fais aii mêiue temps iin tour de force. 

O Marquez do Fayal (2) aqui nos deu um diner monsfre, ma- 
gnifico! Parece-me excellente moço. Se eu tivesse o dinheiro que 
elle tem, que cousas faria eu neste paiz onde este metal tem o 
maior poder, e a magica de vencer tudo! Parece-me que até era 
capaz de fazer vir as torres de Notre Dame para a Rue de la 
Bruyère para estudar as carantonhas dos reis da 2. a raça que 
escaparão aos Jacobinos de 93. Quando vejo estas cousas, estas 
riquezas, e eu sem poder levantar cabeça tenho comichões para 
me fazer St. Sbnonien já se sabe no modo como o entende Al- 
cide Tousez do theatro do Palais Royal que dizia em uma paro- 
dia destes caturras — falando a um adepto. «Vous, mon frère^ 



(1) O grande navegador que fez a viagem de circumnavegação, ao serviço 
de Castella visto D. Manuel lhe ter recusado augmento de moradia, após os 
seus grandes serviços na Africa e na índia. Morreu em 1521 ás mãos dos selva- 
gens em Mactan iFillipinas). 

(2) Domingos António de Sousa Holstein, filho do 1 ." duque de Palmella. Ca- 
sou com a riquíssima filha do conde da Povoa. Pae da illustre senhora que 
foi marqueza de Fayal e duqueza de Palmella. 



VISCONDE DE SANTARÉM 



283 



devez savoir lés préceptes de notre Sede. Les voici. Moi je n'ai 
rien, tu en as de Targent, nous partagéonsf 

Seu do C. Tio e Am.« f. 
Manoel 
P. S. Queira mandar entregar a inclusa. 

Do Visconde de Santarém para o Duque da Terceira 

Paris, 12 de Setembro de 1842 

III.""' e Ex.'"" Snr. 

Tenho a honra de participar a V. Ex.'' que remetto por via 
de Havre 12 exemplares do Tom. l."* e 2.° do Quadro Elementar 
das Relações Politicas e Diplomáticas de Portugal, dirigidos a 
V. Ex.» para haver de lhes dar o destino que julgar opportuno. 

Aproveito esta occasião para accusar a recepção do despa- 
cho n.o 4 que V. Ex.=» me fez a honra de dirigir e que me encheo 
de maior satisfação, não só pelas honrosas expressões que V. Ex.« 
se sérvio dirigir-me, mas também pela benigna approvação que 
S. M.^ se dignou dar ao modo por que conduzi o importantíssimo 
e melindroso negocio relativo á questão de Casamansa, pedindo 
a V. Ex.* queira ter a bondade de significar a S. M.^ o meu pro- 
fundo e respeitoso reconhecimento. 

Permitta-me V. Ex.a que lhe agradeça também as ordens que 
se dignou expedir afim de me serem enviados os summarios da 
correspondência do Principal Saldanha durante a sua missão 
n'esta Corte em 1756, bem como as que forão expedidas ao Ba- 
rão de Moncorvo, Ministro de S. M.^ na corte de Londres para 
mandar tirar as copias dos documentos existente no Museo Bri- 

tannico. 

Deus Guarde & 

Visconde de Santarém. 



284 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



Do Visconde de Santarém para Rodrigo da Fonseca Maga- 
lhães 

Paris, 12 de Setembro de 1842. 

7//."'° e Ex."''' Snr. 

Recebi pelo ultimo Paquete e com inexplicável prazer a carta 
de V. Ex.'^ de 21 d'Agosto passado. Dou a V. Ex.^ os parabéns 
pela boa noticia que me dá de se achar quasi restabelecido do 
incommodo que tem experimentado. 

Quanto ao que o Duque disse a V, P]x.a acerca de eu não ter 
mandado para a secretaria as novas cartas do Atlas, e o desejo 
que manifestou de que eu houvesse de fazer esta remessa; devo 
dizer a V. Ex.a que no momento em que tive a honra de man- 
dar a V. Ex.« as ditas cartas, não se achavão estas em numero 
sufficientede exemplares promptos para poder effectuar uma 
remessa para a secretaria, e isto pelas sej^uiutes razões: 

1.0 porque sendo estes monumentos coloridos á mão, conso- 
me-se muito tempo para se apromptar um grande numero. 2." 
Porque seiído mui avultada a despeza que se faz, e não tendo 
eu aqui um credito aberto, tem-me sido necessário ir com a 
maior cautela regulando este negocio de modo a não me achar 
desprovido dos fundos necessários para continuar a publicação 
igualmente imporíautissima do Quadro Elementar, vendo-me 
neste caso successivamente forçado a tomar sobre estes as som- 
mas necessárias para pagar eventualmente (em quanto se não 
realisa a decisão que^ V. Ex.« provocou do mesmo Duque) as 
despezas constantes tiue se fazem com esta publicação. Sobre 
este assumpto reportO-me ao que tive a honra de escrever a 
V. Ex.3 na m.^ carta de 26 do passado. 

Em breve receberá V". Ex.^ mais 8 monumentos geographicos 
que pela maior parte ei^tão promptos. A propósito dos fundos 
para a publicação destas obras sobre tudo do Quadro Elementar, 
permitta-me V. Ex.^ que' lhe diga, que estou sempre a tremer 
com receio de que por alguma eventualidade, elles faltem no 
futuro, uma vez que es.^te ponto fundamental, se não decidio de 



VISCONDE DE SANTARÉM 285 



uiT) modo pratico permanente; ou pelo menos de forma que 
quaesquer que forem as mudanças que possam occorrer nos dous 
Ministérios dos Negócios Estrang.^^^ e da Fazenda, esta publica- 
ção não possa, em virtude delias experimentar interrupção al- 
guma. O meio mais profícuo em meu entender para sahir desta 
incerteza, seria o de mandar o Governo pôr á minha disposição 
um credito annual em Londres ou em Paris dos 6 contos de reis 
que V. Ex.^ tinha introduzido na Ley dos Meios conforme teve 
a bondade de me avisar. 

Acabo de vêr no orçamento do Ministério dos Neg.»» Es- 
trang.^s apresentado ás Cortes (Diário de 27 d'Ag.'o) a verba de 
18 contos de Despezas eventuaes. Acaso a verba dos 6 contos 
destinada por V. Ex.a durante o seu Ministério para as nossas 
publicações está incluída nesta verba? Rogo a V. Ex.*'^ queira 
ter a bondade de me illustrar sobre este importantíssimo nego- 
cio que me traz inquieto, e atormentado pela incerteza do fu- 
turo. 

O Gov.° sabe jà por experiência como eu desempenho aquilo 
de que sou encarregado. Não descanço um só instante, e não 
faço por momentos mesmo outros trabalhos que não sejão os de 
que me encarrega. 

O 1.'' volume das nossas relações com a França que forma o 
3.° do Quadro Elementar está já a impressão adiantada, e é im- 
portantíssimo, pois contem um grande numero de documentos 
preciosos e inéditos. 

O credito permanente annual de que acima trato livrar-me- 
hia de uma cousa que me repugna, a ponto tal, que não tenho 
expressões para bem pintal-a a V. Ex..% isto é, de estar a falar 
e a pedir fundos de tempos a tempos. 

Destas difficuldades sou eu o culpado por me não ter apro- 
veitado do inimitável zelo, e generoza illustração de V. Ex.^ 
durante o seu Ministério conforme os seus obrigantissimos offe- 
recimentos, e a latitude que me deu; mas agora julguei não 
dever guardar o silencio sobre este assumpto, muito mais para 
com V. Ex.» e só para V. Ex.» que se interessa tão viva, e effi- 
cazmente em uma obra toda sua, á vista da noticia que tenho 
de bôa fonte, de que o nosso Gov.*' acaba de mandar um credito 



286 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



de 40.5000 fraucos ao P.*^ Tavares (1) a titulo de auxilio para a Pen- 
são de Fontenay-aux- Roses (2). Eu sou o primeiro a approvar não 
s(3 este estabelecimento, e os esforços qun tem feito o seu hábil 
director, bem como este generoso procedimento do Governo; 
mas não posso deixar de observar confidencialmente a V. Ex.^ 
que este estabelecimento é uma fundação inteiram.'^ particular, 
fundada por particulares, na qual o maior interessado é um dos 
homens mais ricos da nossa terra, o Freire ; estabelecimento que 
não é um Collegio do Governo estabelecido em França e debaixo 
das direcções da Universid.*^ de Paris para aqui aprenderem só 
alumaos Portuguezes os methodos e as sciencias que se ensinão 
aqui ou cujo ensino está aqui mais aperfeiçoado. Não é, pois, 
uma fundação da natureza das que algumas nações fundarão em 
Paris nos séculos xiii e xiv; é, torno a dizer, um estabelecimento 
puramente particular, e no qual não só Portuguezes que são edu- 
cados, mas onde pelo contrario, o maior numero se compõem de 
Brazileiros, e de alguns outros estrangeiros. 

Se o generoso auxilio dos 40$ francos se applicar para a 
amortisação da divida de mais de 70$ fr. da dita pensão, ou col- 
legio, servirá para embolsar um homem rico de parte dos seus 
avanços, e nem por isso, nos annos subsequentes, deixará de 
estar ameaçado aquelle estabelecimento em um período mais ou 
menos remoto de se fechar como aconteceo ao Collegio Morin 
que o precedeo na mesma localidade, apesar de ser conhecido 
em toda a França, e ter tido mais de 400 alumnos, o que não 
acontece a este. 

Se eu me não illudo as publicações de que estou encarre- 
gado, uma das quaes consiste em reivindicar a gloria da Nação, 
e a integridade de seu território, negocio que se não pode re- 



íl) José da Silva Tavares, agostiniano, escriptor illustre. Theologo professor. 
Absolutista. Após a queda do governo de D. Miguel emigrou e secularisou-se 
por um breve de Roma em 1835. Dedicou-se ao ensino no collegio do principe 
de Chimay em Menards e em 1838 estabeleceu o de Fontenay aux Roses. 

(2) Era o collegio do padre T? vares fundado em 1838 e que acabou, indo o 
seu dono viver para Inglaterra depois de se ter celebrisado no ensino. Morreu 
aos 70 annos e assistiu ao seu funeral o cardeal Wiseman. 



VISCONDE DE SANTARÉM 287 



putar terminado diplomaticam.*^ senão quando este Gov.*^ man- 
dar evacuar o território da Casamansa, e a outra que além do 
immenso interesse histórico, consiste nos titulos, e documentos 
dos seus direitos como Nação entre a Familia Europea, são supe- 
riores na sua importância official, Europea, e nacional, á de um 
estabelecimento puramente particular, existente em um paiz 
estrangeiro, apezar da sua muita utilidade, mas cuja permanên- 
cia, e duração, não é da natureza daquelles que os tempos, os 
séculos, e as vicissitudes sociaes respeitão eternamente, como 
acontece com os grandes monumentos que as nações levantão 
hoje por meio da imprensa, e da publicidade. 

Se como julgo, o Governo obtém destas cortes um voto de 
confiança, não posso vêr difficuldade que possa oppor-se a que 
se me dê um credito annual permanente dos 6 contos que V. Ex.^ 
já tinha introduzido na lei dos meios, tirando-se dos 18 contos 
para despezas eventuaes de que trata o Biidget dos Negócios 
Estrang.**^ ultimamente votado já na generalidade, tanto mais que 
esta somma foi já alli introduzida por V. Ex.^. 

As novas resoluções de S. Mag.''^ e do Gov.° relativas á pu- 
blicação do Quadro Elementar, e das outras obras, conforme me 
foi communicado officialm.*^ depois da minha nomeação de 
Guarda Mór, sanccionão a minha commissão, e estas publicações, 
espero pois tudo da sabia e efficaz intervenção de V. Ex.a neste 
negocio, pois tudo é obra sua, pedindo-lhe haja de fazer tudo 
quanto poder para regular este negocio pelos dous Ministérios 
dos Negócios Estrang.°* e da Fazenda, a fim de que eu não 
tenha, pelo que respeita á publicação das cartas, e principal- 
mente do Quadro Elementar que importunar a V. Ex.^ tantas 
vezes com este assumpto. 

Renovo as expressões de alta estima e fiel amizade com que 
tenho a honra, e a fortuna de ser 

De V. Ex.a 
Am.o f. m.^° obrig."^" cr. 

Visconde de Santarém. 



288 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



Carta do Visconde de Santarém para Joaquim José da Costa 
de Macedo 

111."'° e Ex.'"" Snt. 

Tenho a honra de rcmetter a V. Ex.'* os dous primeiros tomos 
do meu Quadro Elementar das Relações Politicas e Diplomáticas 
de Portugal com as diversas Potencias do Mundo desde o prin- 
cipio da Monarchia até aos nossos dias, rogando a V. S.a queira 
ter a bondade de os offerecer da minha parte á nossa Acade- 
mia. 

Receberei a maior satisfação se esta obra merecer a appro- 
vação da mesma Academia. 

D.s G.« a V. S." Paris 10 d'Outubro de 1842. 

III.'"'' e Ex.»"» Snr. Joaquim José da Costa de Macedo, Secre- 
tario Perpetuo da Academia Real das Sciencias. 

Visconde de Santarém. 



Carta do Visconde de Santarém para Rodrigo da Fonseca 
Magalíiàes 

III.""' e Ex.""' Sr. 

Tendo dado successivamente conta a V. Ex.» da impressão 
que neste paiz tem produzido a publicação do nosso Atlas, e do 
texto Francez passo agora a instruir V. Ex.^ da sensação que 
estes trabalhos devidos inteiramente a V. Ex.% tem produzido já 
em Allemanha pais o mais sábio, e erudito do Mundo. Nesta 
parte da Europa a opinião scientifica é dirigida por uns poucos 
de homens eminentes. A' testa desta se acha em primeiro logar 
o «elebre Barão de Humboldt, o sábio mais encyclopedico dos 
nossos dias, e ao mesmo tempo um dos homens políticos que 
gosa hoje de maior influencia em Prússia. 

Sob o n.^ 1.0 encontrará V. Ex.^ a copia de uma carta que 



VISCONDE DE SANTARÉM 289 



elle acaba de me escrever. Entre as coisas notáveis que ella 
encerra, uma era meu entender preciosa, e que eu confio a 
V. Ex.* confidencialmente, é que tendo-se elle formalmente ne- 
gado a dar a sua opinião acerca da disputa que existe entre o 
Governo do Brazil, e a França sobre os limites do Guyana. ape- 
zar das instancias tão directas como indirectas que para isso 
faz o Ministro Brazileiro nesta corte, em a nossa questão, Mr. de 
Humboldt pelo contrario se exprime pela maneira mais positiva 
sobre o ponto disputado da supposta prioridade dos Dieppeses. 

Sob o n.° 2.'^ tenho igualmente a honra de enviar a V. Ex.a a 
copia de uma carta de Líidde um dos mais sábios geographos 
Allemães, e que gosa de uma grande autorid.*". Por ella V. Ex.^ 
verá a opinião que elle forma da nossa publicação, e que em 
breve se publicará em Saxe não só uma noticia analytica cir- 
cumstanciada das ditas obras, mas ate uma traducção Allemãa. 

A mesma impressão fez este trabalho em Gottinga, segundo 
me escreveo o Professor Wappaiis em data de 3 do corrente. 

Do mesmo modo em Francfort donde me escreve Engelman, 
secretario da sociedade geographica Allemãa, dizendo-me em 
data de 6 do corrente que fora encarregado o Dr. Kriegk de fa- 
zer um relatório da minha obra para se publicar. 

A' vista deste triumpho que obteve a nossa justiça e os nos- 
sos direitos, graças ao illustrado Ministério de V. Ex.^ que pode 
ter a gloria de haver conduzido este negocio com uma prespicacia 
e tacto admiráveis, será para sentir que o Atlas se não complete ! 

Seja-me licito dizer que será mesmo um desar que em um 
tal monumento se não encontrem pelo menos dous dos mais 
famosos documedtos geographicos da Idade Media, a saber o 
Mappamundi de Fra Mauro mandado fazer por El-Rei D. Af- 
fonso V.° em Veneza e de que existe um fac-simile no Museo 
Britânico, do qual será tirada copia logo que para isso tenha 
meios, bem como da carta de Hereford do século XVI. ° se lhe 
não acudir-mos, Jomard os publicará á custa deste Governo, bem 
como as preciosas Cartas Portuguezas feitas pelos nossos sábios 
Cosmographos dos quaes tristemente só nos restão em Portugal 
2 Atlas conhecidos ! 

Esta pubhcação e a do Quadro Elementar são por certo mais 

VOL. VI 19 



290 COÍÍRRSPONDENCIA SCIENTIFÍCA E LITTERAKIA 



importantes para a gloria da Nação, e do Reinado da Rainha, do 
que seria a publicação de uma obra, ou das obras de um 
dos seus gloriosos antecessores, como por exemplo, se se publi- 
cassem as obras completas d'íllRei D. Duarte ; pois estas nossas 
publicações são a obra inteira, e completa de todos os soberanos 
que ^ntre nós imperarão nos tempos mais gloriosos do nosso 
poder, e são a obra de milhares de Portuguezes. Faço esta refle- 
xão pelo argumento em favor destas grandes publicações de que 
estou encarregado, e que se pôde tirar do que se está praticando 
em Prússia com a publicação das obras completas de Frederico II. 

No Journal des Dehats de antes de hontem, 29 deste mez, se 
diz o seguinte, tirado da Gazeta de Berlim. 

«L'execution materielle de cette édition des oeuvres de Fre- 
«deric 11 offrira un luxe et une elegance sans exemple en Alle- 
«magne. Les planches dont plusiers ont été commandées aux 
«artistes les plus éminents de France et d'Augletcrre coiiteront 
«à elles seules plus de 80:000 thalers, ou 300:000 francs». 

Tal é a despeza que se faz só com as obras de um só autor 
que honra a Dynastia Prussiana actual, as quaes já pela maior 
parte se achavão publicadas, em quanto os monumentos das 
nossas relações exteriores, e os titulos da nossa gloria, e dos nos- 
sos direitos estão quasi todos inéditos, e espalhados, e dispersos 
mesmo em paizes estrangeiros. 

Não posso conformar-me com a recusa que V. Ex.'"* fez de 
entrar no Ministério apezar das instancias de nossos Amos, con- 
forme V. Ex.a teve a bondade de me communicar confidencial- 
mente. Consola-me todavia a esperança, e um certo presentimento, 
que tenho de que este acontecimento não está muito distante. 

O novo Ministro ainda me não fez a honra de me escrever. 
Espera tudo da inimitável efficacia de V. Ex.^ e da sua leal e, 
incomparável amisade para comigo. 

Receba V. Ex.« a continuação dos protestos de imperturbá- 
vel estima, e gratidão com que sou 

De V. Ex.« 
Am.° f. e obrg.'"^ cr. 

Paris, 31 d'Outubro de 1842. 

Visconde de Santarém 



VISCONDE DE SANTARÉM 291 



Copia da Carta de Mr. de Hamboldt 

Monsieur le VJ^ 

Je suis touché de la bienveillance affectueuse avec laquelle 
vous daignez, cher et illustre confrére, me faire participer de vos 
richesses. 

Ce sont de magnifiques cadeaux qui ne seront pas seulement 
pour moi des objets d'admiration, mais qui serviront á rectifier, 
dans le dernier volume de mon examen critique, des assertions 
sur les Cotes d' Afrique qui manquant de documents je puis avoir 
írop legérement, ou plutôt trop positivement mises eu avant. ' 
Vous avez placez bien haut votre nôm par la publication de vos 
Recherches. Cest refaire Thistoire des découvertes Africaines, et 
jetter une lumiére inuattandue sur des points les plus importants 
de la Géographie. Je lirai biea souvent votre belle introduction : 
je me fais facilment arracher les Dieppois que je n'ai jamais 
tenu au Coeur, j'ai plus de douleur de me séparer de Mr. Fer- 
rer. Vous êtes un maítre au quel on soumet avec une philoso- 
phique résignation. 

Le Tableau des Relations politiques et diplomatiques du Por- 
tugal est une de ces vastes entreprises qui honorent notre siècle. 

II est beau de quitter les affaires et de se venger par des 
monuments eleves à la gloire de la Patrie. 

Agréez mon illustre ami et confrére, Thommage de ma res- 
pectuense reconnaissance. 

Le 22 Octobre 1042. Signè (Alex. de Hnmboldt.) 

Copia da carta Ludde de (Joh Gottfr) 

Monsieur Le Vicomte 

Je n'ai pas eu de réponse à la lettre que j'ai prié Mr. Ter- 
naux (J) Compans de vous reniettre, cependant votre obligeante 



(1) Temaux, historiador francez que escreveu £r Historia do Terror, e dos 
«ontra-revoluciônarios. Era sobrinho do grande industrial do mesmo nome 
Morreu^m 1871. 



292, CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



lettre que vous avez envoyez á Gottingue à mon savant ami le 
Professeur Wappaiis qui lui à cause une satisfaction extraordi- 
naire me fait ésperér que vous receverez avec bonté les lignes 
que vous adresse. 

Le but de celle-ci en est, de vous prier que vous veuillez 
bien m'accorder votre collaboratiou pour le journal de la Geogra- 
phie comparée, et aussi vous demander s'il vous serait agreable 
que j'entreprise une traduction Allemaude de vos Recherches 
si distinguées et si profondes, et d'en faire une édition avec 
votre agreinent, de maniére que vous m'eu chargiez vous même 
par une lettre et que vous y ajoutiez peut-ètre quelques nouvel- 
les additious comme Idler en à fait avec Mr. de Humboldt pour 
son Examen Critique. 

Dans le Journal de la Géographie comparée je donnerai 
incessament une notice explicite sur vos incomparables Recher- 
ches, ainsi que sur les investigalions de Mr. Wappaiis. 

Malheureusemeut la Chrouique d'Azurara est três peu impor- 
tante n'etant pour la plupart qu'un extrait de Barros. (1) 

Vous me ferais un plaisir infini, si vous cedez à mes priéres 
et à mes propositions avec cet intérèt pour la science à laquelle 
vous vous étes dévoué de toute votre âme. 

Agréez les assurances de mon estime la plus distinguée. 

Magdeburg 13 Septembre 1842. — (Sigué) Ludde (Joh. Gottfr). 



Carta para o Conde da Ponte 
(Com outra lettra) Resp. em 20 de Novembro 

Meu q.«^° Sob.'' e Am.° do C. 
Paris, 28 de outubro de 1842. 

Acabo de receber a sua excellente carta de 6 do corrente 
escripta da Quinta da Charneca, ou do Alto da tal Charneca. 



(1) Este sábio engauou-se neste ponto. Foi Barros que se aproveitou dos 
extractos de Azurara, como \^ Ex.a sabe. — {Nota. do visconde de Santarém), 



VISCONDE DE SANTARÉM 293 

Agradeço a boa nota que me enviou das negociações de F. Dou- 
rado, da qual me servirei em seu devido logar. 

O 3.*^ volume do Quadro Elementar está quasi prompto. Es- 
pero remette-lo p.a ahi nos fins de Dbr.° e então enviarei ao C. 
de V.^ Real os 3 que lhe são destinados. Estimo muito que tivesse 
obtido do D. da Terceira um exemplar do meu Atlas, mas desejo 
«aber se é dos que tem algumas cartas coloridas, ou se todos os 
monumentos são em preto? 

As cartas mais ricas, caligraphicam.''' falando, são as que ulti- 
mamente mandei illuminar, e das quaes ainda não ha exemplar 
algum em Lisboa. 

Esta publicação tem feito muita bulha aqui, e em Allemanha 
e Inglaterra. O meu Am.*^ Humboldt escreveo-me a carta de que 
lhe remetto confidencialm.^« a copia, pois não desejo fazer alarde 
d'estas cousas. A approvação do homem mais Sábio da Europa» 
e do mais competente é para mim de grande valor. 

Recebi dos professores da Universid.^ de Gottinga os mesmos 
elogios, e dos sábios inglezes da Sociedade Real de Geographia, 
bem como de Engelman (1), e Kriegk da Sociedade de Francfort. 
Em Portugal tenho como sabe sido muito obsequiosamente tratado. 
A Sociedade Marítima e Colonial de Lisboa, nomeou-me Membro 
Honorário p."" acclamação, e mandou-me o diploma acompanhado 
de uma carta muito lisonjeira, e da collecção, inquestionavel- 
mente interessante das suas publicações. 

Quanto á Revista Universal em que me fala, ainda não vi 
nada deste jornal. Castilho, que é o redactor em chefe, escreveo- 
me á tempos pedindo-me a m.'^ coloboração, e prevenindo-me de 
que me ia mandar a collecção dos n.«>'* que tinhão aparecido. 
Mas até agora nada recebi. Talvez estejão encalhados na Lega- 
ção de Londres. Estou pois com m.'^ curiosidade de vêr o artigo 
em que me fala, no qual elles anunciarão a m.^ colaboração- 
Pesso-lhe que mo mande pela primeira occasião. 

Deixou-me também em grande curiosidade por me não dizer 



(1) Guillaume Engelman, Sábio allemão. Doutor pela Universidade de lena. 
Morreu em 1878. 



294 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIMCA E LITTERARIA 

quem era o meu amigo que se occupava de publicar na mesma 
Revista um artigo sobre o Quadro Elementar. Rogo-liie igual- 
mente que me resolva este enigma pelo primeiro correio depois 
de receber esta. 



Eu comecei este inverno por um allaque de rheumatismo em 
uma espádua que me tem dado que fazer. 

Dê-me sempre noticias suas, e da Snr." Condessa, e acredite 
que sou deveras seu 

Tio e Am.^' f. e obrg.*^° 

Manoel 

P. S 



2° P. S. — O Conde pode communicar ao Lavradio a carta 
de Humboldt se assim o julgar a propósito. Elle ainda me não 
accusou a recepção do 2^ V^olume do Quadro Elementar. Desejo 
saber se elle o recebeo da Secretaria. 



' Para o Ministro dos Negócios Estrangeiros 

Paris 21 de Novembro de 1842. 

///.'"'' e Ex.""' Snr. 

Tive a honra de receber pelo ultimo Paquete o despacho que 
V. Ex.3 se sérvio dirigir-me e que acompanhava os summarios 
da Correspondência do Principal Saldanha, Embaixador de I?or- 
tugal nesta Corte no anno de 1756. Rogo a V. Ex.''^ queira ter 
a bondade de receber os meus agradecimentos pela remessa 
destes documentos. 

Espero que V. Ex.^ terá já recebido doze exemplares do 1.° 
e 2.« volumes do Quadro Elementar das Relações Pohticas e Di- 
plomáticas de Portugal que tive a honra de remetter e de que 
tratei no meu officio n.*^ 8 de 12 Setembro ultimo dirigido ao 



VISCONDE DE SANTARÉM 295 

Snr. Duque da Terceira então encarregado da Repartição dos 
Negócios Estrangeiros. 

ni.'"'^ Snr José Joaquim Gomes de Castro (1). 



Para o Ministro dos Negócios Estrangeiros 
Paris 5 de Dezembro de 1842. 

///.""' e Ex.'"" Snr. 

Pelo ultimo Paquete tive a lionra de receber o despacho que 
V. Ex.a se sérvio dirigir-me em data de 21 de Novembro pas- 
sado, participando-me qúe na conformidade do que V. Ex.'' ha- 
via pedido ao Senhor Ministro da Fazenda se expedio ordem á 
Agencia Financia! de Londres, para aceitar e pagar em seu 
devido tempo as lettras que eu sacar sobre ella pela importância 
de £ 75 para occorrer ás despezas da Commissão de que me 
acho encarregado pelo Governo de S. M.''. 

Queira V. Ex.* ter a bondade de aceitar os meus agradeci" 
mentos por ter por este meio faciHtado a continuação e o pro- 
gresso dos trabalhos de que me acho encarregado. 

Deus Guarde, etc. 

Para o Ministro dos Negócios Estraugeiros 

Paris 5 de Dezembro de 1842. . 

7//.™° e £'.t.'"o Sr. 

Necessitando para illustração de alguns pontos dos trabalhos 
de que estou encarregado pelo Governo de S. M.*' de obter copia 



il) José Joaquim Gomes de Castro, Conde de Castro, filho dum commer- 
ciante, emigrou quando do governo de D. Miguel, depois foi deputado e minis- 
tro dos estrangeiros. Vice-presidente da Camará dos Pares. Morreu em 1878. 



206 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

da Correspondência inédita do Marquez de Cascaes (1) Embai- 
xador em França para o Conde Almirante que começa no officio, 
datado da Rochella de 6 de Março de 1644, e acaba em 1645, e 
bem assim a de António Moniz de Carvalho, Residente em F>ança 
em 1646, que se achão na Collecção dos Manuscriptos da Biblio- 
ttieca Publica de Lisboa, Estante J. 2. 5 Códice — Tomo 16 de 
foi. 122 a 186, rogo a V. Ex/^ queira ter a bondade, se nisso não 
achar inconveniente, de dar as providencias que lhe parecerem 
opportunas afim de que se possa obter os ditos documentos. 
IH.'"» Snr. José Joaquim Gomes de Castro. 



Para o Ministro dos Negócios Estrangeiros 

(particular) • 

Paris 5 de Dezembro de 1842. 

III.'"' e Ex.""" Sr. 

A natural repugnância que eu tenho em tomar o tempo aos 
homens d'Estado que se achão occupados como V. Ex.^ em 
assumptos da maioi; gravidade tem sido a causa de não ter ha 
muito escripto a V. Ex.'' particularmente, como devia e desejava. 
Agora porém é um dever de gratidão me faz romper o meu 
involuntário silencio a fim de agradecer mui cordialmente a 
V. Ex.' a parte que tomou como verdadeiro Patriota e amigo 
sincero da gloria da nossa Pátria na importantíssima publicação 
dos documentos e obras que lhe levantão um monumento eáta- 
vel e digno da grande civilisação da época em que vivemos. 

As nações buscam n'este momento e á porfia sobrepuga- 
rem-se publicando os documentos históricas da sua gloria e 
da sua illustração. Sem tratar dos incriveis trabalhos e pu- 
blicações feitas, e que diariamente fazem os Governos de Ingla- 



íl) D. Álvaro Pires de Castro, conde de Monsanto, mais tarde marquez 
de Cascaes; embaixador de D. João IV' em França onde foi dar os pêsames á 
viuva de Luiz XIII, em 1643. 



VISCONDE DE SANTAREA1 297 



terra e de França, direi que o governo da Suécia, a Sardenha e até 
o pequeno reino do Hanover estão publicando os seus monumentos. 
Portugal por dignidade nacional e mesmo por interesse politico não 
podia, nem devia permanecer em silencio, e isolado da marcha ge- 
ral das ideias da Europa graças ao zelo e pasmosa intelligencia 
do meu incomparável amigo e Senhor Rodrigo da Fonseca Maga- 
lhães; este grande impulso foi dado durante o seu Ministério, e 
a impressão produzida pelas publicações ultimamente feitas é 
universal e immensa em toda a Europa. As nações illustravam- 
se na idade media pelas batalhas e pela força, hoje só se illus- 
trão pelas sciencias, pela publicidade monumental e pelos pro- 
ductos da intelligencia que são as bases e os fundamentos da 
sua reputação, da estabilidade das suas instituições e do Credito 
europeo dos soberanos que nelles imperão e dos homens d'Es- 
tado que as dirigem. Xaes publicações concorrem, mesmo politi- 
camente fallando, a infiltrar no espirito nacional as ideias de 
grandeza e de gloria, a desarmar com o tempo os partidos extre- 
mos nos seus planos d'anarquia e de transtorno, encontrando 
um invencível obstáculo na firmeza e na moderação dos homens 
influentes apoiados sobre a verdadeira Civilisação que resulta 
da propagação das doutrinas de grandeza, e dos altos feitos que 
se achão consignados nos documentos que attestão a gloria que 
as nações obtiveram nos tempos illustrados e tranquillos. 

V. Ex.a, que pertence aos, homens illustrados do século 19, 
que ama o seu paiz e que está collocado no lugar iminente a 
que o seu merecimento o elevou não podia deixar de se inte- 
ressar por semelhantes trabalhos. Um d'elles sérvio já para dei- 
tar por terra a usurpação de gloria e de território que se fun- 
dava em um supposto direito de prioridade, mas que passava 
entre os Francezes por uma verdade histórica de 200 annos e 
que ultimamente converterão em direito para occuparem uma 
parte dos domínios da Coroa de Portugal, sérvio ao mesmo tempo 
de levantar um monumento á sciencia que em toda a Europa 
hoje se appláude e admira com immenso credito do nosso Go- 
verno que protege tal publicação. O outro trabalho não é menos 
importante para a Nação e para a gloria e credito do Governo 
que o promove, pois elle encerra todos os títulos dos nossos 



298 COKHESHONDfcNCIA SCihNTlFlCA E LiTTERARlA 



direitos, como nação iiidepemleute, todos os actos, arestos e pre- 
cedentes das obrigações das outras nações para comnosco. 

Nesta grande tarefa de publicação destes trabalhos apezar 
das fadigas e despezas que me tem custado ha mais de 30 annos 
eu não sou senão um simples instrumento, o Governo e os ho* 
inens d'Estado que promovem a sua publicação são os verda- 
deiros auctores. 

Continue pois V. Ex.i a proteger o andamento destas grandes 
publicações e V, Ex.^ terá de certo a gratidão da Pátria e da Europa. 

Aproveito anciosamente esta occasião para protestar a V. Ex a 
os sentimentos da alta estima com que tenho a honra de ser. 

Visconde de Santarém 

Caria do Visconde de Santarém para Rodrigo da Fonseca 
Aí ajo aí /lã es 

Paris 5 de Dezembro de 1842 

III.""' e Ex.'"" Snr. 

Recebi ultimamente a estimadíssima carta com que V. Ex." 
me honrou em data de 14 do pp. V- Ex.^ é na verdade um homem 
incomparável ! dotado de uma incrível actividade nos negócios e 
ao mesmo tempo o mais fiel e o mais efficaz amigo que existe ! 

Não conheci até agora pessoa alguma que reunisse em tal 
gráo estas preocisissimas qualidades. 

Graças pois a V. Ex.«, o S'. Ministro dos N. Estrang.°« escre- 
veo-me um Desp.° em data de 21 do p. e-que recebi antes de 
houtem no qual me participa que naquella data se tinhão expe- 
dido pelo Ministério da Fazenda as ordens á Agencia Financial 
em Londres para se me darem os 3 contos de réis para occorrer 
ás despezas da commissão de que estou encarregado pelo Governo 
de S. Mag.*^^. Continuarão pois sem interrupção estas importan- 
tíssimas publicações, e irei mandando successivaraente os exem- 
plares á medida que se publicarem. 

Muito agradeço tão bem a V. Ex.^ a sua óptima lembrança 
pelo que respeita ás despezas de transportes, copistas e outras, 
pois estas absorverão tãobem parte dos subsídios que recebi. 
Não posso deixar de ter copistas, e desde que comecei a publi- 
cação do Quadro Elementar tenho tido constantemente dous a 



VISCONDE DE SANTARÉM 299 



quem pago para copiarem muitos documentos, e fazerem outros 
trabalhos indispensáveis. Sobre este assumpto terei a honra de 
escrever a V. Ex.^ mais explicitamente pelo próximo correio, 
bem como lhe enviarei um esclarecimento bem circumstanciado 
sobre a publicação do grande corpo dos nossos Documentos 
Diplomáticos para V. Ex.a promover em cortes esta publicação. 

Em quanto á gratificação que me é concedida, e acerca da 
qual V. Ex.3 com a sua generosidade costumada, exige de mim 
que lhe diga confidencialmente o que me parece, e o que a este 
respeito desejo. 

Confeço a V. Ex.a apezar da repugnância que nisso tenho, e 
só entre nós, que por agora sendo pagas á parte as outras des- 
pezas, poderei ir passando, mas que na carestia deste paiz, e 
nas despezas forçadas que ha a fazer na minha posição aqui, 
onde toda a gente mais notável me conhece, e frequenta a minha 
casa desde os Embaixadores e Ministres até aos homens de 
lettras que se achão collocados em todas as differentes cathego- 
rias, a dita somma, digo gratificação não é sufficiente. 

Mas V. Ex.' conhece melhor do que ninguém como, e quando 
este negocio se deverá tratar, e segundo a certeza que V. Ex.a 
me dá desde já dou o negocio por feito no futuro. Por agora 
seguirei o seu conselho, como sempre seguirei todos os que me der. 

Quanto a mandar-me o Governo entregar toda a edição, 
reservando um certo numero d'exemplares, sobre o que V. Ex.^ 
rae faz tãobem a mercê de me perguntar a minha opinião, direi 
que em caso algum o Governo seria menos generoso do que a 
nossa Academia, que pelo Art.^ 77 do Cap. xii dos excellentes 
estatutos de 15 de Abril de 1840, referendados por V. Ex.a se 
efetabelece que «qualquer sócio que offerecer hum exemplar 
«(digo) uma obra á Academia, e que a Academia imprimir por 
«sua conta, tem o direito a metade dos exemplares que se impri- 
«mirem.» Assim pois, se a Academia arbitra indistinctamente a 
todos os Auctores, e a todas as obras esta grande concessão, as 
que tenha feito com o trabalho, e estudo de tantos annos, e com 
as quaes tenho dispendido tanto da minha fazenda para com 
ellas dotar o meu paiz, parece-me que é digno de um governo 
justo e generoso fazer uma concessão mais ampla, como se pra- 



300 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



tica neste paiz onde as obras impressas á custa do Governo, e 
por ordem dos Ministérios, a edição inteira é concedida aos 
autores, reservando o Governo para si um certo numero de 
exemplares. 

Por este Paquete escrevo uma longa carta particular ao S/ 
Castro, inteiramente ao sentido que V. Ex.'* teve a bondade de 
me indicar. 

É natural que elle a communique a V. Ex.'^ 

Mandei já para a Legação um exemplar colorido do Atlas 
para V. Ex." offerecer ao Ministro de Inglaterra e vai acompa- 
nhado de mais dous exemplares do texto fraucez sendo um 
encadernado, não tendo havido tempo de se encadernar o outro 
em consequência do avizo que me fez a Legação da próxima par- 
tida do navio que deve seguir viagem do Havre para essa capital. 

O Atlas vai em uma caixa de folha com o sobrescripto diri- 
gido a V. Ex.' Juntei dentro do Atlas entre o titulo e a adver- 
tência, outros monumentos gravados ultimamente, e que são 
para V. Ex.a augmentar a sua coUecção. Antes pois de mandar 
entregar o Atlas ao Ministro Inglez queira V. ter a bondade de 
as separar. Ainda não tenho numero sufficiente da bella Carta 
de Testu para poder mandar outro exemplar. 

Por uma carta que ultimamente recebi de Silvestre Pinheiro 
me consta que nas duas vezes em que teve a honra de vêr 
El-Rei, S. M. em ambas lhe perguntara por mim, e se servira a 
meu respeito das mais benignas expressões. Em tudo isto des- 
cubro as obras de V. Ex.\ Queira V. Ex.'' pois quando vir 
O Mesmo Augusto Senhor expressar-lhe quanto fiquei penho- 
rado pela honra de se digna fazer-me. 

Renovo as expressões de invariável gratidão e alta estima 
com que tenho a honra de ser 

De V. Ex.a 
Am.° fiel e Obrg.'"° creado 

Visconde de Santarém 

P. S. Rogo a V. Ex.^ queira ter a bondade quando vir o nosso 
Am.^ Duque da Terceira de lhe dar recomendações e lembranças 
minhas. 



VISCONDE DE SANTARÉM 



301 



Do Visconde de Santarém para o Conde da Ponte 
Paris, 8 de Dezembro de 1842. 

Meu q.^° Sob.^ e Am.« do C. 

Pelo ultimo Paquete tive o gosto de receber a sua estimável 
carta de 20 do passado. 

Quanto a Humboldt elle fez mais do que escrever-me a carta 
de que lhe remetti copia. Escreveo para Allemanha a Wapãus e 
outros sábios sobre os meus trabalhos, e hoje na sessão da Aca- 
demia Franceza por occasião da recepção de M.' Pasquier (1) 
disse tudo quanto ha de mais lisonjeiro, e obrigante. 

Sinto que não tenha as cartas coloridas. Mas ao menos diga- 
me se as vio; pois são magnificas. Eu mandei 25 exemplares ao 

Governo. 

Eu conto escrever para a Revista Universal, mas o Castilho 
prometteu-me a collecção, e ainda a não recebi. Necessito vêr o 
s;ystema, e distribuição das matérias, a extensão dos artigos 
scientificos para poder tirar da cartonnière a immensidade de 
cousas que tenho. 

A ;proposito de Silvestre Pinheiro, recebi ultimamente uma 
carta d'elle muito importante, e para mim mui honrosa pelo que 
elle me couta do que lhe tinhão dito a meu respeito certas Per- 
sonagens. 

Quanto ao am.^ que se occupava de escrever um artigo sobre 
os meus 2.«^ primeiros volumes do Quadro Elementar, já sei quem 
é, pois recebi ultimamente uma longa carta delle, isto é do 
Conde do Lavradio. Desgraçadam.*^ porem me diz na mesrna que 
tendo tido de se ausentar de Lisboa, havia escripto ao Castilho 
para encarregar outra pessoa de o escrever. 

Sinto deveras este contratempo, por m.*°' motivos, que me 
não é possível escrever por agora. 



(1) Pasquier. — Etienne Louis Pasquier, presidente da Camará dos Pare.*. 
e auctor de memorias admiráveis. Morreu em 1862. 



302 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



O 3.<* volume do Quadro Elementar é preciosíssimo. Está todo 
impresso. Espero que ahi apparecerá nos primeiros dias do mez 
que vem. 

Tenho visto a linda Mad.""^ Paul de Laroche, mas não tenho 
encontrado o marido para lhe fallar no quadro delle que possue 
o Min.o da Rússia. 

Quanto aos primeiros originaes do nosso Vasco — os únicos 
que tem uma genealogia feita são as duas portinholas dos armá- 
rios da Sacristia do Convento das Freiras da Madre Deus, e que 
representam o casamento de D. João 3."^, segundo me recordo; 
e a grande collecção que perteuceo á casa dos Marquezes de 
Valença (1), e que o Conde de Vimiozo empenhou á cas í de 
Mello da Calçada de Combro, de cuja casa foi herdeira a l.a mu- 
lher do Conde da Figueira, e que herdou pela morte delia. 

Estavão pois estes painéis íia casa de S.**^ André, onde eu os 
vi muitas vezes antes da minha sahida do Rein». 

Sobre este grande pintor, e as suas obras ha muitos deta- 
lhes na obra de Taborda — Historia ou Memorias sobre os pinto- 
res Portuguezes. - 

Podia dar-lhe mais algumas noticias, mas não tenho tempo. 

Espero anciosamente o cumprimento da sua promessa rela- 
tiva aos Mss. do S."" Marquez de Saúde. 

Aqui vou empurrando o Inverno. Temos estado envelopes em 
um nevoeiro tão especo que se tem allumiado ao meio dia as 
Passagens, e os omnibus tem accendido as lanternas. Eu não 
tenho tido mais catharros depois que o Barão d'Stassart (2), 
quando aqui esteve ultimamente com o Rei dos Belgas, me ensi- 
nou a receita de trazer sobre o peito uma pelle de gato da 



(1) Marquez de Valença. — Nobilíssima familia que tem honras de pa- 
rente da Casa Real como descendente de D. Affonso I, 2.o conde de Ourem, 
filho do duque de Bragança. A casa de Mello, é a de D. José de Mello Ho- 
mem, morgado de Figueira e pae de D. Maria José de Melto de Menezes e 
Silva, condessa da Figueira, que morreu em 1818. 

(2) Goswin José, Barão de Stassart, litterato e homem d'estado belga que 
depois de fazer em Paris o seu curso de direito foi auditor de Conselho. Legou 
uma grande collecção d'autographos á Academia Real. Morreu em 1854. 



VISCONDE DE SANTARÉM 303 

Rússia. Armei-me de gato, e estou uma maravilha. Espanquei 
tãobem o reumatismo com banhos de vapor aromáticos. Assim 
podesse eu espancar as saudades que tenho de um certo sobri- 
nho que talvez conhera em Lisboa. 

Quanto ao Ferrão (1), aqui me vêm vêr mt.as vezes. Estuda 
muito as hngoas orientaes, é um homem instruidoJ 

A sobrinha como já lhe disse fez-me a galantaria de me dar 
ura logar no seu magnifico camarote nos Italianos, onde vou 
graças a esta generosidade 2 vezes por semana. 

Queira ter a bondade de mandar entregar a inclusa ao Conde 
do Lavradio, e dar muitas recommendações minhas á S." Con- 
dessa, e a seu Pai que já me não escreve á muito, e acredite 
que sou como sempre 

Tio e Am.° f. e obrg.'i« 

M. V. Santarém 



Carta do Visconde de Santarém para Rodrigo da 'Fonseca 
Magalhães 

Paris, 10 de Dezembro de 1842. 

111."'° e Ex.'"" Snr. 

Na conformidade do que V. Ex.-^ se sérvio exigir de mim, pela 
sua ultima estimadíssima carta, eis aqui o plano que me propo- 
nho seguir na publicação importantíssima do Corpo Diplomático 
Portuguez, quando esta me for ordenada. 

l.*' Publicar os documentos na sua integra com o maior escrú- 
pulo, e na lingoa em que forão escriptos. 

Este methodo foi seguido já por alguns publicistas taes como 



(1) João de Carvalho da Silva Martens Ferrão, casado com D. Maria 
Rita, filha do conde da Ponte. 



304 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

Dumont (1), Martens (2) e outros, e tem alem do interesse diplo- 
mático, uma grande utilidade philologica, principalmente para a 
historia da formação da nossa lingoa sobre a qual tão poucos 
documentos se tem publicado. 

2.° Publicar este corpo em 4.° por ser o formato mais seguido 
actualmente na Europa para este género de publicações. 

Os documentos que faço entrar no Corpo Diplomático consis- 
tem nos Tratados de Paz, de Alliança, de Neutralidade, de Com- 
mercio, de Limites, de Ajustes de Casamento, de Cessões de 
Território, Escambos, Doações Externas, Convenções, finalmente 
todos os Actos de Direito Publico Diplomático convencional e 
obrigatório entre Portugal e as Diversas Potencias do Mundo 
desde o principio da Monarchia até aos nossos dias: e tendo a 
experiência mostrado a grande superioridade da vasta collecção 
de Rymer a todas as outras mesmo á de Dumont e que se limi- 
tão só aos Actos obrigatórios, introduzo na minha publicação as 
instrucções dadas aos Embaixadores, e as correspondências dos 
Soberanos sobre os interesses graves dos respectivos Estados e 
que prepararão ou invalidarão os mesmos Actos, ou servirão de 
baze a transacções obrigatórias, e outras de importância politica. 

A publicação do Quadro Elementar, obra única, e que nenhu- 
ma nação possue deste género, permitte que eu haja de ligar 
por meio de notas os Documentos ás illustrações documentaes, 
e históricas que se encontrão no dito Quadro, de maneira que 
Portugal, virá por este modo a possuir a mais importante e curiosa 
obra que existe na Europa neste género. 

Além disto para dar a esta obra uma forma não só mais sys- 
íematica do que todas as que se tem publicado, mas tãobem mais 
commoda para ser consultada, conto publicar não como fizerão 



(1) Devo referir ao historiador João Dumont que abandonou a carreira 
militar pelíis leítras. Era francez mas foi fixar-se em Vienna, escrevendo con- 
tra Luiz XIV. O imperador deu-lhe o titulo de barão de Carlscron. Morreu 
em 1726. 

(2) Jorge Frederico Martens, diplomata allemão, professor da Universi- 
dade de Gottinga, conselheiro d'estado de Westhepalia. Morreu em 1821. 



VISCONDE DE SANTARÉM 305 



Dumont, Rymer (1), Rousset (2), Martens &^ os actos celebrados 
com as diversas Potencias, misturados, e confundidos, vendo-se 
ali, por exemplo, um tratado com Inglaterra misturado com outro 
feito com Turcos, seguindo-se outro com a Suécia &» mas antes 
pelo contrario, separal-os pela ordem das Potencias, seguindo na 
collocação delles a ordem chronologica. De maneira que princi- 
piarei esta nossa publicação pela mesma ordem do Quadro Ele- 
mentar; isto é, começando por todas as nossas transacções com 
a Hespanha, depois com a França, e assim successivamente. 

Por este meio se pode vêr em um instante no espaço de tan- 
tos séculos não só a serie das transacções com cada uma das 
Potencias, mas tãobem o homem do Estado e o Diplomático po- 
derá estudar o espirito e o systema dos Gabinetes, e dos gover- 
nos de cada uma daquellas Potencias em relação a Portugal, e 
na sua politica, e interesses nos grandes negócios em que a nossa 
Pátria foi chamada a tomar parte. 

Não é menos importante este systema para os estudos histó- 
ricos e philologicos que se podem fazer nesta vasta collecção 
encontrando nella os críticos e com m.'^ facilidade dispostas em 
uma só classe as modificações successivas, e alterações que se 
tem experimentado no decurço dos séculos. 

Por estes respeitos tenciono começar a publicação pelas tran- 
sacções com Hespanha, e publicadas estas formão já um corpo 
importantíssimo conjuntamente com os volumes do Quadro Ele- 
mentar correspondentes que lhes servem de illustração, e formão 
um Corpo separado, e ao m."^" tempo counexo com o todo da 
collecção. O mesmo observarei com as demais Potencias. 

As Demarcações territoriaes, os privilégios concedidos a es- 
trangeiros e seu commercio, e vice-versa, formão outras tantas 
collecções destinctas e separadas por volumes expressam.'*^ con- 
sagrados a este género de documentos, tendo todavia as remis- 



(1) Sábio historiador inglez que morreu em 1713. Fez uma grande colle- 
cção de Tratados Diplomáticos. 

(2) Camillo Miguel historiador Francez que fez a historia de Louvois e 
da conquista de Argélia. Morreu em 1892. 

VOL. VI 20 



306 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

soes aos volumes correspondentes das transacções diplomáticas 
e dos Actos obrigatórios. O mesmo conto observar pelo que res- 
peita aos documentos e arestos do ceremonial diplomático, dos 
estilos, e das franquias dos Agentes diplomáticos entre nós, e 
das que são concedidas aos nossos Agentes nas cortes estran- 
geiras. Cada volume terá além disso logo no principio um Índice 
chronologico remissivo dos Diplomas que contem a fim de se 
achar immediatamente o acto que se procura. 

Tal é em resumo o plano que me proponho seguir. Necessito, 
todavia, approvado que elle seja, que se me dê carta branca 
pelo que respeita a muitos detalhes práticos. 

Para provar a superioridade deste plano a todos os dos Pu- 
blicistas que me precederão, bastará comparal-o com as noticias 
que dou de pag. xxxvii a li da Introducção do 1"" volume do 
Quadro Elementar, acerca dos differentes corpos deste género 
que possuem as diversas nações. 

Portugal a quem falta até agora uma collecção deste género, 
terá a gloria de pubUcar o mais vasto, mais methodico e curioso 
corpo desta classe que até aqui tem visto a luz publica. 

Remetto-me pois para os togares citados na dita introducção 
do 1." volume, e aquelles exemplos comparados com o meu pla- 
no, e com estas noções preparadas e dispostas pelo saber e luzes 
de V. Ex.** não podem deixar de offerecer os melhores funda- 
mentos para a proposta que V. Ex.** conta fazer em Cortes. 

O 3.° volume do Quadro Elementar que é em meu entender 
preciosíssimo não só pelo desenvolvimento dos summarios mas 
tãobem pela importância dos documentos os quaes são pela 
maior parte inéditos, dá já uma idea clara da vastidão deste 
grande trabalho. 

Ainda não recebi avizo algum do Presidente da Commissao 
Financeira de Londres apezar de terem chegado já dous Paque- 
tes depois que S. Ex.^ o S.'' Ministro dos N. E. me participou em 
data de 21 de Nov.° ultimo que tendo na data de 17 pedido ao 
S."" Min.o da Fazenda a expedição das ordens para se me darem 
os 3 contos, naquella data de 21 se expedião á Agencia Finan- 
cial as convenientes ordens pelo Ministério da Fazenda. 

Rogo pois a V. Ex.^ queira ter a costumada bondade de saber 



VISCONDE DE SANTARÉM 307 

se por algum esquecimento no expediente da Secretaria da Fa- 
zenda deixarão de expedir as mencionadas ordens, cuja demora 
me faz grande transtorno. 

Renovo as expressões de alta estima e gratidão com que me 
preso ser 

De V. Ex.'-* 
Am.° f. e obrg.™' Cr. 

Msconde de Santarém 

P. S. — O Atlas e os 2 exemplares do texto Francez que 
V. Ex.* me pedio, partirão desta Capital para o Havre no dia 8. 



Do Visconde de Santarém para Rodrigo da Fonseca Maga- 
lhães 

Paris, 19 de Dezembro de 1842. 

Ill""' e Ex.'"" Snr. 

Tendo successi vãmente dado conta a V. Ex.^ do modo por- 
que se tem formado a opinião neste paiz relativamente aos nos- 
sos direitos sobre o descobrimento da Costa d' Africa e da posse 
dos territórios que nos são disputados, finalmente dos artigos 
que se tem publicado até agora a este respeito, depois que ap- 
pareceo a minha obra, terei agora a honra d'enviar a V. Ex.» a 
traducção de uma analyse da mesma obra, pubhcada em Londres 
nas Memorias da Royal Geographical Society. 

A opinião dos Sábios luglezes que compõem aquella douta 
Sociedade, é importante. A auctoridade do seu juizo é de muito 
pezo para o resto da Europa, e é muito satisfatório para Portugal. 

Se V. Ex.^ o julgar opportuno, parece -me que conviria talvez 
fazer publicar no Diário do Governo o dito artigo, afim de mos- 
trar a maneira com que os nossos direitos vão sendo reconheci- 
dos pela opinião, e juizo dos Corpos Scientificos em virtude des- 
tas publicações que tanta honra fazem ao illustrado Ministério 
de V. Ex.^ 



308 f CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

• Sendo V. Ex.'' o meu melhor amigo^ não hesito em lhe an- 
nunciar que o Barão de Stassart, Presidente do Senado Belga, e 
da Academia R. das Sciencias de Bruxellas, me escreve em data 
de 15 do corrente, participando-me que no dia antecedente a 
Academia me havia nomeado Membro, pela maneira mais honrosa. 

Eis aqui as expressões da Carta: 

«L'Academie vient de vous donner aujourd'hui une preuve 
«éclatant de reconnaissance en vous chcisissant pour Membre. 
«Vous savez que le nombre est três limite. Cest la classe des 
«Lettres qui á eu Thonneur de vous présenter sur ma proposi- 
«tion. II á suffi de vous nommer pour vous assurer tous les suf- 
«frages». &.'' 

Ainda não recebi de Londres communicação alguma da Agen- 
cia Financial apezar de terem chegado já 3 Paquetes depois da 
communicação explicita, e terminante que S. Ex.* o Sr. Ministro 
dos Negócios Estrangeiros me fez em data de 21 do p. de se 
haverem expedido as ordens pelo Ministério da Fazenda, e auto- 
risando-me a sacar sobre a dita Agencia. Estou decidido a es- 
crever ao Presidente afim de vêr se posso regular este negocio. 

Renovo as expressões de inalterável gratidão com que me 
preso ser 

De V. Ex.« 
Am.o f. e Ofog.»"" Cr. 

Visconde de Santarém 



De Mr. de Slane para o Visconde de Santarém 

Monsieur Le Vicomte 

Monsieur de SIam s'empresse de présenter ses compliments à 
Mr. le Vicomte de Santarém, et il a Thonneur de lui envoyer les 
passages suivants, extraits d'Ibn Kaldún (1). Prolégomènes 



(1) Ibn Kaldoun, o mais illustre dos historiadores musulmanos que escre- 
veu a eminente chronica de Kibat-et-Ebar e morreu em 1406 no Cairo. 



VISCONDE DE SANTARÉM 309 

«Les pays au midi Téquateur sont habites comme nous le sa- 
«vons par le témoignage de personnes, qui ont vu la chose, et 
«par les nombreux récits, qui nous en sont parvenus. 

«Ibn Roschd (Averrhose) dit, que les pays au midi de Fequa- 
«teur se trouvent dans les mêmes conditions, que les pays, qui 
«en sont au nord; donc le partie habitée des pays méridionaux 
«est comme celle des pays septeutrionaux. 

II ne parle pas autant que je puis le découvrir, du fait, que 
Focéan Atlantique passe au midi de TAfrique. II dit dans son his- 
toire des Berbers, que trois côtés d' Afrique sont entourés de la 
mer, savoir le côté de Torient, le côté du nord, et le côtée Occi- 
dental ; ici das un de mes manuscrits, le copiste a ecrit en 
marge : «Mais bien plus elle est entourée de tous les côtés par 
«la mer ; (fait que nous savons) depuis que la vérité sur Tocéan 
«environnant a été éclaircie par Texpédition des navires du peu- 
«ple de Roum qui partirent de Lisbonne et de Séville, et «par- 
vinrent jusqu'à Tlnde et dans la mer rouge». (Ce manuscrit 
parte la date de A. H. 1200 (A. D. 1785-6). 

Encore une passage de les Prolégomènes : 

«Le Nil de Soudan se décharge dans Tocéan environnant au- 
«près de Tile de Aulêl; sur les bords de cette fleuve se trouvent 
«les villes de Sela, de Zokrour, et de Ghana ; eiles font toutes 
«partie du royaúme de Mali en ce moment; les habitants de 
«Mali sont des noirs (Soudan) et des marchands du Maghrib al- 
«-Aksa se rendent chez eux. Prés de ce peuple et au nord est le 
«pays des Lemtouna et autres nómades des al-Mulatthamoun 
«(almoraves). Au midi de ce Nil est un peuple negre appelé Lem- 
«lem; ils sont infideles, et ils écrivent (on font un tatouge) sur 
«leurs figures et leurs joues ; les habitants de Ghana et de Zo- 
«krour, font des incursions chez ce peuple, et les en enlèvent 
«des prisionniers, qu'ils vendent aux marchands. Ces marchands 
«les conduisent au Magbrih. 

«Derriere les Lemlems, du côté de midi il a peu d'habitants 
«quelques gens seulement, qui ressemblent á des animaux, et 
«qui demeurent dans des cavernes ou des bois de roseaux (an- 
«glici jungle); ils se nourrissent de Therbe et de grains, et quel- 
«ques fois ils se mangent les uns les autres!» 



310 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



Ibn Batuta ne dit rien de TAtlantique dans la partie de son 
ouvrage oú il raconte son voyage à Tombouctou. 

Je prie Mr. de Santarém de ne pas publiér ces extraits avant 
de leur faire subir les corrections necessaires. II y a de fautes 
de style, et de fautes de Français, qu'il aura soin de faire dis- 
paraitre. 

Mr. de Slane lui renouvelle Tassurance de son parfait devoue- 
ment. 

1842.-»Lundi 3 h. 



Do Visconde de Santarém para Macedo 

Paris, l.« de Jan.^ de 1843 

7//.'"° Snr. 

Principiarei esta dando a V. S.^ m.*» boas festas e bons an- 
nos, seguraudo-lhe o meu desejo de que tenha as prosperidades 
que merece. 

Pelo ultimo Paquete recebi a sua carta de 19 do passado em 
resposta ás m.^^ de 7 e 28 de Nov.» O famoso Porttilano Portu- 
guez em que lhe fallei, ainda se não vendeo, o homem que o tem 
em seu poder veio de novo offerecer-mo por preço mais rasoa- 
vel, mas que para mim ainda é exhorbitante. 

O Mss. das Praças da índia, com as cartas d' Africa Oriental, 
também ainda se não vendeo. i 

Mr. Ternaux desejava obtel-o, mas vendo que eu entrava em ■ 
ajustes cedeo logo. Veremos o que se pode arranjar. 

Rochette disse a Walchenear que ia publicar no Journal des 

Savants alguns art.^» sobre a sua Mem. dos Vasos Murhinos; 

lhe dei idéa do que pensava a este respeito, entretanto julgo 

será vantajoso p.* V. S.^ que se trate da sua publicação no 

dito Jornal, depois da communicação que elle fará á Academia 

na forma do costume. 

Aceite V. S. 

Visconde de Santarém 



VISCONDE DE SANTARÉM 311 

Para Rodrigo da Fonseca Magalhães 

m 

Paris, 1.0 de Jan.o de 1843. 

///.'"'' e Ex.'"" Snr. 

Tenho por bom agouro começar o novo anno escrevendo a 
V. Ex,'"^ segurando-lhe o meu invariável reconhecimento, e mani- 
festando-lhe o meu cordeal desejo de que V. Ex.''^ tenha tudo 
quanto merece. 

O 3.0 volume do Quadro Elementar irá pelo primeiro navio 
que partir este mez. Este dará a V. Ex.^ melhor fundamento para 
a proposta que se propõem fazer ás Cortes. 

Ainda não recebi avizo da Agencia Financeira de Londres. 
Sinto incommodar a V. Ex.^ com estas importunidades, mas Julgo 
que houve algum esquecimento no expediente do Thesouro, pois 
as ordens forão passadas no dia 21 do passado. 

Aproveito de novo esta occasião para segurar a V. Ex." os 
mebs protestos de estima e gratidão com que me preso ser 

De V. Ex.« 
Am.'' f. e obrig."'-^ cr. 

Visconde de Santarém 

Para Rodrigo da Fonseca Magalhães 

Paris, 9 de Janeiro de 1843. 

111."'" e Ex.'"° Snr. 

V. Ex.a deve ter recebido já o exemplar do Atlas para o Mi- 
nistro d'Inglaterra, e as novas cartas que ultimamente mandei 
gravar. 



312 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

Com esta remetto inclusa uma prova, contendo mais dous 
Mappamundi inéditos que se descobrirão no Muzeo Britânico; 
sendo um delles mui curioso por ter o cosmographo que o dese- 
nhou no século xiii, seguindo ainda o systema de Possidonio de 
Rhodes. Estão-se gravando outros ainda mais importantes, e to- 
dos offerecem, além do maior interesse scientifico, novas provas 
de que aos Portuguezes deve a Europa o conhecimento de me- 
tade do globo. 

Queira V. Ex.« dar-me noticias suas, das quaes me acho á 
muito privado, e acredite nos sentimentos de invariável gratidão 
com que me preso ser 

De V. Ex.''^ 
Am.° f. e obr.™o cr. 

Visconde de Santarém 



Do Visconde de Santarém para Macedo 

Paris, 15 de Jau.^ de 1843. 

111."'° e Ex.'"" Snr. 

Recebi ultimam. *« a C. de V. S.« de 25 e 31 de Db.° do anno 
p. Quanto á copia da chronica direi pelo l.o correio a minha 
opinião sobre a fidehd.", merecim.'°, apreço q. em consequência 
destas circumstancias se deverá dar ao D."^ Moura. P.^ então 
reservo também a resposta sobre o juizo que formo da d.* chro- 
nica antiga. Entretanto, remetto a V, S.* uma nota de uma pas- 
sagem q. me parece poder interessal-o p.^ o seu trabalho. No 
cap.^ VI trás a historia de Mytho D'Itruses declara dizendo (N. B. 
transcrevi a passagem). 

Agradeço a remessa do Maço de J. M.^' a q.*" respondo, pe- 
dindo a V. S.^ o favor de lhe mandar entregar a inclusa. 

Quanto aos Monum.^°^ geographicos que tenho mand.*^ gravar 
fique V. S.^ descançado que os hade receber ao fur et a mesure 
que forem sahindo. Pelo navio q.«^ vae a partir do Havre no fim 
deste mez receberá V. S.^ a Africa Occidental de Guilherme de 



VISCONDE DE SANTARÉM 313 

Testu; magnificam.*® illuminados, 7 Planispherios, sendo 6 illumi- 
nados de que ha tempos lhe mandei uma prova, e igualm.*® lhe 
remetterei dois Mappamundi do século xm, tirados dos Mss. da 
Cottoniana do Museo Britânico. 

Acabo de receber de Nuremberg a Dissertação do D/ W. Glail- 
lam sobre os globos de Martinho da Bohemia de 1492 e de 
Schõner de 1520. EUe acompanhou este trabalho com 2 estam- 
pas dos 2 Monum.*^'' reduzidos. No de Schõner a Terra dos Cortes 
Reaes é representada p."" uma Ilha que começa desde 55 até 67 
de lat. N. com a legenda = Terra Corte Realis. 

Aproposito dos nomes da Terra Nova e do Labrador. A carta 
d'America de Diogo Rib.° de 1529 que existe na Biblioth. de Wei- 
mar, tem a parte S, e oriental de Labrador, com o nome = Terra 
do Labrador. 

Agradeço a boa noticia que me dá de ter já concluído a sua 
Memoria. 



Carta do Visconde de Santarém para o Conde da Ponte 

Paris, 22 de Jan.° de 1843 

Meu q.'^" Sob.° e Am.» do C. 

Estou privado das suas cartinhas desde 20 de Nov.° do anno 
passado. São portanto passados dous mezes em silencio ! Hoje 
apenas lhe posso escrever duas regras por ter não só um largo 
correio a fazer, mas também porque estou ultimando uma longa 
introducção ao preciosíssimo tomo m da minha obra Diplomá- 
tica, o qual farei expedir para essa Corte nos primeiros dias do 
mez que vêm. 

Tenho continuado a publicar mais monumentos geographicos 
da Idade Media, e espero que até ao fim deste anno ficará 
prompto um volume da Historia da Géographie Systematiqae du 
Moyen-Age, pois os sábios Allemães instão comigo para que faça 
esta publicação. 



314 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

Ainda não apareceo o artigo na Revista Universal de Lisboa 
acerca da minha obra ? Responda-me a isto. Dê-me todas as noti- 
cias que ahi lhe constarem a meu respeito, e muito particulares 
de seu Pai que não sei porque motivo não me escreve á mais de 
8 mezes I ! 

Ad.s meu Conde acredite que sou como sempre seu 

Tio e Am.° f. e obrg.'^° 

Manoel 



Para Macedo 
Paris 22 de Jan.*' de 1843. 

1.0 Sobre as obras de Sedillot, 

2.0 Sobre os Portulanos de Florence e Mm. que Libri trouxe 
a esta capital, da Toscana. 

3.° Sobre as respostas do Museo d'hist. Natural, e sobre a col- 
lecção Oriental. * 

4.0 Sobre a maioria da Academia. 

5.0 Sobre o Relatório da Academia R. das Sciencias de Lisboa. 

6.0 Mandando cartas p.'^ meu sob.° o Conde da Ponte. 



Para o Ministro dos Negócios Estrangeiros 

Paris, 22 de Janeiro de 1843. 

111.'^° e Ex.""" Snr. 

Tenho a honra de participar a V. Ex.a que mandei já pela 
legação de S. M.^ nesta Corte 24 exemplares do Tomo 2° do 
Quadro Elementar das Relações Politicas e Diplomáticas de Por- 
tugal com as diversas Potencias do Mundo a fim de serem re- 
mettidos a V. Ex.* 

Esta remessa será effectuada pelos navios que devem partir 
para essa Corte nos fins deste mez, ficando por esta forma re- 



VISCONDE DE SANTARÉM 



315 



mediada a equivocação do Director da Imprensa o qual errada- 
mente remetteo pela mesma Legação 12 exemplares do l."* vol- 
em lugar dos 12 do segundo, conforme eu lhe havia ordenado. 
Aproveito esta opportunidade para agradecer a V. Ex.^ a par- 
ticipação que se dignou fazer-me pelo seu despacho n.° 7 de ter 
officiado ao Ministério do Reino para se obter os documentos 
solicitados pelo meu officio n.° 11. 
^ Guarde Deus &.^ 

Visconde de Saniarem. 

ê 

Do Visconde de Santarém para Costa Macedo 
Paris, 30 de Janeiro de 1843. 

Pelo ultimo Paquete não recebi c, de V. S.* o mais mandou- 
me hontem em lugar de Frontinus da edição de Poleno de 1722, 
a edição de Paris de 1588 das obras destes A e o Fabretti no 
qual se acha o Tratado De Agraeductibus peteris Romae, disser- 
tationes três, Romae 1680, e|diz-me q.« q.*° á edição de 1722 que 
era a que pedi, qui était três commencé dans la Librairie, que 
c'est, «une petite plaquette de valeur três peu importante. Que 
j-emedio ha senão aturalos ! hoje lá vou p.a lhe dizer q.*^ quere- 
mos esta, e a de 1792, e q.« se deixe d'observações. Elle é Elei- 
tot e anda agora com a cabeça nos ares com a Eleição do seu 
destricto ! e é um bavard de pr.^ classe. 

Queira mandar entregar a inclusa a J.^ Manoel. 

Visconde de Santarém 

Do Visconde de Santarém para Costa Macedo 
Paris, 5 de Fevereiro de 1843. 

Tenho a honra de remetter a V. S.^ um Exemplar da obra de 
Mr. Calley acompanhada de uma carta que este sinologo dirige 
á nossa Academia. 



316 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

Rogo a V. S.^ queira ter a bondade de o offerecer á mesma 
Academia, e de me remetter a resposta do Estilo, pois Mr. Cal- 
lery (1) devendo partir para a China no dia 10 do corrente, me dei- 
xou encarregado de llie mandar não só, esta, mas também outras 
communicaçôes. 

Aproveito esta occasião para offerecer á nossa Academia da 
parte Mr. Sedillot um exemplar da sua ultima producção intitu- 
lada =yWe/72o/re sur les systémes Géographiques des Grecs et des 
árabes. 

Sou «&.* 

Visconde de Santarém. 

Do Visconde de Santarém para Costa Macedo 
Paris, 17 de Fevereiro de 1843. 

Acabo de receber 3 cartas de V. S.a duas de 29 de Janeiro 
ultimo, e uma de 6 do corrente. 

Muito penhorado fiquei com as benignas, e para mim mui 
lisonjeiras expressões que V. S.-^ me dirigio da parte da nossa 
Academia pela offerta que lhe fiz dos 2 primeiros volumes do 
Quadro Elementar das Relações Politicas e Diplomáticas de Por- 
tugal etc. A approvação da Academia vem dar-me novos moti- 
vos para levar ao cabo esta árdua empreza. Pelo navio que deve 
partir do Havre no fim deste, conto remetter o 3.° vol. pela 
leitura do qual se pudera faser melhor conceito desta obra e da 
sua importância. 

E' na realidade pasmosa a quantidade de documentos relati- 
vos a Portugal que tenho descoberto. Tenho encontrado negocia- 
ções inteiras que não só lanção a maior luz nas épocas mais 
obscuras da nossa Historia, mas até nos revelão uma multidão 
de factos inteiramente ignorados. 

Quando remetti a V. S.*'^ o Exemplar do Quadro para a Aca- 



(1) Callery, Sinologo francez, antigo interprete de missão na China 
publicou o Dicionário encyclopedico da lingua Chineza. Morreu em 1862. 



VISCONDE DE SANTARÉM ^ 317 

demia, remetti outro para V. S.^. Chegou Este ao seu destino, 
ou teve a mesma sorte do Índice do Archivo que ainda não 
recebi ? 

Quanto ao facto da Chronica antiga, não me é possível dar 
hoje conta de mim, entretranto o A. tirou-o de algum dos A A. 
que o precederão. Cita muitos no Capitulo 1.° Quanto ao Mappa- 
mundi remetto inclusos 3 monumentos tirados em papiers de 
Chine. Para outro Paquete remetterei outros emquanto lhos não 
envio todos juntos logo que estejão tirados. 

Já encomendei a Dissertação publicada em Nuremberg sobre 
os globos de Martinho da Bohemia (1) e de Schoener (2). 

Entretanto enviarei a V. S.^ pela Legação o meu exemplar 
da d.'« dissertação. 

Recebi o interessante maço do J.^ M.^' ao qual respondo hoje, 
pedindo a V. S.^ o continuado favor de lho mandar entregar. 

Entreguei as suas cartas a Mr. de Slane em sua casa onde 
estive hontem, e a Mr. Feinand lhe dei a que lhe era destinada, 
tendo-o encontrado antes de hontem na interessante reunião Se- 
manal de Mr. Gros, inspector da Universidade. 

O Diploma para Mr. Moreau de Jonnés (3), conto entregar-lho 
amanhã na Academia das Sciencias, Moraes, e Politicas. 

Quanto á que é destinada a Mr. Auguste Fabius, Rabbino de 
Lyão, não é aqui conhecido; achando-me porém em Correspon- 
dência com a Academia das Sciencias de Lyão, de que sou Mem- 
bro, escreverei ao meu consócio Mr. Dumas, Secretario Prepetuo 
e lha remetterei : 

Quanto a Mr. Libri, proguntar-lhe-hei pelo nome do advo- 
gado de Florença que possue os Portulanos. Pelo que respeita 
aos autographos do Infante D. Henrique sou da sua mesma opi- 



(1) Martinho da Bohemia também appelidado Polaco e que foi chronista 
dominicano e professor do papa Clemente IV e dos seus três successores. 
Morreu em 1278. 

(2) João Schoener. Geographo e astrólogo que nasceu em Carlsbadt e mor- 
reu em Nuremberg em 1547. Construiu magnificas espheras terrestres. 

(3) Alexandre Moreau de Jonnés. Official e economista francez que nasceu 
em 1798 e morreu em 1870. 



318 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

nião, pois apertando-0 eu para me diser o que coutinhão, respon- 
deu-me que tratavão de um santo. 

Pelo que respeita á sua Memoria falei ao nosso Barão. 

Remetti já para a Legação o Frontinus e, incluso remetto a 
atrapalhada nota que me mandou a fusão do custo do tal manus- 
eripto. Remetti também os Comptes Rendas da Academia das 
Sciencias para V. S." e um maço ao P.*" Roquette. 



Do Visconde de Santarém para Rodrigo da Fonseca Maga- 
lliães 

Paris, 20 de Fevereiro de 1843. 

///.'"'' e Ex.""" Snr. 

Tive finalmente a honra, e a fortuna de receber a estimadís- 
sima carta de V. Ex.a de 22 do passado pela qual vi com muita 
satisfação que todas as minhas cartas lhe tinham chegado ás 
mãos. ' 

Estimei também muito saber que V. Ex.'^ tinha ficado satis- 
feito com as provas dos dous curiosos Mappamundi que lhe re- 
metti. Espero em breve mandar-lhe outro mais importante. 
Desejo comtudo saber se V. Ex.* recebeo o exemplar do Atlas 
Colorido, e o texto da Memoria Franceza que lhe mandei á tem- 
pos para o Min.** de Inglaterra. 

Quanto á nossa grande 'obra considero este negocio inteira- 
mente perdido em consequência do que acabo de lêr com es- 
panto no famoso relatório do Sr. Castilho cuja commissão elle 
converteo em direcção total não só do Archivo, mas o que é mais 
é que se arrogou mais poderes e autoridade do que a que tive- 
rão todos os Guardas Mores desde Fernão Lopes até hoje. 

O mesmo silencio do Sr. Min.*' dos Neg.^^ Estrag.°^ que ainda 
mé não respondeo á carta particular que á mais de dous mezes 
lhe escrevi, me faz recear muito o resultado final deste negocio, 
e não só o da publicação do Corpo Diplomático, mas até da con- 
tinuação da do Quadro Elementar. Uma cousa me consola, e é 
que façam o que fizerem, tudo quanto ahi publicarem neste ge- 



VISCONDE DE SANTARÉM 319 



uero hade ser imperfeito, e cheio de lacunas, mal classificado 

Além disto considero-me inteiramente despojado do direito 
que tinha a esta publicação, e a fazer esta obra, direito que me 
tinha sido garantido por dous decretos d'El-Rei D. João 6.° e ulti- 
mamente pela Resolução da Rainha expedida por V. Ex.*» 

O que mais me magoa o coração é a ingratidão com que sou 
tratado, e ver outro fazer uma proposta tirada das introducções 
dos dous volumes da minha obra do Quadro Elementar, e que 
se for sanccionada pelo Ministério trará comsigo inutilisar uma 
e outra publicação de um trabalho que me tem custado mais de 
30 annos de fadigas e despezas ! ! 

Que contraste destas noticias com as esperanças que concebi 
pela carta de V. Ex.-'^ de 14 de Nov.<^ passado!! 

Rogo a V. Ex.'' que acrescente ás provas de tanta amizade 
que já me tem dado, a de me informar com franqueza do que 
ahi se passa a este respeito, e logo que possa se o Sr. Min.o dos 
Neg.°s Estrang.°« applicará a verba dos 6 coutos que introduzio 
no orçamento para a continuação da publicação do Quadro Ele- 
mentar, e se tem o Gov.o tenção de tomar medidas differentes 
daquellas que se achavão concertadas. 

Não tenho expressões para pintar a V. Ex.''^ quanto sinto, 
telas-hei sempre para ser 

De V. Ex.a 
A m.° f. e m.'° obrg.*^" cr. 

Visconde de Santarém 

P. S. — Remetto a V. Ex/^ o art. incluso de um Jornal de opi- 
nião diversa dos que já lhe remetti, e no q.' se analysa a m.''^ obra 
sobre os descobrimentos, augmentando-a assim a opinião a favor 
dos nossos direitos, é da Quotidienne de 16 deste mez. 

Visconde de Santarém 



320 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



Para Joaquim José da Costa de Macedo 

III.""' e Ex.'"° Snr. 

Tenho a honra de remetter a V. S." o 3.° volume do Quadro 
Elementar das Relações Politicas e Diplomáticas de Portugal com 
as diversas Potencias do Mundo, rogando a V. S.« o obsequio de 
offerecer da minha parte o dito volume á nossa Academia como 
um testemunho do respeito e amor que lhe consagro. 

Deos guarde a V. S.'^ Paris 10 de Março de 1843. 

111.'"^ Sr. Joaquim José da Costa de Macedo 

Secretario Perpetuo da Academia Real das Sciencias de Lis- 
boa. 

Visconde de Santarém 

Para o Ministro dos Negócios Estrangeiros 

12 de Março de 1842. 

III.""' e Ex.""" Snr. 

Tenho a honra de participar a V. Ex.* que mandei já para a 
Legação de S. Mag.^ nesta Corte 24 exemplares do Tomo 3.° do 
Quadro Elementar das Relações Politicas e Diplomáticas com as 
diversas Potencias afim de serem remettidas a V. Ex.^. 

Esta remessa para essa Corte será effetuada pelo navio Di- 
ligencia que deve partir do Havre para Lisboa no dia 19 do cor- 
rente. 

O volume que tenho a honra de enviar a V. Ex.^ encerra ai.* 
parte das nossas Relações com a França. Nos três tomos já pu- 
blicados se achâo os summarios remissivos de 187 Tratados e 
Convenções das quaes darei no fim do 4.° Tomo que já está na 
imprensa um Índice parcial que conterá mais 36 destes actos 
sendo o total, só com duas Potencias, de 223. 

Deus Guarde, etc" 

Visconde de Santarém 



VISCONDE DE SANTARÉM 321 



Para o Ministro dos Negócios Estrangeiros 

Paris 25 de Março de 1843. 

III.'"'' e Ex.'"" Sr. 

Pelo penúltimo paquete tive a inexplicável satisfação de re- 
ceber a primeira carta com que V. Ex.^ me honrou em data de 27 do 
passado á qual não respondi pelo correio de 2.^ feira como de- 
via, e desejava por me achar incommodado. Todas as expressões 
me parecem mesquinhas, e acahhadas para poder expressar a 
V. Ex.^ quanto me penhorarão as obsequiosas frases que V. Ex.» 
me tem feito e o quanto acaba de concorrer para a continuação 
da pubhcação das obras diplomáticas de que estou encarregado 
que illustrão o seu Ministério e a nossa Pátria. 

Esperando que a poderosa e eloquente palavra de V. Ex.^ 
servirá na commissão para destruir qualquer opposição que al- 
guém por inveja ou por rivalidade possa suscitar com o hypo- 
crita pretexto de economia, economia que seria irrisória e inepta 
em razão da despeza já feita que ficaria por assim dizer impro- 
cedente, além do indecoro nacional que tal rejeição de fundos 
apresentará á face de toda a Europa. 

Vi com o maior prazer no interessante Relatório de V. Ex.» 
mencionada a quantia mencionada para o costeio, e não deixa- 
rei de ser eternamente grato a V. Ex.''^ por ter regulado em uma 
escala mais larga este importante negocio, tanta é a confiança 
que ponho no enthusiasmo de V. Ex.''^ por esta grande empreza 
nacional e em que a hade sustentar pela honra que esta faz á 
nação e ao governo que contando neste anno de 1843 para 44 
me serão fornecidos os meios de a continuar, não só mandei já 
para o prelo o 4.° volume do Quadro Elementar mas que vou pu- 
blicar também um primeiro volume do Corpo Diplomático, isto 
é, das integras dos Tratados, publicando assim simultaneamente 
as duas obras. 

V. Ex.^ terá certamente recebido já o 3.° volume do Quadro 
Elementar que expedi pela Legação de S. Mag.*^ nos últimos dias 
do mez passado e em breve receberá V. Ex.''^ igualmente pelo 

VoL. VI 21 



322 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



Navio Deligencia que partio no dia 22 os exemplares com a In- 
troducção correcta. 

Acceite V. Ex.^ as expressões de profundo respeito e reco- 
nhecimento 

Visconde de Santarém 
NOTA 

Diário do Governo N.» 33 de 8 de Fevereiro de 1843. 

Do Relatório do Ministro dos Negócios Estrangeiros relativo 
ao Quadro Elementar. 

«O orçamento da Repartição para o anno económico de 1843 
a 1844 foi igualmente apresentado a esta Camará, fazendo parte 
do orçamento geral. Por elle terá tido a Camará a satisfação de 
observar que comparada a sua cifra com a do ultimo orçamento 
legal approvado pela Carta de Lei de 16 de Novembro de 1841 
^e tem feito uma economia nesta verba de Rs. 8.723$õ69 não 
obstante um accrescimo de despeza de 6:000S000 contos para o 
costeio da publicação por conta do Estado do Quadro Elementar 
das Relações Politicas e Diplomáticas de Portugal com as di- 
versas Potencias do Mundo.» 



Do Visconde de Santarém para Rodrigo da Fonseca Maga- 
lhães 

Paris, 31 de Março de 1843. 

///.'"" e Ex.'"" Sr. 

Não encontro expressões para agradecer a V. Ex.a a sua 
ultima carta de 12 do corrente. V. Ex.^ veio dar-me uma alma 
nova! Não julgue V. Ex.''^ que eu me deixo esmorecer com as 
difficuldades, e com os obstáculos, nem que sucumbo com os 
contratempos. Não tenho dado provas toda a minha vida de que 
sou superior aos desgostos, e mesmo aos perigos que a carreira 
publica traz comsigo, mas tanto sou superior a estes quanto sou 
intolerante quando vejo que um charlatão e um intrigante publi- 
camente e na mesma Repartição de que tenho a honra de ser 



VISCONDE DE SANTARÉM 323 

chefe legal, me offende, e trata de conseguir por surpreza que 
se me faça uma cruel injustiça, e que não contente com isto 
semei n'um papel publico, permicias falsas sobre uma Repartição 
que relativamente fallando está em muitos pontos mais bem clas- 
sificada do que muitos Archivos Estrangeiros sem exceptuar os 
de França, possuindo indeces mais bem feitos do que os destes 
que eu conheço tão de perto, verdade esta que eu provo sem 
replica nas observações, e analyse que fiz do tal papel. 

O amor que consagro ao archivo, e o largo e profundo 
conhecimento que tenho deste grande thesouro que, possuímos, 
me fez estremecer quando li o tal papel publicado no Diário, 
pois conheço por experiência quantos males, e damnos pode cau- 
sar a ignorância e a presumptuosa audácia da charlatanaria, que 
tudo atropela para obter os seus fins, quando a deixão mesmo 
por minutos intrometter-se nas cousas serias e importantes. 

A carta de Y. Ex.» veio pois tranquilisar-me a este, e outros 
respeitos, e vi já resultados positivos da incomparável actividade 
de V. Ex.% pois acabo de ler no Diário de 16 o Art.*^ que a 
Socied.« R. Geographica de Londres publicou sobre a minha 
obra Franceza. V. Ex.a como mestre, escolheo a occasiâo mais 
opportuna, e tal publicação não podia ser mais tempestiva. 

O S^ Ministro dos N. E. me escreveo uma muito obsequiosa 
carta em data de 27 do passado, e esta veio também mostrar-me 
quanto este Min.° estima a V. Ex.a e acabo de receber um Desp.« 
de S. Ex.''^ datado de 20 do corrente, parte do qual é de seu 
punho, manifestando-me a satisfação que tinha tido de haver 
recebido o 3.*^ Tomo do Quadro Elementar, que era uma nova 
prova do zelo com que eu proseguia nestes trabalhos. 

Quanto ao que se tinha passado na Commissão, estava eu em 
parte ao facto por uma carta de 5, e portanto do hipocritico pre- 
texto de economia com que o tal C. . . promoveo que a mesma, 
ou parte d'ella julgasse que me devião ser cortados os meios de 
publicar as obras de que estou tão solemnemente encarregado. 
Com effeito seria o cumulo do indecoro nacional á face da Euro- 
pa, se houvesse de suspender os subsídios para uma obra que 
os sábios mais eminentes desde a publicação dos 2.°^ primeiros 
volumes caracterisarão, como V. Ex.a viu na carta de M.' de 



324 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



Humboldt. O 4.° volume que já está no prelo vêm supprir até a 
falta absoluta de chronicas e historias de que carecemos desde 
que a Augusta Casa Reinante subio ao trono. 

Seria bôm lembrar aos homens que reputão grande despeza 
a que se faz com monumentos taes, que tendo havido desde 
1640 até hoje Chronistas do Reino com avultado ordenado, tem 
o Estado dispendido segundo as notas que tenho, 120 contos de 
reis sem apparecer uma só pagina das chronicas e historia dos 
Reis da Familia Reinante, nem ao menos a do glorioso fundador 
delia ! ! Em quanto no espaço de menos de dous annos, graças a 
V. Ex." publiquei a Memoria Portugueza, a obra Franceza que tem 
o dobro, um dos mais magníficos monumentos geographicos e 
scientificos, o Atlas e 3 volumes do Quadro Elementar. 

Ninguém reparou até agora na despeza feita com os Chro- 
nistas, e só agora n'um século eminentemente litterario, e illus- 
trado, e no qual as nações só são respeitadas, e felizes pelos 
progressos da intelligencia e da publicidade, é que com o pretexto 
de economia, se havia de suspender ou desfalcar o subsidio para 
obras taes em que já se empregarão fundos de que se virão 
resultados ! Custa na verdade a acreditar que houvesse mesmo 
alguém que ousasse tal fazer sem temor, nem pejo da reprova- 
ção universal da Europa ! 

A' vista destas considerações poderá V. Ex.a avaliar quanto 
a leitura da sua preciosa carta me tranquilisou, referindo-me 
demais tudo quanto tinha passado com o S.^^ Min.^ dos N. E. 

Muito prazer me causou também a honrosa parcialidade com 
que V. Ex.» trata a m.» introducção ao 3.o vol. do Quadro. Modi- 
fiquei-a em alguns pontos essenciaes nas duas ultimas paginas 
como V. Ex.a mui provavelmente já terá visto nos exemplares 
do dito tomo que lhe expedi em 19 do corrente. 

Prevendo a urgência de responder ao tal relatório com obras, 
tratei de apressar a remessa do d.» volume. 

Nas duas ultimas paginas da introducção V. Ex.^ verá se eu 
justifico ou não o que digo, a saber que tal obra, seria incom- 
pletissima se se fizesse em Portugal, e que lhe faltaria metade 
dos documentos inéditos que encerra, e que só nos 3 volumes 
já pubhcados se contem 187 summarios de Tratados, e contendo 



VISCONDE DE SANTARÉM 325 

36 mais o 4.» Tomo, se encontrarão assim 223 Actos desta natu- 
reza celebrados só com duas Potencias ! 

Peço perdão a V. Ex.^ de o tormentar com uma tão longa 
carta, mas a alta estima que tenho pelas suas inimitáveis quali- 
dades, bem como uma sympathia da verdadeira amizade que 
lhe consagro, me não deixão o menor escrúpulo de conversar 
com V. Ex,^ por tão longo tempo. 

Resta-me dizer a V. Ex.» que vários artigos tem continuado 
a apparecer relativamente á m.* obra Franceza sobre os desco- 
brimentos, e isto nos jornaes de todas as cores, e entre estes 
um algum tanto fraco na Union Catholique que incluo. 

Aproveito também esta occasião para incluir uma prova de 
outro monumento geographico muito curioso que fiz gravar para 
completar o Atlas. 

Receba V. Ex.« as expressões de invariável amizade e grati- 
dão com que me preso ser 

De V. Ex.^ 
Am.o f. e obrg.^o cr. 

Visconde de Santarém 



Para o Ministro dos Negócios Estrangeiros 

Paris 3 d'Abril de 1843. 

Ill""' e Ex.'"" Snr. 

Tenho a honra de accusar a recepção do despacho que V. Ex.^ 
se sérvio dirigir-me sob n.° 2, em data de 20 de março ultimo, e 
que acompanhava a copia authentica de correspondência diplo- 
mática do Marquez de Cascaes, Embaixador Extraordinário do 
Snr. Rei D. João IV n'esta corte, dirigida ao Conde Almirante 
então Embaixador ordinário nesta mesma Corte, por cuja re- 
messa, mas muito principalmente pelas obsequiosas expressões 
com que V. Ex.* se sérvio honrar-me no mesmo Despacho, refe- 
rindo-se ao Tomo 3.° do Quadro Elementar que tive a honra de 



326 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



remetter a V. Ex." por via do Embaixador de S. M. B. n'esta 
Corte. 

Pela primeira occasião terei a honra de remetter a V. Ex.^ 
as foliias correctas da introducção do dito volume, afim de que 
por estas sejam substituídas as que ali se achão. 

Deus Guarde, etc. 



Do Visconde de Santarém para Rodrigo da Fonseca Maga- 

Ihães 

III."''' e £'jc.'"o Sr, 

Paris 12 d'Abril de 1843. 

Pelo ultimo Paquete tive a fortuna de receber a estimável 
carta de V. Ex.a de 27 do passado, a qual me veio tranquillisar 
por tudo quanto V. Ex.a tem feito em meu favor com inimitável 
zelo, e bem rara amizade. 

O Sr. Ministro dos Negócios Estrangeiros escreveo-me tam- 
bém uma carta particular muito obsequiosa na mesma data, e 
que me não deixa duvida não só pelo que respeita á continua- 
ção do subsidio para a nossa publicação do Quadro Elementar, 
mas também da boa vontade de S. Ex.^ o seu Collega do Reino 
que igualmente me escreveo na mesma data uma mui obsequiosa 
carta, na qual me segura que o quasi Bullario se não publicaria, 
visto eu ter a minha obra tão adiantada, e ainda mesmo quando 
se tratasse de fazer alguma publicação dos documentos do 
Archivo, essa publicação se faria de accordo commigo, a quem 
elle muito estimava, e a quem não desejava causar o menor des- 
gosto. 

Agradeço como devo o favor de amizade verdadeira e leal 
que V. Ex."" continua a fazer-me junto de SS. MM. esperando 
que V. Ex.^ haverá de segurar sempre que puder a estas Augus- 
tas Personagens o meu profundo respeito e gratidão. 

Temos á uma semana experimentado um frio cruel, e rigo- 
rosíssimo, depois dos fortes calores do mez passado, alternativas 
que tem produzido muitas doenças. Eu tenho entrado no numero 
dos incommodados, e por este respeito sou obrigado, bem a meu 
pesar, a escrever a V. Ex.''^ tão laconicamente por este correio. 



VISCONDE DE SANTARÉM 327 



Entretanto direi a V. Ex.^ que ultimamente publicou a Socie- 
dade Geographica de Paris um volume do seu Bulletin no qual 
se lê a respeito do Atlas o Artigo junto. Aproveito também esta 
occasião para remetter a V. Ex.a a íntroducção que fiz ao = Leal 
Conselheiro d'El-Rei D. Duarte. 

Aceite V. Ex.^ de novo as invariáveis, e sinceras seguranças 
de alta estima, e gratidão com que me preso ser 

De V. E.a 
Am.o f. e obrg."^o cr. 

Visconde de Santarém 

Notice Annuelle des progrés des Sciences géographiques et 
des travaux de la Société de Géographie pendant Fannée 1842, 
— por Mr. Denos de la Roquette, Nice — Presidente da Commis- 
sâo Central, a pag. 523 se lê o seguinte : 

«Le rapport annual de 1841 vous à signalé le magnifique 
«Atlas de Mappemondes el de cartes hydrographiques et histo- 
«riques depuis le xi.*' siècle jusqu'au xvii.^ siècle pour la plupart 
«inédites et tirées de plusieurs bibiiothéques de TEurope, que 
«publie Mr. Le Vicomte de Santarém. Cet Atlas dont les cartes 
«doivent servir de epreuves à Touvrage de notre savant Collégue, 
«sur la priorité de la découverte de la Cote Occidentale d'Afri- 
«que par les Portugais, et dont il será fait mention plus tard, 
«s'est enrichie cette année de 17 Planisphéres ou Mappemondes, 
«tous antérieurs aux grandes découvertes du xv.® siècle. Le nom- 
«bre des cartes et Portulans du moyen-âge, copies et coloriès, 
«avec un gránd soin, qui sont termines, ou entre les mains des 
«graveurs, s'éléve aujourd'hui á vingt-six (1). 



(1) O Autor do Relatório não indicou aqui que o numero de 26 destes mo- 
numentos não são nem Cartas, nem Portulanos, mas sim systemas completos, 
isto é, Mappemondes e Planispherios, pois o numero total dos monumentos já 
gravados, e que compõem a Collecção do Atlas com as Cartas supplementares 
— sobe a 50 monumentos, isto é aos mais curiosos, e importantes que até 
agora se tem podido descobrir. 



328 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



Do Visconde de Santarém pata o Conde da Ponte 

(Com outra lettra) R. (1) em 16 de Abril 

Paris, 26 de Março de 1843. 

Meu q.'^ Sob." e Am." do C. 

Com a aparição do Cometa, apareceo também o phenomeno 
da sua carta de 13 do corrente ! Com effeito as influencias cli- 
matológicas são incontestáveis, pois um homem creado na activi- 
dade de Paris, educado em França, vai para Portugal e não pode 
resistir aos hábitos apathicos da nossa terra ! Ao menos tem o 
bom senso de conhecer que não tem razão, nem motivo para me 
deixar 3 mezes sem noticias suas. A' vista pois da confissão do 
seu pecado, perdoo-lhe p."" esta vez. 

Diz-me que não ha por ahi novidade nem publica, nem par- 
ticular, nem litteraria! Então estou eu aqui mais bem informado 
pelas numerosas cartas que d'ahi recebo, e pelos Jornaes etc. 
Quanto a novidades particulares de que o Conde não fala, havia 
a do que a meu respeito disse na Camará dos Pares o Ministro 
do Reino na sessão de 25 do passado; litteraria, as sessões pu- 
blicas da Academia R. das Sciencias, e da Sociedade Marítima e 
Colonial de Lisboa, onde nos Discursos dos Secretários se tratou 
d'este seu creado. Portanto de Paris lhe dou noticias publicas, 
particulares e litterarias de Lisboa que o Coude ignorava habi- 
tando em Lisboa ! 

Espero com esta anciã o cumprimento da sua promessa de 
me remetter quanto antes os extractos dos L\v.°^ da Correspon- 
dência do S."^ Marq.^ de Sande. Mande-me isto por todos os Pa- 
quetes uma porção ao menos. Mas os extractos de que mais ne- 
cessito é da sua correspondência durante a sua Embaixada em 
Londres. Não se esqueça destes. 

Mil respeitosos cumprimentos á Sra. Condessa, e acredite 
que sou como sempre seu 

Tio e Am.o f. e obrg.° 
Manoel 

(1) Quer dizer: recebida. 



VISCONDE DE SANTARÉM 329 

Para o Ministro dos Negócios Estrangeiros 

Paris 17 d' Abril de 1843. 

III.'"'' e Ex.""" Sr. 

Um incomodo de saúde me privou de agradecer a V. Ex.*, 
pelo ultimo correio, a estimadissima carta com que V. Ex.^ me 
honrou datada de 27 do passado. 

Digne-se V. Ex.^ pois aceitar as expressões sinceras da minha 
gratidão pelo distincto favor com que me trata, e pelas óptimas 
e consoladoras noticias que se serviu dar-me acerca da continua- 
ção das publicações de que estou encarregado, e nas quaes 
emprego todo o meu tempo, e todas as minhas forças. 

Respondo também a S. Ex.^ o Senhor Ministro do Reino, e 
rogo a V. Ex.^ a especial mercê de lhe mandar entregar a carta 
inclusa. 

Aproveito novamente esta occasião para segyrar de novo a 
V. Ex.a os sentimentos da alta estima e consideração com que 
me preso ser 

De V. Ex.« 
Obrig.*"" Servidor ef. cr. 

Visconde de Santarém 

A Monsieur le Vicomte de Santarém 

Institut Historique de France 

Rue Saint-Guillaume n.° 9 (Faubourg Saint-Germain) 

Paris, le 21 avril 1843. 

Monsieur 

La Commission chargée de préparer et de diriger le Congrés 
de 1843, a Thonneur de vous envoyer le programme des ques- 
tions qu'elle a adoptées. Elle desire savoir si vous êtes disposè 



330 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



a traiter une de ces questions, ou à en proposer une nouvelle, 
Cest un tribut demande aux hommes savants et laborieux: la 
Commíssion espere que vous ne refusirez pas d'en payer vôtre 
part. Nous vous prions, si telle est votre intention, de nous faire 
connaítre le plus tôt possible la question que vous voulez traiter 
de vive voix, ou par ecrit. 

Les mémoires que Ton voudra lire au Congrés doivent être 
dèposés au Secretarial huit jours d'avance. 

Ces mémoires seront imprimes dans le compte-rendu. 

Agreez, Monsieur, Tassurance de notre consideration três dis- 
tinguèe. 

Les membres de la Commission 

J. Martinez de la Rosa (1) 



Do Visconde de Santarém para Macedo 

Paris 24 de abril de 1843. 

III.""' e Ex.""" Snr. 

N'esta semana recebi duas cartas de V. S.^ de 2 e 9 do cor- 
rente. Pela primeira vejo que me não falta nenhuma carta sua. 
Agradeço muito a V. S.''^ a generosa offerta que me fez acerca 
das copias dos documentos de que necessito dos ms. da Biblio- 
theca Real. Já no correio passado pedi^ a V. S.^ o favor de me 
alcançar as indicações dos índices feitos por Manoel Per.a de 
Sampaio dos Ms. de Itália. Tenho, todavia, muita necessidade de 
obter com a possivel brevidade pelo menos os summarios das 
negociações do Brochado durante a sua missão em França, que 
se acham conjuntamente com os da missão de Londres, e os 



(1) Francisco Martinez de la Rosa. — Celebre poliMco e escriptor hespa- 
nhol. Quiz conciliar o absolutismo com a liberdade e foi exilado. Escreveu em 
Paris o drama Aben Humeye que se representou na Porte Saint Martin. Presi- 
dente de conselho da Rainha Christina, depois embaixador em Roma. Aca- 
démico. 



VISCONDE DE SANTARÉM 331 



d'Altrecht em 1 grosso vol. in foi. de 945 pgs. na dita collecção 
de mss. 

Eu possuía um volume em folio das negociações deste Minis- 
tro. Julgo que este mse., entrou em o numero tios que sendo m.» 
propriedade, se mandarão recolher ao archivo da Torre do 
Tombo, quando sahi de Lisboa em 1833. 

Grande serviço me faria V. S.^ se me fizesse remetter não só 
este mas igualmente os volumes de 4 de copias de documentos 
das collecções dos Barbozas que mandei tirar no Rio de Jan." 
bem como as de mt.^^ documentos que existem na collecção de 
mss. da Bibliotheca Publica de Lisboa e que tinha na minha 
Livraria donde forâo levados p.a o archivo. 

Esta parte da m.a collecção de mss. podia V. S.^ mandar-ma 
pelo nosso Visconde da Carreira pois era esta uma occasião 
excellente e vinhão muito opportunaraente; escrevi já sobre esse 
assumpto a J.«^ Manoel. Quando o S^ Patriarcha regia o archivo 
se me offereceu a entrega dos mesmos Papeis, mas eu julguei 
que p.a se não extraviassem em m.^ casa que continuassem a 
ser conservados no m.'"*' archivo até que houvesse occasião 
segura p.a me serem remettidos para aqui. 

Aos S.'"^^ do Museu direi tudo q.'° V. S.''^ me encarrega de 
lhe communicaí e p.^ não demorar este negocio irei hoje á Aca- 
demia das Sciencias onde os encontro todos. 

Estimo muito ver pela sua carta que V. S.^ tem um perfeito 
conhecimento das manhas de ces messieurs que pedem tudo, 
aproveitando-se de tudo e são até impertinentes quando desejão 
obter alguma cousa, mas, quando se trata de fazer alguma cousa 
p.* os outros não é possível arrancar-lhes cousa alguma sem 
grandíssimo trabalho, etc. 

Quanto a Mr. Lajard (1), este é de outra tempera. E' um dos 
homens mais officiosos, e de melhor caracter que eu conheço 
nesta terra. Elle sempre falia em V. S.^ com o elogio que lhe é 



(li João Félix Lajard. — Archeologo illustre que esteve na Pérsia como 
adido da embaixada do general Gardanne e ali estudou os monumentos. 
Membro da Academia de Inscripções e Bellas Lettras. Morreu em 1858. 



332 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



devido, e me tem dito por vezes que tem, com bastante senti- 
mento, demorado os seus agradecimentos directos por não ter 
tido ainda tempo p.^ bem caracterisar os monumentos que V. S.a 
lhe remetteu, e por ser o seu desejo de lhe remetter ao m.'"° 
tempo a sua grande obra sobre o culto de Mytra, que está na 
imprensa. 

EUe passa uma parte do anno fora de Paris em consequência 
dos seus padecimentos, é membro da maior parte das commis- 
sôes académicas, e até um dos thesoureiros do Instituto, tem a 
rever por dia uma grande quantidade de provas das publicações 
académicas, e além d'isso está encarregado pelo Governo de 
publicar obras póstumas de Saint Martin (1) e Remusat. 

Não me esquecerei de lembrar ao Ministro de Instrucção 
Publica a continuação remessa dos volumes dos documentos p.*' 
a Historia de França. Entreguei na Academia antes de hontem 
a sua carta Stanislas Julien. 

Estimo que V. S/'^ encontrasse mt.^ cousa nova na prefação 
do 3.*^ volume do meu Quadro Elementar. Não me consta com 
effeito que alguém tivesse escripto a menor cousa á cerca das 
nossas relações Politicas Diplomáticas com a França desde o 
principio da Monarchia, esta circumstancia basta para que a 
introdução e o volume sejão por si mesmo uma novidade em 
Portugal, visto que não possuimos obra alguma deste género. 
Quanto á Chronica de D. Affonso 4.» que Ruy de Pina summa- 
riou ou arranjou a seu modo, e que se imprimiu em 1653 não a 
encontrei nesta Bibliotheca Real, e portanto não tenho podido 
comparar o testo com a dita chronica. 

Queira V. S.», pois, ter a bondade de me mandar copia de um 
ou 2 capítulos delle p.'"^ os comparar. Não consta aqui que Ashar 
publicasse até agora mais do que os dous volumes da Lição de 
Benjamin de Sudella. 

Quanto ao programma da Academia acerca das controvérsias 



(1) Luiz Cláudio Saint Martin, o philosopho desconhecido. Viveu cheio de 
mysticismo e escreveu : Quadro natural das relações que existem entre Deus 
e o homem. Morreu em 1803. 



VISCONDE DE SANTARÉM 333 



sobre as Molucas, devo dizer que mereço alguma desculpa pelo 
que lhe escrevi amigavelmente em um momento critico pelo 
mau humor em que me poz, o famoso relatório do Sr. Dr. Cas- 
tilho e como não faço diplomacia com V. S.^ e desejava concluir 
a m.'^ carta não me lembrou ir ler o precedente Programma. 
Sinto, portanto, com resignação a boa lição de precedência que 
me dá á leitura do 8.» da sua carta relativo a este incidente, mas 
rogo, todavia, a V. S.^ que invoque os seus Santos para que elles 
me livrem d'outro Reformador do archivo que venha inquietar- 
me neste meu retiro com muitos e meios á cerca daquelle 
thesouro, et. 

De V. Ex.« . 
Am.o e oforg.""" servidor 

Visconde de Santarém 



Do Visconde de Santarém para Macedo 

Paris 1.° de Maio de 1843. 

III.""' Sr. 

Grande praser me deu a carta de V. S.^ de 16 do passado 
pelo conceito que V. S.^ forma do meu Quadro Elementar. Não 
me admira que V. S.a encontrasse nos 2 primeiros volumes no- 
ticias p.** a sua memoria em que pretende provar que os Árabes 
não conhecerão as Canárias antes dos Portuguezes, pois estou 
convencido de que esta m.^ obra posto que o seu objecto espe- 
cial seja tudo o que diz respeito ás nossas relações Exteriores, 
nem por isso deixa de ser da maior importância, como V. S.^ diz 
p.» dar grandíssima luz á nossa Historia. 

Ora como eu tenho a autoridade de V. S.^ na conta do mais 
competente p.^ julgar destes trabalhos, por isso estimo m.*o ver 
tudo quanto V. S.» me conta acerca delles. A famosa entreme- 
zada que V. S.a me conta da Escola Catholica é verdadeiramente 
digna de cahir nas mãos de um Moliere ! Mas se por uma p.*« nos 
diverte, pela outra entristece pelos perigos a que estão expostas 



334 COIÍRESPONDENCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



as nossas Bibliothecas e Archivos com tal gente. Pelo que res- 
peita ao Archivo considero-o felizmente salvo por agora. 

Quanto ás Memorias de Sedillot farei tudo q.'^ estiver ao 
meu alcance p." lhas obter. Pelo que respeita á venda da pre- 
ciosa Bibliotheca de M.'" de Lacy (1), o cathalogo só por si é in- 
teressantíssimo — O 1."^ volume foi impresso na imprensa Regia 
e é um dos melhores que se tem feito depois da famoza Biblio- 
theca do Duque de Lavalliere. Merlin, bibliothecario do ministério 
do interior, a quem M."^ de Sacy deixou por seu testamento encar- 
regado deste objecto teve a delicadesa de me fazer presente de 
um exemplar com uma dedicatória toda escripta de seu punho. 
A l.a p.'*' desta preciosa colleção (isto é, a theologia) já estava 
vendida por preço mui subido 5.-'' feira passada 27 q.'^" recebi a 
sua carta em que trata deste objecto. O numero dos Códices 
Orientaes desta Bibliotheca, a saber. Árabes, Persas, Turcos. 
Syrianos — O 2.° volume é que comprehende a Historia Geogra- 
phica, etc, ainda se não publicou e só depois dellfe aparecer 
terá lugar a venda. Darei comissão a algum Livreiro p." seguir 
este negocio, e se as obras que V. S.^ deseja não forem levadas 
a grandes preços, tratarei de as comprar. 

Negocio de M."" de Slane p.*» ser nomeado correspondente da 
Academia. 

Remessa das Folhas de Albufeda n.«s 30, 31, 32, 33 e 34. 

Remessa da carta p.a João da Cunha. 



Do Visconde de Santarém para Macedo 

Paris 8 de Maio de 1843. 

Ill""" Snr. 

Não recebi carta de V. S.» pelo ultimo paquete o que me 
deixa em cuidado. 

Sem que eu tivesse dito uma só palavra a M.*^ Lajard acerca 



(1) Orientalista francez que morreu em 1838. Iniciador dos estudos árabes 
em França. 



VISCONDE DE SANTARÉM 335 



do que V. S.^ me escrevera veio este Académico hontem ver-me 
e pedir-me o desculpasse perante V. S.^ da demora que pôz em 
agradecer-lhe os seus obséquios, e entregar-me um maço p.a 
V. S.*, incluindo a resposta ás suas cartas. Hoje o mandei entre- 
gar na Legação. O Abbade Gazzera, Secretario da Academia de 
Turim, aqui se acha á 15 dias. Tenho-o visto varias vezes, e elle 
procurou-me logo. Não pára um instante. 

Corre Paris todo o dia. 

Não me tem sido possível desencantar aqui a relação da via- 
gem dos Embaixadores Portuguezes Francisco de Mello, Monteiro 
Mór (1) e António Coelho de Carvalho, mandados por El-Rei D. 
J.° 4." a Luiz Xlll, escripta por João Francisco Barreto (2), publi- 
cada em Lisboa em 1642. Se V. S.» ahi o poder descobrir faça- 
me o obsequio de me mandar tirar cópia das instrucções dadas 
áquelles Embaixadores em 21 de Janeiro de 1641 e das cartas 
d'El-Rei e Luiz Xlll ao Cardeal de Richelieu (3), e da R.^ D. p.^ a 
de França, de 22 de Jan.**, cujas peças se achão insertas na dita 
Relação. 



(1) Era o Monteiro Mór do reino e um dos fidalgos que mais concorreu 
para a revolução de 1640. Embaixador em França, após o triumpho levou 
como segundo ministro o desembargador Coelho de Carvalho. Jantou com o 
rei em S. Julião antes de partir. Richelieu auxiliou-o e trouxe comsigo offi- 
ciaes francezes. General de cavallaria durante a guerra com a Hespanha. To- 
mou parte na victoria de Montijo. Governador do Algarve. 

(2) Licenciado em direito canónico. Morreu em 1600. Foi militar, mas no 
regresso da expedição do Brazil renunciou á carreira e dedicou-se ás lettras. 
Mestre de litteratura da nobreza e em especial dos filhos do monteiro mór 
Francisco de Mello que o levou como secretario da sua embaixada a P'rança 
em 1641. Escreveu muito sobre mythologia e descreveu aquella embaixada. 

(3) Armando Du Plessis, o celebre ministro de Luiz XIII fundador da 
Academia Franceza, do qual Thierry escreveu que melhorou tudo socialmente 
e cuja acção era maravilhosa possuindo uma verdadeira universalidade de 
espirito. Morreu em 1642. 



336 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



Do Visconde de Santarém para Macedo 

Paris 15 de Maio de 1843. 

///.'"'' Snr. 

Pelo penúltimo Paquete recebi a cartinha de V. S.^ de 24 de 
Abril ultimo, e o Maço de J.^ Manoel. Até hontem ainda não 
tinham chegado as cartas do Paquete do l.o do corrente. Já em 
outra accusei a recepção do 10.'', 7 das noticias p."' a Historia das 
N, U, e o indesse do Archivo. Na m.''^ ultima carta pedi a V. S.* 
o favor de me mandar tirar copias e Extractos da Relação da 
Emb.^ de Francisco de Mello, de 1641 publicada por J.^ F. Bar- 
reto; felizmente posso poupar-lhe esse incommodo, pois recebi 
todas estas peças tiradas do Archivo em consequência de estar 
indicado a J.** Manoel. 

Não posso ser hoje mais extenço porque tenho muito que 
escrever. 



Paris 21 de Maio de 1843. 



Para Macedo 



III.""' e Ex.""" Sr. 



Chegarão dois Paquetes a saber, o do 1.° e 8 deste mez, e 
até agora ainda não recebi cartas de V. S.^ o que me põem em 
cuidado. 

Poucas novidades literárias tenho a dar a V. S,''' desta vez. 
As Academias são com tudo sempre curiosas p.-"^ quem vê isto 
de perto como eu assistindo ás batalhas em que os contrários 
guerreião com animosidade sem as mais das vezes ficar nenhum 
ferido no campo. Entre as que ultimamente se tem dado, duas 
tem sido muito interessantes — a 1.^ entre Biot e Letronne sobre 
o famozo Zodiaco de Denderah (1). 



(1) Villa do Alto Egypto onde foi encontrado o celebre Zodiaco que está 
no Louvre. São ali as ruinas da antiga Tentyris. 



VISCONDE DE SANTARÉM 337 

O 1.°, famoso Astrónomo e hábil geometra e ao mesmo tempo 
tão forte hellenista, e ainda mais erudito do que o seu antan- 
gonista demonstra por muitos cálculos e até com a discussão de 
differentes textos dos antigos A. A., que o monumento de que 
se trata é um plano-spherico Celeste, que segundo as distancias 
calculadas das principaes constelações, representa o estado do 
Ceo no tempo de Psamethico,^ e Letronue sustenta inteiramente 
o contrario pertendendo provar que tudo q.'° ahi se vê pertence 
á Archeologia, e que não ha ali cousa alguma astronómica. Ora 
já se vê que se nas Sciencias houvessem douctrinarios como os 
ha na politica por mais que fizessem não poderião arranjar um 
juste milieu n'este negocio. 

A outra Batalha é entre o impacivel Quatremer (orientalista) 
e M."" Lajard sobre o culto do Cypreste entre os povos do oriente 
na antiguidade. O '\P nega que esta arvore recebesse um culto 
dos povos da antiguidade e, o que é mais, nega até a existência 
dos Bosques sagrados em toda a parte. 

Andamos assim ha 2 mezes perdidos pelos bosques, e mal 
guiados pelas estrelas que aparecem á ordem do Astrónomo e 
que se occultão á do Antiquário ! ! 

E para que não falte contratempo, no meio desta dura pere- 
grinação, a um profano como eu, até uma outra discussão veio 
tornar esta jornada ainda mais fastidiosa tendo-se lembrado de 
le bon Soucy de vir ressuscitar e interpretação de inscripções Phe- 
nicianas e púnicas, repetindo Qussins e Champolieu (o grande) 
ao que o ciomento Quatremer fez á^effroyables grimaces. 

Queira V. S.'^ ter a bondade de mandar entregar as cartas 
inclusas e acredite-me seu. 

Do Visconde de Santarém para Macedo 

Paris, 25 de Maio de 1843. 

111."'° e Ex."'" Snr. 

Depois de ter escripto a V. S.^ a minha carta de 21 me che- 
garão as suas interessantíssimas, de 21 e de 7 do corrente ás 
quaes responderei pelo correio de 2.a f.a. 

VOL. VI 22 



338 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

Remetto as inclusas do nosso Am.° Walckenaer e do P.« Ro- 
quette, e uma p.« J.^ Manoel. 

Seu como sempre 

Visconde de Santarém 

Do Visconde de Santarém para Macedo 

Paris, 29 de Maio de 1843. 

///.'"'' e Ex.""" Snr. 

Horas depois de ter escripto a V. S.« a m.-^ carta de 21 deste 
me chegarão as suas interessantíssimas de 28 d'Abril e de 8 do 
corrente, e com estas o seu officio de 26 do irez passado, agra- 
decendo-me, da parte da nossa Academia, a remessa do 3." Vo- 
lume do Quadro Elementar, que tive a honra de lhe offerecer 
por via de V. S."'. As expressões que a este respeito V. S.** me 
dirige augmentão a minha gratidão para com a Academia e para 
com V. S." a quem devo tantas e tão constantes finezas. 

As suas duas ultimas cartas são para mim tão preciosas, e 
contem tanta matéria que exige resposta feita de espaço, que me 
parece difficil tarefa de emprehendel-a para ir por este ex- 
presso. 

Grande praser me dá V. S." no que me diz acerca do 3." 
volume da minha obra. Concordo com a observação e juiso que 
V. S." faz dos motivos que talvez induzião Catharina de Medí- 
eis (1) a favorecer D. António. (2) O livrinho que V. S.^ falia não o 
conheço. Desta indicação me heide aproveitar seja para a Se- 



(1) Catharina de Medicis. — Rainha de França, regente na menoridade de 
Carlos IX; adulando conseguio reinar mais do que o rei. Era filha de Lou- 
renço de Medicis e esposa de Henrique d'Orleans, depois Henrique H. Morreu 
em 1589. 

(2) D. António, era o prior do Crato que se bateu contra Filipe de Hes- 
panha quando este invadiu Portugal. Retirado em França encontrou acolho 
na corte, formou-se expedições aos Açores e, depois d' uma vida de misérias, 
morreu em 1595. 



VISCONDE DE SANTARÉM 33Q 

cção XVII das negociações que por p.*^ d'esta princeza se intenta- 
vão na Cúria seja na xix, nas que os Emb.<"^ de França tratarão 
em Inglaterra a favor do mesmo D. António. Nestas duas secções 
V. S.^ encontrará, logo que ellas publicarem, muitas cousas, 
curiosas e inéditas a este respeito. Tenho até para a Secção 
Ingleza um papel relativo ao direito de D. António tirado com 
grande luxo e com o retrato delle, que me foi mandado de col- 
lecção de Ms da Bibliotheca Cottonianna do Museo Britânico. 

O D^ Moura contenta-se com os 400 fs. pela chronica an- 
tiga. A propósito de Chronicas e Ms acabo de encontrar nesta 
Bibliotheca Real no (Fonds S' Germain) um Ms Portuguez, 
escripto no século xvi, e ra.*° bem conservado, que tem o titulo 
de Crónica de Bisnaga (1) é infolio pequeno contendo 102 folhas 
ou 204 pag.; começa = Treslado e Summario de uma chronica 
dos Reis de Bisnaga que forão da Era de mil e dusentos e trinta 
annos a esta parte que foi depois da destruição geral do Reino 
de Bisnaga. Não tem nome d'autor. Não encontrei no Barbosa 
nem nos meus apontamentos noticia alguma acerca deste escri- 
pto e de seu A.; é verdade que não fiz grandes dililengias e in- 
vestigações, por que nem o tempo me chega para os trabalhos 
mais urgentes que tenho entre mãos, é natural que V. S.^ tenha 
noticia disto. 

As cartas |de V. S.* p.^ Sedillot (2) forão entregues e a de 
Callary vou mandal-a immediatamente. 

Quanto á Memoria de Sellidot devo dizer a V. S.^ que 
M."" Lebronne longe de lhe ser contrario, antes lhe fez os maiores 
elogios na Academia e o defendeo contra os ataques de M."" Biot. 
Aquelle Orientalista tem sido criticado não só por este ultimo 
Académico mas tambme por Libri (3), da Academia das Sciencias, 



(\) Chronica de Bisnaga, manuscriptos que foram remettidos da índia. Fez-se 
depois um livro quando do centenário. Publicou-o o académico e arabista 
sr. David Lopes. 

(2) Emanuel Sedillot, orientalista francez que morreu em 1832. Seu filho, 
Luiz Pedro, continuava a sua obra e a elle se refere Santarém. 

(3) Libri, matemático e bibliophilo italiano, naturalisado francez. Fez 
roubos de muitos manuscriptos raros nas bibliothecas de França. Morreu 
*m 1869. 



340 CORRESPONDÊNCIA SCIF.NTIFICA E LITTERARIA 

que não' admitte que os Árabes conhecessem as equações do 3.*> 
gráo. P]ste Mathematico é um dos Redactores do Journal des 
Sãvants; provavelmente a idea que V. S.-^ tem da disputa provém 
da que existio com este ultimo, e que V. S.a leu á tempos nos 
Comptes Rendas da Academia das Sciencias. 

Quanto á Cúpula d'Avine de que trata já Alberonny (1) é 
negocio para mais devagar. Entretanto direi que em o planisphe- 
rio do Cardeal d'Ailly (2) (Petros d'Aliiaes) que mandei a V. S.a 
verá indicada a dita Cúpula e no que passou de um Ms Persa 
ainda é mais importante porque o Cosmographo não se conten- 
tou em indical-a, pintou-a. 

Agradeço m.'" a V. S.a as noticias que me dá acerca da pen- 
são concedida por El-Rei D. Sebastião a Camões. 

M.»" de Slane já me me prometteu exemplares de traducção 
da viagem do Sudan sendo um delles para V. S.a. 

Agradeço desde já os apontamentos das negociações do Conde 
de Tarouca (3) e muito desejo e necessito obtel-os de mérito 
como da riquíssima mina dos Ms da Liv.a do Marquez d'Angeja 
que V. S.a comprou para a nossa Academia. Fez V S.a um rele- 
vante serviço salvando estas preciosidades de serem levadas para 
paizes estranhos ou de irem por fim de tempos parar aos tendeiros. 

Quanto aos Extratos da Collecção de Manoel Pereira de Sam- 
paio ficam para mais tarde em consequência de outros de que 



(1) Jules Alberony, cardeal e ministro de Hespanha, que era filho d'uin 
jardineiro. Foi sineiro e depois de tomar o estado ecclesiastico foi guindado 
pela princeza dos Ursinos sendo o arbitro do paiz. Esteve para ser pontífice. 
Morreu em 1752. 

(2) Cardeal d'Ailly, celebre theologo francez, a quem se cognominaram 
Águia dos Doutores e Martello dos herejes, chanceller da Universidade de Paris 
e confessor de Carlos VI. Bispo de Pery e de Cambray. Cardeal e legado em 
Avinhão. Morreu em 1420. 

(3) Conde de Tarouca. Deve referir-se ao 4 conde d'este titulo que foi di- 
plomata e ministro; era filho do marquez de Alegrete. Embaixador em Londres, 
depois de ter sido militar. Impediu a paz de Inglaterra com a França e Hespa- 
nha. Na Haya assistiu á conferencia de Utrech. Foi quem acolheu o infante 
D. Manuel, irmão de D. João V. Embaixador em Vienna. Escriptor e Acadé- 
mico da Academia Real de Historia. Morreu em 1738. 



VISCONDE DE SANTARÉM 341 

necessito com a maior urgência e de que adiante tratarei. O mss 
que possue a nossa Academia da obra do P.^ António P.^ sobre os 
núncios não a conheço. Tudo quanto conheço deste género mss 
no Portugal é um cathalogo dos núncios que existia na BibUo- 
theca d'Evora e que se dizia do mesmo P.^ e um mss da Biblio- 
theca Publica de Lisboa com o Cathalogo histórico e Christão dos 
núncios por D. Manoel Caetano de Sousa. 

P.a dar a V. S.a dois exemplos do modo porque se encon- 
trão as indicações no dito cathalogo afim de V. S.a os poder 
comparar com os da obra do P.^ Per.a transcrevo o seguinte = 

1169. Neste anno mandou Alexandre 3.° (1) o Cardeal Alberto 
para Núncio a Portugal. 

1190. Neste anno Núncio em Portugal o Cardeal Guilherme por 
p.t' de de Clemente 3.° (2) 

As noticias chronologicas dos Núncios que tenho na minha 
collecção são m.'° mais ricas, pois tenho colhido muitas de diver- 
sas obras que Sousa não consultou. Estas serão em breve publi- 
cadas nos Tomos 5.° e 6.*^ do Quadro Elementar na Secção xvii 
das nossas relações com a Cúria. 

Necessito, comtudo, saber se os mss da Academia são mais 
explícitos do que as da obra do P.^ Souza. 

O reparo que V. S.a faz sobre o Arsypreste de Fyla é exactís- 
simo. E' incontestável o Arcypreste de Hita. Eu nem se quer li a 
copia da lista nem a prova pois foi o P.^ Roquete (3) que se 



(1) Papa Alexandre III, Orlando Bandinellí. Papa desde 1159 a 1181. Lu- 
ctou contra Frederico Barbarroxa que lhe oppoz mais três pontífices. Defensor 
da liberdade italiana. 

(2) Clemente III, Paulo Scolari, papa em 1187 morreu em 1191. Preparou 
a terceira cruzada. 

(3) José Ignacio Roquette, polygrapho illustre que foi franciscano. Pregou 
o sermão de acção de graças pelo restabelecimento de D. Miguel, na egreja 
de Xabregas. Preso em 24 de junho de 18.33 e levado para o castello de S. Jorge 
ao ser posto em liberdade foi para o Alemtejo e de seguida para a emigração 
onde, com Cadaval e Lafões, declarou não pegar em armas contra D. Pedro, 
dando-lhes o ministro de Portugal passaporte para França onde o padre publi- 
cou varias obras e coadjuvou o visconde de Santarém nos trabalhos de que o 
tinham encai regado. Voltou a Portugal e foi professor do seminário. Sócio da 



342 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



occupou disso, é bem feito pelas percas que elle teve e teima em 
o não emendar, pois agora confessou-me que Slane lhe tinha 
feito a mesma observação que V. S.^ faz agora. Verei se lhe posso 
descobrir a Edição de 1638 da viagem de Liscooten (1) e se encon- 
trar logo lhe remelterei. 

Recebi o maço de José Manoel que V. S.a teve a bond.^ de 
me remetter com a sua de 28 de Abril. 

Agora responderei á sua importantíssima carta de 7 do cor- 
rente. Em primeiro logar receba V. S.i mil agradecimentos pela 
bondade que teve de ir á Ajuda tratar do meu negocio dos mss 
isto é, das notas do Index da collecção de Manoel P.a de Sam- 
paio. V. S.-'» tem rasão no reparo que fez a generalidade do meu 
pedido. Eu tenho aqui talvez 5$000 notas e summarios de cousas 
relativas ás nossas transacções com a Cúria de Roma, entrando 
neste numero talvez 2$000 Bulias. Necessito todavia em ter ex- 
tratos consideráveis de todas as Instrucções passadas aos Nuun- 
cios que se poderein descobrir, bem como as que se passarão aos 
nossos Embaixadores e Agentes mandados aquella Corte, princi- 
palmente desde os tempos antigos até ao fim do Reino do d'El-Rei 
D. Sebastião. Dos Núncios tenho poucas, pelo que respeita aos 
Agentes tenho mM^. Desejo, portanto, até para se não fazer um 
trabalho duplicado, que V. S.a, com o incansável zelo que tem 
pelas nossas cousas, quizesse ter a bondade de mandar tirar 
notas simples, chronologico remissivas, dos documentos destas 
duas classes e remetter-mas. 

Consta-me que na Bibliotheca das Necessidades existem 200 
volumes de folio e ms de tudo quanto existe nas Bibliothecas 
de Roma e ainda outras de Itália relativo a Portugal mandado 
copiar naquella parte da Europa por El-Rei D. João õ.*^, e que 
entre estas intrucções alli se encontrão as de Paulo III dadas ao 
Núncio que mandou a Portugal e que o Marquez de Pombal pu- 



Academia. Também foi secretario de despacho do Patriarcha D. Manuel. Mor- 
reu em 1870. 

(1) Linschooten, João Hugo, viajante hollandez que seguio a arcebispo d& 
Gôa, Fonseca, nas suas missões á índia. Também procurou passagem para a 
China pelos mares do Norte. Morreu em 1161. 



VISCONDE DE SANTARÉM 343 



blicou. Nunca vi esta mina. Recorrer a ella seria talvez melhor 
do que ao defeituoso trabalho de Sampaio. Necessito, todavia, antes 
destas notas, e com urgência, as que V. S.a me puder alcançar 
das Negociações de Salvador Taborda Portugal (1) que estão na 
liv.a da Ajuda = intituladas = Memorias dos sucessos que acon- 
tecerão em França e na Europa no tempo em que Salvador Ta- 
borda Portugal assistio naquella corte como enviado d'El-Rei 
D. Pedro II a Luis XVI, 3 vol. 

Este Min.*^ residio 13 annos em França. Bastão as indicações 
chronologícas e summarias das negociações que tratar. 

A remessa que V. S.a me fez do Index da preciosa collecção 
de mss da casa de Angeja deu-me m.^« praser, e muito agradeço 
este presente de que me hei-de aproveitar e também da nossa 
Liv.a da Academia por V. Sa. adquiridas ao Marq. Angeja. 



Do Visconde de Santarém para Rodrigo da Fonseca Maga- 
lhães 

Paris de Junho de 1843. 

///.'"" e Ex.""> Snr. 

A carta que V. Ex.^ me fez a honra de dirigir em 30 d'Abril 
ultimo, veio dar-me novas consolações, e novas provas do in- 
comparável thesouro que tenho na amizade de V. Ex.^ 

V. Ex.* teve a bondade de me pôr ao facto do que se tem 
passado a respeito das nossas publicações, e de que os Castilhos 
andão corridos pelo mallogro da sua tentativa. Ainda o Dr José 
ficaria mais corrido se se publicassem as entremesadas e extra- 
vagantes anedoctas que me forão communicadas dessa Corte do 



(11 Salvador Taborda Portugal, Doutor em jurisprudência cesárea pela 
Universidade. Desembargador da casa de Supplicação. Enviado extraordinário 
a Paris de D. Pedro II e lente em Coimbra. Deixou um relatório da sua embai- 
xada e morreu em 1620. 



344 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

que se passara depois que elle publicou o seu famoso Relatório, 
em uma reunião de Rapazes da Escola Castilhica relativamente 
ao que elles devião, ou se propunhão fazer dos documentos do 
Archivo do Torre do Tombo ! 

Grande prazer me deu V. Ex.* no que me diz a respeito do 
3." volume do Quadro. Fique V. Ex.^ descançado que o 4.° não 
vae menos rico. Deitará talvez a 800 ou 900 paginas. 

Terei em breve que importunar de novo a V. Ex.'*^ afim de 
fallar a S. Ex.'' o Sr. Ministro dos Negócios Extrangeiros acerca 
da prestação do 1." semestre deste anno, que se vence no fim 
deste mez, e que em razão dos prazos em que são feitos os pa- 
gamentos, depois de expedidas as ordens á Agencia, só poderei 
contar com este dinheiro para os fins de outubro ou de novem- 
bro, e os outros 3 contos para o anno que vêm. 

Para o próximo correio tratarei mais de espaço deste, e de 
outros objectos. Entretanto não devo concluir esta, sem agrade- 
cer cordealmente a V. Ex.'' o obsequio que me fez de beijar da 
minha parte as Reaes Mãos de SS. MM. 

Na conformidade da recommendação de V. Ex.» lhe remetti 
pelo Porto dois exemplares do Leal Conselheiro d'El-Rei D. Duarte. 
Rogo a V. Ex.a o favor de me dizer se elle fez fiel entrega des- 
tes livros, o que muito lhe recommendei. 

Acceite V. Ex.» de novo as expressões da minha invariável 
gratidão, e reconhecimento com que sou e serei sempre 

De V. Ex.a 
Am.o fiel e obrg,"'^ cr. 

Visconde de Santarém 

Do Visconde de Santarém para Joaquim José da Costa de 
Macedo 

Paris 5 de Junho de 1843. 

///.«no e ExJ^'' Sr. 

Tive o gosto de receber, pelo ultimo Paquete, a carta de V. S.» 
de 13 de Maio passado. Mil e mil agradecimentos lhe dou pelo 



VISCONDE DE SANTARÉM 345 

seu zelo e pelo favor que me fez mandando-me as noticias rela- 
tivas ás correspondências de Brochado que se achão nos Mss. 
■da Bibliotheca d'Ajuda das quaes logo tratarei. 

Os documentos pertencentes ás negociações do Conde de Ta- 
rouca e que se achão na collecção das negociações d'aquelle di- 
plomata são muito importantes, entretanto, o maior favor que 
V. S.^ me pode fazer agora é remetter-me de preferencia tudo 
quanto respeita para as nossas relações com a França depois da 
Acclamação d'El-Rei D. João iv que se encontrarem n'aquella 
collecção, bem como na dos Mss. da Bibliotheca Real d' Ajuda. 
e na preciosa acquisição dos Mss. do Marquez d'Angeja; 2.° tudo 
quanto é relativo ás nossas Relações com a Cúria de Roma nos 
pontos que indiquei na minha precedente carta de 29 do pas- 
sado. 

Pelo que pertence á França necessito dos Mss. de Ajuda os 
seguintes documentos ; basta por extractos substanciaes 

1.*^ — 1643 Paris razões do Conde Almirante Embaixador em 
França, a El-Rei Christianissimo, e suas respostas em 25 de Ja- 
neiro do dito anno e replica do dito Conde em 27 do mesmo 
mez. 

Embaixadas de Luiz Pereira de Castro (1). 

2.« — 1643 — 2.^ Resposta d'El-Rei de França ás razões do 
Embaixador de Portugal. 

3.° — 22 de Março — Instrucções assignadas pelo Snr. Rey 
D. João IV para Luiz Pereira de Castro sobre o casamento do 
Príncipe D. Theodosio e outros negócios. 

4.° — 23 Abril 1643 — 2.a Instrucção para o mesmo ir a Muns- 
ter como Plenipotenciário. A Munster é muito importante. 

5.° — 25 Abril — 3.a Instrucção (secreta) para o mesmo. 

6.'' — 8 Maio — Papel Latino sobre as Instrucções de Portugal 
na Paz dada por dado João Luiz Pereira de Castro a Mr. d'Avaux. 



(1) Luiz Pereira de Castro. Licenciado em direito canónico e embaixador 
de D. João iv em varias Cortes. Esteve no Congresso de Westephalia e em 
Roma onde ia buscar o reconhecimento. Publicou vários volumes e um Memo- 
rial de D. João iv. Morreu em 1649. 



346 ' CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

Ora achando-se já impressos a maior parte dos Documentos 
pertencentes ao Reinado d'El-Rei D. João iv no meu 4/' volume 
onde faço menção delles, só necessito tê-los aqui dentro em dois 
mezes para me servir das suas noticias na introducção do dito 
volume. 

O mesmo acontece com a correspondência de Christovão 
Soares de Abreu (anno de 1650), residente em França e que se 
conserva igualmente nos Mss. d'Ajuda, digo que vi nos da Coroa 
no Rio de Janeiro. 

Não acontece porem o mesmo com as negociações de Laborde 
de que tratei na minha precedente carta. 

Sérvio de pouco mandar-llie o 1." volume do catalogo de 
Mr. Sancy. Quanto ao que lhe escrevi acerca de Mr. de Slane, 
parecem-me muito acertadas as suas observações, e muito pru- 
dente o arbitro de não admittir na nossa Academia, Fraucez al- 
gum sem que seja correspondente do Instituto. 

Com effeito quando os Francezes entrão nesta Classe nas 
Academias das Inscripções e nas das Sciencias tem todos os tí- 
tulos para serem admitlidos nas primeiras da Europa, pois não 
conheço nada tão difficil como as admissões no Instituto, digo 
nestas Classes mesmo para os francezes, pois a dos Extrangeiros 
é sempre mais disputada do que a dos próprios membros effec- 
livos, e por isso é das Inscripções. Conta em o numero dos cor- 
respondentes — Ideler (l), Weleker (2), Grimm (3), Gèel (4), Pes- 
tri, Rosegartin, Sassero, Gnosford, Wacksmut (5), Peymi. 



(1) Chronologista alemão, professor de astronomia em Berlim, membro do 
Instituto de França, publicou o Ensaio sobre as observações astronómicas dos 
antigos. Morreu em 1846. 

(2) Frederico Theophilo Weleker, philologo e archeologo alleraão, auctor 
dos Monumentos antigos. Morreu em Roma em 1868. 

(3) Grimm. Refere-se ao philologo alemão Jacques Liriz Carlos irmão 
do celebre contista, Carlos Grimm. O primeiro morreu em 1869. 

(4) Guilherme Geel, areheologo idglez que fez escavações nas ilhas 'oni- 

cas, na Grécia e em Pompeia e acompanhou a rainha d'lnglaterra á Itália como 

camarista. 

(õ) Ernesto Wachesmut, professor em Madgburgo e Zerbest. Escreveu a. 

Historia antiga do Império Romano alem de varias outras obras de historia, 

sobretudo referentes á Allemanha. Morreu em 1866. 



VISCONDE DE SANTARÉM 347 



Mr. de Slane está naturalisado francez e como reside sem- 
pre em Paris, e tem o seu domicilio real nesta Capital, perten- 
cendo até á Guarda Nacional, não pode ser correspondente agrí- 
cola porque a isso se oppõem a Ley orgânica do Instituto. Só 
poderá com o tempo vir a ser membro livre ou effectivo, mas 
por agora ainda me não parece que a sua admissão poderá ter 
logar, pois tem contra si um grande numero de votos que dese- 
jão fazer nomear Mohl (1), e outros Sédillot posto que este ul- 
timo já tenha perdido 2.^ vez a elleição vendo triumphar os seus 
rivaes apesar de ser sustentado por Letronne (2) Rochette (3), 
Quatremer (4), e até pelos Ministros. 

Entretanto Mr. de Slane tem amigos na Academia de ambos 
os lados, mas isto não faz nada para as admissões pois estas de- 
pendem de mil circunstancias que seria mui longo senão impos- 
sível detalha-las em uma carta. Não desejava eu sempre o silen- 
cio a respeito de V. S."" mas é certo que os seusíamigos pensão 
em V. S.'^ e devo fazer justiça a Burnouff (5), muito desejo que 
se apresente a occasião opportuna para se levar a effeito este 
negocio. A demora que tem havido tem procedido do desbarato 
que soffreo a antiga maioria e de novo se vai formando com 
muita destreza; esta parte da Academia tem tido a combater 
uma com a ligação (na phrase dos jornaes de Lisboa) dos ho- 
mens mais activos e bavards da Academia, homens que não 
admittem saber senão nos Allemães, e Italianos porque de lá 
lhes vêm em paga (isto aqui para nós) (posto que seja notório) 



(1) Júlio de Mohl. Orientalista allemão, naturalizado francez e que morreu 
em 1876. Traduzio do Schah Nameh. 

(2i João António Letronne. Geographo, archeologo e erudito francez que 
fez grandes trabalhos de archeologia egjpcia. Morreu em 1848. 

(3. Dos Raul Rochette, archeologo francez, chefe da expedição scienti- 
fica á Morea. Auctor do curso de archeologia. Morreu em 1854. 

(4) Estevão Quatremere, sábio archeologo francez. Fez um grande estudo 
sobre Júpiter Olympico. Morreu era 1847. 

(.5) João Luiz Burnouff, philologo francez que morreu em 1844. Seu filho 
Eugénio foi ura orientalista distincto. 



348 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

as cruzes e as fitas. Um artigo sobre os prodígios que tem feito 
o rei Otton na Grécia mandado por Rochette de sua ultima via- 
gem á Allemanha a Revae des Musés ganhou-llie a cruz do Sal- 
vador da Grécia e as boas graças do rei da Baviera que ama e 
protege as Bellas Artes e ultimamente a sua ida a Munich á ins- 
tallação do Grande Templo da Immortalidade ganhou-lhe a cruz 
do Mérito da Baviera. E não f aliemos em Letronne que esse se- 
gue outra vereda. 

Daqui em diante tratarei de lhe mandar as folhas d'Albufeda 
por Londres. V. S.^ deverá receber as ultimas ainda a tempo de 
servir delias para a sua memoria. 

Quantp ao catalogo de Livraria do Ministério da Marinha 
tratarei de lhe remetter um exemplar. Espero arranjar o negocio 
da troca das obras que se pubhcão por aquelle Ministério, por 
alguém da nossa Academia. Heide tratar deste negocio esta 
semana se poder ver o Ministro e Mr. Daussy Wappaus. Ainda 
não publicou senão a 1.*' parte em 1 volume e suspendeu a 2.'^ 
em consequência do que lhe escreveo Mr. de Humboldt ponde- 
rando-lhe que devia esperar a minha publicação a qual já lhe 
remetti para Gottingue. As minhas Recherches sur les Découvertes 
Africain.es estão-se traduzindo em Allemanha e esta edição será 
mais completa do que a Franceza pois tenho mandado, e conti- 
nuarei a mandar, muitas e importantes addições que vão entrar 
no corpo da obra. 

Agradeço a V. S.^ a noticia que me dá relativa á mi- 
nha collecção de Mss. que está no Archivo e só agora soube 
pela sua carta que lhe devia mais esta finesa de mos ter 
salvado. 

E' com effeito mais regular que tendo a dita Collecção entrado 
p.''^ aquella Repartição por uma portaria, deve sahir por outra. 
Para o Paquete seguinte enviarei ao Ministro sobre este assum- 
pto, e em lugar de remetter a minha carta conforme o costume 
ao P.° Min.*^ dos N. E., enviala-hei a V. S.''^ e ao mesmo tempo 
uma authorisação a V. S.^ para os receber, rogando então a 
V. S.^ queira ultimar esta bôa obra, fatiando ao Ministro. Se ao 
terrível tempo que temos tido aqui á mez e meio succeder 
alguns dias toleráveis irei ver Mr. Lekun afim de ver se 



VISCONDE DE SANTARÉM 349 

posso arrancar a collecçâo Oriental. Darei hoje um exemplar do 
seu discurso a Barbosa. 

Acceite V. S.-'* os sinceros protestos. 

Visconde de Santarém 

P. S. — Restituo a carta d'Herculano (1) e aguardo a nota 
sobre as cartas e negociações de Brochado, ora não se achando 
nesta collecção da Bibliotheca R. d' Ajuda a correspondência de 
Paris e como encontrarse-hão algumas relativas ás negociações 
que este ministro tratou durante a sua missão nesta corte nos 
3 volumes e 4 que possue hoje a nossa Academia e que formão 
parte do cathalogo dos Mss. da casa Angeja, que V. S.^ teve a 
bondade de me remetter,^, rogo a V. S.^ queira ver isto e man- 
dar-me ao menos uma noticia Chronologica remissiva do que 
e encontra nos ditos 3 volumes. 

Não lhe falta que aturar, tenha paciência, mas que remédio 
tenho eu se não recorrer a quem tem um zelo cheio de patrio- 
tismo hoje bem raros ? 

Queira V. S.''^ mandar entregar a inclusa a J.^ M.^'. 

Hantem me foi apresentado pelo Conde de Arcourfo Celb.^ 
Proffessor Ranke (2) de Beriin cuja conversação erudita muito 
me interessou. 

Acabo de receber uma carta do Museo na qual Mr. Desnoyer (3) 
me diz (N. B. Transcrevi o que me disse este empregado relati- 
vam.*^ á remessa dos livros do Museo). 



(1) O celebre auctor do Monge de Cister, do Eurico, e da Historia, Alexan- 
dre Herculano de Carvalho Araújo que foi uma das maiores glorias litterarias 
de Portugal. 

(2) Leopoldo Ranke, Auctor da Historia da Allemanha no tempo da 
Reforma. 

(3; Luiz Desnoyer. fundador da Societé des Gens de Lettres. Morreu era 
1868. 



350 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

Carta do Visconde de Santarém para o Conde da Ponte 

Paris, 11 de Junho de 1843. 

Meu q/" Sobr," e Am° do C. 

Pelo navio que partiu ultimamente do Havre accuzei a rece- 
pção da síla pequena carta de 22 do Maio ultimo, e lhe remetti 
um exemplar do Quadro Elementar, quero dizer dos 3 primeiros 
volumes ; agora vou agradecer-lhe os extractos que me mandou 
da correspondência do Sr. Marquez de Sande do anno de 1664. 
Disgraçadamente teve o grande trabalho de ler um volume de 
má lettra, e de se cansar, mas o que contem aquelle* extracto 
que fez é pouco mais ou menos o que iá tinha feito o Conde da 
Ericeira (1), que te.ve em seu poder estas correspondências e 
delias se serviu para o segundo volume do Portugal Restaurado. 
Mas este escriptor, como todos os nossos, não só erão Chronolo- 
gistas, não tinhão idea da importância das datas. p.''^ bem precisar 
os acontecimentos históricos mas até lhe declaravão uma guerra 
aberta (como eu dice na Introducção do meu 3.« volume). Deste 
gravíssimo deffeito resulta que em todos os factos, e os aconte- 
cimentos se achão de tal modo baralhados e confundidos que é 
um verdadeiro labyrinto, não concordando muitas vezes entre si, 
e tornando per assim dizer a historia um cahos. Na minh^ obra 
tenho pela primeira vez, em Portugal, estabelecido a fidelidade 
chronologica. E', portanto, para os factos políticos, e mesmo para 
a historia civil uma verdadeira arte de fixar as datas de muitís- 
simos acontecimentos. Ora já vê, que todo o^ extracto de um 
documento a parte essencial delle não consiste só no anno, mas 
também na do mez, e dia. Tenho pois do anno de 1664 muitos 
extractos chronologicos que tirei á muitos annos da correspon- 



(1) Conde da Ericeira.— D. Luiz de Menezes, fez a campanha da Restaura- 
ção e concorreu para a victoria do Ameixial. Governador de Traz-os-Montes, 
vedor de fazenda. Chamaram-lhe o Colbert Portuguez. Escriptor illustre. 
Suicidou-se em 26 de maio de 1690. 



VISCONDE DE SANTARÉM 351 

dencia do Sr. Marquez de Sande, e o que eu desejo são os 
extractos feitos mais amplamente do que os que eu mesmo tirei 
e que sejão como o Conde pode vêr principalmente tomando por 
modelos os do 3.° volume do Quadro Elemenlar. 

Queira pois ter a bondade de me mandar com a possível 
brevid.* o extracto dos seguintes documentos que se achão no 
Tomo 5.^ das Negociações do Sr. Marquez de Sande a saber 

1664 — Outubro 15 — Carta do Secretario d'Estado Ant.° de 
Souza de Macedo p.'' o d." Marquez sobre neg.o^ 

1665 — Outubro 8 — Carta d'El-Rei para o mesmo sobre as 
duvidas que occorrião com os francezes sobre as salvas dos na- 
vios, etc. 

No mesmo T. 5.o e no Liv.<' 3. o das cartas que lhe escreveo 
El-Rei em os annos de 1665 e 1666. 

Ora tendo já aqui impresso todo o reinado, digo os documen- 
tos do reinado d'El-Rei D. João IV*' os quaes entrão no 4.° volu- 
me do Quadro, se os extractos que peço não vierem com muita 
brevidade, só delles poderei então fazer menção mais detalhada 
na Introducção. 

Desculpe esta tarefa, mas que remédio tenho eu senão recor- 
rer a quem tem a sua capacidade, e boa vontade, apesar de 
muito me arrenegar o laconismo das suas cartas. Se mas não 
escrever maiores e mais circumstanciadas daqui até ao fim de 
Agosto não pilha o 4.° volume que é riquíssimo. 

Que faz o nosso Conde de Lavradio ? Recebeo o meu volume 
que o Conde lhe devia entregar? Mas elle não tem tempo para 
o ler com as fadigas Parlamentares nas quaes elle toma uma 
parte bem activa. 

Que tem dito os Castilhos Doutores, e não Doutores, Poetas, 
e prosaicos na Revista Universal ? Ainda vive ? 

AD.* Tenha-me na sua graça e acredite que sou como sempre 

Tio e Am.o f. e m.'» obrg.° 

Manoel 

P. S. O Abbade Gazzera m.'*^ se lhe recomenda. 
Queira mandar entregar logo a inclusa á Tia Pombal, pois é 
uma resposta que S. Ex.* exigio de mim com urgência. 



352 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

Do Visconde de Santarém para Macedo 

Paris 12 de Junho de 1843. 

///.'"'' Snr. 

Pelo Paquete de 21 não tive cartas de V. S.^. Talvez estejão 
encalhadas na Embaixada Franceza em Londres, pelo ultimo 
porém tive o gosto de receber a sua de 28, e com esta as Copias 
dos documentos que se encontrão na Relação da Embaixada de 
Monteiro-Mór por J. Franco Barreto. Já tinha tudo isto impresso 
e mesmo as lustrucções Secretas datadas de 23 de Jan.° de 1641 
passadas ao m.™° Emb.^"" que Barreto não publicou. 

Sinto que o volume das Negociações do C. de Tarouca da 
Livr.a desaparecesse. Ainda existia alli no meu tempo isto é á 
20 annos. Segundo me posso recordar neste momento os 17 que 
temos das negociações deste Diplomata contém as suas Coramu- 
nicações officiaes da Missão da Hollanda, segundo as notas que 
tenho. Em outra occasião tratarei deste assumpto. 

A obra do Meu Collega e am"° Paulin Paris (1) é mais alguma 
cousa do que um simples Catalogo dos Mss. da Bibhotheca Real. 
Não comprehendo todavia as differentes classes de Mss. de que 
compõem este riquíssimo thesouro pois não comprehendo os 
orientaes nem os Latinos e gregos. 

Este trabalho é Curioso e muito importante para se consultar 
ao menos no meu modo de vêr. Tem já publicado 5 volumes in 
8.°. Esta obra vende-se em casa de Techene, custava de 30 a 40 
frs.. Paris tem-me sempre feito presente dos volumes á medida 
que se publicão e portanto não sei o seu preço exacto, mas tra- 
tarei de me informar deste negocio de que darei conta para o 
seguinte correio. Quanto ao que V. S.^ deseja saber para os tra-^ 
balhos do nosso Consócio P.^ Castro eis aqui o que existe rela- 
tivamente a Diccionarios e vocabulários de Árabe Vulgar = 



(1) Erudito francez celebre pelos seus estudos da edade media. Morreu 
em 1881. 



VISCONDE DE SANTARÉM 353 

l.*' Mj Caussin de Perseval, da Sociedade Aziatica publicou 
um Diccionario Francez e Árabe (vulgar) em 1 vol. in 4.°. Cujo 
diccionario foi composto por um Egypsiano chamado Bochtor — 
Custa 60 francos. 

2.0 O Diccionario Francez e Árabe (vulgar) por Mareei, em 8 
que custa 15 fr. 

Além disto o meu Consócio no instituto M.'" Humber, de Ge- 
nebra, publicou um vocabulário — da mesma lingua — e existem 
além deste 3 ou 4 vocabulários Militares para uso das tropas e 
officiaes Francezes na Província d' Argel. 

Mr. de SIane acaba de me entregar três exemplares da sua 
traducção intitulada : Voi/age Dans le Soudan por Ibri Balenta, 
traduit les Mss de la Bibliotheque du Rol. Hoje mesmo os remetti 
para a Legação offerecendo, porém, o mesmo orientalista 2 exem- 
plares a V. S.^. Julguei dever tentar a remessa de um pelo Cor- 
reio de 6.''^ feira afim de que possa chegar ás suas mãos com a 
possível brevidade. Mr. de Slane entregounos, com a carta que 
acompanhará os dois que remetto juntos. 

Queira V. S."' ter a bondade de mandar entregar a inclusa 
a meu Sob.^ (nesta remetti a resposta á Tia Pombal). 

Tendo-me o Conde de Circourt (1) dado vários Exemplares 
de um art.o que elle publicou na Bibliotheque universel de Ge- 
neve sobre a ultima obra de Mr. de Humboldt. UAsie Cenirale^^ 
pedi-lhe que me desse licença para offerecer um a V. S.^ o qual 
rèmetto igualmente pela Legação. 



Carta do Visconde de Santarém para Rodrigo da Fonseca 
Magalhães 

Paris 19 de Junho de 1843. ///.'"" e Ex."'° Sr. 

Tive a fortuna de receber pelo ultimo Paquete a estimadíssi- 
ma carta de V. Ex.''^ de 5 do corrente e que me deixou todavia 



(1) Litteiato francez que fez parte da expedição á Argélia. Escreveu nar- 
rativas de viagens para a Bibliotheca de Génova. Jornalista. 

Vol. VI 23 



354 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

inquieto pela má noticia que V. Ex.'' me dá do incommodo de 
saúde que então experimentava. Depois da importantissima carta 
que V. Ex.*' me fez a honra de escrever, em 30 d' Abril, não 
soube mais nada do negocio das nossas publicações. Provavel- 
mente a estas horas estará decidido o negocio da verba do orsa- 
mento. 

Em todo o caso, parece-me que tenho direito a pedir que se 
mandem as ordens á Agencia em Londres para pôr á m.^ dispo- 
sição a prestação pertencente ao 1.° semestre deste anno a fim 
de occorrer ás continuadas despezas da publicação do Quadro, 
6 das ultimas cartas para o que fui autorisado pelo Duque, como 
V. Ex.^ sabe. O 3.° volume custou mais ainda do que os dois 
primeiros, em razão de conter quasi o mesmo numero de folhas 
que os ditos dois primeiros volumes, e além disso pelas muitas, 
e extensas notas que augmentão o preço e despeza da composi- 
ção do texto. Além disto fiz gravar 20 monumentos geographi- 
cos, e comprei já papel para os volumes seguintes. 

Queira V. Ex.% pois, com o seu incomparável zelo, e bondade 
p.3 comigo dignar-se tratar deste assumpto com S. E. o Sr. Min "^ 
dos Negócios Estrangeiros, e com o seu collega da Eazenda. 
Incluo a copia de um artigo que se publicou em um Jornal Scien- 
tifico de Nápoles a respeito da minha obra sobre os descobri- 
mentos dos Portuguezes. Não mando a V. Ex.^ o original por 
que pertence ao Instituto. 

Os dias passados se publicou outro a este mesmo respeito no 
Jornal Scieniiíico = Nouve lies Annales des Voyages, 4'™« Serie == 
Maio = 

Continue V. Ex.^ a dar-me noticias suas, e acreditar nos in- 
variáveis sentimentos de fiel amizade, e gratidão com que me 
preso ser 

De V. Ex.« 

Am.° f. e obrig.^^o servidor 

Visconde de Santarém 

P. S! — Além das despezas de que acima trato, pago á muito 
a dois indivíduos que copião nos Archivos aqui, e nas Bibliothe- 



VISCONDE DE SANTARÉM 355 

€as OS documentos p.^ o Corpo Diplomático, e Quadro, e qire 
sendo anteriores ao século 17 não podem ser copiados por An- 
drade, que não sabe lêr os antigos Mss. e que só algumas vezes 
copia cousas modernas, além de que está muitas vezes doente. 

Do Visconde de Santarém para Macedo 

Paris 19 de Junho de 1843. 

III.'"'' e Ex.""" Snr. 

Recebi com muito praser a carta de V. S/'^ de 4 do corrente 
«m que me acusa a recepção das que lhe escrevi até 25 de 
Maio passado e as que lhe remetti com estas bem como os ma- 
ços, etc. Se os Liv »« da Sociedade Geológica não forão pela mes- 
ma occasião não foi por culpa minha mas estes Srs. d'aqui vem 
sempre pela exactidão. O Agente tinha-me promettido de os re- 
mettér a tempo para irem pelo navio, mas deixou passar o tempo 
que lhe marquei e foi necessário ir eu mesmo buscalos quando 
soube que elle os não tinha mandado, infelizm.'^ porém já a 
caixa tinha sido expedida, espero porém que a estas horas já 
V. S.^ os terá recebido. 

As minhas riquezas estão todas sempre ás ordens e disposi- 
ção de V. S.^. Ultimamente recebi d'Stocholm um Planispherio 
que se acha n'um Mss de Marco Polo (1) de 1350 e em Marselha 
estão já 2.^s cartas, digo fac-similes de duas cartas encontradas 
em Hespanha do século xv, sendo uma delias unisona a qual, se- 
gundo me escreve o viajante Francez que ma obteve, tem uma 
Africa muito curiosa. A pessoa que me fez este obsequio é um dos 
litteratos Francezes encarregado por este Gov.° de comprar Mss. 
em Hespanha e que Mr. Willemani Min.° da Instrução PubHca 
aqui me mandou antes da sua partida. Quando teremos nós via- 
jantes encarregados de comprar M. M. para as nossas Bibliothe- 
cas. 



(1) Celebre viajante italiano que atravessou a Ásia pela Mongólia e vol- 
tou por Sumatra. Morreu em 1323. 



356 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

^ Remetti para a Legação, com a traducção de Ibn Batuta do 
ms de Slane a Dissertação do Bibliothecario de Nuremberg, sobre 
os Globos de Martinho de Bohemia e de Schõner recommeadei a 
Barhose que os mandasse para Londres pelo correio. 

O meu Sob.*' Ferrão comprou toda a preciosa coll.^ dos Mss. 
de Mr. de Sacy. O novo Visconde da Carreira aqui chegou na 
Seg.''^ f.^ 12 do corrente ás 10 da manhã e tive logo o praser 
de o ver. Entregou-me a obra do Abbade Avri para Mr. de Slane 
o volume da nossa Academia que me parece apenas conter as- 
sumptos muito interessantes. 

Recebi igualmente a carta de José M.^' que V. S.^ me remet- 
teo com a sua de 4 do corrente. Queira V. S.^ ter a bondade de 
lhe mandar entregar a inclusa. Elle dá-me a terrível noticia de 
que lhe constava que o famoso Castilho apesar de ter pilhado o 
lugar da Bibhotheca ainda tratava de ter ingerência no Archivo ! 
Julguei pelas seguranças que dahi me tinhão sido dadas e pela 
maneira mais solemne que estava o Archivo livre deste grande 
perigo e eu tranquilo quanto a este ponto, pois o tal sujeito tem 
vistas, e projectos largos em mais de um sentido. 

Quanto ao catalogo da Bibliotheca de Mr. de Sacy está V. S.-'^ 
servido sem que lhe custe um real. Vou remettel-o p.^ a Lega- 
ção. Espero obter o Solvet da traducção de Aboulfeda. 

Mr. Tro\^er acaba de me entregar a carta inclusa p.^ V. S.^ 
acompanhada do 2." vol. da sua traducção do Dahitans o qual 
vou remeíter hoje m.™° pela Legação e que só poderá partir 
pelo próximo ou por algum expresso, ou pessoa que parta para 
ahi levando despachos. 

Do Msconde de Santarém para Macedo 

Paris, 23 de Junho de 1843. 

///.'"'' Sr. 

Offereço a V. S.'^ um Exemplar do art. que o Conde de Cir- 
court publicou sobre a obra de M."" de Humbold = UAsie Central 
= Recebi ultimam.*^ a carta de V. S.a do 20 de Maio passado 



VISCONDE DE SANTARÉM 357 

acompanhada de algumas copias de documentos que se encon- 
trão nas Negociações do Conde da Tarouca o que m.^° agradeço 
a V. S.^ e ontem recebi a sua de lO do corrente. 

Pelo correio de 2.^ f.a responderei a ambas. 

.Já remetti p.'' a Legação o catalogo da Bibliotheca de 
Mj de Sacy. 

Sou de V. S.^ 

Visconde de Santarém 

Para o Ministro dos Negócios Estrangeiros 

Paris, 24 de Junho de 1843. 

IIL""> e Ex.""" Sr. 

Tenho a honra de accusar a recepção do Despacho que V 'Ex.'' 
se serviu dirigir-me sob n.° 3 em dafa de 10 do corrente. 

Agradeço infinitamente a V. Ex.^ as mui obsequiosas expres- 
sões do mesmo Despacho relativas ao volume terceiro da minha 
obra sobre as nossas Relações Politicas e Diplomáticas. 

Deus Guarde a V. Ex.». etc. 

Visconde de Santarém 

Do Visconde de Santarém para o Conde da Ponte 

Paris, 24 de junho de 1843. 

Meu q.do Sobr." e Am.° do C. 

Recebi com o maior prazer a sua interessante carta de 11 do 
corrente, e os importantíssimos documentos tirados das Negocia- 
ções Mss. do Snr. Marquez de Sande. 

Vierão estas peças a tempo de serem publicadas no 4.'^ vo- 
lume da m.^ obra. Muito, e muito lhe agradeço o grande traba- 



358 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

lho que teve p/ m.« causa, e não sou menos grato á bondade 
que teve em me dar noções de outras na sua carta. 

Tive um prazer immenso'com a noticia que me dá acerca do 
que lhe disse o Duque de Palmella a meu respeito, e das publi- 
cações que tenho feito, e estou fazendo. Rogo-lhe queira mani- 
festar-lhe quanto isto me lisongeou, pois a elle devo o grande 
impulso que dei a esta immensa obra, em consequência do muito 
que elle se interessara em 1824 sendo Ministro do Reino para que 
ella fosse continuada etc. 

Já lhe remetti um jogo completo do Quadro Elementar, e 
consequentemente não deve ralhar. 

A cartinha para a Sob. a que me mandou com a minha foi 
devidamente entregue. 

O C. do Lavradio leu o meu 3." volume? 

Não me é possível ser hoje mais extenso, e acredite que sou 
como sempre 

Seu Tio e Am.» Obrg.™« 

Manoel. 
P. S. 

Muitos recados do Abbade.Gazzera. 



Do Visconde de Santarém para Macedo 

Paris, 26 de Junho de 1843. 

111.'"° e Ex.'"" Snr. 

Segunda feira passada, recebi a carta de V. S.^ de 20 de Maio 
ultimo. 

Depois de ter recebido, tratei de vêr se encontrava o abbade 
Gazzera, mas não o achei em casa nem o tenho visto na Bi- 
bliotheca nem em outras partes onde nos encontramos. Logo 
que o torne a vêr tratarei de lhe dar os seus recados e de saber 
quando parte para Turim. 

Quanto á Edição da obra do Conde de Paris de 1840 que 
Mr. Reinaud cita foi publicada por Bodrie em 1 vol. 



VISCONDE DE SANTARÉM 359 

Conheço a de Madrid, e a traducção de Marbés em 3 tomos 
de 8.° Paris 1825 que possuo 

In 8 em Columnas — Conta 10 pg. 

E' apenas uma nova Edição. 

Agradeço muito a remessa nas copias dos Mss do Conde de 
Tarouca, conferi o Cap. xxviii da chronica d'El-Rei D. Affonso 4.'' 
que V. S.^ me eiiviou tirada da que se imprimio em Lisboa em 
1656 (com a correspondência) da chronica Mss que se acha 
no códice 1587 (fond S. Germano) nesta Bibliotheca posso segu- 
rar a V. S.'' que é inteiramente o mesmo, mesmo sem variantes, 
consequentemente a chronica Mss que se encontra neste códice, 
não nos serve de nada, e só tem alguma importância por ser 
escripta nos principios do século xv ix.» 6.*' f.^ agradeci no Insti- 
tuto a Mr. Reinaud da p.'^ de V. S.* as folhas d'Aboulfeda. 
Os 5 volumes do cathalogo dos Mss da Bibliotheca publicadas 
por Mr. Paris. Vendem-se a 7 f . consequentem.'^ custão 35 f. Pa- 
rece-me que já escrevi a V. S.^ acerca do presente que Mr. Bona- 
four (1) fez á nossa Academia da sua= Histoire Naturelle du Mais, 
e que foi remettida pelo A. com outro Exemplar ao Ministro do 
Reino. V. S.a deve receber este liv." enviado pelo Min.° — 

Matrizes de Typos Árabes — sem custo. 

Vou responder á sua de 10 do corrente. Quanto ás communi- 
caçôes feitas p.''' jornal á nossa Sociedade de Geographie acerca 
das publicações da carta de Hereforo já informei a V. S.^ deste 
negocio na carta que lhe escrevi em 8 de Dezembro do anno passado. 

Tem feito muita bulha com isto apresentando as provas desta 
carta que fez cortar em 8 folhas numeradas para deitar poeira 
nos olhos deste publico e até agora ainda não está publicada. 
Consta-me que foi a gravar o Mappa Mundi edix que já foi 
dado por Vincent (2) como V. '&.^ sabe, e que mandou gravar 



(1) Matheus Bonafour, agrónomo e philantropo francez que trabalhou 
muito na acclimação de plantas extrangeiras. Morreu era 1852. 

(2) Vincent, dominicano francez que escreveu o Speclum mapus onde 
dá o resumo do conhecimento scientifico do século xm. Foi muito querido na 
corte de S. Luiz. Morreu em 1264. 



360 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

um Globo Celeste Arabe que possue a Bibliotheca, e que elle 
me quiz persuadir ser anterior ao que deo Allemani (1). O que eu du- 
vido é que elle publique uma dissertação semelhante á que fez 
aquelle Orientalista. Ora como elle tem por habito a dissimula- 
ção, ninguém sabe o que elle vai publicar, nem qual é o seu 
plano, o que eu sei, e todos sabem que a maneira de Jonard é 
fazer fallar de si. 

A carta d'Obber Miiller faz parte de um trabalho considerá- 
vel que elle se propõem a fazer. Quando me veio communicar, 
aconselhei-o a que ouvisse algumas pessoas que lhe podiam minis- 
trar excellentes e proveitosas noticias. O general Hermeloff foi 
encarregado pelo nossa Socied.*^ Chronologica de fazer um rela- 
tório sobre estas cartas o que effectivamente fez. Espero que se 
publicará em o volume da sociedade que se está imprimindo. En- 
tretanto a carta vende-se e, custa 7 f. e 10.^ Não publicou texto 
algum. 

Quanto ao valor litterario das cartas meterologicas e oro- 
graphicas da Europa de Mr. Desjardins direi que é nenhum 
pois o seu A. apenas o vi na Sociedade de Geographia e lhe 
ouvi dizer algumas palavras, pareceo-me que não era homem p.^ 
desempenhar taes trabalhos. Se tivesse tempo contaria a V. S.^ 
os Sarcasmos d'Eyriès quando elle as apresentou. A colleção, 
compoem-se de 8 cartas, que custão 11 fr. e 25 soldos. 

A Carta hyodographica da Carta N. O. de Madagáscar é boa 
como em geral todos os trabalhos de Bérard. Não me consta que 
se venda. Espero poder alcançala no Deposito da Marinha. 

Quanto á Carta do theatro da Guerra das Crusadas, gravada 
por Jacobs é optimamente gravada e em forma Atlântica. Não 
se vende. Foi mandada gravar para acompanhar a Edição de Gui- 
lherme de Tyro que a Academia das Inscripções vai publicar. O 
meu am.*' Sobral está encarregado pela Academia do trabalho dos 
Commeutarios, e antes da sua partida para o Oriente já a im- 
pressão estava muito adiantada. 

O Busto do Infante D. Henrique é tirado do retrato da Chro- 



(1) Nicolau Allemani bibliothecario do Vaticano. Morreu em 1626. 



VISCONDE DE SANTARÉM 361 

nica d'Azurara, quem tem esta lembrança tem feito grandes 
diligencias para alcançar uma das nossas Ordens. 

A Geographie ancienne des Etafs Barbaresques é a traducção 
da obra -de Mannest acompanhada de notas, e addições por Marcus. 
Esta obra posto que publicada pelo Ministério da Guerra vende-se 
por 10 fr. é um volume de 830 tantas paginas. 

Não mandei a V. S.-^ a m.a noticia sobre André Alvares 
d'Almada (1) por que julguei que não o podia interessar em razão 
de ser um resumo feito por Ternaux e publicado nos Annaes das 
viagens precedido de uma pequena noticia minha que é tirada 
pela maior paute do Prefacio do Editor. Que todavia analisei em 
alguns pontos. 

Persuadi Ternaux a isto só para íazer conhecer um escri- 
pto nosso sobre a costa da Guiné, posto que pertencião a Azu- 
rara, todavia anterior ao que publicarão os Hollandezes e Fran- 
cezes sobre aquellas regiões. 

Se todavia V. S.^ deseja ter estas bagatellas bem sabe que 
pode contar com ellas como se fossem suas. 

Quantos aos erros das datas e confusão que V. S.^ notou no 
Relatório de Mr. de La Roquette na p.*^ que nos diz respeito 
é como tudo quanto fazem m.*°^ destes Senhores, procedendo 
com a maior etourderie. Eu não sei p.*^*^ que fatalid.^ elles 
mudão m.^^s vezes de datas. Todas as Notas que dei a de la Ro- 
quette erão exactas mas como elle tem muita vivacidade e deseja 
abranger tudo ao m.™" tempo, p."' isso deixou passar taes ana- 
chronismos ^em corrigir nas provas, e se mas tivesse confiado 
como algumas vezes o tem feito Mr. Lettronne quando publica 
alguns artigos geographicos no Journal des Savants e ultima- 
mente o praticou Mr. Pardessus (2) confiando-me na Academia os 
da parte da sua obra Des Loies Mariiimes antérieuremenl a la 



(1) André Alvares d'Almada. — Caboverdeano illustre do século xvi. Cor- 
reu mundo e escreveu um livro sobre as suas viagens á Guiné. Era capitão. 

(2) Jean Marie Pardessus. — Jurisconsulto auctor do Curso de direito 
comercial e das Leis maritimas no século xviii. Foi também politico. Morreu 
em 1853. 



362 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



Découverte de VAniérique relativas ao nosso Portugal, não teria 
(ie La Roquette feito taes erros. As partes que elle fez está tão 
embrulhada, que já ninguém o pode desembrulhar. Quando noto 
estes e outros erros que comettem respondem logo «Cest un 
petit malheur dont personne s'en occnpe. 

Tenho respondido á maior parte dos quesitos das suas duas 
ultimas Cartas, ficando de remise 1." o do custo de um jogo de 
Matrizes de typos Árabes — 2.^ do custo do Tableau des Etablis- 
sements Frauçais en Algérie — Se a descripção das Ilhas ou do 
banco-d'Aguim p."" Mr. Lachesli publicada em 1826 foi acompa- 
nhada de alguma carta. 

Tenha V. 8.=* tudo quanto merece, etc. 

Visconde de Santarém 
P. S. Queira mandar entregar a inclusa a meu Sob.° 

^ Para Macedo 

Paris 3 de Julho de 1843. 

///.'"" e Ex.""' Snr. 

Acabo de receber a sua carta de 17 do passado e com esta 
o importante artigo extrahido do catalogo dos Núncios composto 
pelo P.« A. Per.^ e que muito agradeço. Sinto que V. S.« tenha 
passado incommodado. Com a sua carta recebi também um exem- 
plar do seu discurso. 

Quanto ao jogo das Matrizes de typos Árabes eis aqui a res- 
posta que me foi dada em carta de 27 do passado. 

«J'ai fais des renseignements sur les matrices de caracteres 
«Árabes que vous m'avez dit être dans Tintention de vous pro- 
«curer et on m'a repondu que les fondeurs, ou graveurs en 
«caracteres, n'avaient que les leurs dont ils n*abandonnaieut lá 
«propriété qu'avec des grandes sacrifices, parce qu'elles les 
«servaient à fondre tous les caracteres qu'ils vendant. Si au lieu 
«de matrices vous pouviez vous contenter de caracteres graves 



VISCONDE DE SANTARÉM 363 

«OU fondus vous pouviez vous adresser a Mr. Laiirent e de Berny 
«Rue des Marcus S.' Germain n° 17 dont vous seriez parfaite- 
«ment content.» 

Ha annos que não sei se M.^"^ Pinard continua o Estabeleci- 
mento de fundição de caracteres typographicos que eram excel- 
lentes mas receio que esteja perdido como se perdeo o estabele- 
cimento typographico em consequência da confiança que ella 
poz em um homem hábil mas astuto e interesseiro que a sacri- 
ficou segundo me contou a familia. 

Tratarei todavia de me informar por Maulde e Renaud com- 
pradores dos restos da typographia que ella possuia. 

A Didot não fallarei neste negocio, por que por muitas vezes 
me tem repetido que nunca lhe pagarão as remessas de typos 
que lhe comprarão para a Universidade de Coimbra. 

Hontem vi o Almirante Halgan(l), Director do Deposito da 
Marinha, e tratei do negocio que V. S." me encomendou para se 
effectuar a troca das Memorias, e outras obras da nossa Acade- 
mia pelas publicações feitas pelo Ministério da Marinha, e pelo 
Deposito desta repartição. Tive igualmente uma larga entrevista 
com Mr" Dansy sobre este assumpto, e espero mandar-lhe para 
o correio seguinte uma resposta favorável conforme me foi pro- 
mettida. 

Para este effeito entreguei uma nota contendo a proposta para 
os obrigar a responder por escripto afim de regularmos este 
negocio não só pelo que está publicado mas também para o que 
se publicar no futuro. Mr. Dansy ficou de me mandar as Tables 
des Positions geographiques de 1818 que lhe falta e as pos- 
teriores de 1843. 

Hontem recebi uma carta do Guarda Livros de M.""^ Dordey 
Descoplies na qual entre outras cousas me diz o seguinte : 

«Nous sommes toujours en attendent les ouvrages que FAca- 



(1) Emanuel Halgan. — Vice-alrairante francez que fez as campanhas du- 
rante a revolução contra os inglezes. Governador de Martinica e por fim dire- 
ctor do Deposito de Marinha d'onde se demitiu em 1846. 



364 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



«démie de Lisbonne ne voiis á pas envoyé (c'est à dire le 2." 
«vol. D'Ibii-Batiita) et qui font partie dii reçu que nous vous 
«donné. Elle à aussi un petit reste de coinpte à nous faire passer 
«pour ceux que nous lui avions livre depuis notre d.*''' envoie. 
«Je recommende toutes les petites reclaniations à votre bienveil- 
«lente sollicitude.» 

Os Portulanos do Bouquinista-Mór ainda se não venderão e 
hontem me prometteo que é sua volta de uma pequena viagem 
(jue vai fazer entraremos de novo em discussão sobre este as- 
sumpto. Se quizer m.*** não terei remédio senão persuadir o 
Ferrão a compralos. 

A propósito de Portulanos, recebi sabba3o de Hespanha um 
fac-simile de um curioso planispherio que se acha em um Mss. 
do X." Século que pertence á Bibliotheca de Aragão. 

Também veio vêr-me Mr. Biot, e fallando-lhe nas publicações 
que fez ultimamente e de que trata a sua carta de 10 de Junho 
prometteo-me logo de mas mandar p.» serem para ahi remetti- 
das o que farei logo que as receba. 

Para Macedo 

Paris 9 de Julho de 1843. 

111.'"° Snr. 

Até agora ainda não recebi carta de Lisboa sendo as ultimas 
de 17 do passado. Não se recebem tão pouco em Paris as gaze- 
tas de Lisboa á dois correios, provavelmente por estarem enca- 
lhadas em algum porto de Hespanha ou interceptadas pela insu- 
reição daquelle malfadado paiz. 

Não tendo pois hoje cousa alguma a que responder, limito-me a 
auuuciar-lhe, que me. descobrirão em Hespanha mais alguns mo- 
numentos geographicos de que se estão tirando os calques, e são 
os seguintes: 1.° duas cartas á'Etienne Bremond Cosmographo 
= Faite à Marseille par moi Etienne Brumond, 2.» de Mesconte 
de Maiollo composait Hani Cartam in yaunna An. D. 1535. 

Com esta encontrará V. S.^ uma prova de mais dois Planis- 
pherios que mandei gravar a saber o que se encontra no Mss. 



VISCONDE DE SANTARÉM 365 

da Cosmographia d'Araph, e o do Polycronicon a Ralmulplus 
Higgden. 

Hontem vi o Abb.'^^ Gazzera, que vae partir nesta semana p.^ 
Turin. Pedio-me que o recomendasse a V. S.'''. 

O Dr. Moura acaba de me escrever o bilhete que envio. 



Para Macedo 

Paris 17 de Julho de 1843. 

111.'"° Snr. 

Recebi duas cartas de V. S.a datadas de 23 de Junho passada 
e de 2 do corrente. 

Estimo que V.-^S.^ encontrasse nas Memorias de Taborda 
algumas peças e noções que devão ser publicadas na minha obra. 
Eu tinha disto a certeza pelos apontamentos que em outro tempo 
colhi das mesmas Memorias. Rogo pois a V. S.''' queira ter a bon- 
dade de mos enviar com a possível brevidade. 

Agrtideço tão bem a V. S.^ o favor que me fez em ter entre- 
gado na Ajuda a m." nota para se tirarem os extractos das nego- 
ciações com a França de 1643 e 1650 e da grande Collecção dos 
Mss. de Roma da qual apenas conhecia os índices. Apesar da 
confusão destes melhor é acharem-se feitos do que não os haver. 
Estes mesmos podem servir de base e facilitar a factura de ou- 
tros Systematicos. Alguém que tenha habito destes trabalhos o 
poderá fazer sem grande difficuldade. Sei que existe na Torre 
do Tombo um volume de Mss. das Negociações de Brochado em 
França, que pertence á minha collecção de Mss. Tratarei deste 
negocio, o que ainda não me foi possível fazer pelos muitos tra- 
balhos que tenho entre mãos. Gayangos não pubhcou o meu 
Batuta; o seu Livro dice a verdade a este respeito. 

Recebi mais 3 Exemplares do seu discurso que agradeço e a 
que darei o competente destino. 

Quanto ao que V. S.^ acerca da minha obra, de que para ser 
completa conviria imprimir os documentos inteiros e que a uti- 
lidade desta publicação salta aos olhos; devo dizer que V. S.a 



366 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



prega a um convertido. Eis aqui o que escrevi na introdução do 
1." p- Lxxviii. Finalmente este trabalho preliminar do Quadro 
Elementar é apenas a base da obra regular Systematica do Corpo 
Diplomático Fortiiguez, cuja publicação deverá seguir-se á da 
presente obra. Conto terminar este grande trabalho por uma ter- 
ceira obra, que deverá formar o complemento, e consiste este na 
Historia Politica de Portugal fundada nos Tratados e mais docu- 
mentos publicados no Corpo Diplomático. 

Ora já se vê que eu entendi á m.'"^ annos que a m.a obra 
para ser completa me convinha publicar os docum.*»"* por inte- 
gra, isto os de certas Cathegorias, mas o meu exemplo foi tal a 
este respeito que ainda mesmo com esta ultima publicação jul- 
gava a dita obra completa, e só quando a S.'^ Parte i§to é a His- 
toria Politica o fosse também. 

Eirtretauto, no meu fraco entender, direi que estou convencido, 
por milhares de rasões, que a parte collossal destes trabalhos é 
a obra do Quadro Elementar. Esta verdade será provada do modo 
mais evidente quando estiver toda publicada. Acrescentarei que 
só em uma longa Memoria puderia mostrar a V. S.'"^ os funda- 
mentos desta asserção. Tal é a convicção em que estou em con- 
sequência do estudo de mais de 30 annos de tudo quanto nestes 
ramos se tem publicado n^ Europa. Uma obra Diplomática como 
Quadro Elementar não existe em parte alguma da Europa e logo 
que o Corpo Diplomático se publicar estou convencido que Por- 
tugal será a Nação d^ Europa que possuirá a obra mais com- 
pleta das suas relações exteriores. 

Com a sua carta de 2 recebi a Lettra para pagar ao Dr. Moura 
os 400 fr. pela copia da Chronica antiga. Tratarei de ir confe- 
rindo com elle á vista do original, e isto pela 2.^ vez, o Mss. e o 
remetterei quando houver portador seguro. 

Quanto á copia que V. S.a deseja do Abbé, tratarei de ver 
se se desencanta o tal livrinho. Se Mr. Estancellin estivesse ainda 
aqui trataria já disso, mas veio aqui domingo passado despedir- 
se. Quanto aos livros para o nosso Cons.° o P.^ Castro, irão todos 
os da Lista que V. S.* me remetteo. O Diccionario de Bochtor é 
julgado de muito merecimento por este orientalista que consultei 
nesta matéria. A obra sobre D. Ant.^ Prior do Crato =^ Explanatis 



VISCONDE DE SANTARÉM 367 

Jiinis conheço-a e fiz delia já algum uso. Tenho descoberto novos im- 
portantes docum.*o« inéditos relativos a este príncipe. Na Intro- 
ducção do 4.0 volume do Quadro Elementar ali indico alguns e 
nas Secções de Roma e principalmente d'lnglaterra serão publi- 
cados quasi na sua integra. 

Quanto á venda da Carta do Algarve do nosso Consócio João 
Baptista da Silva Lopes (1), tratarei de me informar deste negocio. 
Parecia-me que seria talvez conveniente que V. S.*» me man- 
dasse um exemplar para o poder mostrar a Dufour e aos Ven- 
dedores deste género de obras, e ajustar-mos os preços, etc 

Acabo de ver citada no Antiquário Coimbricense n." 5 de 
Nov.o de 1841 p. 39. — a vida de Miguel de Moura, e Chronica 
do Cardeal Rei, ha pouco publicada pela Sociedade Promotora 
dos Conhecimentos Úteis. Ha annos vi esta Chronica Mss. na 
collecção da Bibliotheca Publica de Lisboa, e a vida de Miguel 
de Moura, mas tinha até agora noticia da sua publicação. 

Faça-me V. S.'' a mercê de ma comprar e de me remetter 
pela primeira occasião. 

Publicou-se já a historia da Madeira? Que foi feito da Chro- 
nica de Fr. Luiz de Sousa? Em que alturas vai a publicação 
das obras de D. João de Castro? 

Tenha V. S.^ o que merece. 

P. S, — Rogo a V. S.^ p.^ mandar entregar a inclusa a João 
•da Cunha. 



(1) Grande liberal que esteve encarcerado e escreveu a Historia do Capii- 
veiro dos presos de S. Julião da Barra, onde viveu desde 1828 a 1833. Depois 
foi cliefe de repartição do Arsenal do Exercito, deputado e Académico. Deixou 
varias obras. 



368 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



Do Visconde de Santarém para Rodrigo da Fonseca Maga- 
lhães 

Paris, 24 de Julho de 1843. 

///.'"'' e Ex.'"" Snr. 

Tive a fortuna de receber ultimamente a carta de V. Ex.« de 
3 do corrente, e com estas novas provas da efflcacissima ami- 
zade com que V. Ex.» me honra e a^^radeço por tudo quanto 
continua a fazer por meu respeito. 

A impressão do 4.° Tomo do Quadro está muito adiantada. 
Se o 3." recebeo tíio honroso acolhimento, espero que o que vou 
remetter não merecerá menor distincção, pois contem infinitos 
documentos curiosíssimos e inteiramente desconhecidos, e entre 
outros os das negociações secretas que os Duques de Bragança 
tratarão com a França para obterem o Throno de Portugal já 
em 1580, no momento da morte do Cardeal Rei, e todas as que 
provâo a influencia que teve a França na revolução de 1640 
mandando a Portugal em 1638 M/ de Saint-Pré, negociações que 
combinadas com as que heide dar na secção das nossas Relações 
com Inglaterra, formão a serie mais curiosa, e importante de 
documentos políticos dos últimos tempos do século xvi, e 
do xvii.o 

Muito me lisongeou tudo quanto V. Ex.^ me diz acerca da 
opinião do Ministro d'Inglaterra, e muito mais o proveito que 
V. Ex.''^, pelo seu inimitável tacto, e habilidade, tirou deste inci- 
dente para me dar mais um testemunho de distincto favor e 
amizade. 

S. Ex.^ o S.' Min.° dos Negócios Extrangeiros escreveo-me 
um obsequioso Desp.*^, pelo ultimo Paquete, e me dá a esperança 
de que pelo próximo Paquete virão as ordens para a Agencia 
em Londres me dar algum dinheiro para o custeio dos meus 
trabalhos. Agradeço tão bem a V. Ex.^, e muitíssimo, a sua pode- 
rosa influencia sobre este importante negocio. 



VISCONDE DE SANTARÉM 369 



Renovo as expressões de invariável reconhecimento e grati- 
dão com que me prezo ser 

111.'"° e Ex.-^o Snr. Rodrigo da Fonseca Magalhães. 

De V. Ex.a 
Am.° f. e obrg.""» cr. 

Visconde de Santarém 



Do Visconde de Santarém para Macedo 

Paris, 24 de Julho de 1843. 

111.'"° e Ex."'" Snr. 

Acabo de receber a carta de V. S.a de 9 do corrente e duas 
para Mr. Dubenr (1) e Pauthier (2) que logo mandei entregar. Es- 
tou hoje muito incomodado. Temos tido aqui um tempo horrível 
que me tem alterado algum tanto a saúde. Alem disso sinto-me 
alguns dias muito cansado, e sendo hoje um destes apenas escrevi 
estas regras a V. S.*» 

José Manoel, a quem escrevo a carta inclusa que V. S.a terá 
a bon.^« de mandar entregar, não me escreve á mais de um mez 
ou antes á mais de um mez que não recebo carta delle sendo a 
ultima de 10 do passado. 

Recebi noticias d'Hespanha de 9 do corrente e por ellas me 
consta da descoberta de mais outro monumento geographico, 
consistindo este em um planispherio que se encontra em Mss do 
Ytenerario d'Antonino = 

Espero receber o calque em poucos dias. 

Acha-se agora nesta capital Mr. Fuil secretario perpetuo da 



(1) Frederico Dubenr, philologo allemão que traduziu curiosos documen 
tos gregos e viveu em França, morrendo em Montreiul em 1867 

(2) João Guilherme Pauthier, Sinologo francez, auctor da Historia Politica 
das relações da China com as nações occidentaes. Morreu em 1873. 

VOL. VI 



24 



370 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

Academia R. das Sciencias de Petersbourg. Conversámos muito 
em um dos dias da semana passada tendo-me sido apresentado 

Renovo V. S.a 

Visconde de Santarém 



Para o Minisiro dos Negócios Estrangeiros 

Paris, 24 de Julho de 1843. 

///.'"'' e Ex.'"" Snr. 

Posto que no meu officio junto em que accuso a recepção do 
Despacho de V. Ex.a eu lhe agradeço as benignas expressões 
com que me trata, julgo do meu dever e gratidão escrever esta 
a V. Ex.a para lhe pedir queira aceitar os meus sinceros agra- 
decimentos e protestos de gratidão, não só pelo favor com que 
me honra, mas também pela efficacia e interesse que lhe mere- 
cem os trabalhos de que me acho encarregado. 

Espero, pelo Paquete próximo, as ordens para a Agencia Fi- 
nancial em Londres conforme V. Ex.» teve a bondade de annun- 
ciar. 

Rogo a V. Ex.a o obsequio de mandar entregar a inclusa ao 
nosso commum amigo o Senhor Rodrigo da Fonseca Magalhães. 

Visconde de Santarém 

Do Visconde de Santarém para Macedo 

Paris 7 d' Agosto de 1843. 

///.'«° Snr. 

Antes de hontem recebi a Carta de V. S.^ de 15 do passado 
e alguns extractos das Memorias de Taborda que muito agradeço 
a V. S.a não só os ditos extractos mas ainda mais a offerta de 
me mandar as Copias. 



VISCONDE DE SANTARÉM 371 

Quanto ao 1.° documento de 26 de Nov.^ de 1680 tenho as 
Instrucções de que ali se faz menção. Necessito todavia a Copia 
da carta de Taborda de õ de Jan.° de 1681 em que dá parte do 
modo por que intentava proceder na negociação, e que existe 
no Tom. 1.° das Mem. p. 498, bem como a do officio de 19 de 
Jan.° do mesmo anno sobre o progresso deste negocio que se 
acha a p. 504. Posto que no Tom' 2.° do meu Quadro Elemen- 
tar pag. 338 tratarei já do que se passara em Lisboa com Mr. 
d'Opslle, comtudo necessito a Copia dos officios do mesmo Ta- 
borda de 23 de Nov.» e de 6 e 20 de Dez.*^ do anno de 1681 em 
que trata do que a este respeito passara na Corte de França e 
que se acha no mesmo Tom 1.° das Memorias de Taborda, 
pag. 678. 

Quanto ás Copias ou pelo menos Extractos amplos dos docu- 
mentos que pedi pela minha carta de õ de Junho vejo, pela res- 
posta do Sr. Bibliothecario, que posso dali tirar o sentido- Eu lá 
os encontrei quando examinei os ditos 3 volumes e parece-me 
que os tornaria a encontrar se apenas os folhesse em uma ma- 
nhã, pois por mais baralhados que se achem os docum.*°s em 
um códice onde falta também a paginação, quando se buscão 
determinadamente pelas datas alguns designadamente, basta ir 
correr as datas de todos sem mesmo ter o trabalho de os ler 
para se deparar com aquelles de que se necessita. 

Isto disse a V. S.^ já, em causerie confidentielle, um pobre tra- 
balhador de papeladas pelas mãos do qual tem passado mais de 
20S000 códices e um incalculável numero de maços de documen- 
tos de todos os Séculos. 

Quanto ao Catalogo dos Núncios queira V. S.^ fazer-me a 
especial mercê de ir mandando copiar pelo menos até ao Rei- 
nado de D. João III. ° e Pontificado de Paulo III (1), e eu pagarei 
a despeza que com isso se fizer. Augmentará V. S.=* este favor 
se quizer ter a bondade de me ir mandando as Copias á medida 
que se forem tirando. 



(li Alexandre Farnesi, papa desde 1534 a 154:9. Defendeu Carlos V con- 
tra os protestantes. 



372 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

Remetto a carta inclusa do Instituto e não sou hoje mais- 
extenso porque estou atrazado com obra trabalhando para lhe 
mandar em breve o 4.° volume da minha obra que é ahás riquís- 
sima e no qual encontrará muita cousa nova e inteiramente des- 
conhecida. 

Sou de V. S.« 

Visconde de Santarém 



Do Visconde de Santarém para Macedo 

Paris 14 de Agosto de 1843. 

III.""' Sr. 

Achando-me hoje incommodado não me é possível escrever 
a V. Ex.^ como devia e desejava em resposta ás suas duas car- 
tas de 22 e 30 de Julho que ultimamente recebi, o que farei p.a 
o próximo correio se me achar melhor. Agradeço muito a remes- 
sa das primeiras folhas da sua curiosa e bem trabalhada Memo- 
ria que apenas passei pelos olhos. 

Já mandei para a Legação as duas Brochuras de Mr. Edouard 
Biot, dirigidas á nossa Academia (1). 

Renovo a V. S.» 



Do Visconde de Santarém para Rodrigo da Fonseca Maga- 
lhães ^ 

Paris 14 de Agosto de 1843. 

111.'^° e Ex.""" Snr. 

Os Srs. António José d' Ávila e José Frederico Marecos me 
entregarão a obsequiosa carta de V. Ex.^ de 10 do passado. 
Agradeço infinitamente a V. Ex.» o favor que me fez pro- 



(1) Estas brochuras forão remettidas com carta de 13 d'Agosto ao mesmo 
Macedo. 



VISCOiMDE DE SANTARÉM 373 

«urando-me o prazer de conhecer estes dous interessantes cava- 
lheiros, cuja conversação instructiva tem sido para mim de muita 
valia. Já tem visto muitas cousas importantes desta grande capi- 
tal e ultimamente os convidei a assistir a uma solemnidade Aca- 
démica, á sessão publica do Instituto. 

O quarto tomo da nossa obra Diplomática já está quasi todo 
impresso, e ahi aparecerá antes da abertura das Cortes. Dese- 
java ir pondo já no prelo o õ.° para se ir compondo com vagar 
e ao mesmo tempo, mas não o farei assim emquanto não che- 
garem as promettidas ordens que devião ser expedidas á Agen- 
cia Financial em Londres. A demora desta remessa é funesta 
para estes importantíssimos trabalhos, e para o meu socego. 

A ultima remessa data de 9 mezes e delia tenho tirado para 
estas pubhcaçôes um immenso partido regulando este dinheiro 
com a maior cautela, e mostrarei em breve os grandes resulta- 
dos do seu emprego. Rogo pois a V. Ex.» encarecidamente se 
digne reclamar a expedição das promettidas ordens, e de acre- 
ditar na invariável amizade e gratidão com que tenho a honra 
de ser 

De V. Ex.a 

Am.« fiel e obrg.""" servo 
Visconde de Santarém 

Do Visconde de Santarém para Macedo 

Paris 28 de Agosto de 1843. 

///.'"'' Snr. 

Não escrevi a V. S.a pelo ultimo correio por me achar incom- 
modado. Da recepção das cartas de V. S.' de 22 e 30 de Julho 
passado, agora responderei a algumas perguntas de V. S.^. 

Quanto a Mr. Edmond Frémy, Professeur de Chimie au Jar- 
din du Roi et Repetiteur h VEcole Polytechniqiie, que quer ser 
sócio da nossa Academia, é homem de que nunca ouvi fallar 
nesta terra. Ora é péssimo signal quando eu não conheço um 
homem que se occupa de Sciencias ou das Lettras. Entretanto 



374 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

tratarei de me informar, e irei ao Jardim quando fizer bom 
tempo, o que não temos piliiado este anno, e perguntarei aos 
Srs. Professores pelo seu collega Frémy. 

Parece-me todavia desde já poder dizer a V. S.^ que me pa- 
rece que nâo está no caso de ser nomeado, e que a melhior res- 
posta que V. S.a poderia dar aos seus patronos era que a Aca- 
demia entendia, pela consideração que apesar do muito que 
desejava contemplalo, que todavia o numero dos seus sócios 
estrangeiros era tão restricto que a Academia ainda não tinha 
pudido nomear um só Membro da Secção de Chimica da Aca- 
demia R. das Sciencias do Instituto de França onde se achavão 
sábios como Tiienard (1), Chevreul (2), Dumas (3) e Pelloure (4). 

Consultando a Siatistiqae des Gens de Letíres et des Savanís 
existant en France não encontrei o nome de Mr. Trémy. 

E' verdade que pode ser uma omissão de Mr. Guyot, mas se 
elle fosse um Savant e tivesse publicado algumas obras impor- 
tantes não deixaria de ser ali mencionado. Correndo a lista dos 
nossos sócios estrangeiros vejo ainda mencionados Ampere (õ). 
Pai, e Savart (6) '(da Academia das Sciencias de Paris) ambos 
são já mortos. Seria pois conveniente tirar estes nomes da dita 
lista e em tempo opportuno substituilos por outros de grande vulto. 



(1) Luiz Jacques Thenard, chimico illustre francez, collaborador de Guy 
de Lussac. Descobriu a agua oxygenada. Morreu em 1857. 

(2) Mário Eugene Chevreul, chimico francez que fez preciosas descobertas 
sobre os corpos gordos de origem animal. Inventou a base das velas de steari- 
na. Morreu em 1889 com mais de cem annos. 

(3j João Baptista Dumas, chimico ao qual se deve a determinação do peso 
atómico d'um grande numero de corpos simples. Auctor de Tratado de chimica 
applicada. Morreu em 1884. 

(4) Thephilo Júlio Pelloure, chimico illustre francez, auctor de buscas 
notáveis como a do assucar de beterraba. Morreu em 1867. 

(5) Ampere (pae). Foi um grande mathematico e physico que en- 
controu os princípios da telegraphia. Trabalhou^n'um livro colossal o Ensaio 
da philosophia das sciencias. Morreu em 1836. Seu filho foi historiador e tam- 
bém Académico. 

(6) Félix Savart, phisico francez, auctor de trabalhos sobre acústica, in- 
ventor da roda dentada e que serve para medir o numero de vibrações cor- 
respondente a altura d'um determinado som. Morreu em 1841. 



VISCONDE DE SANTARÉM 375 

Quanto aos Regulamentos do Instituto que V. S.^ deseja lêr 
devo dizer-lhe que alguns se encontrão nas Memorias e Historia 
das Antigas Academias e que hoje se compõem o Instituto. 

As Leys originaes achão-se pela maior parte — no Bulletin 
cies Lois e alguns artigos transcriptos nos Calendriers que nos 
são distribuídos todos os annos. Alem deste tem algumas das 
classes de que se compõem este Corpo, os seus regulamentos 
particulares sancionados pelo Governo, alguns dos quaes se 
achão impressos, sendo um destes o da Academia de Inscripções. 
Remetterei pela primeira occasião a maior parte dos ditos regu- 
lamentos. 

Quanto ás Matrizes de typos Árabes devo dizer a V. S.a que 
se acha nesta corte o Marecos, Director da Imprensa Regia de 
Lisboa, tendo vindo encarregado pelo Governo de examinar as 
diversas imprensas desta Capital, a da Bélgica e as de Londres. 
Tendo-me trazido d'ahi cartas de recomendação, tenho-o feito 
ver as principaes, e isto me tem dado occasião de o ver muitas 
vezes. Elle vai comprar um jogo de matrizes Árabes para a Im- 
prensa Regia, e me declarou que todas as vezes que a nossa 
Academia quizesse fazer ali fundir os typos o poderia fazer. Sem 
embargo disto já pedi a de Berny uma conta circumstanciada 
deste objeto para se remetter a V. S.» afim de tomar a conve- 
niente resolução. 

Com a carta de V. S.», de 5 do corrente, recebi a Chronica do 
Cardeal Rei a qual veio muito a tempo. Recebi egualmente a 
carta para o Ministro da Marinha a qual entregarei ao successor 
do Almirante Roussin, logo que cheguem os livros. Recebi egual- 
mente mais um quaderno da sua preciosa Memoria na qual V. S.* 
me trata com tão honrosa parcialidade. 

Em meu entender é uma discussão magistral e os argumen- 
tos fundados nos textos são sem rephca. 

Estou ancioso pela continuação. Trabalhos de tal natureza, 
entendo eu, que fazem honra á Nação e aos Autores até pela 
raridade. 

Apenas tinha acabado a leitura da sua Memoria que me cau- 
sou tanto prazer, veio-me á mão um escripto que é um antípoda 
do seu, no qual li o seguinte que me envergonhou pelo autor = 



376 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

«Nâo deixava D. Manoel de ter noticias destas tomadias con- 
«tinuadas que fazião os Francezes. Jacome Monteiro era um dos 
«que lhas costumava contar! Mas o 1." Senhor da Conquista, 
«da Navegação e Commercio da Ethyopia, Arábia, Pérsia e da 
índia etc. 

« Todos os seus successores até 1816 passavão com esse 

«dictado de nomes ocos retumbantes (e que parecem antes ter 
" vindo por herança de algum Grão Sultão), e o Brazil esteve 
«esquecido !» 

Isto aqui para nós, quem tal escreve merecia ser bem zurzido 
com os açoites da critica histórica ! 

Queira V. S.« ter a bond.*^*^ ^q entregar a J.*' M.^' a carta 
inclusa. Gayangos que se acha agora aqui, veio procurar-me 
Domingo, trasido por Francisques Michel (1). Sinto não ter visto 
para lhe preguntar pelo Ben Batuta. 

De V. Ex.^ 
Am. o fiel e obrg.'"'' creado 

Visconde de Santarém 



Para o Ministro dos Negócios Estrangeiros 

Paris 28 d' Agosto de 1843. 

///.'"'' Sr. 

Tenho a honra de accusar a recepção do despacho de V. Ex.^ 
n.° 4 que V. Ex.'* se sérvio dirigir-me na data de 14 do corrente 
pelo qual teve a bondade de me participar de se terem expedido 
ordens á Agencia Financial em Londres para pagar em seu de- 
vido tempo a quantia de £ 675 para acorrer ás despezas da com- 
missão de que me acho encarregado. 

Permitta-me V. Ex.'* que por esta occasião lhe rogue o obse- 



(1) Francisques Xavier Michel. — Archeologo francez muito erudito e que 
alleceu em 1887. 



VISCONDE DE SANTARÉM 377 



quio de dar as suas ordens (no caso de não haver inconveniente) 
para que do Archivo da Secretaria d'Estado dos Negócios Ex- 
trangeiros me seja remettida uma copia da Memoria do Enviado 
de Portugal na Haya 1691 a 1709 em que refere os projectos da 
França para a futura campanha e reclama em consequência no- 
vos soccorros e os géneros e officiaes conforme se estipulou pelo 
Tratado de Alliança. 

Esta peça acha-se nos papeis do Archivo da Legação Portu- 
gueza na Haya, Maço H, Memorias n.° 35, hoje na Secretaria de 
Estado dos Negócios Estrangeiros para onde forão mandados re- 
colher no Ministério do Senhor Silvestre Pinheiro. 

2.° Memoria de D. Luiz da Cunha, Enviado de Portugal na 
mesma Corte, apresentada a S. M. B. sobre o embarque do 3.» 
Regimento de Francezes Refugiados, D." Maço. Docum. n.° 53. 

Deus Guarde, &.a 

Visconde de Santarém 



Do Visconde de Santarém para Rodrigo da Fonseca Maga- 
lhães 

Paris 1 de Setembro de 1843. 

///.'"" e Ex.'"" Snr. 

Recebi com algum retardo a estimadíssima carta que V. Ex.» 
n\e fez a honra de escrever, em data de 31 de julho ultimo, na 
qual V. Ex.''^ se queixa, em termos que muito me hsongearão, da 
falta de cartas minhas. 

Não deixei, nem deixarei de escrever sempre a V. Ex.» é es- 
cusado repetir aqui as razões, e motivos de eterna, gratidão, e 
de uma affeição e sympathia que cresce e se augmenta todos os 
dias com os multiplicados obséquios que lhe devo. Com effeito 
V. Ex.« não cessa de me dar a todos os momentos provas da 
mais fiel e verdadeira amizade. 

O que V. Ex.a praticou ultimamente no negocio de ser auc- 
iorisada a despeza da impressão da Grande Collecção, e do que 
conveio com o Sr. Ministro dos Negócios Extrangeiros, é mais um 



378 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

testemunho do muito que lhe devo, e que deverá a Europa aos 
seus patrióticos esforços para restaurar a gloria do Paiz. 

Considero, todavia, este negocio actualmente um tanto difficil 
em razão das nossas difficuldades financeiras, e dos proclama- 
dos princípios de economia, posto que despezas taes para cousas 
de tanta importância nacional e sendo, de mais a mais, um adian- 
tamento de fundos, não devia encontrar obstáculo. 

Desejo anciosamente ver a prestação para o Quadro, conver- 
tida em Lei, e quanto á da Grande publicação, está nas mãos de 
V. Ex.'^ e não pode estar melhor. 

As ordens á Agencia Financia em Londres forão effectiva- 
mente passadas em 7 do passado, e o Sr. Ministro dos Negócios 
Extrangeiros me fez a honra de m'as communicar em Despacho 
de 14 do mesmo mez. Acceite V. Ex.^, pois, novos agradecimen- 
tos meus por este novo obsequio. 

Já a publicação só dos 3 primeiros volumes desta obra, (digo 
do Quadro) tem feito para aqui e em Allemanha os trabalhos 
históricos emprehendidos por alguns escriptores, relativos á nossa 
historia e á de Hespanha, e mesmo a de outros paizes, pois co- 
nhecem já que tudo quanto fizerem, antes desta rainha publica- 
ção documental, será cheio de erros, d'anachronismos, de lacu- 
nas, e apparecendo os effeitos sem as causas, em consequência 
da ignorância em que os historiadores dos diversos paizes tem 
estado acerca das transacções secretas, e inéditas, e mesmo das 
ostensivas entre Portugal e as outras Potencias. 

Seria mui longo dar em uma carta todas as provas do que 
deixo dito. Citarei apenas o que o celebre Professor Schrefer, 
Reitor da Universidade de Giesen, me escreve em data de 21 de 
Agosto ultimo. Diz elle: 

«La haute importance du Quadro Elementar non seulement 
«pour rhistoire de Portugal, mais aussi pour les autres États de 
«FEurope m'est maintenant comme dans toute son étendue. Ainsi 
«je me regarde engagé, dans Tintérêt de la science, à famihariser 
«les savants d'Allemagne avec cet excellent ouvrage c'est pour 
«quoi j'en donnerai une analyse dans le journal litteraire Alle- 
«mand. Je sens bien, qu'il nous est impossible de continuer nos 
«travaux sur la Péninsule, car cet ouvrage est indispensable pour 



VISCONDE DE SANTARÉM 379 

«la continuation de mon Histoire de Portugal et quejé ne pourrai 
«terminer celle-cl avant que votre ceuvre ne soit achevée. 

«Vous m'obligerais infiniment, Mr. Le Vicomte, de vouloir bien 
«me commimiquer la continuation de ce précieux ouvrage. J'ai 
«utilisé votre savant Mémoire sur la culture de la soie en 
«Espagne, dans le 2.^ volume de rhistoire d'Espagne et j'ai rendu 
«hommâge bien sincère aux services eminents gue vous avez 
«rendu à rhistoire de TEspagne et du Portugal, ainsi qu'à rhis- 
«toire de la science en general. Sl:^ 

Acabo de receber a estimadíssima carta de V. Ex.^ de 21 de 
Agosto ultimo, e inclusa unja para o Sr. José Frederico Mareco, 
que irei entregar hoje mesmo. 

Sinto infinitamente a noticia que V. Ex.^ me dá de ter pas- 
sado incommodado. Desejo que V. Ex.% pela primeira occasião 
me tire de cuidados annunciando-me as suas melhoras. 

Protesto de novo os sentimentos de fiel amizade com que me 
preso ser 

De V. Ex.« 
Am.» f. e obrg.»"» s. 

Visconde de Santarém 

Do Visconde de Santarém para Joaquim José da Costa de 
Macedo 

Paris 17 de Setembro de 1843. 

IIL'"° e Ex\""' Snr. 

Ha dois correios que não escrevo a V. S.^ pelos seguintes mo- 
tivos. O 1.° porque a morte do Marquez de Fortia, (1) um dos ho- 
mens a quem devia mais finezas depois da minha chegada a este 
paiz, me affectou de tal modo que a minha saúde se sentio bas- 



(1) Marquez de Fortia de Urban, escriptor e erudito francez. coronel de 
milícias de Venaissin. Viveu cm Paris depois do 9 de Thermidor. Publicou in- 
numeras obras e foi membro da Academia dlnscripções. 



380 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

tante. 2.^ pois que em consequência disto fui passar alguns dias 
ao Campo. Neste intervallo de tempo recebi duas cartas de V. S.^ 
datadas de 11 e 23 d'Agosto passado. 

Renovo os meus agradecimentos pela remessa da folha de 
sua Memoria, e pela chronica do Cardeal Rei. Recebi igualmente 
um Maço de José Manuel a quem escrevo a carta inclusa pe- 
dindo a V. S.^ o favor costumado de lh'a remetter. 

Remetto também inclusa a carta de M.""*^ Dondey Dupé. 

O Padre Roquette remetteo em Junho os 7 exemplares do' 
Leal Conselheiro para os quaes subscreveo a Academia e forão 
pela Legação. Elle ainda não tem a certeza de terem sido recibidos. 

No Prologo dos editores da Chronica do Cardeal Rei se diz 
que a Chronica d'El-Rei D. Sebastião por Fr. Fernando da Cruz 
foi impressa em Lisboa em 1837 accrescentando-se que apezar 
de tão recente data he actualmente quasi rara. 

Não tinha eu noticias de tal publicação. Grandíssimo obse- 
quio me faria V. S.^ se me procurasse um exemplar, até para o 
confrontar com uma Chronica mss. desta Bibliotheca R. de que 
fiz menção nas minhas Noticia dos Mss. Portuguezes das Biblio- 
thecas de Paris, p. 89. 

Quanto aos tipos Árabes, eis aqui o que se tem passado de- 
pois da minha ultima carta de 28 do passado. 

Tendo vindo de novo José Frederico Mareco, dizer-me que 
renunciava por agora á compra das matrizes em consequência 
das despezas que tinha feito com a compra de maquinas, etc, 
para a imprensa Regia ; fui outra vez ver Mr. de Berny. Este 
individuo, em lugar de me dar a nota de que se tinha tratado, 
sahiu-se dizendo-me que tendo feito Mr. de Sacy e Mareei algu- 
mas mudanças importantes, reflectira que lhe seria necessário 
mandar fazer novas matrizes e indicou-me, todavia, outra fundi- 
ção considerável de Biesta, Laboulay e Comp.^ Rue de Madame, 
n.'' 22, onde fui immediatamente. 

Derão-me a nota e specimen incluso que remetto. 

Deos Guarde, &.^ 

Visconde de Santarém 



VISCONDE DE SANTARÉM 381 

Le Secrétaire perpetuei de VAcadémie a Monsieur le Vicomte 
de Santarém, á Paris 

Institut de France 

Académie Royale des Inscriptions et Belles-lettres 

Paris, le 22 septembre 1843. 

Monsieur 

L'Acadèmie a reçu Touvrage que vous avez bien voulu lui 
adresser intitule : Relations du Portugal avec les diffèrentes 
puissances depuis le commencement de la Monarchie portugaise 
]usqu'a nos jours, tomo, 2, 3, et 4 in 8° 

J'ai rhonneur de vous offrir ses reraerciments. 

Cet ouvrage a ètê déposè dans la Bibliothèque de Tlnstitut. 

Agréez Monsieur Tassurance de ma haute considération dis- 
tingue. 

j^on Walckeneaner, 



Carta do Visconde de Santarém para Joaquim José da Costa 
de Alacedo. 

Paris 24 de Setembro de 1843. 

111."'° e Ex.""" Snr. 

Remetto a V. S.^ a copia da Chronica antiga de Portugal,, 
copiada fielmente do original Mss. que se acha nesta Bibliotheca 
Real de Paris, com o novo numero 10,253 de que fiz menção na 
minha noticia dos Mss. existentes na m.™^ Bibliotheca. 

Aproveito de novo esta occasião, etc. 

De V. Ex.^ 
Am.o f. e obrg.ino cr. 

Visconde de Santarém 



382 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

Do Visconde de Santarém para Macedo 

Paris 27 de Setembro de 1843. 

111."'° e Ex.""" Snr. 

Recebi ultimamente a preciosa carta de V. Ex.^ de 4 do cor- 
rente, e com ella novas provas da amizade com que V. Ex.^ me 
honra, e que eu lhe mereço. Mas como a par do prazer está o 
disgosto, a noticia do seu incommodo não deixou de m'o causar. 
Espero que os ares de Cintra restabelecerão promptamente a 
V. Ex.^ cuja saúde é tão importante para a Pátria e para os 
seus amigos. 

A propósito da publicação que a respeito da nossa obra fran- 
ceza appareceo no National, o jornal mais radical deste paiz, o 
que remetto incluso, escrevo hoje um longo officio a S. Ex.^ o 
Sr. Ministro dos N. E. em addição ao que escrevi ao Duque, em 
11 de Julho de 1842, relatando circunstanciadamente oprogressso 
que tem feito na opinião publica o consenso dos nossos direitos 
relativos á questão Africana desde a época em que escrevi o 
sobredito officio. 

Julguei dever fazer este relatório acompanhado das compe- 
tentes peças, em consequência da resposta dada por este Gov.° 
á nossa reclamação, depois de mais de um anno de silencio, desde 
que se ihe dirigio a Nota com a minha obra. 

Esta resposta, como eu previ na carta que tive a honra d'es- 
crever a V. Ex.^ em 23 de Janeiro deste anno, foi de abandonar 
o ponto insustentável da fabulosa prioridade, convir mesmo 
nella, mas transportaram a questão para outros pontos de que 
tratava a Nota do Conde Mole de 27 de Jan.o de 1839. 

Sobre este negocio, e ás previzões que sobre elle tivemos, 
remetto-me ás cartas que tive a honra d'escrever a V.^ nas 
datas de 15 de Nov.» de 1840, de 15 de Março, de 19 d' Abril, e 
11 d'Outubro de 1841, 12 de Setembro de 1842, e finalmente á 
de 23 de Janeiro deste anno. 

Na presença desta occorrencia não posso deixar de ter a 



VISCONDE DE SANTARÉM 383 

satisfação de vêr que este Governo não achou meio de refutar 
o ponto fundamental da minha obra. 

Renovo as expressões de invariável estima, e gratidão com 
que me preso ser 

De V. Ex.a 
Am.° f. è obrig.*"" cr. 

Visconde de Santarém 



Para o Ministro dos Negócios Estrangeiros 

Paris, 27 de Setembro de 1843. 

hl.""' e Ex.'"" S/ 

Tendo dado conta a S. Ex.^ o Senhor Duque da Terceira en- 
carregado da repartição dos Negócios Estrangeiros no meu offi- 
cio confidencial de 11 de Julho de 1842 n.° 5 da impressão que 
havia produzido na opinião publica neste paiz a publicação da 
obra que por ordem do Governo de S. M.® compuz para provar 
os nossos incontestáveis direitos e prioridade dos descobrimen- 
tos Africanos, e sobre a questão de Casamansa, cumpre-me 
agora levar ao conhecimento de V. Ex.^ o que depois do sobre- 
dito officio se tem passado a este respeito. 

Em 20 do mesmo mez de Julho d'aquelle anno se publicou no 
jornal official o Moniteiir Universel um importantíssimo artigo a 
este respeito (Doc.° n.° 1). Em data de 14 de Dezembro do mes- 
mo anno appareceo outro no jornal intitulado VUnion Catholique 
(Docum.° n.** 2). Em 16 de Fevereiro deste anno apareceo outro 
sobre o mesmo objecto no Qiiotidianne (Docum.° n.° 3). Final- 
mente em 16 do corrente publicou o National o importante artigo 
que vai marcado (Docum.° n.° 4). 

O que precedentemente se havia passado e que substanciei 
em meu officio n.° 5 e estas publicações feitas não só pelos jor- 
naes ministeriaes, mas até pelos da opposlção, e até pelo mais 
radical de todos, o National, não deixão a menor duvida de que 
a obra que publiquei convenceu a opinião publica e a gente mais 



384 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

difficultosa d'este paiz da justiça incontestável dos nossos direi- 
tos, não deixando os jornaes scientificos também pela sua parte 
de reconhecer os mesmos direitos e gloria da prioridade sendo 
um dos mais importantes e influentes o intitulado «Revue de 
Bibliographie Analytique» em cujo numero, d'Açosto de 1842, se 
publicou um longo e importantíssimo artigo que appareceo tra- 
duzido no Diário do Governo de 27 de setembro seguinte. 

Finalmente em Maio deste anno appareceo em outro jornal 
scientifico «Les Nouvelles Annales des Voyages» periódico redi- 
gido pela maior parte por diversos sábios Membros do Instituto 
o artigo que tenho a honra de enviar a V. Ex.^ (Docum.'' n.** 5). 
No Relatório annual da Sociedade Geographica de Paris pronun- 
ciado na sessão publica de 30 de Dezembro de 1842 pelo Secre- 
tario da mesma sociedade e sob a presidência do novo Ministro 
da Coroa se tratou egualmente e pela segunda vez da obra de 
que fui encarregado pelo Governo de S. M.«^. Sob o n. 6. V. Ex.^ 
encontrará o que a este respeito se passou n'aquella occasião. 

Não foi menor o effeito em nosso favor produzido por esta 
publicação em as differentes Academias e Sociedades sabias da 
Europa, sobre cujo objecto conto ter a honra de dirigir a V. Ex.^, 
em devido tempo, uma carta circumstanciada e sancionarei entre- 
tanto o artigo e a analyse da mesma obra publicada pela mais 
importante e sabia sociedade, a Sociedade Real de Londres cujo 
artigo appareceo em o Jornal da mesma Vol. 12 P.^ 2 Art.° 3 
pg. 125 anno de 1842, cuja traducção apareceo igualmente em o 
Diário do Governo. Em Nápoles, além do relatório feito pela 
Academia Real das Sciencias de que foi encarregado o Profes- 
sor Fernando de Luca (1), se publicou em o jornal scientifico 
intitulado o Lúcifer (Luzeiro) o artigo docum. n.*^ 7. 

Não resta, pois, a menor duvida á vista dos documentos que 
tive a honra de mencionar no meu officio n.° 5 e dos que vão 
annexos a este, que a opinião publica de todos os partidos polí- 
ticos n'este paiz reconhece que os nossos direitos são indisputa- 



(1) Fernando de Luca. — Mathematico italiano que se dedicou também 
á geograpMa sendo ainda o historiador das mathematicas. Morreu em 1869. 



VISCONDE DE SANTARÉM 385 

veis, e, consequentemente, que tive a fortuna de destruir a base 
e fundamento principal em que primeiramente este Governo se 
fundou para occupar e nos disputar o território de Casamansa. 
Nãò sendo menos evidente aos olhos de todo o mundo que lê os 
§§ vu, pag. 65, IX pag. 82 e xix pag. 213, o nosso direito á pos- 
sessão d'aquelle Território, em virtude do mesmo direito conven- 
cional com a França, e do reconhecimento que d'elle fizerão os 
monarchas francezes pelo espaço de três séculos. 

As peças diplomáticas ali annexadas o tornão evidentíssimo, 
muito principalmente quando se combinão com os Tratados cele- 
brados desde o Congresso d'Utrecht com a auctoridade de Watel 
e dos mais eminentes Publicistas. 

Sem embargo d'este não deixei de prever, desde o momento 
em que o Governo de S. M.*^ me fez a honra de encarregar de 
discutir a questão scientifica, que ainda quando esta se vencesse, 
nem por isso a França cederia logo das suas pretençôes, e me 
pareceo que a questão diplomática iria ainda por diante apezar 
mesmo da opinião universal do direito que nos assistia. 

Esta resistência da parte deste Governo não escapou tão 
pouco á previdente politica do meu illustre amigo o Ex."'" Sr. Ro- 
drigo da Fonseca Magalhães. 

Em Carta de 11 de outubro de 1841 escrevia eu áquelle Mi- 
nistro, por occasião de fallar do effeito que ia causando na opi- 
nião deste paiz a publicação de alguns extractos da minha obra 
franceza, o seguinte: 

«Mas se a opinião publica se ha de pronunciar em nosso 
favor, comtudo o receio de V. Ex.^ é justíssimo, de que ha de 
experimentar resistência da parte do Governo, apezar da eviden- 
cia da nossa justiça. 

Se a sabedoria e moderação de ElRey e dalguns Ministros 
podessem obrar livremente neste assumpto, mui natural seria 
ver este negocio decidido sem opposição, mas este Governo tem 
a contemplar não só em não tocar nas cordas mais delicadas 
desta nação, na sua vaidade e susceptibilidade, mas também a 
evitar quanto pode a guerra furiosa que por todos os modos lhe 
faz a imprensa radical, a da opposição e a legitimista, e mesmo 
talvez a difficuldade de convencer o actual Ministro da Marinha, 

VOL. VI 25 



386 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

debaixo de cujos auspícios se publicou no anno de 1839 a Sta- 
tistique des Colonies Françaises, em cuja obra se deu uma sanc- 
ção official a fabulosa prioridade dos descobrimentos normandos 
para com ella darem uma apparencia de direito á usurpação que 
se nos faz. 

No espaço de tempo que decorreo, desde que escrevi até 
agora, a opinião publica, a favor dos nossos direitos, adquirio tal 
generalidade pelas publicações da imprensa que mencionei no 
meu officio n.'^ 5 e de que faço cargo neste, que as principaes 
difficuldades que então apontei achavão-se todas removidas pelo 
effeito destas publicações, mas posto que por aquella parte este 
Governo se achava desembaraçado, prevaleceo a politica do ga- 
binete do engrandecimento colonial e de se encontrar em toda a 
parte do globo com a Inglaterra. 

Não tendo podido refutar os pontos fundamentaes da minha 
obra guardarão silencio por mais d'um anno e afinal vierão a 
transportar a questão para outros pontos secundários, como eu 
previ igualmente na Carta que escrevi em 23 de Janeiro d'este 
anno em que dizia o seguinte: 

A propósito d'este assumpto devo dizer a V. Ex.^ que me 
consta que um dos Empregados dos Negócios Estrangeiros está 
trabalhando para ver se de algum modo podem replicar a nota 
sobre Casamansa. Eu pela minha parte tenho juntado também 
materiaes para um 2.** vol. no qual provo ainda mais os nossos 
direitos com uma multidão de novos documentos, de maneira 
que se isto fôr necessário tudo estará prompto para levarmos 
avante este negocio. Elles tem abandonado o ponto insustentá- 
vel da fabulosa prioridade, mas hão de provavelmente transpor- 
tar a, questão para outros pontos secundários. 

Desculpe-me V. Ex.'' de entrar nestas particularidades, mas 
julguei dever fazel-o pela persuassão em que estou que fiz tudo 
quanto em mim cabia para desempenhar na parte que me tocava 
a honrosissima incumbência scieutifica de que fui encarregado 
pelo Governo de S. M.«. 



VISCONDE DE SANTARÉM 387 



(NOTA) 

19 de Abril de 1841. 

Em Carta desta data remetti as observações á Nota do Conde 
Mole, tendo antes em carta de 15 de março do dito auno mos- 
trado a paridade que tinha o negocio de Casamansa com o de 
Cabinda sobre o qual e da convenção que o terminou pedi os 
competentes documentos que nunca me forâo remettidos. 

Do Visconde de Santarém para Macedo 

Paris, õ d'Outubro de 1843. 

///.'"'' e Ex.""" Sr. 

Tive o gosto de receber a carta de V.''^ S.^ de 11 de Setem- 
bro, e estimei a noticia que me dá de ter recebido algumas das 
obras que lhe remetti. Agradeço muito a V. S.a também a cer- 
teza que me dá relativamente a remessa das Copias das Memo- 
rias da Irlanda, e do Catalogo dos Núncios. Não sou menos grato 
a V. S.^ pelo trabalho que deverei á sua bondade relativamente 
ao Catalogo dos Mss. Copiados em Roma ; não deixarei de agra- 
decer pubhcamente em uma das minhas introducções dos pró- 
ximos volumes da minha obra ao meu sábio consócio esta douta 
generosidade.. 

Os Livros para o ministro da marinha ainda não chegarão. 

Recebi mais 3 cadernos 'da sua preciosa Memoria. Se esta 
Memoria é uma parte dos Prolegomenos da sua Historia das 
nossas navegações, e descobrimentos será esta por certo uma 
das mais instructivas, convincentes, e eruditas obras do nosso 
tempo. Conheço e aprecio as difficuldades que tem tido a vencer 
pois aqui mesmo tendo eu á minha disposição thesouros immen- 
sos encontro-as a cada passo pela falta de livros. 

A amostra das reflexões philosophicas que cito a V. S.a na 
minha carta de 28 de Agosto achão-se a pag. 124 e 125 das 3, 



388 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

e de um opúsculo publicado na Revista do Instituto Histórico e 
Geographico do Brazil que tem por titulo As Primeiras Negocia- 
ções Diplomáticas respectivas ao Brazil, folhetinho que me foi 
remettido pelo nosso Consócio, o Cónego Barbosa. 

Tendo mandado já para a Legação a Copia da Chronica 
antiga de Portugal e recommeudado ao nosso Visconde da Car- 
reira de a remetter a V. S.' pelo portador seguro, cumpre-me 
remetter agora o recibo do Dr. Moura que envio incluso. 

Quando remetti a V. S.^ com a mesma carta de 17 do passado^ 
a pequena conta de M.'"*' Dondey Dupré esqueceu-me propor a 
V. S.'^, como agora faço, de encontrar esta somma com a que 
despender o copista que tirar a copia do cathalogo dos Núncios, 
pois eu pagarei a M."^*^ Dondey Dupré esta somma, podendo-a 
igualmente encontrar outras deste género. 

Queira V. S.'^ ter a bondade de mandar entregar a Carta 
inclusa a J.'^ M.*"' e acreditar, etc. 

Para o Conde da Ponte 
Paris 12 d'outubro de 1843. 

Meu querido. Sobr.° e Am.« do C. > 

Recebi com o maior prazer a sua estimadíssima carta de 26 
d' Agosto, e agradeço-lhe muito tudo quanto me diz acerca da mi- 
nha Obra Diplomática. Pelo próximo navio que partiu do Havre 
lhe remetterei o T. IV, que tem perto de mil paginas, e é impor- 
tantíssimo pois contem negociações inteiras do mais alto inte- 
resse, e todas inéditas, e desconhecidas. 

Agradeço-lhe muito o offerecimento que me faz das notas 
das negociações do Sr. Marquez de Sande relativas á sua Em- 
baixada em Inglaterra. Muito me obrigará se tiver a bondade de 
se ir occupando disto, e pouco a pouco remettendo-as assim para 
aqui. 

Estimo a noticia que dá da melhora do nosso Conde do La- 
vradio, de quem ha muito estou privado de noticias directas, 
posto que elle á pouco escrevesse para aqui a alguém em um 



VISCONDE DE SANTARÉM 389 

assumpto relativo á publicação do Leal Conselheiro d'El-Rei 
D. Duarte. Sinto muito que S. Ex.» me não tivesse communicadò 
quando o P.« Roquette annunciou a publicação deste Mss, isto é 
á mais de um anno, a curioza descoberta que fez, de que antes 
e muito antes de Cândido J.« Xavier ter descoberto o dito Mss. 
já o meu excellente e fiel amigo o Abbade Corrêa o tinha en- 
contrado e descoberto na Bibliotheca R. de Paris. 

Remetto incluso um artigo que appareceo no feuilleton do 
National de 16 a respeito das minhas Recherches sur V Afri- 
que, etc., (1). 

ADs. Escreva-me sempre, e acredite que sou deveras, 

Seu Tio e Am.° f. 
Manoel 



Do Visconde de Santarém para Macedo 

Paris 12 de Outubro de 1843 

///.'"" e Ex.'"° Snr. 

Ha três correios que não recebo Cartas de V. S.^. Esta falta 
me tem fartamente inquietado. 

Não tenho hoje nada notável a communicar a V. S.a. Senão 
que Mr. de Slane ficou mui penhorado com as obsequiosas ex- 
pressões com que V. S.^ o tratou na Sua Memoria, a qual lêo 
com muito interesse. 

Queira V. S-^ ter a bondade de mandar Entregar as cartas 



(1) Este artigo foi reproduzido a pag. 44 e segs. d'um folheto de 56 pagi- 
nas, intitulado Notice sur Fètat aciuel de la publication de V Atlas de M. leVi- 
comte de Santarém, por J. P. Aillaud, Paris, 1846. A Notice propriamente 
abrange apenas as primeiras 8 paginas, e é sem duvida escripta pelo próprio 
Santarém ; o resto é a compilação dos principaes artigos de analyse e critica 
sobre as Recherches publicadas até aquella data. (Citado por Innocencio. Dic, 
Bibl, V, 438). 



390 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



()iie escrevo a meu sobrinho e deitar no correio a inclusa da 

I)r. Moura. 

Sou de V. S.« 

Visconde de Santarém. 



Do Visconde de Santarém para Macedo 

Paris 27 de outubro de 1843. 

///.'"" e Ex.'"° Snr. 

Acabo de receber a carta de V. S.-^ de 7 do corrente o que 
me causou grande praser pela falta de noticias suas á mais de 
dous Paquetes. Recebi todavia, e com a maior exactidão d'Anto- 
nio Joaquim Moreira, (1) as copias das cartas de Salvador Ta- 
borda o que muito agradeço a V. S.''. 

Mr. de Slane entregou-me hontem aberta na Biblioteca a 
carta inclusa para V. S.". 

A propósito de cousas árabes acabo de vêr o seguinte an- 
nuncio d'uma publicação de Tornebeg, annales regnum Maurita- 
mine, a condito Jdiciarum Império ad annum fugae 726 ab Abu Ju 
Hassan Ali ben Abd Allah Sahik Ibu Abdel Halim Granatensi 
conscriptos ad librorum manuscriptorum fidem ediditTorneberg». 

Mandei para a Legação uma nova producção de Mr. Edourd 
Biot que tem o seguinte titulo: Catalogue des Cometes obser- 
ves en chine depuis Tan 1230 jusqu'a Tan de 1640 de notre ere, 
(lue elle offereceu ao nosso consócio o p.*^*^ Matheus Valente do 
Couto (2). 

Sou de V. S." 

Visconde de Santarém. 



(1) António Joaquim Moreira, official da secretaria da Academia das 
Sciencias que morreu em 1865 e que prestou grandes serviços como biblio- 
philo sendo notável a sua collecção de Sentenças. 

(2) Matheus Valente do Couto, bacharel, nasceu no Brazil mas veiu 
para Portugal. Estudou medicina mas largou a carreira e fez-se official de ma- 
rinha. Escreveu vários livros de sua especialidade e de astronomia. Académi- 
co. Morreu em 1848. 



VISCONDE DE SANTARÉM 391 

Para o Ministro dos Negócios Estrangeiros 
(confidencial) 

Paris 10 de Novembro de 1843. 

Depois que tive a honra de escrever a V. Ex.^ o meu officio 
confidencial n.'' 18 veio-me á mão o uP 71 da Gazeta d'Estado 
da Prússia (Algemeine Preusischie Zeitung) de 9 de Setembro, em 
que se publicou um longo artigo relativo á minha obra sobre a 
Prioridade dos nossos descobrimentos Africanos, pelo qual V. Ex.« 
verá que em Allemanha se reconhece a justiça de nossos direitos. 

Tenho pois a honra de enviar a V. Ex.a uma copia da traduc- 

ção que tem a bondade de fazer do mesmo artigo o nosso amigo 

o Snr. Visconde da Carreira. Aproveito de novo mais esta occa- 

sião. &.^. 

Visconde de Santarém. 

Para o Ministro dos Negócios Estrangeiros 

Paris 10 de Novembro de 1843 

///.'"" e Ex."'" Sr. 

Tenho a honra de enviar a V. Ex.« o requerimento incluso 
que acaba de me entregar F. L. A. de Andrade, official graduado 
da Secretaria d'Estado dos Negócios Estrangeiros, e que por De- 
creto de S. M., de 4 de Agosto de 1841, foi destinado a servir de- 
baixo das minhas ordens nesta Corte, pedindo uma nova licença 
para ir a esse Reino tratar de sua saúde. Julgo do meu dever 
informar a V. Ex.^ que o mesmo empregado já obteve outra li- 
cença no anno próximo passado, conforme me foi communicado 
em despacho de 26 de Maio do mesmo anno, tendo-se aprovei- 
tado do mesmo espaço de 7 mezes que esteve ausente d'esta 
Corte. 

Deus Guarde &. 

Visconde de Santarém 



• 



392 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



Do Visconde de Santarém para o Conde da Ponle 
Paris, 11 de Nov.° de 1843. 

Meu q.^° Sobr.^ e Am.« do C. 

Recebi com muito prazer a sua cartinha de 9 d'Outubro pas- 
sado que muito liie agradeço, e pelo constante interesse que 
toma por mim, e que eu Ilie mereço. 

O que o Viale (1) disse em S. Amaro da minha ida p.a esse 
Reino segundo lhe tinha dito S. Pinheiro (2) não tem fundamento 
algum. Antes pelo contrario, o que tenho aqui a fazer não con- 
sente mesmo que eu arrede pé de Paris para fazer uma sim- 
ples viagem de 8 dias. 

Estou atulhado de Mss., de provas d'imprensa, etc. e trabalho 
para lhe enviar os Tomos 4 e 5.° da minha obra Diplomática até 
ao fim do mez que vêm. São de mais de 600 p. cada um, e pre- 
ciosíssimos de documentos inéditos, e inteiramente desconhecidos. 
Aqui fui mui festejado pelo D. de Palmella, com quem me encon- 
trei no jantar diplomático dado pelo Visconde da Carreira ao 
Embaixador d'Hespauha Olozaga (3). Foi depois comigo ver as 
preciosidades desta Bibliotheca Real, e antes da sua partida es- 
creveu-me uma obsequiosíssima carta acerca das minhas obras, 
tendo alem disto sem eu o saber senão nos últimos dias, mandado 
buscar a Aillaud um exemplar delias que mandou encadernar 
magnificamente para fazer delias presente em Londres a 



(1) Aníonio José Viale, celebre scientista e poeta que foi professor de 
D. Pedro V e D. Estephania, D. Luiz e D. Carlos. Serviu D. Miguel e emigrou 
em 1833 tendo sido professor no CoUegio de Fontenay aux Roses. 

(2) S. Pinheiro, deve ser Silvestre Pinheiro Ferreira, que foi ministro dos 
estrangeiros do governo de 1820 e um grande liberal que se deixou ficar em 
Paris em 1826, até mesmo depois de eleito deputado e o mesmo fez até 1843 
em que voltou á pátria. Sócio da Academia, do Instituto de França e do Insti- 
tuto do Brazil. Morreu no Lumiar em 1846. 

(o) D. Salustio Olozaga, homem politico hespanhol, chefe do partido libe- 
ral no reinado de Isabel. Ministro e embaixador. Morreu em 1873. 



VISCONDE DE SANTARÉM 



393 



Uj Adanson, em retribuição de muitos favores que lhe lhe de- 
via. 

N'este momento recebo um n,° da Gazeta d'Estado de Ber- 
lin, de 9 de setembro, na qual vêm um longo artigo analytico 
sobre a minha obra dos Descobrimentos e Geographia da Idade 
Media, e que eleva este trabalho e a publicação do Atlas á or- 
dem, e cathegoria de serviço de primeira ordem feito ás Scien- 

cias. 

Rogo-lhe o favor de mandar entregar a inclusa a Viale, e de 
dar recados a todos da minha parte, e acreditar que sou como 

sempre 

Seu Tio e Am." f. e Obrg.'^'' 

M. V. Santarém. 



Caria do Visconde de Santarém para Rodrigo da Fonseca 
Magalhães 

Paris 11 de Nov.« de 1843. 

Ill/"" e Ex.'"" Snr. 

Ha 'mais de dous mezes que estou privado das preciosas noti- 
cias de V. Ex.a sendo a ultima carta que tive a honra de rece- 
ber de V. Ex.a datada de 4 de Setembro. 

Julgo ocioso dizer a V. Ex.^ quanto este silencio me incom- 
moda, e entristece por mais de um motivo, sendo o principal o 
receio de que este seja causado pelo estado da sua saúde. 

Eu também passei incommodado quasi todo o mez passado, 
pagando o costumado tributo á entrada do inverno. Apezar disso 
tenho continuado a trabalhar, e ultimei já a impressão do 4.'^ 
vol. da nossa obra, volume que ^ela riqueza dos materiaes fui 
obrigado a dividir em duas partes, contendo cada uma mais 
500 paginas. Espero que ahi chegarão ambos antes da abertura 
da Secção Parlamentar do anno próximo. Incluo a traducção de 
um artigo que se publicou no (Algemeine Preusische Zeitung) 
Gazeta d'Estado da Prússia, de 9 de Setembro. 



394 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



Por este artigo V. Ex.^ verá que em AUemanha, e sobretudo 
em Berlim, onde os críticos são tão difficeis, se vai propagando 
a justiça da nossa causa na questão da prioridade. 

Os nossos am.<»s os Snrs. Ávila e Marreco estão bons. Por 
aqui vem algumas vezes, cuido que ainda se demorão, no que 
tenho muita satisfação. 

Dê-me V. Ex.a sempre noticias suas, e acredite nos sentimen- 
tos de invariável amizade, e gratidão com que sou 

De V. Ex.a 
Am.° f. e obrg.'"» cr. 

Visconde de Santarém. 

Do Visconde de Santarém para Macedo 

Paris, 11 de Nov." de 1843. 

///.'"'' e Ex.""" Snr. 

Recebi pelo correio passado a carta de V. S.^ de 18 do p. e 
o Maço de José Manuel, e bem assim, mais 3 folhas da sua 
importante Memoria. A nota sobre a palavra árabe Sanamon me 
parece muito interessante, e estou inteiramente da mesma opi- 
nião de V. S.\ Estive de cama 3 dias a semana passada e por 
isso não poude mostral-a a alguns destes senhores, e posto que 
vieram ver-me não me achando em estado de pairar, não recebi 
ninguém, de maneira que perdi a occasião de tratar de alguns 
objectos litterarios com Quetelet e d'Stallont que vierão ver-me 
nestes dias. 

Pode V. S.a communicar aos nossos consócios, a quem pode 
interessar a seguinte noticia, (jue o nosso consócio na Academia 
de Munich o Dj Martens, me escreveo em data de 31 d'Outubro 
passado dizendo-me entre outras cousas, que acaba de publicar 
um systema de Matéria Medica Vegetabilis, do Brasil composto 
em latim, consistindo em um elenco critico de todas as plantas 
medicinaes com seus nomes provinciaes, contando 470 espécies 



VISCONDE DE SANTARÉM 395 

com uma concordância das plantas medicinaes da Europa com 
as do Brazil. 

Muito senti a morte do nosso consócio M. J. M. da Costa e 
Sá (1) e concordo que taes perdas são consequentes para a nossa 
Academia. 

Rogo o favor de mandar entregar a carta p.^ J. M.^' e a outra 
a meu sob.° 

Visconde de Santarém 



Para o Ministro dos Negócios Estrangeiros 

Paris, 1.0 de Dezembro de 1843. 

///.'"'' e Ex.""" Sr. 

Tendo partido de Paris para essa Corte F. L. A. d'Andrade,, 
sem esperar a resolução de S. M.® acerca da licença que pedira 
pelo Requerimento que tive a honra de enviar V. Ex.a com o 
meu officio n.'* 18 vejo-me, em consequência, obrigado a declarar 
a V. Ex.^ que não autorizei o dito Empregado a dar um passo 
•que custou antigamente ao Marquez de Niza, (2) Embaixador 
do Snr. Rei D. João IV, o não ser recebido pelo mesmo Sobe- 
rano, e a D. João d'i\lmeida (3), depois conde das Galveias, ape- 
zar de ter Martinho de Mello, seu tio, no Ministério de ter sido 



(1) M. J. M. da Costa e Sá, foi muito precocemente litterato e muito novo 
também sócio da Academia. Official maior da secretaria da marinha. Chronista 
das provincias ultramarinas. Morreu em 1843. 

(2) O Marquez de Niza, embaixador de D. João IV, .o.» conde da Vidiguei- 
ra. As suas embaixadas foram a Roma e França. Deputado da .Junta dos Três 
Estados e Conselheiro da guerra de D. João IV, Affonso VI, D. Pedro II. Muito 
erudito e d'um requintado gosto artístico possuía uma preciosa bibliotheca. 
Morreu em 1676. 

(3) D. João d'Almeida de Mello e Castro, que foi ministro na Haya, Lon- 
dres e Roma. Estava em Londres quando rebentou, em 1742, a guerra de 
França com a Áustria e ali ficou até 1801 quando foi ministro dos extrangeiros 
de que foi demittido por desejo de Lannes que o sabia affecto á Inglaterra. 
Morreu em 1814 no Rio de Janeiro. 



396 ' CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

ameaçado de perder o lugar de Enviado em Hollanda só porque 
sem licença viera passar alguns dias a Paris. ' 

Pretextou elle para uma tal resolução que o estado de sua 
saúde lhe não permittia ficar nem um só dia mais em Paris 
nesta estação ; não me parece todavia que se tal fosse o seu ver- 
dadeiro estado o arbítrio que tomou de emprehender, nos fins de 
Novembro, uma viagem de mar na Mancha e nas costas de Por- 
tugal seja o melhor remédio para o restabelecimento d'um mori- 
bundo. Para o Paquete seguinte terei a honra de informar a 
V. Ex.'i do modo porque este Empregado tem desempenhado os 
trabalhos de que o tenho encarregado desde que chegou a esta 
Corte, podendo desde já segurar a V. Ex.^ que nem uma só linha 
escreveo para os õ vol. da minha obra diplomática que se achão 
impressos, não tendo podido aprovèitar-me de uns poucos ex- 
tractos que elle fez para o 4.° volume pela infidelidade com que 
tinham sido feitos, faltando-lhe a uns as datas e a outros as 
remissões apezar de eu lhes ter escrupulosamente dado por 
escripto. Renovo, etc. 

Visconde de Santarém. 



Do Visconde de Santarém para Macedo 

Paris 3 de Dezembro de 1843. 

111.'"° e Ex.""" Snr. 

Aproveito a occasião que me offerece a partida do S.'' José 
Frederico Mareco para escrever estas duas regras a V. Ex,^ 
afim de lhe significar o quanto me inquieta a falta de noticias 
directas de V. Ex.» desde 4 de Setembro. Receio que as minhas 
cartas ou as de V. Ex.^ tenhão sido desencaminhadas. 

O desejo que tive de dar 2 volumes do Quadro ao mesmo 
tempo fez demorar, mais do que eu pensava, esta publicação. 
Entretanto tenho já tiradas 72 folhas, e o Tom. 4.° fica prompto, 
e publicado amanhã, e o que se lhe segue está de tal modo 
adiantado que espero não deixará de ahi apparecer em Jan.<> 



VISCONDE DE SANTARÉM . 397 



Aceite V. Ex.'* as invariáveis expressões de amizade e grati- 
dão com que sou 

De V. Ex.a 
Am.^ f. e ofarg."»» cr. 

Visconde de Santarém. 

Do Visconde de Santarém para Macedo 

Paris 6 de Dezemlbro de 1843. 

111.""' e Ex.""" Snr. 

Tenho a honra de enviar a V. Ex.^ um exemplar do Tomo i\\ 
Parte 1.% do Quadro Elementar das Relações Diplomáticas de 
Portugal. 

Pelo navio que vae partir do Havre para essa capital na pró- 
xima semana remetto a V. Ex.-"^ mais 24 exemplares. 

Aproveito mais esta occasião para segurar a V. Ex.'' os sen- 
timentos de alta estima com que me prezo de ser 

De V. Ex.a 
Am.° f. m.t« obrg.^o cr. 

Visconde de Santarém. 

Do Visconde de Santarém para Macedo 

111.""° e Ex."'° Sr. 

Tenho a honra de partecipar a V. Ex.a que hoje remetto a 
V. Ex.a, por via da legação de S. M.® nesta corte, vinte e quatro 
exemplares do tomo iv P.^ l.a do Quadro Elementar das Rela- 
ções Politicas e Diplomáticas de Portugal. 

Este volume encerra um grande numero de documentos pre- 
ciosos e pela maior parte inéditos e entre estes as curiosíssimas 
transacções que houverão relativas a Portugal com a França 



398 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

durante os 60 annos do Governo dos Philippes, período este da 
nossa historia de que não tínhamos até agora noticia alguma 
em nenhum dos nossos escriptores. 

Encerra, egualmente, o mesmo volume as negociações que 
occorrerâo entre Portugal e a França, e os tratados que se cele- 
brarão durante o reinado do Senhor Rei D. João IV, Augusto 
fundador da Dynastia reinante comprehendendo mais de qua- 
trocentas paginas de texto. 

Guarde Deus &. 

Visconde de Santarém. 



Do Visconde de Santarém para Macedo 

Paris, 6 de Outubro de 1842. 

///.'"'' e Ex.""" Snr. 

Recebi em seu devido tempo as cartas de V. S.** de 19 do 
passado, e de 11 do corrente. 

Quanto ao objecto da 1.^ a saber qual he a porção de lettra 
necessária para imprimir 4 folhas de texto árabe e por conse- 
quência quantos kílos pesará — respondo que consultei os nos- 
sos am."** orientalistas mas estes não sabem nada disto, pois só 
'os impressores e compositores, pela pratica que tem deste nego- 
cio, podem responder a este ponto. Consultei os da imprensa de 
Didot, estes responderão que serão necessárias de 800 a 1 000 
livras para cada folha, e que para 4 folhas de 2 a 3.000 kilo- 
grammas. 

Elles calculão que uma pagina em 4.° peza 100 hbras. 

Parecendo-me todavia esta conta regular assentei de me diri- 
gir á Imprensa Regia, não tive ainda resposta nem tão pouco 
de M.'"^ Dondey Dupré. 

Pelo que respeita à obra de Tornbeg em que lhe fallei na m.-'^ 
carta de 27 de Setembro imprimio-se em Upsal. 

Já forão entregues no Deposito da Marinha as Collecções da 
nossa Academia como V. S.^ verá do recibo incluso. Escrevi 



VISCONDE DE SANTARÉM 399 

uma longa carta ao Almirante Halgan e outra para o Ministro. 
Logo que tiver resposta deste negocio transmittirei a V. S.''^ 

Agradeço a continuação da remessa das folhas da sua eru- 
dita Memoria e não sou menos grato a V. S.*» pela menção que 
ali fez do meu Quadro Elementar. 

Renovo as expressões. 

Visconde de Santarém 



Do Visconde de Santarém para Joaquim José da Costa de 
Macedo 

Paris 6 de Dezembro de 1843. 

///.«no e Ex.'^^ Sr. 

Remettendo 2 exemplares do Tomo iv Parte 1.» do Quadro. 
Um para a Academia, e outro para elle. 

Visconde de Santarém 



Do Visconde de Santarém para Joaquim José da Costa de 
Macedo 

Paris 26 de Dezembro de 1843. 

///."»« e Ex.""" Sr. 

Remettendo o 2.^ volume de Ibn-Kallikam offerecido por 
Mr. de Slane á Academia e os dois opúsculos de Pierquin. 

Visconde de Santarém 



Do Visconde de Santarém para Joaquim José da Costa de 
Macedo 

Paris 28 de Dezembro de 1843. 

///.'"'' e Ex.'"" Snr. 

Ha muito que não recebo cartas nem noticias de V. S.^. Estou 
em grande cuidado em consequência do que me escreveo na sua 
ultima carta. ♦ 



400 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

Antes de hontem mandei para a Legação o 2° Tomo da tra- 
ducção de Ibu-Kallikam de Mr. de Slane, e que este orientalista 
offerece á nossa Academia; e remetti igualmente os Tomos 1.** 
e 3 da traducção do Dubistan que Mr. Froyer offerece á mesma. 

Estes volumes vão partir por um navio do Havre que deve 
fazer-se á vela nos primeiros dias de Janeiro. 

Inclusas encontrará V. S.« as duas cartas deste orientalista 
que acompanharão as obras de que acima fiz menção. 

Felizmente conclui o negocio do Deposito da Marinha. No dia 
23 recebi a carta do Almirante Halgan da Copia inclusa com a 
Lista original dos Livros que offerece aquella Repartição em 
troca dos que a Academia lhe enviou. 

Espero poder remette-los pelo mesmo navio. 

N. B. Escrevi ao Conde da Ponte e á Maria Constança. 

P. S, Quando acabava entregarão-me a sua carta de 9 do 
corrente, e com ella a folha 20 da sua importante Memoria. 

Agradeço muito esta remessa e o favor de ter mandado en- 
tregar as minhas cartas. 

Concordo inteiramente com V. S.'' que a palavra Árabe Sn- 
uamon não pode significar Estatuas sobre Estatuas. 

Hoje escrevo ao nosso consócio o Dr. Martens e conto lem- 
brar-lhe a remessa da sua obra para a nossa Academia. 

A Copia da Chronica antiga foi pelo Marquez de Vianna 
que já chegou ahi á muito tempo. Apesar de se terem offerecido 
diversas occasiões para remetter o dito Mss. assentei em pedir ao 
nosso amigo Visconde da Carreira que o entregasse ao Vianna 
com muita recommendação por ir assim em direitura e mais se- 
guro no Saco dos Despachos que elle costuma sempre levar. 

Os exemplares do Leal Conselheiro, bem como os magníficos 
exemplares de VHistoire Naturelle du Mais de Mr. Bonafous fo- 
rão para ahi remettidos em 5 de Junho deste anno e encaixota- 
dos na Legação. Destes últimos nem se quer tive até agora a 
menor noticia da sua chegada. 

E' natural que estejão perdidos, ou Deos sabe se lhes acon- 
teceo a mesma sorte da Archeologie Navale de Mr. Jal ! ! 

Tem-me estas e outras desanimado. e é mui natural que acabe 



VISCONDE DE SANTARÉM 401 

por me não encarregar de taes remessas, pois os A A. custa-lhes 
a engulir a pilula de que se perdem e descaminhão. 

V. S.a pelo que vejo não ha quem o arranque da Gollegam ! 
Estou tremendo que as doenças nos não preguem algum logro 
de me privarem por algum tempo da sua correspondência. 

Visconde de Santarém 



Para o Alinistro dos Negócios Estrangeiros 

Paris 17 de Dezembro de 1843. 

III.""' e Ex.'"" Sr. 

Em conformidade das ordens que V. Ex.a se sérvio transmit- 
tir-me pelo seu Despaclio N.° 6 acerca da irregularidade do pro- 
cedimento do official graduado da Secretaria dos Negócios Eccle- 
siasticos Francisco Ladislau Alvares de Andrade de se ter apre- 
sentado nessa Corte sem previa licença pretendo cohonestar o 
referido passo com o meu consentirtiento tenho a lionra d'infor- 
mar a V. Ex.^» o seguinte : 

No dia 5 de Novembro sem me ter previamente prevenido. 
veio o dito Empregado entregar-me o requerimento que tive a 
honra de remetter a V. Ex.^ com o meu officio N.'^ 18 pedindo-me 
de o enviar pelo primeiro Paquete. 

Dois dias depois, isto é, no domingo 12, apresentou-se-me de 
novo, dizendo-me que os Médicos lhe dizião que a sua vida pe- 
rigava se ficasse mais um dia em Paris, e que offerecendo-se a 
occasião da partida immediata dum navio, se dehberava a par- 
tir, munido, segundo elle dizia, de novas attestações de Médicos. 
Que todavia não sabia se poderia ou não ter logar no dito navio, 
pedindo-me para levar um officio meu dirigido a V. Ex.^ no qual 
eu cohonestasse tal deliberação ao que eu não annui, deixan- 
do-me assim surprehendido com tão insólito procedimento, não 
só não annui a elle mas até o mesmo Empregado couheceo a 
profunda impressão que me havia causado a sua conducta, di- 
zendo-me quando sahio de minha casa na incerteza se com ef- 

VoL. VI 26 



402 CORRESPONDÊNCIA SC1ENTIFI(?A E LITTERARIA 

feito se decidia a dar um passo tal. De maneira que não o tendo 
tornado a ver, depois do dia 12 do mesmo mez, tive de ir infor- 
mar-me do Ministro de S. M.^ nesta Corte se com effeito na Le- 
gação se sabia ter elle effectuado ou não a sua partida. Servi- 
dor da Coroa desde os meus primeiros annos nunca faltei ao meu 
dever nos diversos empregos que servi, não podia aconselhar a 
outrem que faltasse a elles, e muito menos agravaria esta parte, 
tendo a temeridade de me servir do nome de S. M. para inter- 
pretar as suas Reaes lustrucções. Agradeço pois infinitamente a 
V. Ex.^ a justiça que me fez de julgar que eu não haveria auc- 
torisado tão grave facto. 

Deus Guarde, &.^ Visconde de Santarém 

Para o Ministro dos Negócios Estrangeiros 

Paris, 17 de Dezembro de 1843. 

III.''"' e Ex.'"° Sr. 

Sinto profundamente dar a V. Ex.^ a moléstia de ler esta 
longa carta, principalmente versando ella sobre um assumpto 
para mim tão repugnante, qual o de me ver forçado a escre- 
ver em desabono de um individuo, obrigando-me este a romper 
o silencio que desejava guardar, e que só rompi depois de exhaus- 
tos todos os meios que a prudência mais tenaz e constante me 
suggerio. 

A relação circumstanciada do modo porque desempenhou os 
trabalhos de que o encarreguei desde que chegou a esta Corte, 
acompanhada das próprias Cartas delle, fará ver a V. Ex.''^ a 
verdade dos factos. Esta relação é tanto mais imparcial quanto 
manifesto que foi a mim mesmo a quem este individuo deveo a 
commissão de que foi encarregado em Paris em Março de 1826, 
apezar de opposição que lhe fizera o Conde de Murça, (1) então 



(1) Conde de Murça, D. Miguel, que nasceu em 1766 e morreu em 1836. 
Governador de Angola e ministro da fazenda em 1825 e depois presidente do 
real erário. Par do reino em 1826. Affastou-se da vida publica ao deixar o 
ministério. 



VISCONDE DE SANTARÉM 40!^ 

Ministro d'Estado de S. A. R. o Sr.^ Infanta Regente D. Izabel 
Maria, conseguindo eu que se removessem todos os obstáculos 
que o dito Ministro lhe oppozera por um decreto alcançando eu 
outro datado de 19 de setembro do dito anno em seu favor, o 
que tudo se prova pelas minhas informações e mais papeis que 
a este respeito se guardavão na Secretaria d'Estado dos Negó- 
cios do Reino. 

Nomeado, pois, o dito Empregado ultimamente pelo Real De- 
creto de S. M.^ de 4 de Agosto de 1841 só chegou a Paris em 
Outubro. Nem neste mez, nem no seguinte fez este individuo 
trabalho algum, pois já em 3 de Novembro havia mais de duas 
semanas que delle não tinha tido noticia alguma, passando todo 
o mez de Novembro debaixo de diversos pretextos sem fazer 
cousa alguma. Só apenas veio a minha casa em horas em que 
sabia que eu me achava na Bibliotheca e escrevendo-me em 20 
de Dezembro do mesmo anno a Carta N.» 1. No anno passado 
de 1842 encarreguei-o nos primeiros dias de Janeiro de tirar as 
copias e extratos de duas ou três peças da Collecção de Mar- 
tens que formão em tudo 10 paginas. Não é crivei o tempo 
que levou em dar conta deste insiguificantissimo trabalho, e por 
fim apezar de me trazer os ditos extractos foi-me necessário 
fazel-os de novo para ser conforme e em harmonia com a minha 
obra. Mandei-lhe dar depois dos Manuscriptos da Bibliotheca 
Real um códice interessante para a nossa Historia Politica que 
contem uma relação da Corte de Portugal e de outros assumptos 
diplomáticos do Reinado do Senhor D. Pedro II ordenando-lhe 
que tirasse Copia de uma parte, ou pelo menos fizesse os extra- 
ctos das partes mais interessantes do Manuscripío; depois de o 
ter tido em seu poder algumas semanas, veio trazer-mo acompa- 
nhado de um Bilhetinho em que dizia que era mui volumoso e 
que continha aquillo que iodos sabem. 

Encarreguei-o depois de extractar e copiar os documentos dos 
Códices da preciosa correspondência de Mr. de Saint Goard, 
Embaixador de Henrique JII em Madrid, que dizia respeito a 
Portugal. 

Dias depois veiu restituir-me dizendo-me que o não podia ler 
por que a letra era detestável. Isto é verdade, quero dizer que a 



404 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

letra é péssima, mas nem por isso ficou por tirar tudo quanto 
havia a nosso respeito n'aque]la correspondência, pois se ex- 
tractou e copiou toda, como V. Ex.» verá na Introducção do 
Tomo IV da minha obra. 

Vendo assim que elle se não havia com este género, os ma- 
nuscriptos, encarregueio-o de tirar das Memorias impressas do 
Marquez de Torey vários documentos relativos a Portugal, indi- 
cando-lhe as remissões, as paginas, etc. Depois de ter a súbdita 
obra em seu poder muito tempo, na forma do costume, veio tra- 
zer-m'a dizendo que não via ali nada de Portugal ! ! Tive depois 
de as copiar e extractar pela minha mão, como lhe mostrei a 
elle mesmo. Nisto consumio elle os mezes de Janeiro, Fevereiro 
e Março do anno passado, tendo-me por este tempo escripto a 
carta N.o 2 pretextando doença. Apenas havia passado assim o 
pouco tempo que aqui havia residido, isto é, pouco mais de 4 
mezes depois da sua chegada a Paris, já iiavia pedido licença 
para ir a Portugal a qual lhe foi concedida pelo despacho que 
me dirigio S. Ex.a o Duque da Terceira, datado de 26 de Março 
do anno passado, licença de que logo se aproveitou em Abril se- 
guinte, ficando em Lisboa mais de 6 mezes, e voltando por Londres, 
tendo ficado ausente 7 mezes, regressando a Paris só em Outubro. 

Já se vê pois que desde outubro de 1841 a outubro de 1842 
não fez este Empregado trabalho útil, nem cousa já com um ou 
outro pretexto, já pela longa ausência. 

Pelo que respeita ao segundo anno, que decorre desde outu- 
bro passado, não fui mais fehz em conseguir delle trabalho que 
mereça a pena de mencionar-se, e não fez um só para os volu- 
mes do Quadro publicados. 

Eis aqui circumstanciadamente o que elle fez. Para lhe dar 
cousa que elle não podesse pretextar que era de leitura difficil 
encarreguei-o de extractar vários documentos das negociações do 
Congresso de Munster. 

Dei-lhe, na forma dos costume, a lista chronologica-remis- 
siva. Levou bastante tempo neste trabalho e no fim trouxe-me 
os extractos de modo que a uns faltavão as datas, a outros as 
remissões ; muitos estavão copiados conjuuctamente, quando de- 
vião ser em separado; outros julgou elle de seu motu próprio 



VISCONDE DE SANTARÉM • 405 

que só os devia mencionar dizendo : contem o mesmo, de ma- 
neira que tive de os refazer pelos meus bilhetes e apontamen- 
tos e de os verificar nos textos originaes e nas correspondências 
manuscriptas dos Plenipotenciários que se achão nos Manuscri- 
ptos da Biblioteca Real. Neste trabalho levou e consumio o tempo 
que decorreo até Fevereiro deste auno. 

Então encarreguei-o de copiar da Historia das Negociações do 
Tratado dos Pyrinéos o que havia em a obra de Courchelet. De- 
pois de a ter muito tempo em seu poder e de me escrever arti- 
ficiosamente a carta de 27 de Março deste anno. (Documento 
N/-' 3) veio trazer-me os volumes da mesma obra, repetiudo-me 
que não sabia o que havia de copiar ! ! Tive eu na forma do cos- 
tume de fazer este trabalho. 

Para que elle não dissesse, com a má fé com que procede, 
que eu o deixava sem trabalho, mandei-lhe dar o Códice N.'' 359 
desta Bibliotheca que contem as Negociações de Roma de Mr. Gon- 
fier, Ministro de França em 1645 e 1646, nas quaes se encontrão 
muitas communicações relativas aos negócios de Portugal, e as 
curiosíssimas instrucções dadas pelo Gabinete de Madrid ao seu 
Embaixador, o famoso Marquez de los Vales, peça esta do maior 
interesse. E' uma copia italiana que o Ministro de França obteve 
secretamente em Roma. Voltou Andrade dias depois dizendo-me 
que sendo as instrucções em Italiano, e ignorando elle esta lín- 
gua as não podia copiar; quanto ao resto dos Despachos que 
posto que nelles se fallasse de Portugal era de passagem, e que 
não via nada a aproveitar. 

Mandei-lhe dar este Códice, pertencente á secção de Roma, 
por ver que era tempo perdido e completa illusão esperar o me- 
nor trabalho delle para a parte da minha obra que se estava 
imprimindo. Por esta razão, e pelos motivos que acima apontei, 
encarreguei-o de copiar os documentos relativos ás nossas impor- 
tantíssimas negociações com a Hollanda em 1651, que se achão 
em um Manuscripto desta Bibliotheca Real N." 229-10 e que elle 
copiou com exactidão, copiando portanto 44 paginas in-folio único 
trabalho útil que fez durante todo o tempo que residio nesta 
Corte, ainda que tenho de o pôr em harmonia com o meu plano, 
e com o systema histórico que segui. 



406 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

Finalmente encarreguei-o, em Setembro passado, de tirar ex- 
tractos chronologicos dos Plenos Poderes das Credenciaes e das 
lostrucçôes passadas ao Marquez de Marialva em 1807 : expli- 
quei-Ihe miudamente o como elle devia fazer este trabalho. Pas- 
sado esse mez, em que me não procurou escreveo-me em 9 de 
Outubro a carta, docum. N.° 4, na qual, com a sua astúcia habi- 
tual, me fez a pergunta que V. Ex.'^ verá, pergunta á qual não 
dei resposta, vendo claramente que era um novo pretexto para 
não fazer o trabalho que lhe indiquei. Este foi o ultimo feito 
deste Empregado escrevendo-me por fim a carta, docum. N.° 5, 
restituindo-me o Manuscripto, sem ter tirado delle uma bó linha, 
rematando a irregularidade de seus procedimentos tomando a 
deliberação de partir para essa Corte sem esperar a indispensá- 
vel licença que para isso o auctorizasse. Não abusarei mais da 
paciência de V. Ex.» referindo-lhe um sem numero de incidentes 
e subterfúgios de que elle se sérvio, bastão os dous seguintes; 
o l.« de não ter encontrado nas Bibliothecas de Pariz a Historia 
dos Duques de Borgonha de Mr. de Barante, apezar de se terem 
já publicado 7 edições d'esta obra ; o 2.° de não ter encontrado 
durante muito tempo a obra de Martens. 

Á vista do que acabo de ter a honra de expor a V. Ex.^ e 
das cartas originais deste Empregado, que remetto juntas, com- 
binadas com o irresistível argumento das ditas não escapará de- 
certo á penetração de V. Ex.'* que, apesar do modo artificioso e 
calculado com que as ditas cartas forão escriptas que delias se 
prova á evideitcia que elle allegou sempre motivos de doença 
ou então ausente desta Corte e, consequentemente, que não fez 
absolutamente cousa alguma útil durante o tempo que residio 
nesta Capital. Parece-me, portanto, inútil o regresso delle a esta 
Corte. Resta-me supplicar a V. Ex.^ á vista do que deixo exposto 
a mercê de me poupar um novo dissabor e o continuado sup- 
plicio de ter debaixo das minhas ordens esse Empregado que 
com taes artes as illude, em menoscabo do serviço e da minha 
própria dignidade. 

Guarde Deus, etc. 

Visconde de Santarém 



VISCONDE DE SANTARÉM 407 



De Eugene Froberville para o Visconde de Santarém 

Voici, mon cher monsieur, Textrait dlbntaid, tel que je Tai 
reçu d'uri de mes amis Snr. V. Noel, orientaliste fort distingue. 

«lies de Diab ou Dziab. Elles sont grandes, la plus considé- 
rable est celle de Dennery ainsi nommée par les voyageurs. 
La ville principale appelée aussí Dennery est située par 92.° 
longit. et par 2õ.° latit. La longueur de Tile de Touest à Test, est 
de 220 milles et sa largeur d'environ 140. — Entre cette il et la 
cote du Sind est Tespace d'environ une journée et denioe de 
navigation». 

Cette description nous reporte sur la cote des contrées indo- 
nestaniques et non sur la cote orientale d'Afrique. D'Herbelot dit, 
que le Send ou Sind est la contrée située vers Tlndus, ou on ne 
voit dans ces parages que la presqu'ile du Guzerate dont la 
dimeusion puisse s'accorder avec celle de Dennery. (La lecture 
de ce mot esi douteuee). 

Peut être est ce Deibul ou Diol, et ce rapprochement prend 
une certaine consistance lorsqu'on voit, que cette ville, située 
sur une petite ile, était três fréquentée par les árabes. Au reste, 
il est bien clair que Tile ou les iles Diab ne sont point placées 
sur la cote d'Afrique par Ibn Said, quoique ce géographe en 
parle immédiatement après avoír décrit les iles Zanedj. Les ára- 
bes imbus du système erroné de la géographie de Ptolémée tou- 
chant la direction de la Cote Orientale d' Afrique, qui les décou- 
Vraient ordinairement dans le même chapitre de leurs livres 
géographiques, toutes les iles de TOcéano Indien, necessairement 
rapprochées et confondues, puisque suivant eux, la cote africaine 
se courbait vers Torient, et allait rejoindre Textremité de TAsie. 
II est souvent três difficile de distinguer quelles sont les iis 
appartenant à 1' Afrique, el celles qui dépendeut de TAsie. Dans 
Textrait, que je vous envoie cet inconvénient n'existe pas; la 
distance du continent Indien est clairement exprimée, et suffit 
pour démontrer, que Tile Diab n'est point une ile africaine. 

Pardonnez moi, Mon cher Monsieur, d'oser porter mon opi- 



408 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

nioa devant vous, qui voyez et résolvez si clairement ces sortes 
de questions. 

Heureusement, qu'il ne s'agit ici, que de la pauvre géogra- 
phie des árabes, science si obscure et si contradictoire, qu'elle 
semble avoir été inveutée pour les chercheurs d'énigmes, plutôt 
que pour Tinstruction des hommes. 

Recevez, je vous prie, Tassurance de mes sentiments biea 
affectueuse. 

Eugène de Froberville. 

Le 7 Janvier 1844. 



Para o Ministro dos Negócios Estrangeiros 

Paris, 11 de Janeiro de 1844. 

Ainda quando eu não devesse tantas finezas e favores a 
V. Ex.^ bastavão as expressões que se sérvio dirigir-me na sua 
ultima e presadissima carta de 25 do passado para lhe ser eter- 
namente grato. Agradeço infinitamente a V. Ex.a a noticia que 
me dá acerca de não voltar para aqui o Andrade. Pela anedocta 
que V. Ex.^ me conta vê-se palpavelmente que o homem é doido, 
como V. Ex.''^ muito bem observa. Varias vezes lhe fiz algumas 
observações moderadas, mais isto de nada aproveitou. Verifiquei, 
com sentimento meu, que na minha carta confidencial de 17 do 
passado me havia escapado de mencionar mais 30 paginas por 
elle copiadas do manifesto de Portugal sobre a expulsão do Vice- 
Colleitor do Papa, em 20 de Janeiro de 1647. Com isto fica Com- 
pleta a relação de tudo quanto elle aqui fez. Eu sou também 
pouco inclinado a procedimentos fortes, e por mais de uma vez 
arrisquei até a vida por me oppôr a elles, mas, em casos taes, 
sempre julguei que a autoridade e o respeito devido ao Governa 
se enfraquecião, se não desse sigual de si até para impedir o 
contagio do exemplo. 

A nomeação de Pereira para o lugar delle parece-me muitq 
bem. Agradeço pois como devo o distincto obsequio que V. Ex.* 
me faz no que me diz respeito. Tenho muitíssimo que lhe dar a 



VISCONDE DE SANTARÉM 409 

fazer, pois nos Archivos dos Negócios Estrangeiros, aqui e nos 
da Marinha nos M&s. das Bibliothecas Reaes, existem immensos 
documentos que nos dizem respeito, e que entrão nas diversas 
secções da minha obra diplomática. Hoje mesmo acabei de che- 
gar dos Archivos da Marinha, onde já examinei 408 documentos, 
relativos a Bayoua nos quaes ha muitas cousas nossas entre os 
annos de 1644 a 1716. O Tomo IV P.^ 1.^ do Quadro Elementar 
deve já ter chegado ás mãos de V. Ex a, o tomo V está já todo 
no prelo, apenas lhe falta um resto da Grande Introducção em 
consequência de mais de 220 documentos do Archivo dos Negó- 
cios Estrangeiros mui preciosos que vem completar as negocia- 
ções dos Reinados d'ElRei D. Affonso YI e D. Pedro II. Terei a 
honra de remetter a V. Ex.^ este mez que vem como espero. No 
anno que acaba de expirar — imprimi 2.016 paginas o que cor- 
responde a mais de 5 volumes de formato ordinário usado em 
França. Acabo de fazer novo provimento de grande quantidade 
de papel para a contiauação, paguei muitas Copias de documen- 
tos preciosos para o Corpo Diplomático que se achão em Hespa- 
nha e que dois dos Empregados deste Governo que ali estiverão 
me fizerão Copiar, tenho alem d'isso continuado a serie das Car- 
tas do Grande Atlas que convém apparecer com outro volume 
sobre a questão de prioridade em que juncto novas e abundan- 
tíssimas provas dos nossos direitos, e da nossa gloria. Conto ulti- 
mar parte do Atlas logo que receber os 3 contos do ultimo semes- 
tre do anno passado de 1842. 

Permitta-me V. Ex.» que a este respeito lhe supplique, com 
instancia, o favor de dar as suas ordens para que o sobredito 
semestre vencido seja posto á minha disposição e enviando-se as 
competentes ordens á Agencia em Londres, pois ainda quando 
V. Ex.^ com o seu zelo, e enthusiasmo que tem por estas publi- 
cações, que tanto honrão a seu Ministério aos olhos da Europa, 
as passar immediatamente, assim mesmo sendo as lettras a 3 e 
4 mezes de data só em Abril e Maio deste anno poderei realisar 
aquella somma sendo aliás o gasto permanente em razão de uma 
multidão de cousas que é necessário pagar quasi immediata- 
mente. 

Pelo que deixo acima referido não escapará á penetração de 



410 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

V. Ex.» que esta publicação é feita com exactidão e brevidade e 
bem depressa chegarei á das nossas importantissimas transac- 
ções com Inglaterra desde o principio da Monarchia. 

Acabo de ler no volume de Foreing Quarterly Review, do 
mez de Outubro, passado um largo artigo analyptico da minha 
obra sobre a prioridade dos descobrimentos. Este artigo, que 
proclama altamente a nossa justiça e os nossos direitos, é supe- 
rior a todos os que se tem até agora publicado em toda a Europa 
a este respeito. Pelo Paquete próximo terei a honra de enviar a 
V. Ex.^ unm copia, apezar do receio que tenho de lhe tomar o 
tenípo precioso que V. Ex.», com tanto talento e zelo, consagra ao 
serviço da nossa Pátria. 

Não terminarei esta longa carta sem manifestar a V. Ex.^ o 
sentimento de desgosto que me causou o que V. Ex.*'^ me refere 
de que haja ainda fidalgos que prefirão vida ignorada e obscura 
a apparecer na Corte. Alem de tudo, mal sabe a Aristocracia o 
mal que faz a si mesma, quando se separa do throno, quando o 
seu primeiro dever, bem como o seu interesse, é de sustentaro 
e defendefo contra as tempestades da demagogia, e contra os 
partidos que o combatem. 

Receba V. Ex.^ mais felizes festas e bons ânuos, gosando 
nelles de todas aquellas prosperidades que V. Ex.'* merece que 
do Coração lhe deseja quem tem a honra de ser. 

Guarde Deus &.^ 
Visconde de Santarém 



Do Visconde de Santarém ^para Rodrigo da Fonseca Maga- 
lliães 

Paris, 19 de Janeiro de 1844. 

///.'"'' e Ex.'"" Snr. 

Temos aqui noticias recentes dessa capital e apezar de ter 
recebido cartas, passei ainda pelo dissabor de não ver uma só li- 
nha de V. Ex.^. Tive comtudo a certeza de haverem chegado ali 



VISCONDE DE SANTARÉM 411 

OS exemplares do Tomo 4.o do Quadro. Incluo a copia de um ex- 
cellente artigo publicado em Inglaterra no Foreing Quartely Re- 
view acerca da nossa obra sobre a prioridade dos descobrimen- 
tos. Este artigo, como V. Ex.^ verá, é mais importante do que 
todos os outros e que se tem publicado nas diversas partes da 
Europa. 

Acabo de escrever a S. Ex.^ o Snr. Ministro dos Negócios 
Estrangeiros sobre o semestre vencido do anno passado, visto 
que só d'aqui a 3 ou 4 mezes, poderei contar com aquelle di- 
nheiro, em quanto as despezas são diárias. Rogo a V. Ex.'« o 
costumado serviço de amizade e favor de lembrança de este ne- 
gocio. 

Aproveito mais esta occasião para dar a V. Ex.a os bons an- 
nos, desejando a V. Ex.^ do coração todos as prosperidades que 
merece. 

De V. Ex.« 
Am.o f. e obrg.'"« cr. 

Visconde de Santarém 



Para o Ministro dos Negócios Estrangeiros 

Paris 19 de Janeiro de 1844 

///.'"'' e Ex.""" Snr. 

Tenho a honra de remetter a V. Ex.^ a copia do artigo que 
■se publicou em Inglaterra no Quartely Review de um d'outubi'0 
passado e que annunciei a V. Ex.''^ na minha carta de 11 do cor- 
rente. Este artigo, sendo o mais considerável e importante que 
se tem publicado sobre a justiça dos nossos direitos e gloria, con- 
viria dar-se-lhe a maior publicidade, mandando-se traduzir e pu- 
blicar no Diário do Governo. 

Permitta-me V. Ex.^ que, na presença de suas immensas ocu- 
pações, lhe lembre a minha supplica de expedição das ordens 



412 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



para a Agencia em Londres, e que se digne acreditar nos senti- 
mentos da invariável estima e reconhecimento com que sou 

De V. Ex.« 
Am. o f. e obr.i^o cr. 

Visconde de Santarém 



Para o Ministro dos Negócios Estrangeiros 

Paris 18 de Fevereiro de 1844 . 

111.'"° e Ex."'" Sr. 

Recebi com infinito prazer a estimadíssima carta com que 
V. Ex.a me honrou em data de 30 do passado. Com ella me deo 
V. Ex.*» mais animo para proseguir ainda com maior zelo, se é 
possível, nos meus trabalhos sendo estes coroados com a beni- 
gna e generosa approvação de SS. MM. 

Sou e- serei sempre grato ao favor com que V. Ex.'' me tem 
tratado e mui reconhecido pelo enthusiasmo que tomou pela pu- 
blicação de uma obra que, se tiver a fortuna de concluir, será a 
mais completa e importante d'este género que na Europa tem 
visto a luz publica, pois interessa igualmente a Diplomacia, a po- 
litica e, em máximo gráo, a Historia do Reino, de que tanto care- 
cemos, pois tudo quanto os nossos historiadores e chronistas es- 
creverão, pela maior parte, forão cutiladas, milagres, e genealogias 
e da Dynastia reinante pode dizer-se que não temos uma só chro- 
uica, sendo a ultima a fraquíssima do Cardeal Rei, e essa mesma 
es cripta conforme aos interesses de Castella. 

Entre as muitas consolações que tenho tido com esta publica- 
ção, cuja utilidade nacional é evidentíssima, uma d'ellas é que 
tendo o Estado gasto perto de um milhão de cruzados, com orde- 
nados de Chronistas do Reino d'Ultramar da Sereníssima Casa 
de Bragança, etc, desde que forão creados até hoje, nunca appa- 



VISCOiNDE DE SANTARÉM 413 

receo uma só chronica ou historia escripta por elles (1) e que em 
menos de dous annos tenho tido a fortuna de pubhcar dois vo- 
kimes sobre a prioridade dos nossos descobrimentos, um Atlas 
tanto ou mais sumptuoso e magnifico do que as obras de maior 
premio pubHcadas por Nações mais illustradas, e 5 volumes da 
obra Diplomática. 

Taes publicações, no estado actual da civilisação Europea e da 
illustração intellectual do século em que vivemos, dão uma repu- 
tação immensa ao Governo e aos Ministros que as promovem e 
são, no consenso dos homens d'Estado, dos Sábios que hoje tudo 
dirigem e em tudo influem a mais enérgica apologia de quem as 
protege. 

O sacrifício financeiro que o Estado faz para taes publicações 
dá ainda o maior valor e realce a politica esclarecida do monar- 
ca e de seus Ministros. A politica mesmo, e a razão d'Estado, exi- 
gem muitas vezes que se facão sacrifícios para alcançar a gloria 
nacional e augmentar a reputação de um povo e propagal-a entre 
os Estrangeiros. 

Não julgo cegar-me pelo amor nacional, quando affinno pelo 
estudo de toda a minha vida que a Historia Politica de Portugal 
é a mais admirável e a mais curiosa das nações modernas da Eu- 
ropa, quando se considera a mesquinhez do nosso território con- 
tinental. 

Que prodigiosa reputação e influencia não tem grangeado á 
França em todo o mundo as immensas publicações históricas que 
o Governo continuamente está fazendo, e todos os homens que 
para esta cooperação são hoje os mais eminentes deste paiz con- 
tra os quaes o malfadado e incorrigível espirito dissolvente da de- 
magogia não tem poder nem força para derrubar. 

Com que admiração não são consideradas as patrióticas publi- 
cações mandadas fazer em Inglaterra, naquelle paiz clássico dos 



(1) AMonarch. Lusit. de Fr. Bernardo de Brito, chronista-mór melhor fora 

que a não tivesse escrito. Ninguém ignora que é um tecido de fabulas, tendo 
adoptado e seguido as patranhas de la Uiquera e sendo dos discípulos do fa- 
moso impostor de Verterbo. (Noia do Visconde de Saniarém). 



414 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

homens d'Estado, com que o Parlamento tem votado para custea- 
mento da publicação dos fiecords desde 1800 a 1839 878:100 i\ 
pelos cálculos mais moderados que correspondem a 21 milhões 
952.500 francos ! 



Renovo &.''^. 



De V. Ex.« 
Am.° f. e obrg.i^o Cr. 

Visconde de Santarém 



Do Visconde de Santarém para Joaquim José da Costa de 
Macedo 

Paris. 14 de Jan.^ de 1844. 

111.""' e Ex.""' Sr. 

Recebi ultimamente a carta de V. S.^ datada ainda da Gollegam, 
de 25 de Db.° passado, e com ella recebi mais uma folha da sua 
importantíssima Memoria cuja leitura m.''' me interessou. Já com- 
muuiquei a Mr. Reinaud a nota sobre a Milha Árabe ; veremos o 
que elle responde. 

Quanto á transação com a Marinha vejo que, em 25 de Db.'', 
ainda V. S.'^ não tinha recebido a rainha carta de 6 do m."^° mez 
com a qual lhe remetti o recibo dos Livros da nossa Academia, 
passado naquella Repartição. Pela mesma occasião respondi tam- 
bém sobre os caracteres Árabes, espero pois mais um correio 
para me certificar pelas suas cartas se a que lhe escrevi naquella 
data se extraviou ou não. 

O magnifico presente que nos fez a Repartição da Marinha 
já está em caminho para essa Capital. Queira D.^ que não expe- 
rimente a sorte de outras remesas deste género. Rogo-lhe o obse- 
quio de mandar entregar as inclusas. 

Permitta-me que lhe rogue o favor de me mandar os Sum- 
marios das cartas de Marco António d'Azevedo Coutinho a 
D. Luiz da Cunha, dos annos de 1735 e 1739, que possue a nossa 
Academia, isto "^5 os que disserem respeito a França ou negocia- 



VISCONDE DE SANTARÉM 415 

ções com esta Potencia e bem assim os das Cartas dos Sobera- 
nos Francezes aos nossos e vice-versa que se encontrarem na 
collecção dos 3 vol. de 4.° da Relação que V. S.'^ teve a bondade 
de me remetter. 

De V. Ex.« 
Am. o f. e Obg.'"^ Cr. 

Visconde de Santarém 



Do Visconde de Santarém para Joaquim José' da Costa de 
Macedo 

Paris 26 de Janeiro de 1844. 

///.'"" e Ex.'"" Snr. 

Acabo de receber a carta de V. S.''^ de 13 do corrente e a 
copia da que V. S.^ escreveo o Min.° da M.''^, Emquanto á remessa 
successiva das obras publicadas pelo Ministério da Marinha, 
lembro-me que aquella Repartição assim o pratica com a Socie- 
dade R. de Londres e outras, segundo então me declararão 
quando tratei deste negocio; lembro-me igualmente que se tra- 
tou de praticar o mesmo com a nossa Academia, mas como 
V. S.''^ observa que os mesmos Senhores muitas vezes não são 
muito certos. Verei quaes são as suas tenções a este respeito. 
Quanto ás Collecções dos Documentos para a Historia de França 
parece-me que só se tem publicado os seguintes depois da re- 
messa que se fez para a nossa Academia. 

2 Volumes com o titulo de Papiers d'Etat du Cardinal. 

Granvelle for Weill, Bibliothecario de Besançon. 

2 Cartas de Henrique IV, 

1 de Documentos de Champolion Figeac. 

A este respeito aconselharei a V. S.^ que não continue a remet- 
ter as publicações da Academia sem que o Ministério respectivo 
continue a remetter estas publicações. Mande-me a lista das que 
já forão remettidas. 

Não tenho hoje nada notável a Communicar-lhe, pois a única 
cousa curiosa litteraria que temos neste momento é a guerra de 



416 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

polemica acerba e envenenada, se um coração que se encontrou 
na Saint Chapelle é ou não o Coração de S. Luiz. 10 Memorias 
lidas na Academia, e ameaça-nos com artigos nos jornaes, uma 
dúzia de dissertações. 

Apesar da veneração que tenho pelo Santo Rei, não me tenho 
interessado neste negocio pois não trato neste momento de outra 
cousa senão de ir passar 4 horas por dia nos riquíssimos Archi- 
vos da Marinha a rever as ultimas provas de outro volume do 
meu Quadro. 

De V. Ex."^ 
Obrg."^° Servidor e fiel creado 

Visconde de Santarém 



Do Secretario perpetuo da Academia de Bei tas Lettras, da 
Historia e antiqiiidades de Stockolmo para o Visconde de 
Santarém 

Stockolmo, le 9 Fevrier 1844. 

Monsieur le Vicomte 

L'Acadèmie a reçu les onvrages que vous avez bien voulu 
lui adresser entitulés — 1.*^'" Introduction au Tableau élémentaire 
des relations politiques etc. de Portugal. 2.^ Quadro Elementar 
das relações politicas e diplomáticas de Portugal, 3 vol. 3.^ Re- 
cherches sur Améric Vespuce et ses voyages ; 4."^ Notice sur 
André Alvarez d' Almada etc; h.^ Recherches sur la découverte 
des pays sur la cote occidentale d'Afrique; 6.° Mémoire sur les 
iustituitions politiques des colonies Anglaises. 

Ces ouvrages ont été déposés dans la Bibliothéque de TAca- 
démie. 

Agreez Mr. le Vicomte, Tassurance de ma considération três 
distinguée. 

Wildebrand. 



VISCONDE DE SANTARÉM 4l7 



Do Visconde de Santarém para o Conde da Ponte 

Paris, 14 de Fevereiro de 1844. 

Meu q° Sobrf e Am." do C. 

Fiquei contentissimo com a sua cartinha de 29 do passado, e 
muito inchado com os elogios que faz á minha obra Diplomática. 
Peias expressões da sua carta não vejo com certeza que ao mo- 
mento de ma escrever tivesse já recebido o iv volume, mas por 
outra parte parecem indicar que tinha já bastante conhecimento. 
Diga-me pois, em termos mais positivos, se já recebeo ou não 
o dito volume, e se o que mandei para o C. do Lavradio foi en- 
tregue ? 

No mez que vêm mandarei o v que é do maior interesse. 
Comprehende as relações, digo continuação das relações com a 
França durante os reinados de D. Affonso 6.° e D. Pedro 2° 
Tem documentes inéditos preciosíssimos. N'este tem já o Sr. Mar- 
quez de Sande uma grande parte nas negociações. 

Estou obrigadissimo ao Ministro dos Negócios Estrangeiros, e 
a muitas outras pessoas. Gomes de Castro toma grande interesse 
nesta importantíssima publicação, a qual será ainda mais bem 
avahada á medida que os volumes forem aparecendo. 

Neste anno conto publicar o 6.° que termina a Secção da 
França, e no fim o índice Chronologico remissivo das Embaixa- 
das, Instrucções e Tratados mencionados nesta Secção, como já 
fiz na de Hespanha, e conto publicar o T.° 7.° que é o 1.° das 
relações entre Portugal e Roma. 

Agradeço-lhe muito a remessa do N.° da Revista onde li o 
Art.« muito interessante de Bento Pr.^ do Carmo (1) em que falia 



(1) Bento Pereira do Carmo, juiz de fora na villa de Ançã. Grande liberal, 
pelo que foi indicado no pronunciamento de 15 de Setembro de 1820 para 
fazer parte do governo interino. Foi muito perseguido, tendo por ordem 
da Intendência da Policia de sair da capital por ser suspeito e perigoso para a 
segurança do Estado. Esteve preso em S. Julião da Barra por ser considerado 
maçon. Pela vitoria de D. Pedro foi nomeado l.o Presidente da Relação, e em 
1834 ministro do reino. Deixou varias obras manuscritas. 

VOL. VI 27 



418 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

de mim com tanta benevolência. Por elle vi todavia que o autor 
não conhece ainda os volumes da minha obra já publicados. 

Sinto deveras o seu incommodo dos olhos. Tome cuidado, 
pois a menor applicação pode ser-lhe mui nociva. Esperarei 
anciosamente pela sua melhora, e pelos extractos da correspon- 
dência do Sr. Marquez de Sande da Embaixada em Londres. 

Recommende-me sempre á Sr." Condessa, e acredite que sou 
deveras seu 

Tio e Am.° obrg.^» do C. 

Manoel 
P. S. 
Queira ter a bond.*^ de mandar entregar a inclusa a sua Tia. 



Do Visconde de Santarém para Joaquim José da Costa de 
Macedo 

Paris, 9 de Fev.° de 1844. 

///.'"" Sr. 

Desde 19 do p. que não recebo cartas de V. S.^, desejo ter 
com brevidade e noticia da sua chegada a Lisboa. 

Vi um destes dias M.*^ Reinaud (1), ainda não pude arrancar-lhe 
a folha da sua memoria sobre a Milha Árabe que lhe emprestei 
para dar sobre ella a sua opinião. Mas o Ratazana é como a 
maior parte destes senhores; quiz persuadir-me que ainda não 
tinha estudado bem esta matéria, e que se reservava para dis- 
cutir este negocio na sua traducção d'AbouIfeda. isto quer dizer, 
em meu entender, que não deseja antes da publicação da sua 
obra dizer nada para ter como elles aqui dizem le merite de la 
nouveté e aproveitar-se talvez das ideias de V. S."^ e guiaudo- 
as de seu modo, no que uma grande parte dos escriptores deste 
país são insignes. 

Visconde de Santarém 



(') Joseph Reinaud. — Arabista francez de valor que fez trabalhos utilíssi- 
mos. Nasceu era 1S67. 



VISCONDE DE SANTARÉM 419 



Do Visconde de Santarém para Joaquim José da Costa de 
Macedo 

Paris, 4 de Março de 1844. 

111"'° Snr. 

Recebi pelo ultimo Paquete a sua carta de 31 de Janeiro, 
bem como a que V. S.* se sérvio escrever-me em nome da Aca- 
demia datada de 28 do mesmo mez, que muito me penhorou. 

Estimei muito a boa noticia que me dá de já ter recebido 
artigo, e as obras de M.' Bonafous. Agradeço muito o favor 
de ter remettido a meu Sobr." os maços que lhe erão desti- 
nados. 

As cartas de V. S.^ para M."" de Slane, e Moreau de Jonnès, 
forão logo entregues, e a resposta M."^ Bonafous conto entregala 
um destes dias ao embaixador de Sardenha. 

Mandei também logo deitar na pequena Posta a que vinha 
dirigida a M.'"^ Nepven. 

Pelo que respeita ao que V. S.^ me diz do Tomo 4.° do meu 
Quadro Elementar, isto é dos documentos de que trato relativos 
ao tempo do Cardeal Rei, e dos pretendentes á Coroa, parece- 
me que tem toda a novidade pois as negociações e correspon- 
dências de Saint-Goard não só são inéditas, mas até na mesma 
Bibliotheca se ignorava o seu contheudo. Sei que na Bibliotheca 
d' Ajuda existem documentos interessantes para este periodo da 
nossa Historia. Eu mesmo examinei alguns quando a mesma 
collecção se achava no Rio de Janeiro. Mas se em Portugal se 
conhecem alguns documentos preciosos para a nossa Historia 
politica daquelle periodo. de certo se ignorava até o nome de 
Visone de Saint-Goard que nem nas Biographias Francesas se 
encontra. 

Agradeço infinito a V. S.^ a noticia que me dá de que no 
dia em que me escrevia esperava o l.'' Tomo do Indece da 
Symmicta Lusitaníca para delle se tirarem os apontamentos que 
eu pedi. 

A propósito devo dizer a V. S.^ que tenho já todos os doeu- 



420 CORRESPONDÊNCIA SClENTiriCA E LITTERARIA 

mentos que lhe pedi pela m.« carta de 5 de Junho do anuo pas- 
sado que se encontrão nos volumes das neg.^^ de Luis P.i de 
Castro na m.'"" Bibliotheca R. d'Ajuda, com a differeuça porém 
que os que descobri são originaes. Encontreios todos aqui nos 
Archivos do Ministério dos Negócios Estrangeiros, mina precio- 
síssima donde não arredo pé tendo alcançado a facul.'^'^ de exa- 
minar este deposito, faculdade que é não só difficil mas até 
quasi única. Que riquesa! Que peças históricas! Tenho encon- 
trado as coisas mais curiosas e inteiramente desconhecidas. Te- 
nho igualmente examinado os Archivos da Marinha. 

Esquecia-me dizer a V. S.a que recebi também o Maço que 
mandou José Manoel. 

Li ultimamente no Diário do Gov° o seg.'*: — O S.^ Sil- 
va offereceu p.''^ a Bibliotheca da Camará (dos Deputados) a 
Relação da derrota naval da Armada que ajudou El-Rei D. San- 
cho 1." a tomar Sines? (será Silves como me parece que deve 
ser? Queira V. S.a dizer-me se isto é cousa nova ou se é o mes- 
mo que já é conhecido. 

Quando estava escrevendo estas ultimas linhas vierão dja Le- 
gação as suas cartas de 14 e 17 de Fev.^' ás quaes vou respon- 
der por agora lacouicamente pois recebi uma tal quantidade de 
cousas dessa capital que mal poderei dar conta de mim por este 
correio. Com as suas recebi cartas para M.*" Troyer, de Slane e 
Biot que serão entregues amanhã. Agradeço a folha da sua ex- 
celente Memoria, bem como a Copia do § da Carta do Conde 
de Tarouca e fico esperando a Copia do Cathalogo dos Nún- 
cios e as importantes indicações do índece das Cousas de 
Roma. 

Agradeço também a remessa dos folhetos da Sociedade phi- 
losophica de Philadelphia, e o maço de José Manoel. 

Vou agora responder ás suas cartas. Quanto á de 14 do p.: 
6.^ f.^ na Academia M.*" Reinaud que veio ao meo logar p.'' me 
dizer que ainda não tinha tido tempo para se occupar do nego- 
cio da Milha Árabe, e o peor é que me fez sequestro na folha 
da Memoria. Pedi-lhe que me desse a folha e uma resposta, mas 
como ella perde tempo infinito com teas d'aranha não espero 
por agora poder alcançar cousa alguma. 



VISCONDE DE SANTARÉM 421 



Queira V. S. ter a bondade de dizer a Fran." A. Martins 
Basto (1) que lhe responderei por outra occasião. 

Quanto á outra carta que V. S.*» se sérvio escrever-me, cum- 
pre dizer que estimei muito saber por ella que já V. S.a se acha- 
va de posse das obras de M/ Troyer, e Slane. 

Quanto aos folhetos do louco de Pierquin de Jambloux (2) fui 
eu que os mandei a V. S/'' pois elle mandou-metal quantidade que 
muito favor me fazia V. S.« se quizesse acceitar mais alguns. 

Em quanto ao que me diz dos motivos que o moveu a exa- 
minar as obras dos AA. antes de lhe responder, devo dizer não 
por lisonja mas pela justiça que lhe é devida, que não me cons- 
ta que a Academia tivesse desde a sua fundação um Secretario 
nem mais zeloso, nem mais intelligente, nem Mais Eiiropeo do 

A discussão do Coração achado na Sainte Chapelle amda 
occupou toda a Sessão Académica de 6.^ f.^ e temos para muito 
tempo por que além de 4 ou 5 Memorias que estão annunciadas, 
lembrou de Lamalie que se examinassem os documentos do Ar- 
chivo de Sainte Chapelle que estão nos Archivos de França e 
que se compõem de um infinito numero de peças. E para não 
faltar cousa alguma nesta discussão veio agora o Governo, pelo 
o órgão do Min.° da Instrucção Publica, pedir á Academia o seu 
parecer a este respeito. Foi nomeada uma commissão a qual 
propoz um projecto de resposta a qual consistia em que reinava 
ainda grande mortitude sobre este assumpto. 

Está pois esta questão convertida em negocio religioso, ar- 
cheologico, paleographico, etc, etc. 

Quanto ao negocio da Marinha fique descançado que tenta- 
rei de buscar occasião opportuna de tratar delle, bem como do 
que diz respeito ás Collecções históricas. Espero encontrar Mr. 
Vilman e então lhe fallarei, senão o vir esta semana, pois não 



(1) Foi professor de D. Pedro V e escreveu sobre este rei umas memorias. 

(2^ Cláudio Pierquia de Jarablaux, escriptor francez, professor do coUegio 
de Valence e foi distituido em 1817, por ter feito uma canção bonapartista. 
Depois foi medico, membro de varias academias. Morreu em 1863. 



422 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

me é possível ir amanhã a casa de M/ Guizot, irei na 5.'' f .'^ f allar- 
Ihe ao Hotel Ministerial se a minha toceira não desbaratar estes 
projectos e tenções. Quanto ás cartas de Marco António, da Mis- 
são de Paris, bem pode V. S.a acodir-me, pois a Collecção que 
possuia o extincto Convento de S. Vicente, não aparece no Ar- 
chivo segundo me affirmou já por mais de uma vez José Ma- 
noel. 

Agora vamos ao negocio de Mr. Libri e do Mss que elle en- 
controu do século XIII que menciona as Ilhas Canárias. 

Este Académico é homem muito sábio, e mesmo m.^° erudito, 
mas não é certo, nem pode servir de authoridade no que respeita 
á Diplomática, e ainda menos á geograpjhia. Para lhe dar uma 
prova, quanto a esta ultima sciencia, direi que elle avançou na 
sua Historia das Sciencias em Itália que Marino Sanuto tinha 
conhecido pelos Árabes o Cabo da Boa Esperança como se via 
bem marcado no Mappa mundi publicado por Bongart ao que 
eu repliquei, na introdução das minhas Recherches, que os 
Árabes não podiao dar a conhecer o que ignoravao — como me 
parece ter provado. 

Elle logo que chegou da sua digressão prometteo-me de me 
mostrar a tal carta, mas mudou de parecer e dias depois, no Ins- 
tituto, veio pedir-me que lhe mandasse um dos meus gravadores 
para fazer gravar sua carta acrescentando que ia fazer uma Me- 
moria, da qual nunca mais ouvi fallar. Ora já V. S.^ vê que tendo 
elle tenção de publicar esta descoberta não haverá meio algum 
de lhe arrancar a menor communicação. 

Quanto a Mr. Estanchn (1) veio ver-me duas vezes logo que 
chegou, mas tem andado á tempos occupadissimo com as Ilhas 
Marquezas, assumpto que tem dado pature e mil caricaturas pu- 
blicadas no Charivari, e não está menos interessado pela Rainha 
Pomaré (2), derivada de ciúmes do pobre p.« Methodista Pritchard 



(1) Luiz Estanclin, publicista francez ; morreu em 1858. Tio do politico do 
mesmo nome que se evidenciou na guerra franco allemã. 

(2) Rainha Pomaré, soberana da dynastia que reinou em Tahiti, na Poly- 
nesia, depois de 1798. O ultimo monarcha charaava-se Pomaré V. Abdicou em 
1880 e morreu em 1891. 



VISCONDE DE SANTARÉM 



423 



que, parece, é um dos melhores confortos daquella Magestade 
Selvagem a quem serve de Parteiro nas frequentes vezes que 
ella se tem achado naquelles assados. 

Ponho termo aqui também a este laborioso parto de secatura 
com que vou secar a sua paciência e acredite, etc. 

Visconde de Santarém. 



Para o Ministro dos Negócios Extrangeiros 

Paris, 7 de Marco de 1844. 

Ill""' e Ex.'"" Snr. 

Tenho a honra de accusar a recepção do Despacho N.*^ 2 que 
V. Ex.a me dirigio e pelo qual se serviu participar-me que por 
decreto de 5 de Janeiro ultimo houve S. M. por bem ordenar 
que João Achilles de Pereira, emquanto não vai exercer o lugar 
de Cônsul Geral de Portugal em Nápoles, sirva debaixo das mi- 
nhas ordens nesta corte, sendo empregado em objectos do ser- 
viço de que me acho encarregado pelo Governo do mesmo 
Augusto Senhor. 

Tenho, em consequência, a honra de participar a V. Ex.^ que 
tendo-se já apresentado o referido empregado, passo a executar 
immediatamente as soberanas ordens de S. M.« que V. Ex.^ se 

sérvio dirigir-me. ^^ .^ . 

Guarde Deus V. Ex." 

Visconde de Santarém. 



Para o Ministro dos Negócios Extrangeiros 

Paris, 8 de Março de 1844. 

111.'"° e Ex.'"" Srír. 

Recebi com summo prazer o Despacho N.o 2 que V. Ex.^ me 
fez a honra de dirigir em resposta aos meus officios N.«s 17 e 18. 
Agradeço infinitamente a V. Ex.a as benévolas expressões de 



424 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

que se sérvio acerca dos documentos que aconipanhavão o pri- 
meiro d'aquellés officios que dizião respeito á obra que publi- 
quei sobre a prioridade dos nossos descobrimentos na costa Occi- 
dental d' Africa. Não fiquei menos penhorado pelos motivos que 
dictarão a V. Ex.^ a deliberação de mandar publicar no Diário 
do Governo o interessante artigo inscrito no Foreing Quarterly 
Review, d'Outubro do anno passado. 

Digne-se V. Ex.» receber também os meus agradecimentos 
por ter reclamado do Ministério da Fazenda a quantia de três 
contos de reis para me ser paga em Londres. Fico, pois, espe- 
rando as ordens para regular este negocio. 

Deus Guarde V. Ex.a 
Visconde de Santarém. 



Para o Ministro dos Negócios Estrangeiros 
Paris, 8 de Março de 1844. 

Posto que officialmente agradeço a V. Ex.» tudo quanto em 
o seu ultimo Despacho de 5 do passado teve a bondade de me 
escrever, julgo do meu dever e gratidão repetir n'esta carta os 
meus mais cordeaes agradecimentos. 

A publicação que V. Ex.''* me anuncia do artigo do Foreing 
Quarterly Review no Diário do Governo me causou muita satis- 
fação. Aquella Revista como V. Ex.^ sabe é uma das mais sabias 
e mais acreditadas e importantes d'Inglaterra não só pelos ho- 
mens que nella trabalhão, mas também porque é reputada até 
um certo ponto órgão das doutrinas do Gabinete. Consta-me que 
mesmo um dos actuaes Ministros escreve na mesma Revista. 
Se pois tudo quanto V. Ex.^ me communicou me consolou infini- 
tamente, as noticias que logo depois aqui recebemos, vierão 
não só inquietar-me mas até me vierão causar profunda tristeza, 
pois ninguém mais do que eu deseja ver a nossa Pátria tran- 
quilla, caminhando para a prosperidade de que é digna. 



VISCONDE DE SANTARÉM 425 

Tendo continuado todos os dias sem interrupção do horrível 
tempo que temos tido, a ir trabalhar nos riquíssimos archivos 
secretos do Ministério dos Negócios Estrangeiros para cuja in- 
vestigação tive licença deste Governo, faculdade esta de tanto 
maior valia que nem aos nacionaes é concedida e de que ha um 
só exemplo a favor de um estrangeiro já tenho encontrado, 
extrahido ou copiado 415 documentos, pelo maior, do mais 
alto interesse para a minha obra e por tanto para Portugal, e 
para o nosso Direito Publico Diplomático e mesmo para a histo- 
ria do Reino de épocas inteiramente ignoradas dos nossos sábios. 

Mas no meio desta prodigiosa riqueza documental acho-me 
inquietíssimo pela demora da expedição das ordens do Ministé- 
rio da Fazenda para a Agencia em Londres. Já chegarão 3 pa- 
quetes depois que V. Ex.^ me fez a honra de annunciar que por 
aquella Repartição serão expedidos no de 12 quando o não fos- 
sem pelo de 5 de Fevereiro. 

Supplico, pois novamente, a V. Ex.''* queijra fazer-me a mercê 
de lembrar este negocio a S. Ex.a o Senhor Ministro da Fazen" 
da. Se eu tivesse aqui um credito pelos 6 contos annuaes não im- 
portunaria a V. Ex.** com taes exigências, fazendo, como faço, 
um penosíssimo sacrifício em fallar neste assumpto. 



Do Visconde de Sardarem para Joaquim José da Costa de 
Macedo 

Paris, lõ de Março de 1844. 

III.""' e Ex."'° Snr. 

Acabo de receber a sua carta de 26 do passado e com esta 
a lista das cartas que se encontrão no 3 vol. que tem a Acade- 
mia. 

Agradeço m.'° a V. S,^ esta remessa. Quanto aos documentos 
da Symmicta Lusitaiúca tinha já uma idea de que os mais anti- 
gos documentos diplomáticos que se encontravão nesta coUecção 
erão dos fins do século xvi pois já tinha examinado estes índices 
no Rio de Janeiro mas não me foi possível então tirar delle no- 



426 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

ticia alguma. Fico, pois, esperando as notas indicativas que 
V. S.a me promette, bem como a copia do Cathalogo dos Nún- 
cios. 

Domingo darei a Mr. de Slane o seu recado. Mandei entregar 
a sua carta a Mr. Moreau de Jonnés. 

Queira V. S.a ter a bondade de me mandar comprar a se- 
guinte obra que de que vi o anuncio nos jornaes d'esse paiz. 

Memoria hist. mui curiosa sobre o intentado descobrim.*° de 
uma supposta ilha ao .'norte da Terceira nos annos de 1649 e 
1770 com m.'''* notas illustrativas e interessantes documentos 
inéditos extrahidos de alguns Mss da Bibl. Publ. e da Torre do 
Tombo. Subscreve-se p. 480 na Loja da Vivua H.''"^ — R. Augusta.. 

Visconde de Santarém 



Para o Ministro dos Negócios Extrangeiros 

Paris, 22 de Março de 1844. 

111."'° e Ex.""> Snr. 

Depois que tive a honra de escrever a V. Ex.a a minha carta 
de 19 de Janeiro ultimo, remetteudo-lhe o artigo de Foreing Quar- 
terley Review sobre a minha obra acerca da prioridade dos nos- 
nos descobrimentos recebi do Professor de Gottingue Dr. Wap- 
paus a seguinte commuuicação datada de 11 do corrente. Depois 
de tratar de diversos assumptos scieutificos e das publicações 
que vai fazer á custa do Governo Honoveriano conclue dizendo : 
«Permetez encore que jé vous dise que j'ai été chargé par la 
direction du Journal Sciectifique de Gottingue (Gottigen Gelehrt 
Auseigen) de rendre compte de vos ouvrages magnifiques sur 
la priorité des Découverts et sur les Relations politiques et 
diplomatiques du Portugal, ouvrage dont la publication fait tant 
d'honneur au gouvernement éclairè que l'encourage. Le Journal 
est Torgaue de Ia Société Royale des Sciences de Gottingue, et 
je m'acquitterai aussitôt que possible de cette commission si agrea- 
ble». 



VISCONDE DE SANTARÉM 427 



A Sociedade Real de Gottingue é como V. Ex.^ sabe a mais 
sabia corporação scieutifica d'Allemanha. Esta deliberação, pois, 
tomada pela direcção do seu jornal é muito importante neste 
assumpto. Por este modo se vae dar nova publicidade em Alle- 
manha á nossa justiça e gloria. Receberão-se já noticias dessa 
Corte pelo Paquete sabido de Lisboa em 14 do corrente, e posto 
que o Corpo Diplomático tivesse recebido ordens para saccar 
sobre a Agencia, conforme me acaba de communicar o nosso 
amigo Visconde da Carreira, desgraçadamente ainda por esta 
não vierão as que me dizem respeito. 

Attribuo, pois, este esquecimento ás repartições subalternas 
do Ministério da Fazenda e por isso rogo a V. Ex.^ queira ter a 
bondade de tomar as medidas necessárias para que este negocio 
não experimente maior demora, causando-me já a que tem tido 
grande cuidado e transtorno. Renovo, V. Ex." 



Visconde cie Santarém 

Do Visconde de Santarém para Macedo 

Paris, 27 de Março de 1844. 

Ill'"'' e Ex.'"" Snr. 

Recebi ao mesmo tempo as cartas de V. S.^^ de 4 e 10 do 
corrente e os maços de José M.^"' uma folha da sua memoria 
e duas copias do Cathalogo dos Núncios. 

Recebi egualmente a lista do presente do Min.° da Marinha. 

Lembrarei o cumprimento da promessa tantas vezes dada de 
nos darem os Liv.o^ da collecção Oriental. Quanto á coilecção dos 
Escriptores das Crusadas veremos o que se poderá fazer a este 
respeito. Parece-me m.t° bem a sua lembrança de escrever ao 
Almirante Halgan agradecendo-lhe da p.*^ da Academia o inte- 
resse que tom.ou na remessa dos Liv.*^^ e remettendo-lhe um 
exemplar da collecção das noticias ultramarinas. Mas para me 
dar motivo de lhe fallar na continuação ou antes provocar este 
negocio, seria bom que me remettesse tudo a mim pela primeira 



428 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

occasião, e por via da Legação, dirigido ao nosso Visconde da 
Carreira. Conto fallar-lhe nisto amanhã e para outro correio direi 
o que ajustamos. 

As negociações de Francisco de S.^ Coutinho em Hollanda 
tenho as encontrado dispersas em muitos papeis, Códices prin- 
cipalm.*°; aqui, algumas Memorias Diplomáticas delle são de 30 
e 40 pg. in foi. Algumas negociações deste Min.° eucontrei-as 
também nos Mss do convento de Jesus mas m.'" truncadas. 

Pelo que respeita ás sementes das plantas do Jardim para o 
Jardim Botânico da nossa Academia, conversando esta manhã com 
o Visconde da Carreira neste objecto, disse-me elle que Aillaud 
tinha já muitas que lhe tinhão sido dadas não sei por q.'" para 
serem remetidas a V. S."^ Talvez eu entendesse mal. Tratarei 
todavia de me informar d'este objecto. 

M.' de Slane aceita com o maior reconhecimento o seu pre- 
sente do folheto publicado em Milão d'Abu — Ihak — el-FurUi — 
Puesli. 

Mandei para a Legação afim de serem remettidas a V. S.^ 
dois folhetos a saber: uma publicação de M.'' Ternaux sobre as 
cidades em que houverão Impressas publicada nos annaes das 
viagens, e a última obra de Vv^appaus sobre a America cujo 
exemplar offereço a V. S.'^ pois este D '" de Gottingen fez-me 
presente de outro exemplar. 

Remetti egualmente um Folheto a M.' Biot filho p.^ o nosso 
collega o P.^ Matheus Valente do Couto. 

Queira V. S."» ter a bond.*^ de mandar entregar as cartas inclu- 
sas. 

Visconde de Santarém 



Do Visconde de Santarém para Joaquim José da Costa de 
Macedo 

Paris, 8 de Abril de 1844. 

///.""' Snr. 

Acabo de receber a carta de V. S.% de 25 de Março passado, 
e com esta mais duas folhas do Cathalogo dos Núncios de P^ 



VISCONDE DE SANTARÉM 429 

A. P/ e o Index do Negociato. Agradeço infinitamente a V. S.'^ 
estas remessas. Recebi egualmente a Relação da Tomada de 
Silves. Muito bem me parecerão as nqtas do nosso consócio o 
Sr. Silva Lopes, receba pois V. S.^ mil agradecimentos também 
pelo obsequio que me fez remettendo-me esta interessante pu- 
blicação. 

M.""^ Troyer e de Slane ficarão muito satisfeitos com as car- 
tas de V. S.a tanto que mas communicarão suas expressões de 
reconhecimento. 

Tem V. S.^ razão em dizer que são dois orientalistas de mão 
cheia, e de achar o primeiro mais forte em critério, e de mais 
philosophicos e vastos conhecimentos. Ha perto de 10 annos que 
elle vem de ordinário duas vezes por semana a minha casa e 
não exagero dizendo a V. S.a que no meu entender é um dos 
homens de mais vastos conhecimentos que tenho conhecido. A 
sua carreira é assas interessante. M. Troyer é Austríaco, nascido 
em Vienna. Fez as (1) campanhas contra Bonaparte com muita 
distiucção e preencheo durante ellas varias commissões impor- 
tantes d'engenharia e da defeza de praças. 

Depois o governo Inglez, alcançou que elle fosse servir na 
índia onde não só preencheo o eminente cargo de Secretario do 
Governo em Calcutá mas foi encarregado de levantar varias 
cartas de diversos Paizes dos domínios inglezes na Península 
Industanica. A sua grande instrucção, e saber sobretudo nas 
lingoas orientaes, lhe abrirão não só as portas da Sociedade 
Asiática de Calcutá mas foi por muito tempo secretario d'ella. 
Resídio pois em Calcutá e Bombaim, 25 annos. Voltou á Europa 
com Lord W. Bentink e desde então se estabeleceo em Paris, 
onde casou a filha, é rico e de humor mui jovial, a sua con- 
versação é em extremo variada, ínstructiva e picante e tão mo- 
desto quanto erudito. 

Fortíssimo não só em toda a litteratura clássica mas também 
nas das nações modernas da Europa, principalmente na Allemã, 
Ingleza, Italiana, e Franceza. Este sábio e amabilissimo homem. 



(1) Inintellegivel no original a palavra precedente. 



430 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTF.RARIA 

_ 

se tivesse as manhas de certos tarelos dos nossos dias seria tudo 
quanto quizesse. 

Vou agora contar-lhe um caso curioso que me aconteceo de- 
pois do que lhe escrevi na m.i carta de 4 de Março acerca da 
descoberta de M/ Libri. Encontreio dias depois em casa de 
M/ Naudet. Veio elle ter comigo e. começou dizendo-me que 
achando-se encarregado pelo Ministro de Instrucção Publica de 
redigir os catálogos dos Mss. de algumas das Bibliothecas das 
cidades de França que visitara, que necessitava do meu auxi- 
lio para lhe explicar a parte geographica do lamoso Mss que 
elle descobrira na Bibliotheca d'Alby, que era do 6 ou 7 século 
e no qual se encontrava o mais antigo Mappamundi da Idade 
Media, e que além disto desejava mostrar-me uma carta do sé- 
culo XV que acaba de receber dTtalia e mais de 400 códices que 
tinha comprado e adquirido ultimamente em Florença. Convie- 
mos no dia e hora e antes mesmo me achei na Sorbona, no meio 
das immensas preciosidades que elle tem na sua famosa Biblio- 
theca composta de mais de 4000 Mss. Para dar a V. S.'' uma 
idea da riqueza desta collecção basta dizer que tem do Dante 7 
Mss. anteriores ao século 16, 2 de Ubesti anteriores á 1.^ edição 
do Ditamonchect (?). Mas vamos a o negocio principal o Mss Geo- 
graphico da Bibliotheca d'Alby que elle tem em seu poder é com 
effeito do 7.° século, quanto a mim não padece isto duvida, pois 
tenho feito um estudo theorico e pratico de m.*°^ annos a este 
respeito e nestes últimos 10 annos me tem passado pela mão 
milhares de Mss. 

A parte geographica em geral é tirada de Osório. Quanto ao 
Mappamundi é pelo que respeita á forma que lhe deo o cos- 
mographo, a mesma do que se encontra no Mss. Anglo-Saxonio 
do museo Britânico publicado por Strutt (1) e que eu reprodusi 
no meu Atlas mas o deste Mss é desenhado com tal imperfeição 
que não tenho noticia entre mais de 500 monumentos desta clas- 
se dum que possa a este respeito com elle comparar-se, a tinta 



(1) Joseph Strutt. Gravador e antiquário inglez que obteve grandes pré- 
mios. Executou desenhos para o Museu Britânico. Morreu em 1802. 



VISCONDE DE SANTARÉM 431 

verde, única cor que ahi se nota está quasi inteiramente apaga- 
da. Não entrarei em mais particularidades por me não ser pos- 
sivel dizer tudo nesta carta, mas para satisfação de V. S.'^ lhe 
darei a noticia que muito deve lisongear o saber de que as Ilhas 
Canárias se não encontrão marcadas, neste monumento achando- 
se todavia as Britânicas, e já se sabe algumas do Mediterrâ- 
neo, etc. 

M.i' Libri já o fez gravar e o Fac-simile me pareceo bera fei- 
to. Quanto á carta, é uma carta marítima feita em Malhorca por 
Mecia de Villadeste em 1423, na qual a costa Occidental d'Africa 
se vê marcada até ao Deserto, ao sul do Bojador. 

Achão-se as Canárias marcadas, e os Açores do mesmo modo 
que na carta de Weimar (1) que dei no meu x\tlas, e em outras 
desde a da Bibliotheca Pinelli (2) até á da Valsegua, e com os 
mesmos nomes por mim indicados em a nota 2 da p. 389 da 
chronica da Guiné d'Asurara. 

Não tive ainda tempo para verificar se esta carta deste cos- 
mographo é a mesma de que falia Cladera e Villanueva e Mr. 
Toitu vio em poder do Bispo d'Astorga Torres d'Amat ou se é 
outra. Em todo o caso é importante. 

A propósito de cartas Mss. é natural que V. S.^ já tenha no- 
ticia de um Mappamundi do século xv publicado ultimamente 
em Nápoles. O Editor prometteo uma dissertação explicativa mas 
até agora não me consta que a tenha publicado. 

Desta carta bem como da outra que pertenceo ao nosso fal- 
lecido consócio Barbié du Bocage deo conta M."^ d'Avezac no nu- 
mero de Jan.° deste anno do Bulletim da nossa Sociedade Geo- 
graphica. 

Entre os Mss que vi na collecção de M.*" Libri acha-se um em 
folio que se compõem todo de cartas originaes d'El-Rei D. João I, 
e dos Infantes, ao Prior de Florença, pelo menos as primeiras 
são dirigidas áquelle personagem. Como foi mui curto o tempo 



(1) Weimar, capital do Grão Ducado de Saxe-W^eimar, na Allemanlia. 

(2) Bartholomeo Pinelli. Gravador italiano que morreu em 1835 e foi ce- 
lebre na sua arte. O bibliophilo Matteo Pinelli morreu era 1789. 



432 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

que tive para examinar estas riquezas apezar de ali ter jan- 
tado, reuovo-me para estudar tudo isto mais devagar aprovei- 
tando-me da offerta do dôuo se todavia não sobrevier algum 
obstáculo que com muito desgosto meu me prive desta investi- 
gação. 



Do Visconde de Santarém para o Ministro dos Negócios Es- 
trangeiros 

Paris, 17 d'Abril de 1844. 

111.'"° e Ex.'"° Sr. 

Não encontro expressões para agradecer a V. Ex.a a sua 
prezadíssima de 3 do corrente, na qual V. Ex.=> me dá novas e 
bem positivas provas da amizade e do favor com que me honra, 
bem como do interesse que toma pela publicação das obras de 
que me acho encarregado. 

Graças, pois, V. Ex.^ já recebi Aviso da Agencia para saccar 
pela quantia do semestre do anno passado. As minhas insistên- 
cias para que estes pagamentos se effeituem provém não só do 
motivo que tive a honra de escrever a V. Ex.'^ em outras car- 
tas, mas também porque tendo sido autorisado em 4 de Junho 
de 1842 pelo meu Illustre amigo o Duque da Terceira, que então 
servia de Ministro dos Negócios Estrangeiros, para continuar na 
publicação dos monumentos geographicos inéditos, e não tendo 
recebido somma especial para este objecto, tenho continuado 
desde então a tirar da prestação destinada para o Quadro Ele- 
mentar as sommas para esta grande despeza, havendo tal carta 
colorida que veio a importar em mais de 120 £. 

Só alguns fac-similes tirados em Inglaterra tçnho pago por 
elles 10 e 15 £. O custo das pedras ou das laminas de cobre, a 
gravura e por ultimo o colorido feito á mão com a maior perfei- 
ção e imitação e tiragem a muitos exemplares, o papel, etc, faz 
avultar a despeza de taes obras a muito mais do dobro das me- 
lhores publicações impressas, e posto que estes trabalhos de gra- 
vura tenhão sido feitos pelos primeiros e mais hábeis gravadores 



VISCONDE DE SANTARÉM 433 



de Paris, e pelos mais iminentes coloristas tenho conseguido 
fazel-o com a maior economia, e tenho a satisfação de ver que 
Portugal tem feito publicar uma obra inteiramente igual senão 
superior, em magnificência á que o Con^e de Bastard (1) publica 
dos Fac-similes das Miniaturas dos antigos Manuscriptos para o 
costeamento da qual o governo francez lhe dá 60:000 francos 
annuaes, apezar de não ser tal publicação de interesse verda- 
deiramente scientifico e da qual até agora não tem apparecído 
uma só linha de texto apezar da immensa despesa que o Governo 
tem feito com ella ha muitos annos. Mas é tal o movimento e o 
impulso dado ás publicações históricas que também o Governo 
hespanhol, apezar das suas terríveis difficuldades financeiras, tem 
dispendido mais de 160:000 francos com a Historia da Ilha de 
Cuba que publica nesta Capital o meu collega neste Instituto 
Real de França La Sagra, despesa que é feita pelos rendimentos 
da mesma colónia. O Governo Napolitano não quiz ficar atraz do 
de Sardenha, do nosso e dos demais da Europa. Segundo acabo 
de ver nos jornaes aqui e me constava já do projecto por uma 
carta d'um dos meus collegas da Academia de Nápoles, El-Rei 
nomeou pois uma commissão para pubhcar todos os documentos 
inéditos mais importantes que se achão nas Bibliothecas publicas 
e particulares do Reino de Nápoles e da Sicilia que dizem res- 
peito á historia destes dous paizes desde a invasão da Itália pelos 
Lombardos até o acesso ao throno das duas Sicilias de Car- 
los de Bourbon em 1735. Calcula-se que este trabalho levará 
12 para 15 annos, calculando-se que a commissão terá de exa- 
minar mais de 60:000 documentos. Para não tomar mais tempo 
a V. Ex.^ que lhe é aliás Ião preciso, por isso não produzo nesta 
a minha opinião motivada a respeito da razão principal deste 
arbítrio tomado por El-Rei de Nápoles, provindo segundo os da- 
dos que tenho para impedir que os Estrangeiros venhão a 



(1) Jean-François-Auguste Bastard d'Estang, Conde de Bastard, oficial fran- 
cês, membro do comité histórico de artes e monumentos. Publicou diversos 
trabalhos: Librairie de Jean de France, premier Duc de Berry ; Peintures et 
ornements des manuscrits français, etc. 

VOL. VI 28 



434 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



publicar parcialmente o que só os Naciouaes para gloria e honra 
do paiz devem pôr em luz. 

Desculpe V. Ex/^ e acredite etc. 

De V. Ex.« 
Obrig.""» Servidor ef. cr. 

Visconde de Santarém. 

Do Visconde de Santarém para Joaquim José da Costa de 
Macedo 

Paris 19 de Abril de 1844. 

///.'"'' e Ex."'° Snr. 

Hontem me entregou o nosso visconde da Carreira a Carta 
de V. S.^ do 1.° do corrente e com esta uma folha mais do 
Catalogo dos Núncios, o que muito agradeço. Necessito que V. S.^ 
tenha a bondade de me mandar as indicações dos documentos 
dos primeiros Séculos da Monarchia de que trata a Symmicta, 
isto é, d'aquelles q. devem ter logar na minha obra. 

Sinto infinito o seu incommodo dos olhos e trate de os pou- 
par. Rogo a V. S.» o favor de mandar entregar a inclusa. 

De V. S.''^ 
Obrig."o Servidor ef. cr. 

Visconde de Santarém. 



Do Visconde de Santarém para Joaquim José da Costa de 
Macedo 

Paris 20 de Abril de 1844. 

///.'"'' e Ex.'"° Snr 

Remetto a V. S.* um exemplar do catalogo da collec. de car- 
tas Geographicas da Bibliotheca de Barbié du Bocage (1). 



(1) João Diniz Barbié du Bocage. — Geographo francez, discípulo de An- 
ville, conservador das cartas na Bibliotheca Nacional, membro da Academia 
d'Inscripções. Fundador da Sociedade de Geographia. Morreu em 1825. 



VISCONDE DE SANTARÉM 435 



Mandei hoje para a Legação uma nova Memoria de Mr. Ed. 
Biot destinada para a nossa Academia. 

De V. S.« 
Obrig.™° Servidor ef. cr. 

Visconde de Saniarem. 

Do Visconde de Santarém para Joaquim José da Costa de 
Macedo 

Paris, 20 de Abril de 1844. 

III.'"'' e Ex.'"" Sr. 

Remettendo a brochura de Biot com o tit.° «Recherches sur 
les meseurs des anciens Chinois d'après le Chi-King. 
Biot pede p.^'^ ser correspond.^ da Academia. 

De V. S.^ 
Obrig.^i^ Servidor ef. cr. 

Visconde de Santarém. 



Do Visconde de Santarém para o Visconde da Carreira 

Paris 2 de Maio de 1844 

///.'"'' e Ex.'"" Sr. 

Respondendo ao quesito que V. Ex.^ me fez a honra de di- 
rigir-me a saber : se o dominio da costa occidental d' Africa até 
aos 27 grãos da latitude austral onde se acha situada a Angra 
Pequena pertence á Coroa de Portugal, digo que pelo antigo direito 
de prioridade do descobrimento e da posse pertence inquestiona- 
velmente á Coroa de Portugal. 

Eis aqui as razões em que me fundo para responder affirma- 
tivamente, além das que deduzi nas minhas Recherches sur la 
priorité des découvertes & Barros Década 1.^ Liv. m Cap. iv re- 



436 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



fere que em 1486 o famoso Bartholomeu Dias (1) se fizera de 
vela nos fins d'Agosto, seguira viagem na direcção das costas 
do Sul d'Africa e que chegando a 120 legoas além do ponto vi- 
sitado pelos últimos navegadores Portuguezes levantara um pa- 
drão com as Armas Portuguezas na costa aos 24 grãos de lati- 
tude austral. 

No anuo de 1786, três séculos depois Sir Home Paphan (2) e o 
capitão Tompson, da Marinha Britannica, encontrarão nestas mes- 
mas paragens, quando exploravão a costa d' Africa, um Padrão 
collocado em um rochedo junto precisamente da Angra Pequena 
em 26 grãos 37 minutos da latitude austral. (Petite Baie, de algu- 
mas cartas modernas. 

O Padrão que os Inglezes ali encontrarão consistia em uma 
cruz de mármore com as Armas de Portugal e uma inscripção 
que por apagada não a poderam ler (Veja-se a minha obra Re- 
cherches sur la Priorité &. p. 78 § Vol. iii sobre os padrões) col- 
lonnes qui indiquaient la prise de possession par les Portugais e 
a Addição xiii a p. 272. 

Em muitas cartas se encontravão estes padrões pintados na 
costa d'Africa para indicarem do mesmo modo que os payilhões 
a posse de Portugal. No calque que possuo da magnifica carta 
do cosmographo porluguez João Freire de 1541 se encontrão vá- 
rios padrões bem como na de Lazaro Luiz. 

O Padrão que Sir Kome Papham e o Capitão Tòmpson 
encontrarão foi indubitavelmente o que Bartholomeu Dias alli 
levantou. A differença de dous graus de latitude que se nota en- 
tre a observação astronómica dos Inglezes e a indicada por João 
de Barros não obsta de nenhum modo a ser o mesmo padrão 
de Angra Pequena o de Bartholomeu Dias. 



(1) Bartholomeu Dias o celebre navegador que dobrou o Cabo das Tor- 
mentas, a que chamou Cabo da Boa Esperança. Morreu em 1500. 

(2) Sir Home Papham, Almirante inglez que de marinheiro passou rapida- 
mente a tenente. Descobriu o estreito da ilha de Poulo Penang. Defendeu Nio- 
port ás ordens do duque de York em 1794. Bateu-se sempre, na índia sobre- 
tudo. Membro da Sociedade Real de Londres. Inventou o semaphoro e escrereu 
varias memorias. 



VISCONDE DE SANTARÉM 437 



A perfeição dos instrumentos d'observação modernos é in- 
questionavelmente melhor do que a dos que se usava no sé- 
culo XV e XVI. 

Ptolomeo, o mais sábio dos mathematicos da antiguidade, com- 
metteu um erro de 20 grãos nas dimensões do Mediterrâneo, 
ainda em nossos dias se tem verificado erros consideráveis na 
mesma costa de França levantada pelos Engenheiros mais hábeis. 

Entretanto para que a nossa posse nos não seja disputada 
pelas outras nações seria necessário que não tivéssemos aban- 
donado estes territórios, e para os mantermos convém formar 
estabelecimentos importantes nos pontos que ainda não forão 
occupados pelos Estrangeiros, ou pelo menos mandar todos os 
annos navios de guerra reconhecel-os, abrir de novo communica- 
ções com os naturaes, trazer mesmo alguns para Portugal, enviar 
presentes aos chefes, fazer com elles Tratados e comprar, por 
alguns sacrifícios insignificantes, porções de território e quando 
elles violarem as condições estipuladas mandar lá um Brigue a 
sujeital-os á Coroa de Portugal. 

Pelo que respeita á licença que se pede ao Governo para se 
fazer o Commercio do estrume do Guano parece-me que se deve 
conceder, resultando-nos d'ali a vantagem de podermos n|[o só 
servir este argumento no negocio de Casamansa e outros, mas 
também por ser um novo e evidentíssimo reconhecimento feito 
pelos Estrangeiros da soberania de Portugal n'aquellas remotas 
regiões. 

N'esta concessão deverá todavia em meu entender o nosso 
Governo ter a prevenção de reservar certos direitos reaes, limi- 
tar o tempo, a duração d'ella, &.^ &.'^ 

O nosso Governo já em outro tempo esteve disposto a con- 
ceder aos Extrangeiros o commercio parcial com as nossas coló- 
nias. 

Em 20 de Julho de 1659 o nosso Governo querendo, impedir 
que a França fizesse a paz dos Pyrenéos, sem sermos nella in- 
cluídos authorisou o Conde de Soure, nosso Embaixador em Paris, 
para offerecer á França licença para os Francezes comraerciarem 
em as nossas conquistas, mas unicamente para dous navios, indo 
este e voltando com as frotas Portuguezas. 



438 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



Mas tendo o Cardeal Mazarino concluído a Paz sem sermos 
nella incluidos, o nosso Governo não se prestou no anno de 1669 
ás exigências que a França fez a este respeito, nem concedeo as 
licenças que se pedirão (1). 

Visconde de Santarém. 



Do Visconde de Santarém para Joaquim José da Costa Ma- 
cedo 

2 de Maio de 1844. 

///.'"'' e Ex."'" Snr. 

Pelo penúltimo Correio recebi a carta de V. S.^ de 7 do p. e 
uma folha mais do catalogo dos Núncios e um quaderno da Sua 
Memoria. Agradeço a V. S.a estas remessas. 

Tenho passado algum tanto incommodado á duas semanas 
apesar do tempo magnifico que temos tido. Este meu incommoda 
não tem todavia causado gr.^ transtorno ao meu trabalho nos 
Archivos, mas tem-me atrasado m.*° na Correspondência e por 
este motivo não me é possível escrever por este correio tanto 
quaiíto desejava. Acabei de ler a curiosa obra de Prescott (2) == 
History of the Conquest of México em 3 volumes. 

Aposto que ainda me não chegou o Exemplar que o A me 
me destinou, como fez com a Historia de Fernando e Isabel. 

Queira V. S.a ter a bondade de mandar entregar as inclusas. 

Continuada em 5 de maio. 

Por um engano não partio esta carta pelo correio passado. 



Cl> O Ministro dos Negocies Estrangeiros tendo ordenado ao Visconde da 
Carreira de me consultar sobre esta concessão escrevi em consequência a carta 
que fica transcripta. As expressões do Ministro no Despacho que dirigio ao 
Visconde erão, que ouvisse a este respeito a poderosa opinião do Visconde de 
Santarém. (Nota do Visconde de Santarém á carta junta). 

(2) William Prescott, Historiador americano, auctor da Historia de Fi- 
lippe 11 e da Conquista do México. Morreu em 1859. 



VISCONDE DE SANTARÉM 439 



Hontem tive o gosto de receber as duas de V. S.^ de 14 e 20 d' Abril 
passado ás quaes vou responder. 

Quanto ás negociações de Francisco de Sousa Coutinho, citei 
as que encontrei na Bibliotheca de Jesus e na Bibliotheca Publica 
(Quadro Elementar T. 1.° Introd. p. LXVII e LXVÍIl) Tenho 
encontrado aqui outras correspondências, e papeis deste Min.'' 
como já escrevi a V. S.^ na m.a carta de 27 de Março, mas não co- 
nheço collecção alguma completa das suas negociações. Parece-me 
algum tanto extraordinário que ahi em Portugal se encontrem 
todas. Se se descobrirem e publicarem todas aproveitar-me-hei 
d'ellas e é mais do que provável que terei de citar algumas que 
o editor não poderá ahi encontrar. 

Como quer que seja estimo m.*'' vêr que antes da publicação 
dos primeiros volumes da m.^ obra diplomática ninguém tinha 
tido idea de publicar a correspondência de um só dos nossos 
ministros e que apenas os ditos volumes aparecerão logo o 
Dr. Castilho se lembrou de talhar obras deáte género, e Varnha- 
gen se sahio com um opúsculo a que deo o titulo = das Pri- 
meiras Relações Diplomáticas do Brasil, e agora já ha quem 
queira publicar todas as negociações de Fran.'^^ de S.^^ Coutinho. 

Fico esperando com muita curiosidade a chronica de D. João III 
por Fr. Luiz de S.^^ que V. S.^ me promette e que desde já 
agradeço bem como a continuação das noticias da Symmicta. 

Agradeço também a remessa que me fez de mais de uma 
folha do Catalogo dos Núncios, e de um quaderno da sua óptima 
Memoria. No texto De Mirabilibiis Asculiationibus hnha 2 V N P o I 
deve lêr-se V N T o R na hnha 4 Empupyopieolt deve lêr-se 
Empityopievu. # 

Recebi com a sua carta de 20 d' Abril o 1.° vol. da collecção 
de opúsculos reimpressos relativos á Hist. das navegações, via- 
gens e conquistas dos Portuguezes. Agradeço infinitamente esta 
remessa e approvo do coração este patriótico projecto do bene- 
mérito e zelosíssimo secretario da Academia. A lida em que ando 
com a m.a obra jne não tem permittido até agora concluir os 
artigos que tenho alinhavado acerca dos trabalhos da nossa Aca- 
demia para serem pubhcados no Bolletim da nossa Sociedade 
Geographica e mesmo no Moniteur. 



440 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

Tenho um projecto a este respeito que me proponho commu- 
nicar a V. S.a logo que para isso tiver tempo. Quanto á Publica- 
ção dos opúsculos que V. S.» deseja saber se existem nas Biblio- 
thecas de Paris para se tirarem delles Copias pode V. S.''^ contar 
comigo para estas investigações. 

Não tenho o Primeiro Roteiro da Cosia da índia desde Goa 
até Diu por D. João de Castro com o seu competente Atlas, rece- 
berei pois com o maior reconhecimento este presente com que 
V. S.a pretende augmenter o meu reconhecimento. 

Tive muito sentimento com a morte do Kopke. 

Queira D."' que se não extraviem os subsídios que elle havia 
juntado para a publicação de todas as obras de D. João de Castro. 

Com esta sua ultima carta recebi mais uma folha do catalogo 
dos Núncios e um quaderno da sua memoria. 

Apesar do que V. S.'* vio no T. 19 do Journal de la Société 
de Geographie das publicações de Jomard com os n."^ 33 e 34 
até agora ainda este Magico não sahio á luz com um só dos 
Monumentos tantas vezes annunciados. Está tudo no mesmo 
estado em que estava quando escrevi a V. S.a as m.^^ cartas de 
8 de Dz. de 1843 e 26 de Junho do anno passado. Quanto aos 
numefos indicados é uma verdadeira charlatenaria, pois dando 
elle a carta de Hereford em 8 folhas e mais 2 outros monumen- 
tos em outras 8. Faltão 4 cartas para fazer! em o numero indi- 
cado pretendendo fazer assim acreditar que são 33 ou 34 monu- 
mentos, quando em realid.e são só 4!! 

Tudo isto é uma manobra lá para os seus fins e para vêr se 
pilha algum subsidio do Estado e para fazer f aliar de si. E é tão 
evidente a falsidade destes annuncios, que 4io BuUetin de Dz.<* 
passado vol. 20 publicou elle uma nova lista de monumentos 
que se propõem publicar que consistem em 9 e fez proceder esta 
Lista das seg.*^^ palavras = Les premières liuraisons des monu- 
ments geografiques comprendrant = K carta D'Edisi e o Mappa- 
mundi desaparecerão desta Lista! Basta de Jomard acerca do qual 
podia contar-lhe as anedoctas mais curiosas ^ risíveis. 



VISCONDE DE SANTARÉM 441 



Do Visconde de Santarém para o Ministro dos Negócios Es- 
trangeiros 

Paris, 6 de maio de 1844. 

III.""' e Ex.'"° Snr. 

Accuso a recepção do Despacho sob o N.» 4 que V. Ex.^ me 
fez a honra de dirigir no qual se sérvio communicar-me de se ter 
expedido ordem em data de 2 de Abril ultimo á commissão da 
Agencia Financial em Londres para pôr á minha disposição a 
quantia de 678.2.6 egual a Rs. 3:000$000, para occorrer ás des- 
pezas da commissão de que me acho encarregado nesta Corte 
pelo Governo de S. Mag.® 

Agradecendo, como devo, a V. Ex.^ esta communicação tenho 
ao mesmo tempo a honra de lhe participar que este negocio se 
acha já regulado em consequência da execução dada em Lon- 
dres ás referidas ordens. 

Deus Guarde, etc. 

Visconde de Santarém 



De M/ E. Pa SC alie t para o Visconde de Santarém 

Le Biographíe Universel 

Revue General Biographique, Politique et Litteraire, sous la Di- 
rection de M. E. Pascallet 

Bureau de Rédaction Rue Lois-le-Grand n.» 9 

Paris, le 6 Mai 1844 

Monsieur le Vtcomte 

J'ai ]'honneur de vous adresser le q° n.'' de la revue, pour 
1844; vous recevrez sous quelques jours les deux n"'^ suivants qui 



442 CORRESPONDENCIiV SCIENTIFICA E LITTERARIA 



sont completement prets. Je profite de cette circonstance pour 
vous informer de nouveau que mon houorable ami et digne col- 
laborateur M."" E. de Monglave est chargé de rèdiger pour Ia 
revue la notice qui vous concerne — M/ de Monglave m'a promis 
qu'il aurait Tun de ces jours Thonneur d'aller vous voir et de 
recevoir vos Communications Agreez. Monsieur le Vicomte, je 
vous prie, Texpression três respectueux de mes sentiments de 
haut consideration 

Le Rédateur en chef 

E. Pascallet 



Do Visconde de Santarém para o Ministro dos Negócios 
Extrangeiros 

Paris, 17 de de Maio de 1844. 

7//.""' e Ex."'° Snr. 

Em 10 de Novembro do anno passado tive a honra de escrever 
a V. Ex.» acerca da obra que publiquei por ordem do Governo de 
S. M.® sobre a prioridade dos nossos descobrimentos, que se 
publicou no u.*^ 71 da Gazeta d'Estado da Prússia de 9 de Se- 
tembro do mesmo anuo, agora tenho a satisfação de annunciaría 
V. Ex.'^ que acaba de se publicar outra sobre o mesmo assumpto 
na Gazeta Litteraria de Berlim do mez passado. 

Pelo próximo correio espero poder enviar a V. Ex.^ a tradu- 
cção do referido artigo. 

Apresso-me em felicitar V. Ex.^ por se ter terminado a insur- 
reição que infelizmente veio alterar o socego nesse Reino. (1) 

Visconde de Santarém 



(1) Refere-se á revolta de Torres Novas. 



VISCONDE DE SANTARÉM 443 



Do Visconde de Santarém para Joaquim José da Costa de 
Macedo 

Paris, 17 de Maio de 1844 

111."'° e ExJ^° Snr. 

Recebi pelo ultimo correio a sua carta de 28 do passado 
e mais uma folha do catalogo dos Núncios e um quaderno da 
sua memoria. Quanto ao Mappamundi da Bibliotheca d'Alby 
Mr. Libri deve juntal-o ao catalogo dos iMss de algumas Biblio- 
thecas de França, seguindo nisto o exemplo do que praticou 
Pazzini com o de Turim e Naumarnn no seu catalogo dos Mss 
da Bibliotheca de Leipsig. 

Quanto ao iMss do século xm em que se falia das Canárias, 
ainda o não vi. Pelo que respeita ás cartas authographas D'E1- 
Rei D. João 1.^ e dos Infantes ao Prior de Florença, já fallei a 
Libri outra vez no muito que me interessaria o poder examinalo 
d'espaço, mas foi isto tão de passagem que não me foi possível 
obter uma resposta decisiva. Mas não me escapa. 

Agradeço a V. S.-"^ o seu offerecimento de um exemplar da 
carta do paiz vinhateiro, mas não me interessando este negocio, 
se V. S.^ ma mandar offerecela-hei da sua parte á Sociedade 
Geographica. 

As suas cartas para Aillaud mandei-as logo entregar e a des-' 
tinada ao Secret.o da Socied.^ Geographica conto entregal-a esta 
noite antes da sessão. 

Em um dos dias desta semana veio ver-me Briot filho, e 
fallou-me no muito desejo que tinha em ser nomeado corres- 
pond.*' da nossa Academia. Respondi-lhe, para me esquivar de 
algum modo, a dizer-lhe a m.'"^ opinião que julgava que por 
agora não havia logar vago nesta classe. O Ávila quando aqui 
esteve offereceo-me uma collecção completa dos orsamentos e 
quando veio despedir-se de mim, perguntou-me a quem os devia 
entregar nessa Capital, respondi-lhe que os mandasse a V. S.^ 
pois tinha occasiões de mos poder mandar com outros livros, e 



444 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

papeis do serviço da Academia. Avisa-me ultimamente de que 
em poucos dias ia remetter alguns a V. S.a. 

Rogo, pois, a V. S.3 o obsequio de os receber e de mos man- 
dar pela primeira occasião que para isso se lhe offerecer. 

Queira V. S.** ter a bond.«= de me mandar outra relação das 
Collecções históricas publicadas pelo Ministério da Instrucção que 
possue o nossa Academia afim de alcançar o mais que se tem 
publicado, pois a que entreguei perderão-na nas secretarias. 

Visconde de Santarém 



Do Visconde de Santarém para Rodrigo da Fonseca Maga- 
lhães. 

Paris 22 de Maio de 1844. 

111.""° e Ex.""" Sr. 

Ainda não tive um instante para redigir o plano da publica- 
ção da nossa grande obra. V. Ex.^ não pode fazer idéa do im- 
menso trabalho que tenho apezar de principiar a minha tarefa 
diária ás 5 horas da manhã. 

Espero todavia poder remetter em breve a V.Ex.a o dito plano 
acompanhado d'algumas ponderações relativas a esta publicação. 
Entretanto envio a V. Ex.^ a traducção de um novo artigo sobre 
as Recherches sur la priorité &, que se publicou ultimamente na 
Gazeta Litteraria de Berlim de 27 do passado. 

Ha tempos appareceo outro na Gazeta d'Estado de Prússia e 
que igualmente tive a honra d'enviar a V. Ex.^. 

Assim se vão colhendo os resultados do plano e das vistas 
que a respeito desta obra V. Ex.^ teve e concebeo em favor e 
para gloria da nossa Pátria. 

Renovo as expressões d'invariavel amizade com que me prezo 

ser 

De V. Ex.a 

Am.*^ f. grato e obrg.'"^ 
Visconde de Santarém 



VISCONDE DE SANTARÉM 445 



Do Visconde de Santarém para Joaquim José da Costa de 
Macedo 

Paris, 23 de Maio de 1844 

111"'° e Ex.""" Sr. 

Acabo de receber a carta de V. S.^ de õ do corrente e a nota 
dos documentos que se encontrão no 4.° vol. da Symmicta e 
mais uma folha da sua Memoria e outra do catalogo dos Nún- 
cios. Agradeço infinitamente a V. S.a a continuação desta impor- 
tante remessa e bem assim o empenho com que V. S.^ se tem 
prestado a satisfazer ás minhas importunidades. 

Recebi pelo ultimo Paquete uma carta do Ávila na qual me 
diz ter feito entrega a V. S.^ de 14 vol. para me serem remetti- 
dos. 

Rogo a V. S.^ o obsequio de mos mandar só quando remetter 
alguns da Academia para não pagar o porte, pois estas remes- 
sas custão mui caras pelo muito que os Livros Estrangeiros pa- 
gão nestas Alfandegas. 

Quanto ás sementes do Jardim das Plantas fallarei neste as- 
sumpto a Mirbel, mas não sei quando poderei ir ao Jardim para 
lhe fallar neste assumpto. Entretanto como elle tem sido sempre 
mui obsequiador no que lhe tenho pedido, espero vencer talvez 
este negocio sem dependência de outra pessoa. 

Agradeço tão bem muito o favor que me fez em mandar en- 
tregar a minha carta a Rodrigo da Fonseca, e envio outra para 
elle pedindo o mesmo obsequio, bem como a entrega da que in- 
cluo para o Ávila. 

Sou de V. Ex,3 &.^ 
Visconde de Santarém 



446 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E I.ITTERARIA 



Do Visconde de Santarém para o Ministro dos Negócios Es- 
trangeiros 

Paris, 22 de Maio de 1844 

///.""' e Ex.""" Sr. 

Tenho a honra de enviar a V. Ex.'' a traducção de ura artigo 
publicado na Gazeta Litteraria de Berhm (Litterarische Zeitung), 
de 27 de Abril ultimo, acerca da minha obra sobre a prioridade 
dos descobrimentos portuguezes na Costa d' Africa, e junto a Ga- 
zeta original pedindo a V. Ex.'^ a mercê de ma restituir depois 
de tomar delia conhecimento. 

Ignoro quem seja o auctor, mas pela parte em que diz que 
espera que haverei de tratar de quaes forâo as causas que in- 
fluirão no Infante D. Henrique para mandar fazer os descobri- 
mentos desconfio que seja o celebre geographo Ritter que o ridi- 
gio, enunciando assim a opinião sobre aquelle ponto do meu il- 
lustre amigo Mr. de Humboldt; pois este sábio já me havia fal- 
tado neste assumpto em outro tempo. Felizmente tenho já discu- 
tido largamente este assumpto e conto que elle. verá a luz pu- 
blica na 2.^ parte desta obra sobre os descobrimentos, cuja pu- 
blicação V. Ex.''^ se sérvio autorizar. Eis aqui o titulo que por 
agora lhe dei no meu Manuscripto: «Examen critique des causes 
qui preparèrent les Portugais à entreprendre, dans le XV siècle, 
leurs grandes expeditions maritimes». 

Tenho grande regosijo em ver no artigo, que remetto, pro- 
clamado pelos sábios estrangeiros, e em um dos paizes mais scien- 
tificos, o elogio do Governo que com tão grande munificência tem 
auxihado esta publicação em proveito da gloria nacional e das 
sciencias. Este artigo que em meu entender deve ser publicado 
no Diário do Governo, conforme a sabia decisão por V. Ex.^ já 
tomada acerca destas publicações, seria, todavia, opportuno que o 
redactor do Diário indicasse que já havia apparecido outro sobre 
o mesmo assumpto na Gazeta d'Estado da Prússia de 9 de Se- 
tembro do anno passado. 

Bem desejava eu poder publicar o mais interessante de todos 
os monumentos geographicos o Mappa Mundi de Fra Mauro de 



VISCONDE DE SANTARÉM 447 



1460, o mais celebre de todos os cosmographos do Século XV e 
o ultimo da idade media e que se sérvio das primeiras cartas dos 
nossos marítimos e exploradores mandados pelo Infante D. Hen- 
rique, para consignar neste grande monumento as nossas primei- 
ras descobertas, como se lê em uma nota que elle inserio no dito 
Mappa cuja nota transcrevo nas minhas Recherches a pag; 
113 e seg. Alem destas razões accresce a das relações que com 
elle teve o nosso illustre Príncipe, por via de seu irmão, o cele- 
bre Infante D. Pedro, do tempo em que esteve em Veneza, como 
depois que voltou a Portugal, sendo o mesmo Fra Mauro a quem 
El-Rei D, Affonso V mandou fazer uma carta semelhante, hoje 
perdida bem como a que o Infante D. Pedro trouxe de Veneza 
ao dito cosmographo e que já em o século XVI tinha desappare- 
cido d'Alcobaça como nos mostrão António Galvão e outros. 

O Governo inglez mandou tirar um fac-simile em 1804 no Mi- 
nistério de Lord Hob ar, então Ministro dos Negócios Estrangei- 
ros. Algumas porções reduzidas deste Mappa Mundi foram Já 
publicadas pelo sábio Cardeal Zurla e pelo Dr. Vincent, mas o 
monumento inteiro e em fac-simile nunca se publicou. Esta pu- 
blicação interessaria pois em summo gráo a sciencia em geral e 
a historia das nossas descobertas pois é um dos titulos mais au- 
thenticos da prioridade d'ellas. 

E todavia é este Mappamundi de grande dimensão e no caso 
de se gravar só se poderia fazer em 6 ou 8 folhas. A copia cus- 
tou ao Governo Inglez 100 libras, como se vê na conta que sobre 
este negocio deo o Dr. Vincent, e a gravura, tiragem, colorido, 
etc. custaria mais de 150 libras. 

Não me atrevo, pois, a propor esta despeza, mas verei com 
grandíssimo pezar e talvez em poucos annos um monumento tão 
portuguez, ser publicado aqui por um homem que não pôde tra- 
gar que Portugal fosse a 1.^ nação que publicasse e levantasse 
um tão grande monumento á historia da Geographia e das Scien- 
cias. 



448 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



Do Visconde de Santarém para o Visconde da Carreira 

Paris 27 de Maio de 1844. 

III.""' e Ex.""" Snr. 

Li e examinei a Memoria do Snr. Bento José Cardoso que 
V. Ex.a se sérvio confiar-me. 

Devo antes de tudo observar que não tenho conhecimento- 
algum das notas de Lord Aberden de 19 de Fevereiro e de 3 
Abril ultimo em resposta a Lord Landou sobre os limites dos 
Dominios Portuguezes na Costa occidental d'Africa, nem tão 
pouco do artigo sobre o mesmo objecto publicado no Albion de 
Liverpool, de 8 deste mez, não me é possível dar a minha opinião 
sobre este grave assumpto com conhecimento da matéria de um 
modo plausível sem ter presente o texto dos documentos citados. 
Concordo entretanto com o A. do escripto que V. Ex.'* me confiou 
de que todas estas pretenções tendem a esbulhar-nos de direitos 
que adquirimos ha 4 séculos pelo descobrimento, exploração e 
outros titulos que tornavão o nosso domínio incontestável! Quanto 
á intellígencia dos art.^^ 2.° sobre o trafico da escravatura entre 
a Grã Bretanha e Portugal, de 28 de Julho de 1817, não fixou 
nem podia fixar os hmites do domínio e soberania de Portugal 
e se tal interpretação se adoptasse os territórios pertencentes á 
Coroa de Portugal, senão só os de que o Tratado faz mençãa 
para o caso expresso em que o commercio dos escravos ficava 
prohibído, isto é, dos 8 até 18 de latitude Austral, e cessaria o 
domínio da Coroa de Portugal em todos os situados aquém 
desta demarcação. Se tal interpretação se adoptasse teriam dei- 
xado de pertencer á Coroa de Portugal os estabelecimentos de 
Bissao, Cacheo, Casamausa etc, pois ficão situados fora desta 
demarcação. Mas tal se não dá. 

Mas ainda suppondo que uma nação extrangeira tivesse o 
direito de fixar por taes interpretações os limites territoríaes das 
conquistas e colónias de outra, neste caso parece-me abstracção 
feita mesmo do direito de Prioridade de descobrimento e de posse 
não contestada por tantos séculos, que se viria a reconhecer por 



VISCONDE DE SANTARÉM 449 



tal modo o antigo Direito Publico Universal dos século xv e xvi 
em que estes limites forão definidos pelas Bulias dos Papas, e 
por ellas reconhecido este direito que a Inglaterra não só reco- 
nheceo, mas em nome do qual deo por mais de um século e meio 
todas as providencias para que seus súbditos o executassem. 

E com effeito não teriam então os Papas mais direito para de- 
finir taes limites, do que tem hoje as nações para os estermina- 
rem, sem o consentimento dos Soberanos e das Coroas a quem 
pertencem por descobrimento, posse primordial e conquista? 
Este direito publico antigo, hoje tão atacado e que nas ideias e 
princípios actuaes parece a alguns publicistas absurdo era ao me- 
nos mais conforme com o direito da posse e domínio indepen- 
dente das Coroas e dos Príncipes, pois reconhecendo o direito 
de prioridade do descobrimento e os que derivão da conquista 
segundo a clausula expressa nas mesmas Bulias tendião os Papas 
a impedir que os direitos legitimamente adquiridos fossem viola- 
dos e disputados pela ambição de outras Potencias que não tinham 
sacrificado nem o sangue dos seus vassallos, nem os seus the- 
souros para descobrir e conquistar taes paizes. Taes Bulias ten- 
dião pois a um fim não só eminentemente Christão, mas também 
politico, impedindo por tal arte as usurpações á mão armada de 
Extrangeiros que pela força se apossassem dos territórios de 
outra Coroa. 

Que tal concessão ou antes tal reconhecimento se entendia 
de todos aquelles territórios que não fossem já possuídos por 
outro Soberano é innegavel. Se pois se admittisse a interpretação 
dada ao Tratado e Convenção meramente especial para o caso 
do trafico dos escravos seria mil vezes mais contraria a todo o 
direito e á razão e á justiça do que era o antigo Direito que 
acabo de mencionar. 

Quanto ao direito que temos ao território africano além de 
Angra Pequena, refiro-me inteiramente ao que tive a honra de 
escrever a V. Ex.^ na minha carta de 2 do corrente justamente 
no mesmo dia em que o Snr. Cardoso em Lisboa escreveo a sua 
Memoria, em cuja carta citei a mesma passagem de Barros, e 
posto que me fosse conhecido tudo quanto disse o capitão Tackey 
na sua Geographia Marítima, julguei mais concludente o facto 

VoL. VI 29 



450 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

acontecido em 1786 de ter Sir Home Papham e o capitão Tom- 
pson encontrado junto da Angra Pequena a 27°— 37™ latitude 
austral um dos padrões levantados por Bartholomeu Dias. 

Alem do que referi na dita minha carta relativamente aos 
padrões accrescentarei ainda que Diogo de Cam explorou 22 
grãos de latitude Austral, que o celebre Martinho da Bohemia 
que sérvio em Portugal no tempo d'El-Rei D. João 2.° e que foi 
contemporâneo de Bartholomeu Dias escreveo uma nota no seu 
famoso globo que ainda se conserva em Nuremberg, nota que 
reproduzi nas minhas Recherches a pag. 120 e 299 Nota B, na 
qual se mostra que os nossos Padrões forão collocados muito 
alem de Angra Pequena. O conhecimento que Arrwsmist tinha 
em J80Õ do Padrão de Bartholomeu Dias junto de Angra Pequena 
era o de haver ali encontrado Sir H. Papham e o capitão Tom- 
pson. 

Ainda que nós não tínhamos presentemente aquelle território 
occupado, todavia durante perto de 4 séculos nenhuma nação 
da Europa nol-o disputou. 

Waterl (Edic. de Paris de 1838. Liv.o 1.° cap. 23 § 286, diz : 
II peut arriver que le non usage suivie de la nature d'un con- 
seutiment ou d'un pacte tacite ce devienne anisi um titre en 
faveur d'une nation contre une autre. Qu'une nation en posses- 
sion de la navigation et de la pêche en certains parages y pre- 
tende un droit exclusif et defende à d'autres d'y prendre part, 
si celles-ci obeissant a cette defense avec des marques suffi- 
santes d'acquiesciment, elles rennoncent taciiement a leur droit 
en faveur de celle la, et lui établissent un qu'elle peut legitime- 
ment soutenir contre elles dans la suite, sourtout lorqull est 
confirme par un long usage. Parece que isto é applicavel ao 
negocio em questão. Para se estabelecer melhor este direito deve 
usar-se a passagem de pag. 205 da mesma obra. 

Que o Governo Ingiez reconheceo estes nossos direitos e os 
conservou até agora sem nolos disputar se prova pelos documen- 
tos que produzi, a pag. 200 e 201, das Recherches de Eduardo VI, 
e pag. 207 na Carta escripta por Henrique VIII a El-Rei D. Ma- 
noel em 14 de Septembro de 1516, bem como nas ordens que o 
Governo Britânico em consequência do reconhecimento deste 



VISCONDE DE SANTARÉM 



451 



direito passou, prohibindo a todos os vassallos inglezes de faze- 
rem o commercio com a Guiné. E pelas ordens passadas para se 
prender o Conde de Penamacor (1). Ibi pag. 208. 

De V. Ex.3 
Am.o f. e obrg.-^o cr. 

Visconde de Santarém 

Da Academia Real das Sciencias e Lettras de Bruxellas 
para o Visconde de Santarém 

Bruxelles, le 10 Juin 1844. 

Monsieur le Vicomte 

J'ai 1'honneur de vous annoucer que TAcadèmie royale de 
Bruxelles a recu Fouvrage suivant. 

«Quadro elementar das relações politicas e diplomáticas de 
Portugal com as diversas potencias do mundo, desde o principio 
da monarchia portugueza até aos nossos dias, tomo iv parte 1.% 
que vous avez bien voulu lui adresser. 

UAcadémie me charge de vous présenter ses remerciments 
et de vous fraire connaitre que cet ouvrage a été déposé dans 
sa Bibliothéque et qu'il será mentionné dans le Bulletin de la 
prochaine séance. 

Agréez, je vous prie, M.-^ le Vicomte, Tassurance de mes sen- 
timents les plus distingues 

Le Secretaire perpetuei de 1'Academie 
Apestelet 
A Monsieur le Vicomte de Santarém 

à Paris 



(1) D. Lopo de Albuquerque, l.o Conde de Penamacor, camareiro-mór de 
D . Afonso V. Foi com o Duque de Vizeu, um dos conspiradores contra João II. 



452 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



Do Visconde de Sentarem para Joaquim José da Costa de 
Macedo 



Paris 14 de Jimho de 1844. 



///.""' Snr. 



Recebi as cartas de V. S.^ de 13, 19 e 26 do p"., ás quae& 
não respondi logo por ter passado incoramodado. Com estas re- 
cebi 3 folhas do cat.° dos Núncios, o resto da sua Memoria e a 
continuação dos Extractos do Index da Symmicta até ao T. xxv 
o que muito agradeço a V. S.'» 

A carta catalan de Barbié du Bocage que estava marcada no 
Catalogo com o n.° 1767 aqui a tenho. Esta está salva, bem 
como o magnifico e sumptuoso Portulano Real de 1546. 

Quanto a dar-se alguma gratificação ao off.^' da Secretaria da 
Academia que tem tirado a Copia do Index da Symmicta parece- 
me m.*° bem. Queira V. S.''^ ter a bondade de lhe dar e se en- 
contrará nas nossas contas. 

A carta p.*» M."" Ternaux irá para os Pyrineos onde elle actual- 
mente está. Elle possue o livro raríssimo da Historia da Provin- 
da de 5/"^ Cruz por Pêro de Magalhães Gaudavo. Aqui tive um 
anuo em meu poder este opúsculo. Ternaux publicou na sua col- 
lecção Americana uma traducção desta obra. 

Gayangos à m.*° que veio aqui despedir-se e partio para In- 
glaterra. 

Vou agora dar a V. S.^ uma grande impertinência pedindo- 
Ihe mil perdões da liberdade que tomei sem o ter primeiram.*^ 
consultado. Acabo de receber uma carta citativa para o inven- 
tario e partilhas dos bens que ficarão por m.*^ de m.'' Madrasta (1) 
p.^ juntar Procuração no praso de 40 dias. Ora sendo de 13 do 
passado, e tendo-a recebido hontem 13, já lá vai um mez. Nesta 
estação em que toda a gente vai p.a o campo não sei onde se 
achará a m.a gente e como o negocio é urgentíssimo tomei a 
liberdade de mandar a V. S.'^ a Procuração inclusa p.a a 



(1) D. Maria José de Sampaio, filha de Ignacio José de Sampaio Freire de 
Andrade, fidalgo da Casa Real e Cavaleiro da Ordem de Christo. 



VISCONDE DE SANTARÉM 453 

poder substabelecer ao menos interinamente em alguém capaz 
para que este negocio não corra á revelia. Se isto der moléstia 
a V. S/'^ tratarei logo de dar outra providencia. 

Desculpe V. S.^ esta temeridade. 

Para outra serei mais extenço, e acredite 

De V. S.« 
Am.o fiel e obrg.'"» cr. 

Visconde de Santarém 

Do Visconde de Santarém para Ministro dos Aegocios Es- 
trangeiros 

Paris 14 de Junho de 1844. 

///.'"^ e Ex.""" Snr. 

Na conformidade das ordens com que V. Ex.a me honrou em 
3 d' Abril ultimo envio incluso um Artigo que acabo de publicar 
nesta Capital na mais acreditada Revista Scientifica «Revue de 
Bibliographie Analytique ou Compte rendu des ouvrages Scienti- 
fiques et de Haute littérature», no numero do mez de Maio pas- 
sado acerca da publicação da nova serie de monumentos geo- 
graphicos que acabo de publicar para provar a nossa incontes- 
tável prioridade, e o estado dos conhecimentos relativos á cos- 
mographia anteriormente ás nossas descobertas. 

A publicação da Tradução no Diário do Governo dará uma 
idea em Portugal do estado actual desta publicação de que 
tanta gloria resulta ao Governo e ao illustrado Ministro que não 
tem cessado de lhe prestar todo o apoio. Permita-me V. Ex.a to- 
davia que lhe rogue seja servido dar as suas ordens para que a 
tr^nscripção dos nomes seja feita com grande cuidado, e princi- 
palmente no diário appareção bem correctos. A introducção que 
precede esta continuação do Atlas está quasi impressa, logo que 
se ultime terei a honra de enviar a V. Ex.'' os exemplares desta 

nova collecção. Sou, etc. 

De V. Ex.a 
Obrig.™° Servidor ef. cr. 

Visconde de Santarém 



454 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



Do Visconde de Santarém para o Ministro dos Negócios Es- 
trangeiros 

Paris, 21 de Junho de 1843. 

///."IO e £'jc.'"o Sr. 

Pelo ultimo Paquete tive a honra de receber o Despacho que 
V. Ex.^ se sérvio dirigir-me sob o n.'' 4 no qual se digna com- 
municar-me a noticia que muito me penhora e augmenta a mi- 
nha gratidão de que fora muito agradável a S. M,«= a Rainha e a 
seu Augusto Esposo a indicação que tive a honra de fazer a 
V. Ex.* acerca de se publicar o preciosíssimo Mappamundi de 
Fra Mauro de J460, monumento que interessa em summo gráo 
ás sciencias em geral e em particular á historia de nossas des- 
cobertas, servindo-se V. Ex."^ de autorizar desde já a publicar o 
sobredito monumento, ordenando-me V. Ex.a que haja de lhe 
dizer previamente em que proporção careço de receber o di- 
nheiro necessário para a publicação desta obra colorida afim de 
ordenar a Agencia Financial em Londres o seu pagamento. 

Na carta que tive a honra de escrever a V. Ex.% em 22 de 
Maio ultimo, indiquei a somma que a copia do sobredito monu- 
mento tinha custado ao Governo Britânico e pela larga expe- 
riência que tenho do que custão a copia, a gravura, correcções 
e colorido, papel e tiragem destes monumentos e sobretudo do 
que deve importar o deste que tem sete pés de comprido, jul- 
guei fixal-a approximadamente a 200 £, é pois esta a quantia de 
que necessito para levar a effeito esta patriótica e illustrada de- 
cisão de V. Ex.'». Se importar em menos, para o que porei, como 
tenho feito até agora, o maior cuidado e desvelo, o excedente 
será applicado com auctorisação de V. Ex.=» a publicar conjun- 
etamente com o dito Mappamundi de Fra Mauro outros monu- 
mentos de que tenho já os fac-similes a saber um Mappamundi 
que se acha n'um manuscripto de Marco Polo de 1350, que se 
encontra na Bibliotheca Real da Suécia, outro que se encontra 
no precioso manuscripto dos Itenerarios d'Antonino da Bibiothe- 
ca do Escurial, e mais dous que existem na Bibliotheca Medica 



VISCONDE DE SANTARÉM 455 

de Florença, monumentos estes que augmentão as provas evi- 
dentíssimas que os Cosmographos da Europa conhecião apenas 
a metade do Globo, antes dos descobrimentos dos Portuguezes, 
e para fazer esta demonstração ainda mais saliente conto jun- 
tar-lhe um mappamundi também inédito, mas posterior ás nos- 
sas descobertas que se acha nos manuscriptos da Bibliotheca 
Real de Paris no qual se representa já em consequência delias o 
Globo. 

Em consequência pois das determinações de V. Ex.^ hoje 
mesmo escrevi para se começar a tirar o Fac-simile do Mappa- 
mundi de Fra Mauro. Rogo, portanto, a V. Ex.^ se sirva mandar 
expedir as ordens que lhe parecerem opportunas para que a 
dita somma seja posta á minha disposição logo que tenha delia 
necessidade para pagar as despezas da publicação. 

Não devo terminar este officio sem exprimir a V. Ex.^ o meu 
profundo reconhecimento e gratidão pelas expressões do ultimo 
paragrapho do seu despacho. 

P. S. Terei a honra de desenvolver mais d'espaço pelo se- 
guinte Paquete o Plano scientifico que se deve seguir para com- 
pletar inteiramente esta única e magnifica obra. 



Do Visconde de Santarém para o Ministro dos Negócios 
Estrangeiros 

Paris 28 de Junho de 1844. 

Ill"'' e Ex."'" Sr. 

V. Ex.a não pode fazer idea da satisfação que me deu com o 
que teve a bondade de me escrever no ultimo paragrafo do seu 
ultimo Despacho. 

Desde que comecei a pubicação do grande Atlas dos monu- 
mentos geographicos concebi não só quanto isto importava á glo- 
ria e mesmo aos interesses políticos de Portugal, mas igualmente 
a que ponto esta publicação devia ser levada para ser completa 
e levantar a Portugal, assim, um dos maiores monumentos ás 
siencias, e que nenhuma nação tinha tentado pelas infinitas diffi- 



456 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

ciildades que a isso se oppunhão, sendo uma das principaes a 
raridade e dispersão em que se achavão estes monumentos e 
mais que tudo o nenhum estudo que até ao principio deste sé- 
culo, se tinha feito do importantíssimo e longo período histórico 
dos dez séculos da Idade Media, mas apezar de estar convencido 
pelo meu próprio estudo e pelo concurso dos sábios mais emi- 
nentes da Europa da máxima utilidade desta publicação, apezar 
de ter recebido com uma generosidade verdadeiramente Real e 
Patriótica o apoio mais decidido e efficaz do Governo, tive sem- 
pre receio de propor desde o principio da publicação um plano 
que, abrangendo toda a serie de monumentos graphicos deste gé- 
nero, augmentasse pela despeza a difficuldade de o levar á exe- 
cução. Para conseguir, porem, o mesmo fim assentei em ir pouco 
a pouco recolhendo as noticias de todos os monumentos que exis- 
tem, e fazendo gravar alguns destes, tendo a satisfação de ter 
já publicado, no espaço de dez annos, 44 entre os quaes existem 
22 systemas completos que representam o estudo Comparativo 
das sciencias cosmographica e geographica na Europa, durante 
toda a Idade Media, e antes dos nossos descobrimentos, e ficara 
completa esta parte dos monumentos desta ordem com a publi- 
cação do Mappamondi de Fra Mauro, e dos outros de que fiz 
menção no meu officio u.° 24. 

Mas se com a publicação desta serie se pode dizer completa 
a parte que pertence aos raríssimos monumentos da Europa, an- 
teriores aos nossos descobrimentos, restão ainda para que esta 
publicação, seja um dos maiores monumentos levantados á scien- 
cia, publicar-se outra serie composta de 8 ou 9 Mappamundi, to- 
dos inéditos que se encontrão nos Manuscriptos dos primeiros Geo- 
graphos Árabes da Idade Media, alguns dos quaes são anteriores 
aos da Europa Latina, pois os Cosmographos Christãos os tomarão 
por mestres, servindo-se dos elementos que encontrarão nos sys- 
temas delles para construírem o systema de globo e as suas car- 
tas Náuticas: de maneira que as divisões da terra e dos mares, 
o systema dos rios, a direcção das montanhas, etc, da maior 
parte dos monumentos Europeus, 22 dos quaes já por mim forão 
publicados são tirados dos Planispherios Árabes, do mesmo modo 
que estes últimos, senhores da sciencia dos Gregos adoptarão a 



VISCONDE DE SANTARÉM 457 

divisão da Esphera dos mesmos Gregos, de maneira que publican- 
do-se esta serie, completar-se-hia inteiramente a historia da scien- 
cia pelos monumentos desde que ella se liga com a antiguidade 
até ao século xvii da nossa era. 

Alem disto se tornaria ainda mais evidente e mathematica a 
demonstração de que antes dos nossos descobrimentos os povos 
mais ou menos illustrados e os mais civilisados não conhecerão 
metade do Globo que habitamos. 

Publicada esta ultima serie, e reunidas todas em o Atlas se- 
ria o meu plano ampliar as duas Introducções e f undindo-as em 
uma só, collocar na frente em. uma gravura monumental em let- 
tras d'ouro pouco mais ou menos o seguinte: 

Monumento 

Consagrado pela Snr.^ Rainha Fidelíssima D. Maria ii ás scien- 
cias Geographicas e á Memoria do Infante D. Henrique e dos 
Senhores Reis D. João ii e D. Manoel e seus Augustos predeces- 
sores e aos illustres descobridores mandado executar pelo Minis- 
tro, etc. 

E em duas columuas rostraes lateraes os nomes de todos os 
nossos grandes capitães dispostos por ordem chronologica, come- 
çando por Gil Eannes. 

Visconde de Santarém 



Do Visconde de Santarém para o Ministro dos Negócios 
Estrangeiros 

Paris 28 de Junho de 1844 

///.'"'' e Ex.'"" Sr. 

Depois que tive a honra de dirigir-me a V. Ex.^, pelo ultimo 
Paquete, o meu officio N.° 24, tive uma entrevista com os dous 
principaes gravadores desta capital que me teem gravado não só 
algumas cartas mais importantes do Atlas, mas também muitas 
das publicadas pelo Ministério da Guerra e mandei chamar igual- 



458 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

mente o colorista a fim de calcular a somma provável em que 
importara a copia e gravura do Mappamundi de Fra Mauro to- 
mando por base para estes dous monumentos que pelas dimen- 
sões, nomenclatura, colorido e detalhes mais se approximão da 
dita carta a saber: 1.^, o grande Mappamundi Latino-Saxonio 
d'Hereford, de que existe aqui uma copia na Repartição das Car- 
tas e Planos da Bibliotheca Real ; 2.o o magnifico Mappamundi 
que sérvio a Christovão Colombo por João de Lacasa de que dei 
o fac-simile d'Africa no meu Atlas. 

E assentarão elles, depois de debatermos este úegocio, que 
sendo o Fra Mauro não só de maior dimensão do que os dous 
acima citados que a somma que eu tinha calculado de £ 206 não 
era de modo algum sufficiente. 

E com effeito os elementos de que me servi para o calculo 
approximado que fiz na carta que tive a honra de dirigir a 
V. Ex.^, em 22 de Maio ultimo, de £ 150, f orão não só os mesmos 
que vejo confirmados pelos gravadores, mas também porque é 
regra invariável que a despeza da gravura, e sobretudo do co- 
lorido do papel, que a tiragem excede a mais do dobro do custo 
as copias ou fac-simile. 

Ora a copia do Mappamundi de Fra Mauro tendo custado 
100 £ a gravura, colorido, tiragem, etc, deverá custar mais do 
dobro, e por isso no meu precedente officio pedi só 200 £ e ac- 
crescentei mesmo que publicava alguns dos pequenos monumen- 
tos no caso que da referida somma sobejasse alguma cousa. 
Em verdade os 4 mappamundi que alli citei, além de serem mais 
pequenos, sendo um só colorido, devem ser publicados todos em 
uma só plancha, o que diminuo também em muito a despeza. 
Exceptuo porém o que representa o globo inteiro o qual se acha 
no precioso Manuscripto da Bibliotheca Real, pois é não só maior 
do que os outros 4 juntos, mas é além disso primorosamente co- 
lorido. 

A' vista disto, e sobretudo animado pelas generosas expres- 
sões e patrióticos desejos de V. Ex.^'^, que se digna manifestar-me 
no seu ultimo despacho, rogo a V. Ex.'^ que a somma destinada 
para a publicação desta 3.^ serie de monumentos que era com- 
posta não só do grande Mappamundi de Fra Mauro, mas igual- 



VISCONDE DE SANTARÉM 459 



mente dos já indicados no meu procedente officio seja de 400 £, 
podendo estasommadividir-se em duas prestações dando V. Ex.^ 
as suas ordens para que a primeira porção seja posta á minha 
disposição com a somma de 3 contos de Rs. do 1.° semestre de 
este anno da subvenção para a publicação da minha obra diplo- 
mática, cujo semestre se vence depois d'amanhã, e as outras 
200 £. no principio do anno próximo com o ultimo semestre de 
este anno ficando eu assim habilitado a ir completando este ma- 
gnifico e sumptuoso monumento levantado por Sua Magestade 
e por V. Ex.^ ás sciencias e á gloria da vossa Pátria com applausa 
e reconhecimento geral da Europa. 
Deus Guarde, etc. 

De V. Ex.^ 
Amigo f. e obr.°i° cr. 

Visconde de^Santarem. 



Do Visconde de Santarém para o Ministro dos Negócios Es- 
trangeiros. 

Paris, 9 d' Agosto de 1844. 

111."'° e Ex.'"° Sr. 

Tenho a honra de accusar a recepção do Despacho que 
V. Ex,-'^ se sérvio dirigir-me sob o N.o 6 pelo qual se dizia avisar- 
me que em data de 9 de Julho ultimo havia requisitado ao The- 
souro PubHco a quantia de £ 200 correspondente a Rs. 8728727 
para supplemento das despezas relativas á publicação do precio- 
síssimo Mappamundi de Fra Mauro de 1640, e dos interessantes 
monumentos de reconhecida utilidade publica, e de gloria nacio- 
nal que tive a honra de designar. Em virtude, pois, das referidas 
ordens e disposições procedi já a leval-os a devida execução. 

Guarde Deus, etc. 

Visconde de Santarém 



460 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

Do Visconde de Santarém para o Ministro dos Negócios Es- 
trangeiros. 

Paris, 9 d' Agosto de 1844. 

111.'"° e Ex.""" Snr. 

Tenho a honra de accusar o despacho de V. Ex.<i se sérvio 
prevenir-me que a gratificação de 160$000 rs. concedida a João 
Achilles de Pereira deverá ser satisfeita pela verba de 6:000.S000 
de reis que me foi abonada para a commissão de que me acho 
encarregado. 

Na conformidade pois desta ordem satisfarei ao dito Empre- 
gado a referida gratificação pelo modo que lhe fora precedente- 
mente paga pela folha das despezas da Legação nesta Corte. 

Deus Guarde etc. 

Visconde de Santarém 



Do Visconde de Santarém para o Ministro dos Negócios 
Extrangeiros 

Paris, 6 de Setembro de 1844 

///.•"O e £'x.'"° Snr. 

Tenho a honra de accusar a recepção do Despacho de V. Ex.a 
n.o 8 pelo qual se sérvio communicar-me que em 9 do passado 
se havião requisitado do Thesouro Publico, afim de serem postos 
á minha disposição pela Agencia Financial em Londres os três 
contos de reis destinados para as despezas da commissão de que 
me acho encarregado, relativas ao primeiro semestre do cor- 
rente anno, e se dignou annunciar-me que para o segundo 
semestre deste anno daria as providencias que tive a honra de 
propor a V. Ex.^ para a publicação do grande Mappamundi de 
Fra Mauro, e dos outros monumentos geographicos. Agradeço 
infinitamente a V. Ex.^ esta importante communicação e permit- 
ta-me V. Ex.^ que lhe dirija as expressões da minha grati- 
dão pelo infatigável zelo com que V. Ex.^ se digna cooperar 



flSCONDE DE SANTARÉM 461 

para a publicação destas importantes publicações e de tão alto 
interesse para a sciencia e para a gloria da nossa Pátria. 

Logo que receber e communicação da Agencia Financial de 
ter recebido as competentes ordens do Thesouro Publico terei a 
honra de informar a V. Ex.*» do estado actual dos trabalhos de 
que me acho encarregado. 

Deus Guarde V. Ex.a 

Visconde de Santarém 



Do Visconde de Santarém para o Ministro dos Negócios 
Extrangeiros 

Paris, 16 de Setembro de 1844 

111'^° e Ex.""" Snr. 

Aproveito a partida do senhor Carlos Bento da Silva para 
escrever estas duas regras a V. Ex.^ afim de lhe agradecer o ter 
me feito apreciar as excellentes qualidades deste cavalheiro, 
sendo elle carta viva julgo escusado repetir aqui as expressões 
da minha fiel amizade e de gratidão que lhe pedi significasse a 
V. Ex.-'^ da minha parte. Elle pode informar a V. Ex.^ do estado 
em que se achão não só o 2° volume das Recherches sobre as 
descobertas, principalmente o Exame critico das causas que 
derão impulso aos nossos descobrimentos, mas também do meu 
principal trabalho Diplomático. Do v volume do Quadro já uma 
parte do texto está impressa, entretanto aproveito também esta 
opportunidade para ter a honra de dizer a V. Ex.^ que até agora 
ainda não se receberão na Agencia Financiai em Londres as 
ordens para se me pagar o 1.° semestre d'este anno findo. 

Rogo, pois, a V. Ex.^ a sua constante e efficaz intervenção 
neste negocio, dignando-se lembrar a V. Ex.^ o Snr. Ministro da 
Fazenda a expedição das competentes ordens. 

Renovo, etc. 

Visconde de Santarém 



462 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E^LITTERARIA 



Do Visconde de Santarém para o Ministro dos Negócios 
Estrangeiros 

Paris, 26 de Septembro de 1844. 

///.""' e Ex"'° Snr. 

Tenho a honra de enviar a V. Ex." um exemplar do novo 
vokime da minha obra sobre as nossas Relações Politicas e 
Diplomáticas que acaba de sahir impressa. 

Contem este tomo mil trezentos e quatro documentos e no- 
ções dos quaes mil e vinte e seis são inéditos, e encerra grande 
numero de factos da maior importância e inteiramente desco- 
nhecidos, e a introdução encerra a historia politica das relações 
que houverão entre Portugal e França durante a maior parte do 
longo reinado de Luiz XIV e por conseguinte d'nm dos períodos 
mais curiosos e importantes da Historia Politica Moderna. E não 
é menos importante para a nossa historia interna de uma época 
da qual não existe chrouica alguma. 

Pelo primeiro navio partirão exemplares desti;iados para o 

Ministro o que terei a honra de participar a V. Ex.a logo que 

forem expedidas. 

Renovo, etc. 

Visconde de Santarém 

Do Visconde de Santarém para o Conde da Ponte 

Paris 29 de Setembro de 1844. 

(Com outra lettra) R. em 12 de Nov.'''^° 

Meu q/° Conde 

Muito contra o meu costume não lhe tenho escripto nem res- 
pondido á sua estimável cartinha de 31 de junho, por que uâo 
tenho tido um instante de meu. Talvez uão acredite isto, mas 
quando lá chegar o 5.° volume da minha obra que já está feliz- 



VISCONDE DE SANTARÉM 463 

mente na Legação p.^ partir, então verá a prova do que lhe digo. 
Para lhe dar uma idea anticipada bastará que lhe diga que tem 
850 paginas, 400 das quaes são de Introducção ou antes da His- 
toria politica feita toda sobre as correspondências dos Embaixa- 
dores, tudo documentos inéditos, e desconhecidos, e da maior 
valia, e importância. 

Neste volume encontrará muita cousa curiosa e tanto mais 
importante quanto desta época não temos nem sequer uma magra 
Chronica. 

Como se interessa pela minha saúde dir-lhe-hei que apesar do 
grande trabalho que tenho, não tem ella peorado, mas também 
a maldita tosseira não me deixa senão algumas semanas de repou- 
so, mas volta á carga nas mudanças de estação. De maneira que 
se tem tornado chronica, e parece-me que já agora não me dei- 
xará senão quando eu fizer a careta, como dizia o Tio Pombal. 

Emquanto se imprime outro volume do meu trabalho diplo- 
mático, vou pôr a ultima mão nas minhas — Noiwelles Recherches 
siir les décoiwertes geographiques, e será esta a ultima obra de 
erudição grave que farei talvez na minha vida. Este género de 
producções dão um trabalho Ímprobo, e são o fructo d'incriveis 
estudos e de meditações. Contava reservar esta publicação para 
daqui a mais alguns annos, mas não só alguns destes sábios, mas 
muito principalmente os d'Allemanha não cessão de me pedir 
que publique este trabalho quanto antes. O excelleute Ministro 
dos Negócios Estrangeiros, que não deixa um só instante de me 
dar provas do mais vivo interesse pelas minhas pubhcações, assim 
como todo o Governo, já autorisou esta publicação. Espero pois 
que em Fev.° ou M.'í° do anno que vem poderá aparecer. 

Umas das primeiras questões que alli trato, e que é inteira- 
mente nova é a seguinte — Examen critique cies causes qui pré- 
parèrent les Portugais a entreprendre dans le xv.^ siècle leurs 
grandes expéditions maritimes. 

Procedo pois a um exame destas causas remontando desde a 
expedição de Ceuta de D. João IP até á época dos Phenicios (1). 



(1) Por este trecho vê-se que o Visconde de Santarém resolvera fazer da 
sua obra, de que tantas vezes falou em cartas anteriores, como que a Intro- 



464 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



Já fiz leitura da parle que respeita ao Oriente, aos primeiros 
Orientalistas, os que se reunirão em m.a casa Domingo passado, 
e heide continuar Dom.*^ próximo, e a approvarâo plenamente. 
Quanto á parte geographica essa é já approvada nas primeiras 
noções que dei na m.-' precedente publicação deste género, (Re- 
cherches sur la prioríté de la découverte des pays situes etc.) 

Deixando agora as cousas scientificas e passando ás de famí- 
lia, agradeço-lhe muito as noticias desta natureza que me deo na 
sua carta. Reclamo a continuação das mesmas todas as vezes 
que me escrever. 

Quanto ao Dr. Bergonnier, ha muito que o não vi, entretanto 
todas as vezes que o tenho encontrado sempre me pergunta pelo 
Conde com o maior interesse. Elle mora na Rue de Provence á 
entrada da Rue de Montblanc mas não sei o n.°. 

Esquecia-me dizer-lhe que na secção da minha obra em que 
trato das Relações diplomáticas entre Portugal e Inglaterra, trato 
mais d'espaço do Sr. Marq.'^ de Sande, e das suas negociações, 
pois foi em Londres onde elle tratou as principaes e então terá 
o Conde o seu quinhão nos agradecimentos pelo trabalho que 
teve em me mandar alguns extractos, posto que me deve ainda 
a parte principal delles á tanto tempo promettida. 

Eu tenho aqui apenas simples indicações remissivas que tirei, 
quando examinei os volumes Mss. das negociações d'aquelle 
celebre Diplomata. 

Remetto a cartinha inclusa p.' seu Pay. Rogo-lhe que lha 
mande entregar, e acredite que sou deveras 

Seu Tio e Am.*^ f. e obrg.^° 

Manoel 



ducção ou primeira parte d'ura trabalho mais desenvolvido ; e vê-se também 
que a redacção d'essa primeira parte estava definitivamente feita. Cada vez 
que encontramos um novo testemunho de ter sido escrito tão importante tra- 
balho, mais se aviva a lastima pela sua perda! Veja-se o nota 3 da pag. 14 
(Carta ID e a nota 1 da pag. 6 ! (Carta xvi). 

Nota do Compilador das Cartas para o Conde da Ponte. 



VISCONDE DE SANTARÉM 465 



Do Visconde de Santarém para Rodrigo da Fonseca Maga- 
lhães 

Paris 4 de Outubro de 1844. 

111."'° e Ex."'° Snr. 

Se eu nâo estivesse seguro da amizade verdadeira com que 
V. Ex.a me honra, em grande cuidado estaria pelo conceito que 
V. Ex.^ poderia fazer do meu silencio. Dous factos justificarão 
todavia o mesmo silencio. Incommodos repetidos de saúde, e o 
Ímprobo trabalho que tenho tido. 

O novo volume da obra Diplomática que V. Ex.^ vai receber 
pelo primeiro navio que ahi chegar, dará a V. Ex.'^ uma prova 
do que allego. Além disso bastará que lhe diga, que desde os 
princípios de Fevereiro deste anno tenho hdo, copiado e extra- 
tado nos riquíssimos e preciosos Archivos deste Ministério dos 
Negócios Estrang.°^ 3.724 documentos, e escrevi uma Introduc- 
ção de 500 paginas que me deo um incrível trabalho para redu- 
zir á forma histórica 700 documentos sem alterar não só o espi- 
rito, mas nem mesmo a phrase delles. 

Tenho preparado já uma parte da Introducção histórica e 
politica do 6.*^ volume que já está na imprensa, e acabei uma 
nova série do Atlas composta de 14 Monumentos e precedida de 
um Prefacio. 

Eis aqui tem V. Ex.a os motivos do meu silencio. Oxalá que 
elles me justifiquem, e mui grande será a m.^ satisfação se V. 
Ex.a os achar justos, e me continuar a dar noticias suas as quaes 
ninguém mais do que eu sabe avaliar. 

De V. Ex.a 
Am.° obrg."'^ e mui grato Cr. 

Visconde de Santarém 



VOL. VI 30 



466 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

Do Visconde de Santarém para o Ministro dos Negócios 
Estrangeiros 

Paris 9 de Outubro de 1844. 



///.'"" e Exr° Snr. 

Agradeço infinitamente a V. Ex.a a obsequiosissima çommu- 
nicação que se dignou fazer-me do officio do Sr. Ministro da 
Fazenda, de 16 do passado, cuja leitura me veiu em parte dar a 
chave do enigma que me não tinha sido possivel adivinhar 
quando recebi da Agencia o Aviso para receber 250 £ em lugar 
de três contos de réis do semestre vencido em o ultimo de Junho 
deste anuo, cujo pagamento V. Ex.^ havia requisitado em 9 de 
Agosto. 

Tenho toda a confiança no infatigável interesse que V. Ex.*"^ 
toma neste importante negocio esperando que V. Ex.* se dignará 
obter de S. Ex.<i o Senhor Ministro da Fazenda, pois tendo já 
no prelo a continuação destas pubhcações e pagando todos os 
dias copias de documentos que mando tirar nos diversos Archi- 
vos e Bibliothecas da Europa não só para enriquecer esta obra, 
mas também para serem publicados na grande obra do Corpo 
Diplomático Portuguez se d'aqui até o fim do anuo não se der 
esta providencia causar-me-ha transtorno. Desculpe V. Ex,» estas 
importunidades e acredite não só na viva repugnância com que 
lhe tomo um tempo que lhe é aliás preciosíssimo, mas também 
na fiel amizade e gratidão com que me prezo de ser. 

Visconde de Santarém 

Do Visconde de Santarém para Joaquim José da Costa 
Macedo 

• m.'^ Snr. 

Tenho a honra de remetter a V. S.a um exemplar da Parte 
2.^ do Tomo IV da minha obra sobre as relações Diplomáticas 
de Portugal com as diversas nações do Mundo, encerrando esta 
2.a Parte as transacções que houve com a França desde a mino- 



VISCONDE DE SANTARÉM 467 

ridade de Luiz XIV até quasi aos últimos annos do reinado 
d'aquelle Monarca, reinando em Portugal El-Rei D. Affonso VI 
e D. Pedro II. 

Rogo a V. S.a se sirva offerecer em meu nome á Academia 
Real das Sciencias o mesmo volume com um novo testemunho 
do vivo interesse que lhe consagro. 

D.« G.« a V. S.^. Paris 10 d'Outubro de 1844. 

Ill.™o Snr. Joaquim José da Costa Macedo, Secretario Perpe- 
tuo da Academia R. das Sciencias de Lisboa. 

Visconde de Santarém 

Do Visconde de Santarém para o Ministro dos Negócios 
Estrangeiros 



Paris 17 de Outubro de 1844. 



111.""° e Exr" Snr. 



Tenho a honra de participar a V. Ex.^ que reínetti já por via 
da Legação de S. M. nesta Corte 24 exemplares do V volume do 
Quadro Elementar das Relações Diplomáticas de Portugal, for- 
mando o dito volume a Parte II de Tomo IV. Este volume en- 
cerra além de um grande numero de noticias politicas inteira- 
mente desconhecidas até agora, a historia politica das Relações que 
houve entre Portugal e França durante a maior parte do longo 
reinado de Luiz XVÍ e por conseguinte de um dos períodos mais 
curiosos e importantes da historia politica moderna, e todas as 
transacções que se passarão com a nossa Corte e a de França 
durante os reinados dos Senhores Reis D. Affonso VI e D. Pedro 
II, tendo colligido estas noticias para ella nas correspondências 
diplomáticas originaes e mais papeis políticos dos Archivos dos 
Negócios Estrangeiros desta Corte, e apezar de ter reduzido os 
mesmos documentos a forma e methodo histórico consegui, á 
força de trabalho, conservar escrupulosamente não só o espirito, 
mas até a mesma phrase d'ellas. Guarde Deus, etc. 

Visconde de Santarém 



468 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



Do Visconde de Santarém para o Ministro dos Negócios 
Estrangeiros 

Paris, 24 de Outubro de 1844. 

///.'"'' e Ex.""" Snr. 

Devendo dar principio á publicação da segunda parte da mi- 
nha obra diplomática, isto é, á collecção integral de todos os 
Tratados celebrados entre a Coroa de Portugal e as diversas Po- 
tencias do Mundo, desde o principio da Monarchia até os nossos 
dias, publicando alternadamente esta com o Quadro Elementar 
que lhe serve de base e de illustração, por estes respeitos rogo 
a V. Ex.^ queira ter a bondade de me indicar em qual dos for- 
matos dos Specimeus que tenho a honra de incluir deverá ser 
publicada a dita collecção. 

Deus Guarde, etc. 

Visconde de Santarém 



Do Visconde de Santarém para o Ministro dos Negócios 
Estrangeiros 



Paris 25 de Outubro de 1844. 



Ill."'° e Ex.""" Snr. 



Pelo correio d'hoje tive a honra de receber a prezadíssima 
de V. Ex.-'^ de 16 do corrente. As cartas de V. Ex.^ e as expres- 
sões de extrema benevolência com que se dignou tratar-me, as 
constantes finezas que me tem feito cada vez penhórão mais a 
minha gratidão e augmentão a sympathia que lhe consagro. 

Muito estimo que o volume que remetto merecesse a illus- 
trada approvação de V. Ex.^ e esta me dá novo alento para em- 
pregar-me inteiramente no adiantamento d'esta publicação. 

Agradeço, infinitamente, as óptimas noticias que se digna 
dar-me sobre os trabalhos das Cortes, e da approvação dos actos 
do Ministério. V. Ex.^ sabe o interesse que eu tomo nisto não 
só porque considero que o maior triumpho que um Ministério 



VISCONDE DE SANTARÉM 469 

pode ter e o maior e mais relevante serviço que pode fazer á 
pátria é consolidar a Monarchia e o de debellar a facções, mas 
também porque restaurada a ordem pode regenerar a Nação e 
salval-a dos desastres por que tem passado e em meu entender 
não pode ser considerado, não digo só como Portuguez aquelle 
que deseja ver a Pátria dilacerada pelas facções, mas nem mes- 
mo como homem do século em que vivemos. 

Na conformidade das ordens de V. Ex.a, que tanto me lison- 
gearão, fui communicar logo ao senhor Visconde da Carreira as 
importantes noticias que teve a bondade de dar-me. Permitta-me 
V. Ex.** que lhe tome ainda o tempo com o negocio das publica- 
ções de que estou encarregado e que me parece opportuno não 
adiar para outro correio. 

Quem está longe como eu, tem desculpa, se algumas vezes 
concebe receios mal fundados. O que se passou ha tempos na 
commissâo diplomática das Cortes, relativamente á prestação, bas- 
taria para mos inspirar, se não tivesse a certeza da decisão in- 
variável de V. Ex.a a este respeito, e as boas disposições de 
S. M. M.es e dos Ministros sobre este objecto, se não soubesse 
pelo senhor Florido que V. Ex.» estava até decidido, no caso que 
houvesse opposição, a continuar a subvenção, tirando-a da quan- 
tia votada annualmente para as despezas eventuaes do Ministé- 
rio, e finalmente o Despacho de V. Ex.^ de 12 de Agosto ultimo, 
no qual se sérvio communicar-me que tudo ficava regulado não 
só para o pagamento do 1.° semestre deste anno, mas egual- 
mente para o 2.^, bem como o que respeitava ás 400 £ para a 
publicação do Mappamundi de Fra Mauro e dos outros monu- 
mentos geographicos, veio não só confirmar-me mais naquella 
certeza, mas igualmente augmentar o fervor que ponho nestes 
negócios, e não tardei um só instante em dar direcção e conti- 
nuação de todas estas publicações, achando-se todas em anda- 
mento, e por conseguinte na proporção da totalidade da presta- 
ção integral dos 6 contos, mas' a ignorância em que estou dos 
motivos por que se me mandou pagar por conta do 1.'' semestre 
deste anno um conto de réis, e que combino isto com as obse- 
quiosíssimas expressões da carta de V. Ex.^ quando me diz que o 
que estimava infinitamente era a brevidade da remessa do volume 



470 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

da minha obra por todos quantos motivos eu podesse facilmente 
imaginar, fico em um tal e qual receio sem duvida mal fundado 
de que houve algum encalhe neste negocio, e que V. Ex.^ esti- 
mou receber o volume para servir-se destas provas de facto e 
destruir o tal encalhe, se é que o houve. Entretanto para des- 
truir, quanto possa, um pretexto que talvez de futuro se possa 
servir alguém da commissão para propor a sua diminuição assen- 
tei em dar principio á grande publicação da Collecção de Trata- 
dos, obra que por culpável negligencia nossa, somos a única na- 
ção que não possue collecção alguma deste género. Assim, pois, 
a começar do principio do anno próximo tenciono dar alternati- 
vamente um volume do Corpo Diplomático, e outro do Quadro 
que lhe serve de base. Não desejando, porém, tomar sobre mim 
a escolha do formato tenho a honra de remetter a V. Ex.a os 
dous specimens inclusos para indicar-me qual delles devem ser 
adoptado. 

Pelo primeiro Paquete direi mais circumstanciadamente a 
V. Ex.a algumas particularidades a respeito desta obra. Já em 
Junho de 1824, no Ministério do Duque de Palmella, me foi con- 
fiada, por decreto do S.' Rei D. João VI, e que em 1841 tive a 
honra de offerecer a S. M. a Rainha que se dignou fazer-me a 
honra de acceitar a minha proposta, conforme me foi commuuicado 
em despacho de 29 de Março do mesmo anno por S. Ex.^ o Se- 
nhor Rodrigo da Fonseca Magalhães, então Ministro Secretario 
d'Estado dos Negócios Estrangeiros. 

Como em geral todos os arestos relativos ás diversas publi- 
cações de que ha mais de 20 aunos a esta parte tenho tido a 
grande honra de ser encarregado pelo Governo se guardão na 
Secretaria d'Estado pareceo-me opportuno remetter a V. Ex.^ 
officialmente dous outros Specimens com o officio junto, no caso 
que V. Ex.^ queira desde já fazer uso official desta minha com- 
municação. 

Renovo, etc. 

Visconde de Santarém 



VISCONDE DE SANTARÉM 471 

Do Visconde de Santarém para o Conde da Ponte 
Paris, 31 de Outubro de 1844 

Meu qJ'" Sobr° e Am." do C. 

Recebi com muito prazer a sua cartinha de 6 do corrente, e 
com ella mais uma prova da boa amizade que lhe devo, e com 
que corresponde á que lhe consagro que de certo não pode ser 
maior. Agradeço infinitamente o obsequio, por certo para mim 
lisongeiro, de fazer publicar o meu retrato, acompanhado de uma 
noticia escripta pela sua amizade. 

Cá por fora já se publicarão algumas biographias desta insi- 
gnificante pessoa; tanto em AUemanha, e Itália, como em França, 
onde ultimamente se publicou uma no Annuaire historique et 
Biograptiique, outra na France Littéraire, etc, e ameaçarão-me 
á tempos de publicarem mais duas, uma na Galerie des Hom- 
mes d'Étãt, e outra em uma — Biograpliie Lniverselle onde já se 
se tem publicado muitas. 

Quanto a catálogos das minhas obras, esses tem aparecido 
em toda a Europa. O novo volume da m.^ obra Diplomática já 
está no Havre, e partirá para essa Corte no dia 5 do próximo 
mez de Novembro. Entretanto á muito que já o Ministro dos 
Neg.os Estrang.os recebeo um que lhe mandei pela Embaixada 
Ingleza, e de que me accuzou a recepção nos termos mais obse- 
quiosos. 

Hoje jantei com Monsignor Capaccini, e conversámos muito 
bem como com o Núncio aqui residente que é homem muitíssimo 
• estimável. Erão também da sociedade os dois moços Príncipes 
d'Aremberg (1), muito bem educados. 



(1) António Francisco que contava nesse tempo 19 annos e casou dois an- 
nos depois com a condessa de Merode. Morreu em 1892. O outro principe era 
Carlos que contava então 14 annos, casou com a princeza Obrenoowich da Ser- 
via e morreu em 1896. 



472 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

Sua Irmã deo-me a incumbência de lhe remetter p.^ D. Ma- 
rianna, que D.*^ G.^, a carta aberta inclusa. Queira pois entregar- 
Iha com os meus cumprimentos, e saudades a seu Pai, e Mai. 

Escreva-me sempre, e acredite que ninguém o estima mais 
do que seu 

Tio e Am.° f. e m.'^ obrg.° 

Manoel 



Do Visconde de Santarém para o Ministro dos Negócios Es- 
trangeiros 

Paris, 21 de Novembro de 1844. 

Particular 

111"'° e Ex.'"" Sr. 

O grande e desvelado interesse que V. Ex.^ tem tomado pe- 
las publicações de que estou encarregado me anima a continuar 
a informal-o do conceito que a respeito delias continuão a fazer 
os Sábios e Académicos da Europa. Depois do artigo da Revue 
de Bibliographie Analytique des Ouvrages Scientifiques, que tive 
a honra de enviar a V. Ex.^ em 14 de Junho ultimo, publicou-se 
na Revista histórica de Berlim um longo artigo feito pelo celebre 
historiador o Dr Scheffer, Reitor da Universidade de Giessen so- 
bre os 3 primeiros volumes do meu Quadro Elementar, e ultima- 
mente appareceo outro no Jornal da Sociedade Real de Gottinge 
dando uma analyse mui longa da Chronica da Conquista da 
Guiné por Azurara e da minha obra sobre a prioridade dos des- 
cobrimentos dos Portuguezes e do Atlas que a acompanha. E no 
Jornal da Sociedade de Geographia de Berlim, se pubhcou outra 
analyse feita pelo geographo Ritter (1) segundo me consta pela 



(1) -Geographo allemão, auctoi* duma admirável Geographia Comparada. 
Morreu em 1859. 



VISCONDE DE SANTARÉM 473 

noticia dada por Husselman em' um dos números do Jornal da 
dita sociedade que li um destes dias no Instituto. 

Logo que o numero que contem a analyse do Professor Rit- 
ter me vier ás mãos mandarei traduzir todos estes artigos e te- 
rei a honra de os enviar a V. Ex,^ na conformidade da sua ob- 
sequiosa recommendação. 

Pelo que respeita ao Quadro Elementar devo accrescentar 
que já vários escriptores se tem aproveitado desta publicação 
para diversas obras de grande importância. Citarei em primeiro 
logar Mr. Pardessus, Vice Presidente da Academia das Inscri- 
pções e Bellas Lettras, deste Instituto de França, que por muitas 
vezes cita os documentos delle no 5.° volume da sua grande obra 
des Lois, etc. 

Citarei em 2.» lugar Smith em sua obra dedicada a Sir Ro- 
bert Peei (1), intitulada: Memoirs of the Marquis of Pombal, pu- 
blicada em Londres em 1843. 

Em 3.0 lugar Guérin na sua Histoire de la Marine de France. 

No Rio de Janeiro também estas obras tem sido acolhidas. O 
Secretario Perpetuo do Instituto Histórico escreveo-me, em data 
de 17 de Julho ultimo, entre outras noticias litterarias o seguinte: 

Recebi a 1.^ P.® do IV vol. do Quadro Elementar das Relações 
Diplomáticas de Portugal e o catalogo das Embaixadas tanto para 
o Instituto, como para o Visconde de São Leopoldo, que se acha 
na província do Rio Grande, para onde remetterei o dito volume. 
Tem-me encantado a leitura, etc. e accrescenta: S. M.^ Imperial 
lê sempre com grande gosto as obras do Visconde. Os Tomos 
que tenho recebido achão-se ainda em seo poder, e eu espero 
mandar-lhe este novo logo que elle regresse de Santa Cruz para 
solemnizar o dia 19 deste (sic) os annos do Príncipe Imperial D. 
Luiz. Havia muito que me tinha constado que alguns dos Brazi- 
leiros, que tem vindo a Pariz que o Imperador apenas sabia que 
o Instituto Histórico recebia os volumes desta obra, mandava-os 
logo buscar. Assentei pois ultimamente para que o mesmo Insti- 



(1) Grande estadista inglez. Começou no partido Tory e foi o campeão 
do livre cambio. Morreu em 1850. 



474 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

tuto nílío ficasse por muito tempo sem elles seria conveniente 
mandar mais outro exemplar das ditas obras. 

Desde que comecei estas publicações foi sempre a minha ten- 
ção ter a honra de offerecer a S. M.^ a Rainha e a El-Rei exem- 
plar dos mesmos, mandando para esse effeito encadernar dous 
delles para serem depostos aospésdoThrono, tenho, todavia, con- 
siderado que não se achando estas obras completas seria talvez 
mais conveniente cumprir com este dever logo que alguma del- 
ias se achasse concluída e muito principalmente precedendo para 
isso licença e assentimento de SS MM. 

Muito me obrigará V. Ex.'* dando-me seus Conselhos a este 
respeito. 

Visconde de Santarém 

Do Visconde de Santarém para o Ministro dos Negócios 
Estrangeiros 

Paris 30 de Novembro de 1844. 

111.'"" e Ex.""" Snr. 

Tive a honra de receber a prezadíssima carta de V. Ex.^, de 
19 do corrente, e com esta novas provas do grande favor que 
devo a V. Ex.'\ Com effeito recebi ultimamente aviso da Agen- 
cia para sacar por outra 3.''^ parte do 1.° semestre deste anno. 
Ainda não recebi o Despacho de V. Ex.^ acerca do formato em 
que devo publicar o Corpo Diplomático, agradeço todavia desde 
já a mercê de deixar este negocio á minha escolha e estimo 
infinito que a opinião d'El-Rei fosse como de ser a mais oppor- 
tuna e a que seguirei. 

A mim sempre me pareceo que o formato de 8.° era preferí- 
vel ao grande in 4.° e eis aqui as razões: 1.''^ porque contendo-se 
no Quadro Elementar as negociações que precederão os Tratados, 
as Embaixadas e em geral todas as noticias que lhes servem de 
base e de illustração é muito mais regular que se publiquem os 
documentos integraes no mesmo formato, sendo mais commodo 
mesmo para serem consultados e podendo collocarem-se a par 
de cada secção do Quadro, o que não aconteceria sendo em 4.°. 



VISCONDE DE SANTARÉM 475 

2. a porque ha muito que a maior parte destas collecções se 
publicão em 8.° como se vê na de Rousset, que apezar de ser um 
supplemento da collecção in foi. de Dumont foi publicada em 8.<* 
O mesmo acontece com as collecções de Martens, Jenkenson, 
Chalmers (1) e ultimamente com a de Mr. d'Hauterive (2) e ou- 
tras. 3.» porque a despeza de publicação em 8.° é menor do que 
a do grande formato. 

O Plano que me proponho seguir nesta publicação é o 
seguinte : 

1.° Publicar os documentos diplomáticos em sua integra com 
o maior escrúpulo e na lingua em que forão escriptos. 

Este methodo foi já seguido por diversos Publicistas taes como 
Dumont, Martens, Chalmers e outros, tendo, alem do interesse 
diplomático, uma grande utilidade philologica, e principalmente 
para a historia da formação da nossa lingua sobre a qual, alem 
de serem mui raros os monumentos dos primeiros séculos até ao 
XVI mui poucos tem visto até agora a luz publica. 

2.° Os documentos de que componho o Corpo Diplomático 
consistem nos seguintes: 1.° Tratados de Paz, 2'' d'Alliança, S.^ 
de Commercio, 4.» de Limites, 5.° d'Ajustes de Casamentos e 
Dotes, 6.° de Garantia, 7.° de Liga offensiva e defensiva ou de- 
fensiva somente, 8.° de Cessão da Território, 9.° de Escambos, 
Doações, 10.° Todas as convenções sobre objectos determinados, 
finalmente, todos os actos diplomáticos de Direito Publico Diplo- 
mático Convencional que se celebrarão entre Portugrl e as diver- 
sas Potencias do Mundo desde o principio da Monarchia até os 
nossos dias. E tendo mostrado a experiência a grande superiori- 
dade da famosa e preciosíssima collecção de-Rymer á de Dumont, 
e em geral a todas as collecções de simples actos obrigatórios. 



(1) Jorge Chalmers. — Historiador inglez que foi advogado na America e 
regressou, quando da guerra da Independência, ao seu paiz onde exerceu um 
cargo na secretaria do commercio. Morreu em 182.5. 

(2) Conde Alexandre d'Hauterive. — Diplomata e politico francez que es- 
creveu o Estado de França no anno viil, trabalho de que o encarregou Bona- 
parte. Logo tomou conta d'outros de maior importância. Membro da Academia 
d'lnscripções. 



476 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

introduzo na minha obra algumas das Instrucções dadas aos 
Embaixadores e as correspondências dos Soberanos até ao fim 
do século XVI, sobre os interesses graves dos respectivos Estados 
que prepararão ou invalidarão os mesmos Actos e servirão de 
base a transacções obrigatórias. 

A publicação do Quadro Elementar, obra única e que nenhu- 
ma nação possue outra que comprehenda a vastidão de noticias 
politicas de transacções diplomáticas, que se encontrão nesta, me 
facilita a opportunidade de ligar, por meio de notas, os documen- 
tos publicados no Corpo Diplomático as illustrações documentaes 
e históricas, bem como as negociações que se encontrão no dito 
Quadro Elementar, de maneira que Portugal virá, por este modo, 
a possuir a mais importante e curiosa obra que existe na Europa 
neste género. 

Para dar a esta obra "uma forma, não só mais systematica do 
que a das outras collecções deste género, mas também mais 
commoda para ser consultada, conto publicar os actos diplomáti- 
cos por ordem de Potencias, e pela ordem chronologica delles, e 
não como fizerão Dumont, Rymer, Rousset, Martens, etc, nos 
quaes estes se encontrão misturados e confundidos, vendo-se ali 
um Tratado com Inglaterra misturado com outro feito com os 
Turcos e França, seguindo-st outro entre a Suécia e Hespanha, 
etc. De maneira que principiarei a publicação pela mesma ordem 
do Quadro Elementar, isto é, por todas as nossas transacções 
com Hespanha, depois com a França e assim successivamente. 

Por este methodo se pode ver n'um instante, e no longo 
período histórico de muitos séculos não só a serie das transac- 
ções com cada uma 4as Potencias, mas também poderá o homem 
d'Estado e o Diplomata estudar o espirito e o systema dos Gabi- 
netes de cada uma daquellas Potencias. 

Não é menos importante este systema para os estudos histó- 
ricos e philologicos que se podem fazer nesta collecção encon- 
trando os críticos com muita facilidade em uma só classe as 
modificações e alterações successivas que se tem experimentado 
no decurso de séculos. 

Publicada que seja por este methodo a serie de documentos 
integraes do nosso Direito Publico Convencional, com a Hespa- 



VISCONDE DE SANTARÉM 477 

nha, por exemplo, formão já um corpo' d'obra importantíssimo 
conjiinctamente com os volumes do Quadro Elementar corres- 
pondentes que lhe servem de base e d'illustração formando só 
por si um corpo separado e completo e ao mesmo tempo connexo 
com a totalidade da collecção, pois observo o mesmo com todas 
as potencias. 

As demarcações territoriaes, os Privilégios concedidos a 
Estrangeiros e o seu commercio, e vice-versa, formarão, no meu 
plano, outras tantas collecções distinctas separadas em volumes 
expressamente consagradas a este género de peças, tendo toda- 
via as remissões aos volumes correspondentes das transacções 
diplomáticas. O mesmo methodo conto observar, pelo que respeita 
aos documentos e arestos do Ceremonial Diplomático, dos Estilos 
e das Franquias de que gozão os Agentes Diplomáticos e das 
que são concedidas aos nossos Agentes nas Cortes Estrangeiras. 

Cada volume terá, alem disso, um Índice Chronologico remis- 
sivo dos Diplomas que contem para se poder achar immediata- 
mente o Acto que se procura. 

Este índice será coUocado no principio de cada volume. 

Para provar a superioridade deste plano sobre o que seguirão 
os outros Publicistas que me precederão bastará comparaFo com 
as noticias que dou acerca das differentes obras deste género de 
pag. XXXV a li da Introducção de 1.° volume do Quadro Ele- 
mentar. 

Portugal, única Nação da Europa que não possue até agora 
uma collecção de seus Tratados e Transacções Diplomáticas, terá 
a gloria de publicar o mais vasto e mais methodico e curioso corpo 
deste género. A este respeito remetto-me pois aos lugares citados 
na dita Introducção do 1.° Tomo do Quadro. 

Deu§ Guarde a V. Ex.». etc. 
Visconde de Santarém 



478 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



Do Visconde de Santarém para o Ministro dos Negocias 
Estrangeiros 

Paris. 20 de Dezembro de 1844 

III""' e ExJ"^ Snr. 

Tenho a honra de accusar a recepção do Despacho que 
V. Ex a se sérvio dirigir-me sob o n° 11 pelo qual se digna dei- 
xar á minha escolha o formato em que se deverá imprimir a 
obra do Corpo Diplomático Português a cuja publicação vou dar 
principio. 

Queira V. Ex.^ aceitar os meus sinceros agradecimentos pelas 
expressões com que por esta occasião se dignou de novo hou- 
rar-me. 

Deus Guarde, ete. 

Visconde de Santarém 



Do Visconde de Santarém para o Ministro dos Negócios 
Extrangeiros 

Paris, 20 de Dezembro de 1844 

111,"'° e Ex.""' Snr. 

Tenho a honra de accusar a recepção do Despacho de V. Ex.^ 
n.^ 12 pelo qual se sérvio participar-me que se havião expedido 
ordens á Agencia Financial em Londres para pôr á minha dispo- 
sição a quantia de £^ 250 equivalentes a 1:6718429 Rs. por conta 
da commissão de que me acho encarregado. 

Agradecendo a V. Ex.^, como devo, esta participação resta-me 
participar a V. Ex.a que acabo de receber a mencionada quantia. 

Guarde Deus, etc 

Visconde de Santarém. 



VISCONDE DE SANTARÉM 479 



Do Visconde de Santarém para o Ministro dos Negócios 
Extrangeiros 

Paris, 20 de Dezembro de 1844 

///.'"'' e Ex.'"" Sr. 

Apresso-me em ter a honra de enviar a V. Ex.^ um artigo 
analytico dos dous últimos volumes do Quadro Elementar que se 
acaba de publicar na Revue de Bibliographie Analyiique des 
ouvrages scientifiques et de hauie littératare, do mez de Novem- 
bro passado. 

No mesmo artigo inserirão os Redactores a parte substancial 
de outro publicado pelo Dr. Scheffer, Reitor da Universidade de 
Giessen, na Revista Scientifica de Berlim. 

Parece-me que seria conveniente conforme com a decisão já 
por V. Ex.^ tomada que este artigo fosse publicado no Diário 
do Governo. 

Aproveito, etc. 

Visconde de Santarém 



Do Visconde de Santarém para Rodrigo da Fonseca Maga- 
. Ihães 

Paris, 24 d'8br.° de 1844 

III.""' e Ex.'"" Sr. 

Meu Caro Am." e Sr. do C. 

Estou de tal modo incommodado e cortado de trabalho que 
apenas por este correio posso escrever a V. Ex.» estas duas regras 
p.^ lhe dizer que, por motivos que não escaparão á penetração 
de V. Ex.^, e que circumstanciadamente referirei, mui provavel- 
mente pelo próximo Paquete, me decedi a tratar de publicar 
quanto antes a nossa grande obra, publicando os volumes d'ella 



480 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

alternadamente com o Quadro que lhe serve de face e d'illustra- 
ção. Para esse effeito remetto os dous Specimens inclusos para 
a escolha do formato os quaes remetto hoje a S. Ex.^ o S/ Minis- 
tro dos Negócios Estrangeiros que tem tomado por estas publi- 
cações o maior e mais vivo interesse. 

Renovo as expressões de fiel amizade, e reconhecimento com 
que me prezo ser 

De V. Ex.a 
Am.° f. m.'o obrg.*^° creado 

Visconde de Santarém 



Do Visconde de Santarém para o Conde da Ponte 

Paris, 28 de Nov." de 1844. 

(Com outra lettra) R. em 31 de Dez.'"'^ 

Meu q.'^° Sob." e Am." do C. 

Recebi com grandíssimo prazer a sua estimável carta de 12 
do corrente, e a preciosa serie de copias das cartas officiaes do 
S."^ Marquez de Saúde escriptas da sua Embaixada dlnglaterra, 
as quaes serão publicadas na Secção xix da m.^ obra onde agra- 
decerei publicamente o seu obsequioso zelo, e o favor que me 
fez em mandar-me estes importantes documentos na sua inte- 
gra. 

Quanto ao folheto em que me falia que se publicará ahi em 
refutação da Memoria do S "■ Patriarcha sobre a Lingua Portu- 
gueza, tenho apenas noticia da sua existência pelo annuncio que 
os jornaes desse paiz delle fizerão. Desejava, pois, vê-lo. Sinto, 
todavia, que a refutação não fosse feita com aquella urbanidade 
com que uma tal personagem devia ser tratada, mas também 
por que prova que o adversário não tinha sido educado no meio 
do mundo litterario dos nossos dias. 

Apezar da erudição que S. Em.*^'^ desenvolvêo no seu escri- 



VISCONDE DE SANTARÉM 481 

pto, que eu li com m.'^ attenção, não me convenceo, talvez por 
que sou um herege nesta matéria de alambicadas ethymologias. 
Mas quando leio a historia das lingoas, e os trabalhos d'Adlung 
no seu Mithidrates, de Guilherme de Humboldt, (1) de Hervas y 
Panduro, (2) e sobre tudo o de Renouard sobre as lingoas neo-la- 
tinas (abstração feita da opinião de Duarte Nunes de Leão) não 
me parece poder sustentar-se que a lingoa Portugueza desde 
certa época deixe de ser senão filha bastarda da Latina, pelo 
menos muito sua parenta. 

Como quer que seja, precisar bem as origens de uma lingoa 
é um dos maiores problemas históricos. Quando a philologia 
extrema as palavras estrangeiras qne existem em cada uma das 
lingoas modernas, não fica quasi nada que se possa considerar 
como lingoa nacional. 

Ainda á poucos mezes apareceo um trabalho curiosíssimo de 
um philologo inglôz a respeito da sua hngoa, no qual provou 
que na lingoa actual só havião 77 palavras inglezas ! E sabe D.« 
se o são ! 

Conte na obra de Fr. João de Sousa (3) quantas palavras 
temos da lingoa Árabe, examine-se quantas outras d'origens 
Grega, Caldaica, Syriaca, Franceza, Germânica, e mui natural- 
mente Sanskrita, quantas hmosinas, e catalans que se confundem 
com outras de origem latina, e diga-me onde vai parar a lingoa 
Portugueza, e a que povo pertencem as que restarem, e se rigo- 
rosa e philologicamente essas se poderão chamar Portuguezas? 



(1) Barão Carlos Guilherme Humboldt, philosopho, erudito estadista alle- 
mão. Assistiu aos inicies da revolução franceza em Paris e foi amigo intimo 
de Goethe e Schiler. Embaixador da Prússia em varias cortes. Liberal. Dedi- 
cou-se ao estudo de muitos idiomas no intuito de escrever uma obra sobre a 
Philosophia da Linguagem. 

(2) Lourenço Hervas y Panduro, sábio jesuita hespanhol theologo e lin- 
guista que foi missionário na America e prefeito da Bibliotheca do Quirinal. 
Sabia quasi todos os idiomas. Morreu em 1809. 

(3) Fr. João de Sousa, celebre arabista que nasceu na Syria, de pães india-» 
nos portugueses. Estava em Lisboa em 1750 protegido pelo morgado d'01iveira 
e tendo o apelido de família. Secretario de Gaspar Saldanha. Recolheu ao 
claustro mas ainda foi como secretario n'uma embaixada a Marrocos. 

VOL. VI 31 



482 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

E' mui natural que o que digo seja um desatino, mas como 
eu entendo, e nisto tenho por garante e boa critica, que a histo- 
ria das palavras é que é importante saber-se estudando-se pela 
historia das nações, e dos povos desde a antiguidade, para se 
poder decidir alguma cousa em semelhantes assumptos, e não as 
meras e arbitrarias ethymologias. Entendo, pois, e torno a repe- 
tir que para se fazer o histórico das palavras é necessário fazer-se 
um estudo profundíssimo da historia das nações com que se tem 
tido relações, e communicações litterarias. e commerciaes, e prin- 
cipalmente d'aquellas que a conquistarão, ou que no território 
delia fundarão colónias. Este estudo mostrará que as lingoas se 
enriquecem constantemente com palavras estrangeiras, e que no 
decurso dos séculos a verdadeira lingoa nacional primitiva, que 
se compunha de poucos vocábulos desaparece inteiramente e 
passa por transformações successivas como acontece com as 
sciencias, e com as artes, que se importão das Nações mais civi- 
lisadas com nomenclaturas novas e igualmente estrangeiras. 

A' vista, pois, destas difficuldades de bem esclarecer esta 
importante matéria, teimo em ficar na minha ignorância, jul- 
gando, todavia, que os philologos puros são m.'» aptos para nos 
darem bons textos, bem correctos e fazerem Diccionarios taes 
quaes, mas quem se occupa toda a vida de palavras não lhe 
resta tempo para se occupar das cousas, e dos factos, e ainda 
menos das sciencias que dependem da erudição, não podendo 
assim elevar-se áquellas considerações que tanto interessão a 
historia dos homens, e a philosophia. 

Muito podia dizer-lhe neste assumpto, mas ponho aqui termo 
. a este arranzel para lhe dizer que sou e serei sempre 

Seu Tio e Ara.° obrg."'^ 
Manoel 



P. S. 

Queira ter a boud.® de mandar entregar a inclusa a sua Tia. 



VISCONDE DE SANTARÉM 483 



Do Visconde de Santarém para mr. Vivien de St. Martin, 
secretario geral da Sociedade de Géographia 

Paris 23 Abril 1845. 

Monsieur et cher collegue 

Lorsque vous m'avez fait Thonneur de m'écrire votre lettre 
sur le voyage de Valdez fait en Amérique je n'avais pars en 
mon pouvoir le n.» de la Minerve Brésilienne du móis de fé- 
vrier de Tannée derniere, ou se trouve aunoncé Touvrage. Cest 
seulement anjourd'hui qu'on me Ta restitué. Voici Tintitulé de 
ce voyage. «Voyage de Cusco au Grão Pará par les rivières Vil- 
camayo, Meaeyale et Amazone, premier e qui a été fait de ce 
genre. L'auteur prétend donner dans rintroduction um aperçu 
de Tétat moral politique et littéraire des habitants de Cursco 
à Fépoque de leur indépendance avec une description dèja 
connue de cette ville et de ses monuments. L'auteur se propose 
de traiter dans Fouvrage des objets suivants. 1.° Des lieux les 
plus notables qu'il a eu occasion de visiter 2.° Des sources de 
Mcayale, et de la riviere des Amazones. 3.° Des production des 
bords de ces deu fleuves, taut animales que végétales, et mi- 
nérales. 4.° Des obstacles qui embarassent leurs cours, et des 
moyens de les détruire. 5.» Des diverses tribus d'Indiens qui 
peuplent les bords de Mcayale, et du Vilcamayo leur genre de 
vie, leurs moeurs, leurs usages &. 6.» De la facilite qu'íl y avait 
à les civilizer et de l'utilité qui en résulterait pour le commerce. 
7.e De la proviuce du Pará et de la prodigieuse fécondité de sou 
sol des Tapuyes et du Haut Amazone. 8.° Des villes de Barra 
do Rio Negro et Santarém et de la cite de Belém. 

Je profite de cette occasion pour vous assurer de la considé- 
ration avec laquelle je suis &. 

Visconde de Santarém 

Paris 26 d'Avril. 

Respondi a uma carta da marqueza de Taubaté. 



484 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

Paris 27 d' Abril. 

Escrevi a Mr. Thunot remettendo-lhe os Feuillets n."^ 332 a 
360 para o Tomo v do Quadro Elementar. 

Do Visconde de Santarém para Rodrigo da Fonseca Maga- 
lhães 

Paris 19 d'Abril de 1845. 

111.'"° e Ex.'"" Snr. 

Tive o grande gosto de receber a estimadissima carta de 
V. Ex.^ de 17 do passado á qual não rospondi logo porque o 
maldito do rheumatismo que me atacou a cabeça me obrigou até 
á ultima semana a interromper por muitas vezes toda a aplica- 
ção. Felizmente estou quasi restabelecido. Não sei na verdade 
como, e de que modo, poderei corresponder ás grandes obriga- 
ções de amizade que devo a V. Ex,» e a outros amigos que todos 
os dias me dão novas e constantes provas de affeição e inte- 
resse e que por extremo me penhorão. 

Não só pelos Jornaes, mas também por uma carta de S.^ Ex.*» 
o Snr. Ministro dos Negócios Estrangeiros, me constou, que a 
verba aplicada para o nosso negocio tinha passado na Camará 
dos Deputados. Espero que terá a mesma sorte na dos Pares. 
Acceite V. Ex.^ os meus cordeaes agradecimentos pela muita 
parte que teve neste importante negocio. 

O novo volume que encerra as negociações entre Portugal e 
a França durante o Reinado d'El-Rei D. João V, está já em 
grande parte não só impresso, mas já tenho 25 folhas tiradas. 
E' em meu entender muito importante pela grande Copia de 
noticias inteiramente desconhecidas que contem. 

1.° Tomo do Corpo Diplomático espero, que ficará prom- 
pto este anno, e que ahi aparecerá antes da sessão ordinária do 
Parlamento de' 1846. 

Aqui vi varias vezes o Barão da Folgoza (1) que teve a bou- 



(1) Jerónimo d'Almeida Brandão e Sousa, l.o Barão de Folgosa, negociante, 
proprietário e coronel d'artilheria. Foi thesoureiro da alfandega das Sete Casas. 



VISCONDE DE SANTARÉM 485 



dade de procurar-me. Elle é mui devoto de V. Ex.% e muito 
estimei conhecel-o. 

Continue V. Ex.a a dar-me noticias suas, e acredite que sou 
como sempre com particular estima e amizade &. 

Visconde de Santarém 



Do Visconde de Santarém para o Archivo R. da Torre do 
Tombo a José M/^ Severo (1) 

Paris 20 d' Abril de 1845. 

///.'«'' e Ex.'"" Sr. 

Recebi pelo ultimo Paquete a carta de V. Ex.^ de 28 do pas- 
sado e com esta a Copia que pedi pela minha de 14 do mesmo 
mez. 

Agradeço infinito a promptidão desta remessa, e bem assim 
a resposta aos quesitos que lhe fiz acerca dos privilégios dos 
Genovezes. 

Grande sentimento tive com a noticia que me dá da morte 
de Joaquim Pedro Franklin. 

Retribuo as Boas Festas, e desejo-lhe todas as prosperidades. 

Acrescento aqui á Lista de documentos de que necessito co- 
pia, e que remetti a V. Ex .^ em data de 26 de Setembro do anno 
passado, os seguintes de que necessito copia para objecto do R. 
Serviço. 

NB. Já recebido do R. Archivo. 

1.0 Ev.° de 1399-1361. 

Março 6. Procuração d'El-Rei D. Pedro passada em Baleistão 
constituindo para seu procurador D. Fr. Martinho de Avelar 



(1) José Manoel Severo Aureliano Basto, escrivão dos órfãos da villa de 
Grândola, e mais tarde funcionário da Torre do Tombo, onde chegou a exer- 
cer as funcções de Guarda-Mór. Morreu em 1869. 



486 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

para tratar Tregoas ou Pazes, com El-Rei D. Pedro IV de Ara- 
gão &. 

Liv.° 1.° da Chancellaria de D. P. l.« f. 50, col. 1. 

Já recebido do R. Archivo. 

2.° 1370. 

Março 11. Procuração d'EI-Rei D. Fernando dando poder a 
Balthazar d'Espinola, e outros para tratarem confederações e 
Allianças com diversos Reis, Príncipes e Duques. 

Gov. 17 m. 3. n.« 15. 

Já recebido do R. Archivo. 

3.0 1370. 

Julho 4. Convenção feita em Barcelona entre El-Rei D. Fer- 
nando e El-Rei d' Aragão. 
Gov. 17 m. 3. n.« 15. 

B. Já tirado do R. Archivo. 

4° 1376 — Tratado de casamento da Infanta D. Brites com 
D. Fradique, filho d'El-Rei de Castella, Gav. 17, m. 9, n.« 22. 
Igualmente o docum.^° que está na m.™^ gav. m. 6, n.*' 8. 

Já tirado do R. Archivo. 

5.° 1380 — Tratado do casamento da Infanta D. Brites com o 
Infante D. Henrique, f." d'El-Rei de Castella. 



Do Visconde de Santarém para Mr. Thunot 

Remettendo a continuação do Mss. da Introducção do Tomo v 
do Quadro Elementar. 



VISCONDE DE SANTARÉM 487 

Do Visconde de Santarém para Mr. Jeanne Pichon 

Paris, 23 Avril 1845. 

Monsieur 

Mr. Pichon a parfaitement raison; le fait dont il est question 
dans le poème d'Honoré Bonnet n'est point l'émeute de 1372 
dont le tailleur de Lisbonne Vasques était le chef contre le roi 
Ferdinand, émeute du reste qui se borna à exíger du roi la pro- 
messe qu'il n'épouserait pas D. Leonor Telles, qui était d'un 
rang inférieur à lui. L'allusiou de Tauteur se rapporte à la fa- 
meuse bataille de Aljubarrota, livrée la de 14 aôut 1886, dans la 
quelle Jean L^r de Portugal défit complètement, le roi de Cas- 
tille Jean II. Dans Tarmée Portugaise il y avait un grand nom- 
bre de gentis-hommes Français, Gascons, et d'autres pays no- 
tommant des Auglais, voir le Tome m de mon ouvrage sur les 
relations diplomatiques du Portugal p. 36. Je dois ajouter que le 
roi de Castille avoit aussi dans son armée 5000 hommes de trou- 
pes françaises (Ibid.) 

Je ne vois pas du reste au xiv® siecle d'autre fait auquel on 
puisse rapporter ce que dit le poete. 

Qui nagueres prindmnt gens darmes. 

Dont matntes gens jettérent larmes. 

En effet, les paysans se levaient en masse et prisent les ar- 
mes contre les Castillans. 'A Aljubarrota on conserve encore 
parmi les trophées de cette bataille une pelle de la fameuse 
boulangère qui se mit à tête des paysans. Ceux qui suivaient 
le parti de Béatrice, femme du roi de Castille furent massacres. 
Dont maíntes gens jettérent larmes. Le poete fait probablement 
allusion a leurs familles. Au surplus 80 nobles, personnages des 
primieres familles du Royaume qui suivoient les Castillons furent 
bannís et leur bien confisque. 

Je serai charme de pouvoir toujours être agreable a Mr. Pi- 
chon et le prie de recevoir mes compliments. 



488 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



Do Visconde de Santarém para Joaquim José da Costa de 
Macedo. 

Paris 2 de Maio de 1845. 

///.'"'' Snr. 

Recebi pelo ultimo paquete a sua interessante carta de 5 do 
corrente, á qual vou responder. 

Quanto á Historia das Canárias de Berthelot ainda lhe não 
posso dizer nada, pois tendo elle vindo a minha casa os dias 
passados, não me encontrou e depois d'isso não me foi possível 
procuraFo. Pelo que respeita ao que V. S. me conta confiden- 
cialmente das queixas que fizera M. Cousin (1) de não ter recebido 
agradecimentos da Academia, eis aqui os agradecimentos que 
lhe posso dar do que me consta acerca d'este negocio. Antes 
de lhas dar direi que, quem conhece de perto o professor phi- 
losopho, como eu, não se pôde admirar do que lhe disse, por 
duas razões. A 1.'^ por que elle é o homem mais distrahido de 
França e que talvez depois do celebre Conde de Blacas (2), de 
quem Pompone conta que no dia do seu cazamento se esqueceu 
de que tinha despozado uma bella mulher e abalou para as suas 
terras deixando-a em Paris sem pensar em tal, elle seja o mais 
notável de todos os distrahidos. A 2.a porque tendo-se-lhe recor- 
dado ao momento em que lhe forão falter em negocio ministe- 
rial recorreu aquella queixa para vêr se assim obtinha uma con- 
decoração Portueza, como elles lhe dizem, e a falta de gratidão 
de que elle se queixou não foi outra cousa senão o desejo que 
elle tinha de pilhar algum placar, porque de certo não ha em 
todo o mundo quem mais deseje ter estas distincçôes do que es- 
tes senhores que quando as tem, trazem as fitas na cazaca e na 
sobrecazaca e até as mandão pintar nas copos d'agua. Eis aqui 
pois, o que deu motivo ao cazo de que V. Ex.^ trata; o Ministro 



(1) Victor Cousin, philosopho francês, antigo ministro da instrucção pu- 
blica, chefe da escola eclética, professor da Faculdade de Leítras de Paris. 
Morreu em 1867. 

(2) Conde de Blacas, gentilhomem de Luiz XVIII. 



VISCONDE DE SANTARÉM 489 

do Reino mandou pedir officialmente ao Visconde da Carreira, 
vários documentos relativos ao projecto de lei sobre a Instruc- 
çâo Publica que tanto tem dado que fazer neste paiz e entre 
estes exigia com grande instancia um relatório de M. Cousin 
que se achava citado em outro. 

O Visconde deu os passos necessários para alcançar isto pelo 
ministério da Instrucção Publica, mas o chefe da Divisão com- 
petente declarou, que apezar de todas as investigações a que se 
tinha procedido, não se tinha encontrado o relatório de Mr. Cou- 
sin o qual não se havia publicado, e que muito provavelmente elle 
levara para sua caza quando deixara o Ministério, havia 4 ân- 
uos. Mandou o Visconde, o secretario da legação tratar d'este 
negocio com Cousin o qual em seus momentos de mau humor, 
pelas saudades que tem da pasta, e enraivado por lhe não terem 
mandado a tão apetecida fita, por ter mandado os livros ao 
mesmo tempo que, parecendo-lhe a occasião opportuna para a 
alcançar por esta forma, parece que se negara a dafo, pretex- 
tando que o tinha deixado na secretaria ou que não sabia d'elle. 

O Visconde mui naturalmente, deu conta de todos os inci- 
dentes d'este negocio o que deu talvez motivo ao officio que 
V. S.* recebeu e de que me falia na sua carta. 

Como este negocio tinha sido encarregado ao nosso Viscon- 
de da Carreira, eu não tomei parte nelle, apezar delle me ter 
fallado nisto, pois abstenho-me sempre que posso de entrevir 
por qualquer modo que seja, em cousas que podem ser tratadas 
pelo Visconde directamente com os Ministros d'este paiz, apezar 
de me achar em tantas e tão seguidas relações com elles, que 
nunca me negarão cousa alguma todas as vezes que lhes tenho 
fallado mesmo em favor de indivíduos. 

Não me descuidarei de fallar a Mr. de Salvandi (1), sobre a 
continuação da collecção de documentos para a Historia de França 
e como devo muitos obséquios a este Ministro espero que este 
negocio será regulado com promptidão. 



(1) Narciso Achiles, Conde de Salvandi. Politico e escriptor. Um dos mos- 
queteiros negros de Luiz XVIII. Foi Salvandi quem fez o discurso de recepção 
•de Victor Hugo na Academia Francesa. 



490 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

Quanto ás obras publicadas pelo Ministério da Guerra, pare- 
ce-me que poderei tratar este negocio com o general Plet Dire- 
cteur du Dépót de la giierre com mais vantagem do que se tra- 
tasse por outra via, pois elle gosta que os sábios estrangeiros 
se occupem em apreciar as bellas publicações que se fazem sob 
a sua direcção. Elle por muitas vezes se tem offerecido para 
tudo quanto eu desejar daquella repartição e ha duas semanas, 
isto é na ultima vez que fui á sua grande recepção das 2.^^ fei- 
ras á noute, elle fez-me taes e tão obsequiosos offerecimentos, 
que não duvido que por elle possamos conseguir os livros e car- 
tas publicadas por aquella repartição. Nisto me confirmou o Co- 
ronel Lapie, domingo passado quando veio vêr-me. 

Quanto á obra de Schultens (1), Monumenta Vistusteora sobre 
Arábia etc, verei se lhe posso descobrir um exemplar. 

Desgraçadamente, o meu furão litterario foi barbaramente 
assassinado por uma mulher, na caza e em presença do mesmo 
commissario de Policia, onde aquelle excellente homem tinha 
levado a tal fera por lhe ter roubado livros, etc. 

Acabo de receber neste instante a carta de V. S.^ de 13 do 
passado. Sinto muito que V. S.*'^ tenha continuado a passar incom- 
modado. Agradeço infinitamente a noticia que me dá da remessa 
que foi feita á Academia, pelo Ministério da Guerra deste paiz e 
a communicação da copia da Portaria expedida pelo Sr. Ministro 
dos Negócios Extrangeiros, em 31 de Dezembro do anuo passado. 
Permitta-me, todavia, que lhe diga que, lendo esta e sabendo 
como estas cousas aqui se passão, não me parece que o Vis- 
conde tivesse tido n'isto a menor intervenção. O Marechal Soult (2) 
mandou, mui naturalmente, exemplares das duas obras a todas 
as principaes Academias. Neste n.° foi a nossa contemplada. 
Forão, pois, expedidos pelo Ministério Francez (não pela nossa 



(1) Albert Schultens, — orientalista inglez, que morreu em 1750. Abriu um 
caminho novo ao estudo das Jinguas orientaes. Seu neto seguiu-lhe as pisadas, 
e morreu em 1773. 

(2) Nicolas Soult, duque da Dalmácia, celebre marechal do império que 
decidiu a batalha de Austerlitz e fez a invasão de Portugal era 1809, ministro 
da Guerra de Luiz Fillipe. Deixou curiosas Memorias. Morreu em 1851. 



VISCONDE DE SANTARÉM 491 



Legação em Paris), mas pelo Ministério dos Negócios Extran- 
geiros aqui, a todos os chefes de legação nos paizes extrangeiros 
para onde se destinavão e foi por isso que o encarregado dos 
Negócios de França em Lisboa os remetteu ao Sr. Castro e este 
a V. S.^, por serem destinados pelo Min.o da Guerra de França 
á nossa Academia, pois se o Visconde ou eu tivéssemos tido a 
menor intervenção na direcção desta remessa, teria então sido 
feita pela Legação e não pelo encarregado de França em Lisboa. 
Renovo, etc. 

Visconde de Santarém. 



Do Visconde de Santarém para o Dr. Wapaus de Got- 
tinga 



Paris, le 4 Mai 1845. 



Monsieur 



Un rhumatisme névralgique qui depuis trois móis m'à fait 
horriblement souffrir m'à empeché à nun três grand regret de 
répondre a votre aimable et interessante lettre du 8 Janvier 
dernier, ainsi j'ai mis ce retard involontaire à cause de n'avoir 
pú recevoir encore d'Espagne et de Portugal toutes les notions 
statistiques que vous m'avies demande. 

En Portugal quoiqu'on public des Almanachs oíi on trouve des 
notions qui peuvent servir pour la Statistique néamoins on ne 
publie pas un dans le quel ou trouve des notions d'statistique et 
de géographie générales. lis se ressemblent a peu de chose prés 
aux Almanachs Français des 20$ adresses. En Espagne il n'y à 
pas non plus, au moins que je sache des Almanachs qui remplis- 
sent les conditions dont vous me parlez. On est donc réduit à 
avoir recours à un grand nombre de publications périodiques 
pour faire quelque travail en ce génere ou avoir quelque idée 
de rétat actuei de telle on telle branche. 

Parmis les récueils les plus importants dont les journaux des 
Chambres du Parlement (Diários das Camarás) on y rencontre 
toutes les notions qui concernent Tétat actuei de la population. 



492 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

(ies finances, du commerce, de Tindustrie, celui de Tinstru- 
ction publique, etc, etc. Pour Ies Finances, ces mêmes récueils 
vous fournissent Ies donnés Ies plus précieuses, ainsi que Ies 
budgets annuels, que le Ministre des Finances presente aux 
Chambres, chaque année. 

II sMmprime dans un gros volume in-fol. 

Je me fais un grand plaisir à mettre á votre disposition un 
exemplaire de ce dernier et qui apartien à Tannée 1843. Le 
Diário do Governo est aussi, comme le Moniteur Universel, une 
source ou on reucontro de temps en temps beaucoups de no- 
tions de ce genre. En France je ne counais point d'ouvrages 
specialement consacrées à la Statistique du Portugal. 

Celui de Balbi (1) est toujours Tunique de ce genre que serait 
été publié ici, mais Ies choses ou bieu changé depuis le temps 
qu'il le rédigea. Dans ses éléments de géographie générale, qui'l 
publie à Paris en 1843, il y en est question du Portugal et de 
TEspagne, mais d'une manière si élémentaire que je ne pense 
pas que vous puissiez y récuilir Ies notions developpées pour 
un bon travail. Je dois loute fais vous dire que dans ce moment 
on s'occupe avec beaucoup de zele en Portugal, d'ouvrages et 
de travaux de ce genre. Entre ceux qui entreprendent Ies socié- 
tées savantes on s'occupe beaucoup de la statistiques des Colo- 
nies. Dans Ies Anales de la Société Maritime et Coloniale de 
Lisbonne, un des membres à publié une longue statistique des 
établissements de Tlnde, travail extrêmement precieux. D'outre 
part, le Gouvernement ayant chargé un des hommes Ies plus 
compétents de rédiger la statistique des colonies, M.^ le capitaine 
de vaisseaux de Lima (2) il vient de publier le l.o volume remplie 
de détails, de documents, d'apperçus et de notions du plus haut 



(1) Adriano Balbi. — Geographo italiano que visitou Portugal, onde se 
demorou, escrevendo obras curiosas sobre o nosso paiz. Morreu em 1846. Seu 
filho Eugénio continuou-lhe a obra. 

(2) José Joaquim Lopes de Lima, Governador Civil em vários disírictos e 
deputado. Escreveu varias obras, entre as quais : o Ensaio sobre a estatística 
das possessões poriuguezas na Africa Occidental e Oriental, na Ásia e na 
Oceania, em 3 vols. 



VISCONDE DE SANTARÉM 493 

interêt. Son ouvrage surpasse en méthode et en érudition même 
aux Notices Statistiques des Colonies Françaises publieés ici par 
ordre du Ministére de la Marine. 

Je regrette infiniment de ne pouvoir pas vous donner tous 
les renseiguements dont vous aviez besoin pour votre travail, 
mais malheureusement Tétat de ma santé d'une part et d'une 
autre la publication de une grand ouvrage ne me permettent 
point de me livrer aux possibles recherches qu'il faudrait faire 
pour rédiger un bon Mémoire sur Tobjet en question et qui fut 
fait avec cette conscience scientifique qui peut inspirer de la 
confiance et faire autorité en la matière. 

Je ne terminerai pas cette lettre sans vous annoncer, que je 
viens d'avoir une bien agréable surprise en recevant une lettre 
ou n'en peut plus obligeante de M.« le Professeur Ritter, de Ber- 
lim, au sujet du rapport qu'il fit à la Société de Géographie de 
Berlim de mes Recherches et de TAtlas qui les acompagnent. 

Cet illustre savant, pour me combler de bontés, à joint á sa 
lettre un Diplome de la Société, pas le quel cette savante com- 
pagnie m'à fait Thonneur de me nomer Membre Honoraire. 

Je profite de cette occasion pour vous exprimer les senti- 
ments de toute l'affection que je vous ai voué, et avec les quels 
je suis. 

Visconde de Santarém. 



Do Visconde de Santarém para Karl Ritter 

Membre de TAcadémie R. des Sciences de Berlim et Président 
de la Société de Géographie de la même ville. 

Paris, 5 Mai 1845 

Monsieur 

Je ne trouve point de mots, qui puissent vous exprimer d'une 
maniere assez exacte, toute ma gratitude pour la lettre si obli- 
geante, que vous m'avez fait Thonneur de m'adresser le 12 Avril 
dernier par Tentremise de mr. Wheaton accompagné du Di- 



494 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

plome de membre Honoraire de la Société de Géographie de 
Berlim. 

II ny a guere de suffrage en Europe auquel je tienne tant 
qu'au vôtre. Eq effet rapprobation d'une autorité si eminente 
que la votre, de celle du maitre de la science est pour moi si 
précieuse qu'elle m'encourage à continuer mes travaux sur la 
géographie du moyen Age. 

Depuis la publication de mon Atlas, j'ai continue à faire gra- 
ver un graud nombre de monumeuts cartographiques, parmi les- 
quels se trouvent quelques uns du British Museum. La nouvelle 
série se composé déja de 24 monumeuts, et je fais graver dans 
ce moment la 1.^'^^ planche de la collectiou des mappemondes 
Árabes tirêe des Mss. pour former une livraison qui será compo- 
sée de monumeuts de la géographie systématique des orientaux. 

J'espère aussi pouvoir publier, dans le courant de cette an- 
née, un secojnd volume de Recherches, malgré le peu de temps 
que je peux distraire de la publication de mon granti ouvrage. 

Je vous prie d'agéer Thommage d'un Exemplaire de mon 
Atlas, et des Recherches, qui Taccompagnent et de faire agreér 
de même à la société de géographie de Berlim celui que je lui 
fois d'un autre exemplaire en témoignage de reconnaissance 
pour rhonneur qu'elle m'a fail m'ayant admis au nombre de ses 
membres. 

Je ne terminerai pas cette lettre sans vous assurer, que j'au- 
rai un plaisir infini d'avoir Thonneur de vous voir à Paris et de 
vous témoiguer personnellement toute Tadmiration que j'ai pour 
vous. En attendant je vous renouvelle les assurances de haute 
estime avec laquelle je suis ect. 

Visconde de Santarém 



Do Visconde de Santarém para a Condessa de Circourt 

Paris le 9 Mai 184õ 

La continuation du mauvais temps m'á rendu bien malhereux. 
Mes souffrances se sout augmenté et m'ont prive de remplir des 



VISCONDE DE SANTARÉM 495 

devoirs de tous genres, parmi lesquels celui qui m'est si cher, 
celui de vous voir. Ayez donc pitié de ce pauvre malade et con- 
servez pour lui au moins un boa souvenir. José vous prier de 
vouloir bien demander de ma part á M/ de Circourt, d'avoir 
Textréme obligeance d'envoyer la lettre ci jointe á M/ Ritter, par 
reutremise de M/ Wheaton, Ministre des Etats Unis á Berlim. 
Cest ma réponse a la lettre du savant, Académicien que vous 
in'avez fait Thonneur de me remettre. 

Visconde de Santarém 



Do Visconde de Santarém para Joaquim José da Costa 
Macedo 

Paris, 9 de iMaio de 1845. 

III.""' Snr. 

Pelo paquete que acaba de chegar, recebi duas cartas de 
V. S.^ de 20 e 27 do passado e sinto saber por ellas, que conti- 
nuava a passar incommodado. O tempo aqui tem estado constan- 
temente péssimo ha 8 mezes. As minhas dores de cabeça estão 
mais acommodadas, mas ainda não de todo desvanecidas. 

A mesma desordem ou mudança na rotina do correio,tem-me 
desorientado, e por isso receberá também V. S.a duas cartas mi- 
nhas do mesmo tempo. Quanto aos 3 volumes de La Place M."" 
de Salvandi mandou-os a diversas legações. Tanto elle como o 
Visconde da Carreira, fallarão-me n'esta remessa. Este presente 
foi expontâneo do Ministro e por isso, parece-me que convém 
que V. S." lhe agradeça directamente. Se quizer, pode man- 
dár-me a carta para elle, entregal-a-hei immediatamente. Es- 
timo que V. S.^ tenha com effeito mais um exemplar da 2.^ f .^ 
do Tomo IV do Quadro Elementar. A culpa do engano, foi mi- 
nha. Quando mandar os outros volumes hei de indicar logo o 
destino dos exemplares. 

Pelo próximo correio direi alguma cousa acerca do negocio 
do Inventario, e agradeço infinitamente o interesse que tem to- 



496 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

mado com isto. Quanto ao 6.° volume do Piloto Francez fallarei 
nisto ao Almirante Halgan que é este anno meu coUega na Vice- 
Presidencia da Sociedade Geographica 

Pelo que respeita á 2.^ livraison do meu Atlas, de cartas hy- 
drographicas e históricas, conto de remetter a V. S.a os exem- 
plares na mesma caixa em que foi o novo volume do meu Qua- 
dro Elementar. Em o n.° de Maio de La Revue de Bibliographie, 
p. 432, V. S." encontrará uma noticia dos monumentos Geogra- 
phicos, que publiquei depois, que lhe mandei o meu Atlas. 

Renovo as seguranças da fiel amizade com que me preso de 
ser etc. 

Visconde de Santarém 



Do Visconde de Santarém para José Joaquim Lopes de 
Lima (1) 

Paris 10 de Maio de 1845. 

111.""" e Ex.'^° Snr. 

Com inexplicável prazer recebi a obsequiosa carta que V. Ex.^ 
teve a bondade de escrever-me em data de 14 de Fevereiro ul- 
timo e os dois exemplares do 1.° volume da sua preciosa obra 
intitulada «Ensaios Estatisticos sobre as possessões Portuguezas no 
Ultramar. 

Não agradeci ha mais tempo, como devia e desejava, este 
valioso presente pelo ter recebido com muito atrazo e por ter 
depois soffrido muito de um teimoso incommodo de saúde. Logo 
na 1.^ sessão da Sociedade Geographica de Paris de que sou 
actualmente Vice- Presidente^ apresentei em nome de seu bene- 
mérito autor, o exemplar que V. Ex/^ destinava a uma das so- 
ciedades litterarias de França. 

Acompanhei a offerta de uma exposição verbal sobre a im- 
portância da obra e em o numero de Junho a Julho do excellente 



(1) Veja-se nota 2 na pag. 492. 



VISCONDE DE SANTARÉM 497 



jornal desta sociedade, uma das mais distinctas de França, appa- 
recerá um artigo dando conta desta interessante publicação, que 
excede em methodo e erudição a obra do mesmo género, que se 
publicou aqui por ordem do ministro da marinha. 

Bem haja o Gov.° de S. M. F. por ter escolhido uma pessoa 
tão benemérita para dotar a nossa pátria com uma obra espe- 
cial de tanta monta para a gloria nacional e não menos impor- 
tante pela attenção que deve chamar sobre as nossas colónias, 
aliaz tão dignas de se tirar delias incalculáveis proveitos. 

Aproveito esta occasião para segurar a V. Ex.» dos sentimen- 
tos de particular estima e consideração com que me prezo de 
ser etc. 

Visconde de Santarém 



Do Visconde de Santarém para Rodrigo da Fonseca Maga- 
lhães 

Paris 14 de Maio de 1845. 

III.'"'' e Ex.'"" Sr. 

Recebi com grandíssimo prazer a estimadíssima carta de 
V. Ex.» de 20 do passado, e com ella novos testemunhos da ami- 
zade com que me honra, e do interesse que por mim toma. 

Tudo quanto se passou a meu respeito na Gamara dos Pares, 
e que V. Ex.''^ teve a bondade de referir-me, causou-me um pra- 
zer tal que mui difficilmente o poderei exprimir a V. Ex.a. Es- 
pero confiadamente, que poderei pois continuar a adiantar estas 
publicações de que estou encarregado, se acaso se não demorarem 
os pagamentos, pois as despezas são muito consideráveis e conti- 
nuadas tanto com o Quadro, como com a continuação da gravura 
dos monumentos geographicos, e com a paga mensal dos indiví- 
duos que copião documentos para a grande collecção dos Tra- 
tados. 

O 6.° volume do Quadro que para ahi vou mandar em breve, 
contem a matéria de 3 volumes ordinários, e por conseguinte 
encerra mais noticias, e documentos do que o precedente. 
VOL. VI 32 



498 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

Continue V. Ex.'' sempre a dar-me noticias suas que deveras 
as preza quem tem a fortuna de ser 

111."''' e Ex.'"o Sr. Rodrigo da Fonseca Magalhães. 

De V. E.a 
Am.° f. e obrg.i"'' cr. 

Visconde de Santarém 



Do Visconde de Santarém para Carlos Ritter 

Paris 21 Mai 1845. 

Monsieur 

Ayant appris la nouvelle de votre arrivée à Paris ou mo- 
ment même ou Mr. le Comte de Circourt me mandait qu'il venait 
d'envoyer à Berlin la lettre que je vous ai écrite en réponse à 
celle dont vous m'avez honoré, et ne voulant retarder d'un seul 
moment le témoignage de toute ma gratitude, je prends la liberte 
de joindre à celle-ci, copie de la dite lettre, dans la crainte de 
ne point vous trouver, et je saisis avec empressement cette 
occasion pour vous renouveler Texpression de ma reconnais- 
sance, et Tassurance de la haute estime avec laquelle j'ai Thon- 
neur d'être &. 



Do Visconde de Santarém para Avellar, da Legação do 
Brazil 

Paris 21 de Maio de 1845. 

III.""' e Ex.""" Sr. 

Tendo uma recommendação do meu coilega o Sr. Macedo," 
Secretario Perpetuo da Academia das Sciencias de Lisboa, para 
o Sr. Drummond, Ministro de S. M. I. e constando-me que este Di- 



VISCONDE DE SANTARÉM 499 

plomata se acha em Paris, rogo a V. S.^ o obsequio de me dizer 
onde se acha alojado. &. 

Do Visconde de Santarém para Joaquim José da Costa Ma- 
cedo 

Paris 23 de Maio de 1845. 

///.'"« Snr. 

Aqui chegou finalmente o estimável Ministro do Brazil o 
Sr. Drummond, com quem estive mais de duas horas. Dei-lhe os 
recados de V. S.''^, elle não só o estima muito como amigo, mas 
também lhe faz aquella justiça que merece. 

Não me parece que terá tempo para ver o que ha de mais 
interessante nesta Capital, pois conta partir no dia 7 do mez que 
vem. Tratarei, todavia, de o conduzir a alguns dos principaes 
Estabelecimentos, e de lhe fazer conhecer os principaes persona- 
gens litterarios, se o tempo lhe sobejar das visitas Diplomáticas. 

Pelo ultimo Paquete não recebi carta de V. Ex.'"^ o que muito 
sinto. Aqui continuamos a ter um tempo horrível, e eu continuo 
também a padecer, de modo que, já não tenho paciência para 
soffrer a maldita dôr de cabeça, que ha mezes me não deixa. 

De V. Ex.a 
Am. o fiel e obrg."»® servo 

Visconde de Santarém 



Carta do Visconde de Santarém para o Duque de Palmella 

Paris 24 de Maio de 1845. 

///.""' e Ex.'"" Sr. 

Tenho a honra d'enviar a V. Ex'^ a carta induza do Presi- 
dente da Commissão da Academia R. das Inscripções e Bellas 
Lettras, encarregada de dar o seu parecer ao Governo acerca dos 



500 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

monumentos de Ninive p.a que V. Ex.a possa ir ver os desenhos 
das antiguidades de Rorsabad. 

Aproveito de novo esta occasião para segurar a V. Ex." dos 
sentimentos. 

De V. Ex.^ 
Am.o f. e obrg.n^o cr. 

Visconde de Santarém 



Do Visconde de Santarém para Joaquim José da Costa Ma- 
cedo 



Paris, 28 de Maio de 1843. 

IlL""' e Ex."'° Snr. 

Mr. Prescott, autor da importantissima Historia de Fernando 
Catholico e de Isabel, e da Conquista do México, propondo-se 
escrever a do Reinado de Philippe 2.°, necessita para esse effeito 
consultar alguns documentos do R. Archivo da Torre do Tombo 
relativo ao mesmo reinado, e havendo sollicitado a minha inter- 
venção neste negocio, assentei não só em escrever ao Official 
Maior do R. Archivo sobre este objecto, mas também de recom- 
mendar mui particularmente a V. S.a o portador desta, contando 
que V. S.a com a sua costumada bondade e zelo pelos trabalhos 
scientificos lhe facilitará, com a sua erudição e conselhos, todos 
os meios de poder desempenhar a commissão de que se acha 
encarregado por Mr. Prescott. 

Aproveito, etc. 

De V. Ex.a 

Am.° f. e obrg.™° cr. 
Visconde de Santarém 



VISCONDE DE SANTARÉM 501 



Do Visconde de Santarém para Joaquim José da Costa Ma- 
cedo 

Paris 28 de Maio de 1845. 

Illr" Sr. 

Nesta data escrevi a José Manoel Severo em favor do dele- 
gado de Mr. Prescott para lhe facilitar as investigações na Torre 
do Tombo para a Historia de Philippe 2." que o sábio historiador 
Americano se propõe escrever. 

De V. Ex.^ 
Am.o fiel e obrg.™° creado 

/ Visconde de Santarém 



Do Visconde de Santarém para o Conde de Circourt 

Paris 28 de Maio de 1845. 

Mr. Le Comte 

J'ai rhonneur de vous envoyer les lettres de récommendation 
que vous m'avez demande pour Tagent de Mr. Prescott et 
qui lui facilitent, comme je Tespère, les recherches qu'il se 
propose de faire aux Archives Royales de Lisbonne. Dans Tinté- 
rêt de la Mission j'ai un devoir le récommender au Sécrétaire 
Perpetuei de TAcadémie des Sciences qui pourra lui être d'un 
três grand secours, et par ses nombreuses relations et par ses 
connaissances spéciales. * 

J'y ai joint les quatre premiers volumes de mon ouvrage sur 
les relations diplomatiques du Portugal, ou Mr. Prescott trouvera 
rindication et Tanalyse d'un grand nombre de documents sur le 
règne de Philippe II. 

Agréez 

Visconde de Santarém 



502 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



Do Visconde de Santarém para Mr. Rensi do Instituto His- 
tórico 

Paris, le 10 Juin 1845. 

Monsieur et honorable collégue 

Je me trouverais três honnoré de prendre part à la petit fête 
qui doit reunir les membres de 1'Institut Historique sous la pré- 
sidence de Mr. Le Comte Le Peletier d'Aunay, mais une invita- 
tation antérieure et à laquelle il m'est impossible de manquer, 
ne me pérméttra pas de dispôser de la journée de demain. 

Veuillez Monsieur et honorable collégue croire á tous mes 
regrets, et agréez assurauce de mon estime três distinguée. 

Visconde de Santarém 



Do Visconde de Santarém para o Secretario perpétuo da Aca- 
demia das Sciencias de Turim (Abbade Gazzera) 

Paris le 10 Juin 1845. 

Monsieur 

Uu de mes compatriotes les plus distingues, Mr. le C.^'^ d'Avila,. 
se rend dans vos contrées, avec mission de se mettre en rapport 
avec les ingénieurs piémontais pour un projét de canalisation. 

J'ai pris la liberte de vous récommender particulièrement, 
comptant sur votre bienveillance habituelle et sur le souvenir de 
nos anciennes et amicales relations. 

Nous entendons souvent parler ici de vos savants travaux 
aeadèmiques et j'admire pour ma part votre utile et féconde 
activité. Toutefois je regrette que vos visites à Paris soient si 
rares et que nous soyons prives si longtemps du plaisir de vous 
voir. 

En attendant j'ai profité de cette occasion pour me rappeler 
a votre bon souvenir, en vous adréssant Mr. le Ch.^r d'Avila, 



VISCON.de de SANTARÉM 503 

et j'espére que vous serez assez bon pour Faccuellir avec bien- 
veillance et pour lui venir en aide dans les négociations qu'il 
entreprendre. 

Visconde de Santarém 



Do Visconde de Santarém para o Conde de La Marmora, 
em Turim (1) 

Paris, le 10 Juin 1845. 

Monsieur 

Voulez-vous bien me permettre, Monsieur, de vous récom- 
mender três particulierement, ua de mes compatriotes três 
distingue, Mr. le Conseiller d' Ávila que si rend dans vous contrées, 
avec rintention de se mettre en rapport avec des ingénieurs 
piémontais pour des objets de canalisation. J'éspêre que vous 
serez assez bon pour faccuellir avec bienveillance et pour lui 
être utile dans Thonorable mission dont il est chargé. 

Voilá bien longtemps que je n'ai en directemeut de vos nou- 
velles. II ne me suffit pas que la renommé vienne m'apprendre 
le resultat de vos savants travaux, j'ai besoin de savoir par 
vous-même comment vous portez et ce que vous faites en ce 
moment pour la science. J'ai profite de cette occasion, pour me 
rappeler a votre souvenir et pour vous assurer qu'au de lá des 
Alpes, vous avez un ami bien dévoné, que se rappele, avec un 
nif plaisir, lès trop courts instants passes dans votre aimable 
compagnie. 

Visconde de Santarém 



(1) Alberto Ferrero. Conde de La Marmora, escritor e militar italiano, que 
tomou parte nas campanhas do Império. Membro da Academia das Sciehcias 
de Turim. 



504 > CORRESPONDÊNCIA SCIENfiFICA E LITTERARIA 



Do Visconde de Santarém para Joaquim José da Costa 
Macedo 



Paris 12 de Junho de 1845. 



111."'° Snr. 



Recebi ultimamente as duas cartas de V. S.^ de 8 e 17 de 
Maio. Quanto ás perguntas que me fez no principio delias rela- 
tivamente ao Instituto, direi, em addição ao que escrevi nas mi- 
nhas cartas de 14 e 21 de Março e 18 d' Abril passado, que os 
Secretários Perpétuos recebem, alem dos 6:000 francos os jetions 
de presença , mas não recebem a pensão de sócios. Os sócios li- 
vres recebem as mesmas jettons de presença que os ordinários 
ou effectivos. 

Estes jettons variâo para mais ou para menos, segundo o 
numero dos presentes. A quantia votada para o Instituto no ul- 
timo orçamento, foi de 562:000 francos como disse na minha carta 
de 21 de Março. 

Quanto á pessoa que possa substituir M."" de Slane não vejo 
ninguém. M."" d'Avezac affecta pescar alguma cousa d'Arabe e 
de outras línguas, mas nenhum orientalista lhe deu até agora li- 
cença para traduzir. M.^^ Troyer não se occupa do Árabe. Ha 
comtudo Dubeux (1), conservador da bibliotheca, que é muito ca- 
paz; mas alem do muito que tem a fazer, é algum tanto pregui- 
çoso. Incluo a resposta que me deu o agente da Sociedade geo- 
graphica de Paris, relativamente á collecção completa dos BuUe- 
tins e quanto á cotisação de M/ Forrester (2), como sócio, é de 
36 francos. Agradeço infinitamente a V. S.a o trabalho que teve 
de correr o 1.° vol. das cartas originaes escritas pelos secretários 



(1) Louis Dubeux. Orientalista francez que nasceu em Lisboa mas que es- 
tudou em França e foi empregado da bibliotheca real de Paris. Professor de 
turco e membro de sociedade asiática. Morreu em 1863. 

(2; Barão de Forrester. Commerciante escossez muito hábil que vivia em 
Portugal onde prestou grandes serviços sobretudo com a publicação do seu 
mappa do Douro no que despendeu grandes quantias. Morreu afogado n'a- 
quelle rio em 1861 a alguns kilometros da quinta do Vesúvio. 



VISCONDE DE SANTARÉM 505 

d'Estado a D. Luiz da Cunha, e espero, com muita curiosidade, 
as copias das instrucções passadas ao Visconde da Fonte Ar- 
cada (1) e ao D. Luiz da Cunha, para a missão de Londres, bem 
como o Desp.° de Mendo de Foyos para Francisco de Souza Pa- 
checo de 29 de Fevereiro de 1696. 

Ainda não entreguei a carta a M.'' de Salvandi, porque, ha 
mais de duas semanas que está com um ataque de gota e não 
recebe ninguém. 

Recebi, como V. S.a verá pelo que digo acima, a sua carta de 
26 do passado. 

Vi 6.a f.a passada o nosso amigo Bournouff mas de longe, de 
maneira que não me foi possível fallar-lhe, por ter entrado de- 
pois do principio da sessão, e sahir antes d'ella se acabar. 

Tenha V. S.a quanto do coração lhe deseja quem se preza de 
sêr 

Am.° f. e obrig.™° servidor 

Visconde de Santarém 
Junho, 29 de 1845. 

Escrevi a M."" Thunot para vir f allar-me na 3.^ feira 2 de Julho. 



Do Visconde de Santarém para Joaquim José da Costa de 
Macedo 

Paris, 10 de Julho de 1845 

Com a mudança da partida dos paquetes não sei a quantas 
ando, e por isso e também porque tenho continuado a passar 



(1) Visconde da Fonte Arcada, Pedro Jacques de Magalhães, militar illus- 
Ire no periodo da Restauração. General da armada de Pernambuco; depois 
tornou a bater-se valentemente na guerra contra os hespanhoes na fronteira. 
Foi quem commandou a armada que conduziu a Lisboa o duque de Saboya que 
vinha como promettido da filha de D. Pedro II. 



506 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

incommodado com a maldita dor de cabeça, não me tem sido 
possivel escrever com tanta regularidade como dantes. Tive to- 
davia o gosto de receber ultimamente as suas duas cartas de 
13 e 14 de Junho passado, ás quaes passo a responder. Quanto 
ao custo do Diploma do nosso consócio Forrester e cotisação, são 
36 f. Já recommendei na Secretaria da Sociedade de Geographia, 
a remessa do Boletim. Muito estimo que o nosso amigo Durmond 
ficasse satisfeito de mim. Eu por certo fiquei, não só muito sa- 
tisfeito delle, mas até tenho saudades e senti, se não demorasse 
mais tempo nesta corte. Queira têr a bondade de lhe dar muitos 
recados da minha parte. 

Agradeço infinitamente o obsequio que V. S.» me faz em me 
confiar a sua Memoria sobre o grupo Ibn-Khaldun. Vou estu- 
dala e em breve a restituirei com o meu parecer. Quanto ao Si- 
nologo Mr. Biot acaba de me escrever a carta inclusa á qual 
ainda não respondi porque elle se acha ausente. Conto dizer-lhe 
que ignoro se existe agora algum logar vago na classe dos cor- 
respondentes extrangeiros e que escreverei ao meu sábio Con- 
sócio o Sr. Secretario Perpetuo, para dar a esta candidatura a 
direcção estabelecida pelos seus regulamentos Académicos. 

Esta resposta é a única que lhe posso dar, não podendo in- 
sinuar-lhe que a porta para a nossa Academia só lhe será aberta, 
quando fôr membro do instituto, pois é justamente para entrar 
no Instituto que elle deseja alcançar a nomeação de membro cor- 
respondente das Grandes Academias Extrangeiras e principal- 
mente da nossa com que, o Pai que tem bastante influencia na 
A.cademia, argumentaria para lhe ganhar votos. 

Agradeço muito os parabéns que me dá da minha nomeação 
d'official da ordem do Cruzeiro do Brazil. Acceito-os com gran- 
díssimo prazer, pois de todas as distinções que tenho tido, esta 
é a que mais me tem lisongeado, pelo modo com que me foi dada 
e porque, estando fora de toda a esphera politica, é uma recom- 
pensa de trabalhos litterarios com que o Imperador se dignou 
honrar-me. Estimo-a também por não haver outra em Portugal 
senão a de uma pessoa tão digna de a ter como V. S.^. Muito 
penhorado fiquei com o obsequio que V. S.a me fez, mandando 
publicar no Diário, o Artigo da Revista em que se trata da mi- 



VISCONDE DE SANTARÉM 507 

nha obra. Receba pois mil e mil agradecimentos e acredite que 
60U como sempre. 

Visconde de Santarém 

Do Visconde de Santarém para o Dr. Roulin 
Bibliothecario do Instituto 
Paris, 23 de Julho de 1845 

Recommendando-lhe o Engenheiro Brazileiro Sousa e Aguiar 
para elle o apresentar o Arago, e polo em relação com este sá- 
bio. 

Na mesma data ao d.» Aguiar remettendo-lhe a carta p.^ o 
Dr. Roulin (1), e respondendo á que elle me tinha escripto na vés- 
pera, 22 de Julho sobre o desejo que tinha de conhecer pessoal- 
mente Arago. (2) 

Em 29 de Julho de 1845 

A M.®i® Dronart, Collorista para illuminar varias cartas. 



Do Visconde de Santarém para Joaquim José da Costa de 
Macedo 

31 de Julho de 1845 

III""' Sr. 

Não escrevi pelo ultimo paquete porque a minha dôr de ca- 
beça me tem de tal modo atormentado que necessito descançar 



(1) Mr. Roulin. Naturalista francez que seguiu as lições de Cuvoier, foi á 
America do Sul onde esteve aigum tempo. Fez a topographia de Bolivia. Jor- 
nalista scientifico. Bibliothecario do Instituto e encarregado de redigir as no- 
tas das sessões da Academia. Commendador da Legião de Honra. Morreu em 
1874. 

(2) Domingos Francisco Arago, ilustre sábio francês. Politico e mathema- 
tico. Secretario da Academia de sciencias mathematicas de Paris. Morrea 
em 1853. 



508 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

de quando em quando do grandíssimo trabalho, que tenho com 
a minha obra. Espero que os banhos de vapor poderão fazer o 
milagre de me tirarem esta terrível dor de que padeço á mais de 
seis mezes. Recebi a carta de V. S.^ de 30 de Junho ultimo, ou- 
tra de Moreira com o maço da Torre do Tombo, o que muito 
agradeço e finalmente hontem a sua de 17 do corrente. As suas 
cartas para o P.® Roquette, Aillaud e Biot forão logo entregues. 

Quanto á copia das Memorias d'André Bernaldes, cura de Los 
Palácios já procurei M.*" Ternaux para lhe pedir o Mss. afim de 
mandar copiar os capítulos que V. S.a indica, mas elle tinha ido 
para a Camará dos Deputados, e de lá segundo me disserão em 
sua casa, ia fazer uma digressão ás suas terras na Bretanha. 
Logo que volte tratarei deste negocio. 

A sua Nota sobre os dois grupos da Auto-biographia de Ibn- 
Khaldun irá pelo nosso amigo Visconde da Carreira que vai 
partir para Portugal no dia 7 d'Agosto próximo. 

Sou como sempre. 

Visconde de Santarém 



Do Visconde de Santarém para Mr. Biot 

Paris, 1.0 d' Agosto de 1845 

Mr. 

Je regrette bien vivement, de ne pas m'être trouvé chez 
moi lorsque vous m'avez fait Thonneur de venir me voir 
dimanche. J'espere que vous serez assez bon pour me dédoma- 
ger une autre fois, ou je serai plus heureux. J'ai envoyé votre 
lettre a Mr. le Con.^^s ^q Macedo, mais elle s'estcroisée avec une 
de Mr. le Secrétaire Perpetuai de TAcadémie R. de Lisbonne. 

Je viens de la recevoir, et je m'empresse de vous la trans- 
mettre, en vous priant de disposer de moi toutes les fois, que 
ATOus le jugerez convenable. Agréez, etc. 

Visconde de Santarém 



VISCONDE DE SANTARÉM 509 

Pour Mr. Magnin, membre de Vlnstitut 

Paris, ce 7 Aout 1845 

Mon chez monsieur 

Avaut de voiis remerciér du beau et savant volume, que 
vous avez bien voulu m'eavoryer, je voulais en prendre connais- 
sance et pouvoir vous dire un mot. 

J'y ai trouvé un intérêt tout parti culier et je vous sais ua 
gré infini d'avoir ainsi vengé d'une manière éclatante le X.^ siè- 
cle qu'une didaigneuse ignorance persiste à regarder comme 
indigne de nos études. II est três commode de supprimer d'un 
cousp de plunie, ou d'un coup de langue ce qu'on appelle les té- 
nèbres du Moyen Age, et de parler sans cesse des siècles classi- 
ques et de Renaissance. Portons y le flambeaux d'une studiense 
attention et nous reconnaitrons bien vite, que le Moyen Age 
n'est ni moíns curíeux ní moíns fécond que les deux époques 
qui Tont précédé, et suiví. Vous savez mon cher Monsieur com- 
bien moi même j'ai trevaillé et travaill encore pour detruíre 
ce préjugé. Je me sens encore plus de courage en voyant un 
homme de votre mérite et de votre talent se ranger sous, notre 
drapeau et venir ainsí prendre la defense de ce pauvre Moyen 
Age si injustement calomnié. 

Votre Ilroswitt est un argument de plus en sa faveur. Les 
productions dramatiques de cette célebre Abbesse de Gandeihi 
respirent une noble simplicité et ne manquent pas d'interêt. 
Le charme que j'aí trouvé dans cette lecture tient aussi sans 
douta á Telígance et á la pureté de votre style, car jé vous avou- 
nerai, que mon soeil se portait de préférence sur la traduction, et 
j'admirais combien la langue française devient attrayante et 
harmonieuse sous votre plume. En un mot j'aí lu avec le plus 
víf plaisir le théatre de Horauvith et jê vous renouvelle mes 
remerciments pour avoir enrichi ma Bibliothèque d'un livre au 
quel j'attache le plus grand prix. 



510 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



Do Visconde de Santarém para Joaquim José da Costa de 
Macedo 

Paris, 12 d' Agosto de 1845. 

///.'"'' e Ex.'"" Snr. 

Restituo a sua excellente discussão sobre os dous grupos da 
Autobiographia do Ibn-Khaldun cujas concluzôes me parecem 
incontestáveis. Aproveito eçta occasião para lhe dizer que tenho 
tido uma viva discussão com d'Avezac, que não só repetio a fa- 
bula da circumnavegação d'Africa pelos Genovezes anteriormente 
á de Vasco da Gama, mas com uma má fé espantosa, em uma 
Memoria, que a este respeito lêo na Sociedade Geographica, não 
fez a menor menção das Memorias de V. S.a nem da refutação 
que eu fiz disto nas minhas Recherches, eu respondi com outra 
Memoria, mas não conto terminar esta discussão senão quando 
elle for publicar a sua a fim de que elle, como costuma fazer se 
não aproveite das minhas investigações, e para que se não possa 
retractar do que imprimir. 

Por hoje não posso ser mais extenso e acredite que sou como 
sempre 

Visconde de Santarém. 



Do Visconde de Santarém para Joaquim José da Costa de 
Macedo 

Paris, 12 d' Agosto de 1845 

///.'"^ e Ex.""" Sr. 

Remetto incluso o recibo da Sociedade Geographica da cotisa- 
ção do nosso consócio Forrester que importa em 36 f . e o Diploma 
em 6 á.°^. Os Bulletins que lhe são destinados já forão postos na 
Legação para partirem na 1.^ occasião 

Junto uma prova de uma nova Planche do meu Atlas que 



VISCONDE DE SANTARÉM 511 

inandei tirar em papel da China e que tem dois Mappamundi, 
um de Andréa Bianco (1) de 1436 e outro inédito do xv século. 

Sinto não me ter lembrado a tempo, de mandar tirar no 
mesmo papel, outra plancha que contem mais 8 e entre estes 
um tirado de um dos mais antigos Mss. de Marco Polo. 

Logo que esta nova collecção estiver prompta, remetterei os 
■exemplares, para V. S.^ e para a nossa Academia. 

Visconde de Santarém 



Do Visconde de Santarém para Joaquim José da Costa de 
Macedo 

Paris, 12 d' Agosto de 1845 

///.'"" e Ex."'" Snr. 

Mr. de Mofras nosso consócio na Sociedade Geographica de 
Paris, entregou-me hoje, no Ministério dos Negócios Estrangeiros a 
carta inclusa, tendo entregado o livro de que trata na mesma 
para a Academia, ao Snr. Visconde da Carreira. 

Este individuo, é membro do Corpo Diplomático e segundo 
parece, muito favorecido d'El-Rei. 

Berthelot esteve aqui em minha caza domingo e fallou-me na 
remessa de outro volume da sua Historia das Canárias, dizen- 
do-me que tinha tenção de o enviar a V. S.^, mas quando elle prin- 
cipiava a tratar comigo d'este negocio, entrarão, o Dr. Bonafous 
de Turim, Mr. Reinaud, e Garsin de Tapy e elle aproveitou-se 
d'esta occasião para abalar, de maneira que não sei quando 
tenciona terminar este negocio. Não sei se já communiquei a 
V. S.^ que o nosso Am.° Barão de Slane escreveu dando a noti- 



(1) Andréa Bianco, geographo italiano, nasceu em Veneza. Auctor de car- 
tas hydrographicas anteriores á descoberta do Cabo da Boa Esperrnça. 
Teem a seguinte inscripção : Andréa Biancho de Venetis me fecit. 



512 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

cia de ter descoberto vários Mss. árabes inéditos e muito pre- 
ciosos. 

Queira V. S." fazer-me o favor de mandar entregar a carta 
inclusa a meu sobrinho e acredite que sou, etc. 

Visconde de Santarém 

P. S. 

Rogo a V. S.^ o obsequio de mandar deitar no correio, a 
carta inclusa para Francisco Vau Zeller. 

Pela legação mando hoje um exemplar do Rapport da comissão 
da Academia, sobre os monumentos de Ninive o qual offereço a 

V. Sa 

Visconde de Santarém 



Paris 16 de Agosto de 1845. 



Para Mr. Wright 



Mon cher Monsieur 



N'ayant point reçu de réponse à la lettre que je vous ai écrit 
la 14 Avril deruier, je viens vous prier instament de me dire si 
je puis perdre Tespérance d'avoir la copie de la Mappemonde de 
Fra Mauro qui selon votre lettre à Mr. de Avezae, du móis de 
iMars, se trouvait prête. 

J'ai besoin d'avoir une décision à est égard, et j'éspere que 
vous voudrez bien avoir lá bonté de me mander une réponse 
définitive. 

Votre três dévoué. 

Visconde de Santarém 



(1) Thomaz Wright. Erudito inglez que trabalhou sobre a Edade Media, 
Pertenceu a muitas Sociedades Scientificas. Morreu em 1877. Dedicou-se tam- 
bém á archeologia. 



VISCONDE DE SANTARÉM 513 



Do Visconde de Santarém para José Manoel Severo 

Paris, 19 de Agosto de 1845. 

Tive o gosto de receber as suas cartas em data de 5 e 25 de 
Jullio passado e as 5 copias, que as acompanharão, as quaes 
muito agradeço. 

Logo que as que pedi, na minha carta de 20 d' Abril, estive- 
rem tiradas; rogo a V. S.* o favor de mandar copiar as seguin- 
tes e remetermas na forma do costume para objecto do Real 
Serviço. 

Tirada do R. Archivo. Recebida. 

1.0 1399. 

Março, 7. Instrumento pelo qual o Infante D. Henrique de 
Aragão certifica que nas Capitulações da Paz, que celebrarão os 
Reis de Portugal e Castella, e outros, concordarão que havendo 
guerra entre alguns delles, os que ficassem de fora guardarião 
a neutralidade. 

Gav. 15 m. 23, n.« 14. 

NB. Já recebido do Archivo. 
2.° 1423. 

Abril 30. C. d'aprovação d'El-Rei D. João 2.» de Castella da 
paz celebrada entre sua Mãe e o Infante D. Fernando seu tio. 
Gav. 18 maço 11, n." 4. 

Já recebida. 

3.° 1428. 

Fev.o 16. Contrato de Casamento entre o Snr. D. Duarte, fi- 

VOL. VI 33 



514 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

lho, herdeiro do Sr. Rei D. João 1.° e a Sr.« D. Leonor d'A- 
ragão. 

Gav. 17, m. 8, ii.« 4. 

4.0 1431. 

Out.° 20. Ratificação passada em Medina dei Campo &. 
Livro das Demac. e Pazes, f. 142. 

NB. Este foi publicado por José Soares da Silva. 

Com n.« Summario das Pazes. 

NB. Já recebido do R. Archivo. 

5.« 1432. 

Agosto, 11. Tratado de Paz de Torres Novas entre o Inf.'« 
D. Duarte e os Snrs Inf.*=' seus irmãos de uma parte e os Reis 
de Navarra, e Aragão, &. 

Gav. 18 m. 4, n.« 19. 

6." 1436. 

Setembro, 12. Tratado de Paz de Toledo entre os Reis de 
Castella, Aragão e Navarra* 
Gav. 15, m. 23, n.« 14. 

7.0 1440. 

Julho, 22. Doação' feita p.^ El-Rei D. Affonso d' Aragão á R.« 
de Portugal. 

Gav. 15 m. 9, n.o 35. 

Já recebido. 

8.° 1444. 

Já recebido. 



VISCONDE DE SANTARÉM 515 

Fev.o 15. Instrucção dada pelo Inf.« D. Pedro Reg.te do Reino. 
Corp. Chron. P. 1 m. 1. Doe.'' 16. 

9.° 1479. 

Procuração dos Reis Catholicos para o Tratado das Terciá- 
rias. 

Gav. 18 m. 8, n.« 16. 

Já recebido do R. Archivo. 

lO.o 1479. 

Setembro. Tratado d'Alcaçovas. 
Gav. 18 m. 18, n.« 16. 

Já recebido. 

11.° 1479. 

Setembro, 4. Tratado de ratificação das antigas Pazes. 
Gav. 17 m. 6, n.« 16. 

Já recebido do R. Archivo. 

Sou &. 

Paris, 19 d' Agosto de 1845. , • 

Escrevi a Mr. Ternaux Compaus pedindo-liie as Memorias 
inéditas de Bernaldez, cura de Los Palácios (1). 



(1) André Bernaldez, cura de los Palácios e historiador hespanhol que 
escreveu a Historia dos Reys Católicos e tratou das duas primeiras viagens 
de Colombo. Morreu em 1513. 



516 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

Do Visconde de Santarém para a Condessa de Circourt 

Paris, 19 de Agosto de 1845. 

Lorsque votre aimable lettre est venue me donner une joie 
inexplicable, je me trouvais á lutter avec une névralgie dont je 
n'ais pas pú me debarrasser jusqu'á présent. Malgré ce qu'elle 
me faisait souffrir j'ai lu et relu toutes les amabilités qui renfer- 
mait la bonne et admirable épitre écrite sous les inspirations des 
sites si pittoresques d'Honfleur que j'ai visite em 1821 pour la 
derniére fois et ou j'ai cherché en vaia les vestiges du quais 
que Philippe le Bel, fit construire exprés pour mes compatriotes 
qu'y venaient faire le Commeree au xiii^ siècle et des magasins 
pour ceux qu'y avaient des établissements de Commeree. 

Maintenant si je visitais de nouveau Honfleur ce serait, 
non pas pour chercher les souvenirs d'un passe ou les Romans 
de Chevalerie faisaient la lecture f avorite et f aisaient le charme de 
la vie de chateau, et les échanges matériels du commeree Toccu- 
pation des etrangers mais pour admirer sur place la discri- 
ption à la fois si poétique, sentimentale et réligieuse, que vous 
faites de ces contrés jadis si ravagées par les plus redoutables 
pirates du Nord ; en la lisant je me suis rappelé des Bardes de 
Macphelon (1) ; mais au milieu des ces souvenirs, je n'ai pas pu 
comprendre comment vous avec eu Tidée d'allez lire dans des 
sites pareiles plongée dans vos contemplations, les aventures 
d' António Perez et vous occuper de la Princesse d'Eboli (2) mal- 



(1) James Macphelon. — Litterato escossez que compondo elle próprio 
poemas os attribuiu a Ossian e fez successo. Morreu em 1796. 

(2) Princeza d'Eboli. — D. Anna de Mendoza y Lacerda, amante de Phi- 
lipe II servindo esses amores para que o poder residisse na mão de seu marido 
Ruy Gomes da Silva. Depois foi amante do secretario de estado António Perez 
que Escobedo ameaçou d'ir denunciar ao rei, mas Perez accusou-o de conspi- 
pirador e foi morto. Depois a viuva d'este vingou-se sendo Perez e a princeza 
encarcerados. 



VISCONDE DE SANTARÉM 517 

gré le grand talent du maítre qui vous á fait le récit de toutes 
ces intrigues? 

J'ai transmi á Mr. Lajard les paroles si bienveillantes que 
vous lui adréssiez par raon entremise. II y à été profondément 
sensible. 

Quant á moi vous, savez, ou peut être, vous ne savez pas 
jusqu'á quel point je suis reconnaissant á votre affection. 

Visconde de Santarém. 
Paris 20 de Agosto de 1845. 

'Escrevi 1.° a Mr. Lajard. 2° a Mr. Tiiunot, remettendo o resto 
da Introducção do Tomo v do Quadro. 



Do Visconde de Santarém para José Joaquim da Costa Ma- 
cedo 

Paris 23 d' Agosto de 1845. 

III.""' e Ex.""" Sr. 

Tive o prazer pelo ultimo Paquete de receber uma carta de 
V." S.* de 25 de Julho passado. 

Agradeço infinitamente a remessa da copia de uma parte 
das preciosas instrucções passadas a D. Luiz da Cunha quando 
foi nomeado p.* a missão de Londres, no Reinado d'El-Rei D. Pe- 
dro 2.° e fico esperando a continuação das mesmas, e dos Des- 
pachos que lhe forão mandados durante a sua residência na- 
quella Corte, 

Mr. Ternaux já me entregou o Mss. inédito das Memorias de 
Bernaldez, Cura de Los Palácios, e teve a bondade de vir do 
campo de propósito p.^ este ef feito. Já se estão copiando os Ca- 
pítulos que V. S.a me indicou. Agradeço infinitam.*^ o grandís- 
simo obsequio q. devo a V. S.^ de se occupar das minhas enfa- 
donhas questões do Inventario. Induza reraetto uma nota a este 
respeito em resposta á exposição que V. S.^ teve a bondade de 



518 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

me remetter. Não sei se nas d.** notas virão algumas heresias, 
mas tive sempre tal antipathia com questões forenses, que até 
abandonei interesses gravissimos só p.** não entrar em tal ma- 
téria. 

Incluo o Prospectas da publicação da Viagem de Lefebvre (1) á 
Abyssinia. 

Rogo a V. S."" o favor de mandar entregar a induza carta a 
José Manoel. 

Aqui esteve em minha casa o coronel Jackson, Secretario da 
Sociedade R. de Geographia de* Londres. Tivemos uma conversa 
de duas horas sobre coisas Geographicas. 

Do Visconde de Santarém para Joaquim José da Costa de 
Macedo 

Agosto 25. 

Remettendo-lhe o exemplar do T. V. do Quadro p." elle, e pre- 
venindo-o de que os outros para a Academia irão pelo próximo 
navio que vae partir do Havre. 

Do Visconde de Santarém para o Dr. Thunot 

25 d' Agosto de 1845. 

Escrevi-lhe remettendo-lhe as duas folhas de um exemplar 
do T. V do Quadro, para o fazer brochar. 

Do Visconde de Santarém para o Marquez de Saldanha 

Meu q.'^" Marquez 
Paris, 26 d'Agosto de 1845. 

Não podes de certo fazer uma ideia exacta da alegria qu» 
tive quando recebi a tua estimável carta de 14 do passado. 
Li e reli o teu excellente e erudito trabalho da Concordância 



(1) Carlos Magno Theophilo Lefeb%Te que fez o Tratado do Tigre. Era offl- 
cial da marinha franceza. 



VISCONDE DE SANTARÉM 519 

das Sciencias Naturaes e principalmente da Geologia com o Grue- 
vil. Agradeço-te infinito a lembrança que tiveste em me en- 
viares um tal presente, e não sou menos grato ao favor que me 
fazes encarregando-me de rever um manuscrito teu que enviaste 
a Aillaud. Desgraçadamente porem até agora ainda não poude 
haver á mão tal manuscripto. Elle principiou por mandar-me a 
tua carta pelo seu caixeiro Piéra. Disse logo a este que a tua 
carta devia ser acompanhada de um opúsculo impresso e alem 
disso que Mr. Aillaud devia mandar-me um Mss. teu, que tu me 
confiavas para examinar. Passarão-se dias, mandou-me elle o 
opúsculo, reclamei de novo o Mss. e como este me não fosse re- 
mettido, passei por casa delle quando fui para o Instituto, e não 
o encontrei, mandei dois dias depois, e já elle tinha partido de 
Paris, e como me queixasse muito disto pedio-me Piéra que te 
não escrevesse immediatamente sobre este negocio porque natu- 
ralmente Mr. Aillaud teria confundido o teu Mss. com outros, e 
que ia fazer a diligencia para descobril-o, e que mo trazia no 
fim da semana passada que foi o prazo que lhe dei. Como até 
agora, não sei mais nada, tomo o partido de te contar esta enfa- 
donha historia para dar conta de mim, como devia á bôa con- 
fiança que a tua modéstia tinha posto em mim. Não julgues en- 
tretanto por isto, que existe indisposição alguma d' Aillaud 
comigo, antes pelo contrario, elle é mui exacto e obsequioso 
em todas as continuadas relações que tem comigo, mas attribuo 
isto aos seus muitos afazeres, e sobre tudo a alguma distracção 
que teve com o grande desejo de partir para a sua digressão 
annual do estylo. 

Muito desejo, que queiras ter a bondade de acceitar um exem- 
plar dos 6 volumes, que já se tem publicado da minha obra 
Diplomática que encerrão 7070 documentos das nossas relações 
com a Hespanha e com a França. N'este momento estou impri- 
mindo o que encerra as relações entre Portugal e França du- 
rante o Reinado d'El-Rei D. José, e a Administração de teu 
grande Avô (1), e no mesnlo tempo estou imprimindo o 1.'^ Vo- 



(1) Saldanha -era neto do marquez de Pombal como filho do l.o conde de 
Rio Maior casado com a 3.a filha do marquez. 



520 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

lume do Corpo Diplomático, que contem as integras dos Docu- 
mentos. 

Se ainda não tens um exemplar das minhas «Recherches sur 
la priorité des découvertes des Portugais en Afrique», com muito 
gosto tos remetterei pela via, que me indicares. Do mesmo modo 
te remetterei a continuação destas obras á medida que se forem 
publicando. 

Com estes trabalhos vou passando a vida, e a elles devo 
grandissimas consolações. 

Dá-me sempre que poderes noticias tuas, e da tia Saldanha, 
a quem muito me recommendo, e ao Conde d'Almoster(l), e acre- 
dita que sou deveras 

Teu sobr.° e am.^ obg.™" 

Visconde de Santarém 

Do Visconde de Santarém para Silvestre Pinheiro (2) 

Paris 30 d'Agosto de 1845. 

Pelo Sr. Dr. Pedro Saraiva de Refoyos tive o gosto de rece- 
ber a obsequiosa carta com que V. Ex.^ me honrou, e á qual não 
respondi immediatamente pelos seguintes motivos; por incom- 
modo de saúde e porque desejava acompanhar a minha resposta 
com a remessa de um novo volume da minha obra, o que só 
agora pude executar. 

Ao seu recommendado offereci o pouco para que posso ser- 
vir nesta terra, mas este cavalheiro apenas se demorou poucos 
dias em Paris, tendo ido fazer uma digressão a Londres donde 
voltou ha pouco. Agradeço infinitamente a V. Ex.« o excellente 
presente das suas novas e importantes publicações que W com o 
maior interesse. 



(1 ) Augusto Carlos, filho de Saldanha. 

(2) Silvestre Pinheiro Ferreira, lente de philosophia racional no Colégio 
das Artes de Coimbra, sócio honorário da Academia das Sciencias de Lisboa. 
Pelo seu muito talento foi invejado e perseguido como jacobino, filiado em 
associações secretas, motivo porque se exilou em Londres. Após a revolução 
de 1820, em que tomou parte importante, foi nomeado i\Iinistro dos Negócios 
Estrangeiros. Morreu no Lumiar em Julho de 1846. 



VISCONDE DE SANTARÉM 521 

Não sou menos grato a V. Ex.^ pelo empenho que toma pela 
continuação da publicação das minhas obras diplomáticas, e do 
que passou com o Sr. Ministro dos Negócios Estrangeiros a este 
respeito. O mesmo ministro tem continuado a mostrar muito 
interesse por este negocio e eu espero que no orçamento futuro 
se regule este negocio. O novo volume, que tenho a honra de 
enviar a V. Ex.^ encerra as nossas relações com a França du- 
rante o longo reinado d'El-Rei D. João V. Espero que V. Ex.a 
ali encontrará um grande numero de noticias inteiramente novas 
e por extremo curiosas. 

Queira V. Ex.a continuar sempre a dar-me noticias suas e 
acreditar na segurança da fiel amizade &. 



Do Msconde de Santarém para Rodrigo da Fonseca Maga- 
lhães 

Paris 30 d'Agosto de 1845. 

///.'"'' e Ex.'"° Sr. 

Tenho sempre andado a luctar com uma dor de cabeça que 
não tem sido possível fazel-a ceder a remédio algum, e apezar 
d'isso tenho continuado a fazer o grandíssimo esforço de não 
faltar um só dia ao Ímprobo trabalho em que estou empenhado. 

Hoje mandei para a Legação dois exemplares do novo volu- 
me da minha obra diplomática, que contem os nossas relações 
com a França durante o reinado d'El-Rei D. João V e onde se 
encontrão as noticias e summarios de 1:277 documentos pela 
maior parte inéditos e desconhecidos. V. Ex.» receberá pois os 
ditos exemplares pelo navio que vae partir do Havre em breves 
dias. 

O l.o Volume da nossa grande obra do Corpo Diplomático já 
está na imprensa, e V. Ex.» verá o que digo na Introducção. 
Parece-me que ficará satisfeito. Em toda a Europa, como á por- 
fia se estão publicando por conta dos Governos obras históricas 
documentaes: até os Estados Unidos da America não querem 
içar no escuro! No Journal des Débats de 24 de Junho deste 



522 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

anno se lia o seguinte: «Mr. Le Major B. P. Poore ancien atta- 
ché à la Légation des Etats Unis à Bruxelles de retour à Paris, 
ou il reside, d'un voyage, qu'il vient de faire en Orient est nommé 
par le Gouverneur de TEtat de Massachussets, Agent historique 
en France. Mr. Le Major Poore en cette qualité est chargè de 
cette portion du travail concernant la France dans Tacte passe 
por la législature de cette Republique, autorisant le Gouverneur 
de prendre toutes les mesures qu'il jugera convenables pour se 
procurer les originaux, si cela est praticable, sinon les copies des 
divers documents, qui renfermeut les établissements publics de 
France et de la Grande Bretagne qui peuvent servir à complé- 
ter on à illustrer rhistoire coloniale de TEtat de Massassuchetts 
(Galignagni Messenger). 

A Dinamarca que já havia muito possuia diversas obras 
deste género, lá está publicando a sua Regesta Diplomática His- 
toria Danica de que acabo de ver o 1.° vol. contendo o Índice 
dos documentos desde o anno de 800 a 1397» 

Bem haja V. Ex.« que deu em Portugal o primeiro impulso á 
publicação de uma das mais vastas obras deste género. Não 
terminarei esta, sem agradecer cordealmente a V. Ex.»*as ex- 
pressões da sua obsequiosa carta de 29 de Junho ultimo. Acre- 
dite V. Ex.^ que sou como sempre, &. 

Visconde de Santarém. 



Do Visconde de Santarém para Joaquim José da Costa de 
Macedo 

Paris 30 d' Agosto de 1845. 

111.'^° e Ex.""" Snr^ 

Tenho a honra d'enviar a V. Ex.^ o exemplar incluso do 
Tomo v da minha obra diplomática o qual encerra as relações 
politicas que tivemos com a França durante o longo reinado de 
El-Rei D, João V, rogando a V. S.^ o obsequio de o offerecer da 



VISCONDE DE SANTARÉM 



523 



minha parte á Academia Real das Sciencias, como um testemu- 
nho de respeito que lhe consagro. 
D.^ G.« a V. S.^ m.o^ annos. 

111.™° Sn. J. J. de Macedo Secretario Perpetuo da Academia 

R. das Sciencias. , , o ^ 

Visconde de Santarém. 

Do Visconde de Santarém para Francisco Eleutherio (1) 

Paris, 30 d' Agosto de 1845 

Accusando-lhe a recepção da sua carta e remettendo-lhe o 
Tomo V do Quadro Elementar. 

Do Visconde de Santarém para João da Cunha Neves 

Paris, 30 d' Agosto de 1845 

///.'"" e Ex.""" Snr. 

Que dirá V. S.a do meu silencio depois de ter recebido duas 
óptimas cartinhas suas, de 24 de Dezembro do anno passado e 
de 21 de Janeiro do presente, sendo esta ultima de mais a mais, 
acompanhada de uma importantissima Memoria sobre pontos e 
factos da nossa historia tão obscuros como o do Convénio e pa- 
cto successorio celebrado entre o Conde D. Henrique e seu Pr.^ 
o Conde D. Reimão? (2) 

Mas a minha justificação a encontrará V. S."" no volume que 
lhe envio com esta, na qual dou noticia dos 14$217 documentos 
das transacções que tivemos com a França, durante o reinado 
d'El-Rei D. João V. 

O trabalho que tive com este volume, foi insano. 

Visconde de Santarém. 



(li Francisco Eleutherio de Faria e Mello, que escreveu um tratado de 
geographia universal physica, historia, politica. 
(2) Deve referir-se a D. Raymundo. 



524 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

Do Visconde de Santarém para o Conde da Ponte, João. 

Paris, 30 d'Agosto de 1845 

Remettendo-lhe um exemplar do Tomo v do Quadro, e outro 
para entregar ao Conde do Lavradio. 

Do Visconde de Santarém para Carlos Bento da Silva 

Paris, 30 d'Agosto de 1845 

///.""' e Ex.'"" Snr. 

Muito de propósito não o tenho querido importunar com as 
minhas cartas, para lhe não tomar o tempo que V. S.'* consagra 
a tarefas tão importantes em beneficio commum. 

Entretanto, não posso por mais tempo deixar de me queixar 
de seu longo silencio. 

Já se esqueceu de todo da Rue Blanche ? 

Para lhe lembrar as conversas dos Dom.°% ahi lhe envio um 
novo volume da minha obra, onde encontrará infinitas cousas 
curiosíssimas todas desconhecidas, e que se não encontrão nem 
nos Archivos, nem em parte alguma do nosso Portugal. 

Não tenho hoje tempo para mais. 

Visconde de Santarém 

Do Visconde de Santarém para Agostinho Albano da Sil- 
veira (1) 

Paris, 30 d' Agosto de 1845 

///.'"'' e Ex.""" Snr. 

Tenho a honra d'enviar a V. Ex.^ um novo volume da m.a 
obra diplomática que encerra as relações que tivemos com a 



(1) Agostinho Albano da Silveira Pinto, doutor em philosophia e bacharel 
€m medicina, vice-presidente do Tribunal de Contas, lente jubilado de agri- 
cultura da Academia de Marinha e Commercio do Porto, ministro da marinha 
de 1847 a 1848. Morreu em Outubro de 1852. 



VISCONDE DE SANTARÉM 525 

França, durante o longo reinado d'EI-Rei D." João V, contendo 
as noticias e summarios de 1217 documentos, quasi todos inédi- 
tos. 

Pelo nosso collega o Snr. Silvestre Pinheiro, tenho mandado 
a V. Ex.^ os precedentes volumes d'esta obra, esperando que 
S. Ex.» me terá feito o obsequio de os mandar entregar. No 
caso, porém, que algum se tenha desencaminhado, tratarei de 
remetter outro, logo que para esse effeito receba avizo de 
V. Ex.a 

Aproveito de novo esta occasião, etc. 

Visconde de Santarém 

Na mesma data de 30 d'Agosto, escrevi ao Conde de Villa 
Real, remettendo-lhe o vol. v, e ao Duque da Terceira escrevi 
também, remettendo-lhe um exemplar. 



Caria do Visconde de Santarém para Costa Cabral 

Paris, 4 de Setembro de 1845. 

111.'"° e Ex.""" Snr. 

Permitta-me V. Ex.a que tenha a honra de lhe offerecêr um 
novo volume da minha obra sobre as nossas Relações Diplomá- 
ticas com as diversas Potencias. 

Este, encerra as relações que tivemos com a França durante 
o longo reinado d'El-Rei D. João V. 

O mesmo volume é composto sobre mil duzentos e dezesete 
documentos, dos quaes mil cento e quarenta e oito, são inéditos 
e só se encontrão nos Archivos d'Estado deste paiz. Este volume 
vem já suprir a falta que tínhamos de escriptos históricos do 
reinado d'El-Rei D. João V. 

Espero e confio que o mesmo volume merecerá a benigna 
approvação de V. Ex.^. Em breve conto enviar o que se segue 
do reinado d'El-Rei D. José, para o qual tenho colhgido já, mais- 
de dois mil documentos todos inéditos. 



526 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



N'elle V. Ex.a verá os grandes combates, a máxima opposição 
que experimentou o celebre Ministro d'aquelle Monarca, para fa- 
zer adoptar as reformas que promulgou. 

O estado das finanças durante os primeiros 12 annos da admi- 
nistração do Marquez de Pombal, era deplorável, apezar da in- 
cançavel actividade daquelle Ministro e das grandes remessas de 
oiro do Brazil. Se se comparar a situação financeira do reinado 
d'El-Rei D. João V e dos primeiros annos do reinado de seu fi- 
lho com a actual, vêr-se-ha que a actual é muito melhor e mais 
prospera. 

Na Introducção do volume que tenho a honra d'enviar a 
V. Ex.^ encontrará uma relação mui curiosa dos rendimentos do 
Estado em 1716 e outra das remessas de oiro do Brazil, durante 
todo o reinado d'El-Rei D. João V. Aproveito esta occasião para 
felicitar a V. Ex.a, do coração, pelo seu restabelecimento e tam- 
bém pelo resultado das eleições que promettem que V. Ex.^ con- 
tinue na grande obra de consohdar a ordem pubhca em a nossa 
bella pátria tão digna de melhor sorte. 

Acceite V. Ex.^ etc. 

Visconde de Santarém 



Do Visconde de Santarém para o Dr. Schaefer 

Paris, 4 de Setembro de 1845 

M.'- Cher Dr. 

J'ai rhonneur de vans remettre un nouveau volume de mon 
ouvrage sur les relations diplomatiques du Portugal. Celui-ci com- 
prend les rapports qui eurent lieu entre le Portugal et la France 
sous Jean v. 

Visconde de Santarém 



VISCONDE DE SANTARÉM 527 



Do Visconde de Santarém para Joaquim José da Costa de 
Macedo 

Paris, 9 de Setembro de 1845. 

Ill""' Sr. 

Recebi pelo ultimo paquete a carta de V. S.^ de 18 d'Agosto 
passado e com ella, o resto das importantes instrucções passadas 
a D. Luiz da Cunha em 1696, quando foi mandado para a En- 
viatura de Londres. 

Agradeço infinitamente esta remessa e continuo a pedir a 
dos mais officios que respeitão áquella missão. 

Aproveito esta occasião para lembrar a continuação da re- 
messa dos Índices da parte Diplomática da Symmicta. 

Pelo navio que vai partir do Havre para essa capital, remetto, 
por via da Secretaria d'Estado dos Negócios Estrangeiros, um 
exemplar do novo volume do meu Quadro para a Academia e 
vários maços destinados para meu sobrinho Conde da Ponte, 
João da Cunha Neves e o nosso amigo Drummond, rogando a 
V. S.* o obsequio de lhos mandar entregar. 

Quanto ao negocio do nosso consócio Forrester, já respondi a 
V. S.a, remettendo-lhe o recibo da cotisação. Agradeço a remessa 
do maço de José Manoel, para quem remetto a carta inclusa ro- 
gando a V. S.a o costumado obsequio de a mandar entregar. 

Visconde de Santarém. 



Do Visconde de, Santarém para o Cónego Januário do Cunha 
Barbosa 

Secretario Perpetuo do Instituto do Brazil. 

Paris, 9 de Setembro de 1845. 

111.'^" e Ex,'"" Sr. 

Ha tempos tive o gosto de receber a estimável carta de V. S.'^, 
de 17 de Setembro do anno passado, e que deixou em minha 



528 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

casa o Sr. Manuel Joaquim de Miranda Rego, a quem procurei 
logo ; infelizmente, porém, não o encontrando e este cavalheiro 
não tendo vindo depois a esta sua casa, não me foi possível, em 
consequência disto, prestar-lhe o menor serviço neste paiz, para 
corresponder assim á recommendação de V. S,^ 

Depois desta carta recebi outra mais retardada, em data de 
19 d'Outubro do anno passado, por via de Mr. Bergasse e com 
ella, em duplicado, o n.^ 23 da Revista Trimensal, que muito 
agradeço a V. S.'^ até pelo muito interesse que offerece a leitura 
do mesmo numero. Apresentei o dito n.*' á Sociedade Ethnologica 
de Paris que me encarregou de agradecer ao Instituto Histórico, 
esta interessante remessa. 

Muito estimei saber noticias da bôa chegada a esta corte do 
nosso amigo Dr. Sigaud, pessoa estimabilissima e de quem tenho 
muitas saudades. 

Espero poder escrevêr-lhe hoje se o meu incommodo mo per- 
mittir. 

Vou agora responder á sua estimável carta de 2 de Março 
deste anno. Agradeço infinitamente a V. S.^ a bondade extrema 
que teve em entregar ao Sr. Ministro dos Negócios Extrangei- 
ros, os dois exemplares da 2.^ parte do Tomo iv do meu Quadro 
Elementar, e muito mais o distincto obsequio que devo a V. S.^ 
do que a meu respeito passou com S. M. Imperial, ao que devo, 
sem duvida, attribuir a grande honra que este Monarca me fez, 
mandando-me a sua Ordem do Cruzeiro. Não encontro expres- 
sões para manifestar a V. S.^ a minha gratidão por tudo quanto 
me diz na carta a que estou respondendo. Agradeço, egualmente, 
a V. S.^ as noticias que me dá do nosso consócio o Conde de 
Castelnau de quem tivemos uma pequena relação da sua via- 
gem, ha tempos. 

Não sou menos grato a V. S.''^ e ao Instituo, por tudo o que 
fez em favor do Dr. Demersay que egualmente recommendei, 
por ordem da Sociedade Geographica de Paris. 

Esta sabia corporação está muito penhorada das distinções 
que V. S.''^ e o Instituto Histórico não tem cessado de fazer aos 
viajantes que ella, por minha via, lhe tem recommendado. 

Quanto ao estabelecimento de uma Universidade no Brazil e 



VISCONDE DE SANTARÉM 529 



reforma dos estudos sobre o que V. S.^ me fez a honra de pedir 
a minha opinião, inclino-me inteiramente á sua opinião ; reservo- 
me, todavia, escrever sobre isto, mais de espaço em outra carta. 
Recebi ultimamente os n.Q* 24 e 25 da Revista Trimensal para 
mim e para as Sociedades Geographica e Ethnologica e para 
vários sábios, e os entreguei immediatamente. 

Li na Sociedade Geographica a interessante carta que o 
Dr. Lund dirigio a V. S.a, e no Bulletin da mesma Sociedade, do 
mez d'Abril deste anno, V. S.^ a encontrará a pag. 250 do dito 
numero. 

Aproveito mais esta occasião para repetir as expressões da 
alta estima com que me prezo ser 

De V. Ex.a 
Am.*^ f. e obrig."^° cr. 

Visconde de Santarém 



Do Visconde de Santarém para o Cónego Januário da Cunha 
Barbosa 

Paris 9 de Setembro de 1845 

111."'° e Ex."'° Snr. 

Escrevo hoje ao Sr. Manoel Ferreira Lagos, em resposta á carta 
que me fez favor de escrever, em nome do Instituto e lhe remetti 
um exemplar do Tomo v da minha obra diplomática, para que 
elle tenha a bondade de offerecer em meu nome áquella sabia 
corporação. Junto a esta um exemplar do mesmo volume para 
V. S.a e dous outros destinados a S. Mag.^^^ o Imperador, rogando 
a V. S.a o obsequio de o pôr aos pés do throuo do mesmo Au- 
gusto Senhor, com as expressões da minha gratidão e respeito, 
e o outro para a Bibliotheca Publica d' essa Corte. Rogo egual- 
mente a V. S.^ o obsequio de mandar ao Sr. Visconde de S. Leo- 
poldo, o que lhe é destinado. 

O volume qne xemetto contém noticias do maior interesse 

VOL. VI 34 



530 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



para a Historia do Brazil as quaes são todas inéditas e tiradas 
de fontes até agora ignoradas. 

Sou de V. S.^ 
Am.° f. e obrig.'"o cr. 

Visconde de Santarém 



Do Visconde de Santarém para Manoel Ferreira Lagos (í) 

Paris, 9 de Setembro de 1845. 

///.'"'' e Ex.'"" Snr. 

Tive a honra de receber ultimamente o officio que V. S.^ se 
sérvio dirigir-me da parte do Instituto Histórico e Geographico 
do Brazil, datado de 3 de Março do corrente anno. 

A Sociedade Geographica de Paris a quem fiz prezente as 
communicações que V. S.'* me dirigio, ficou por extremo penho- 
rada com os obséquios e distiucções que o Instituto se dignou 
fazer ao Dr. Alfredo Demersay que por sua ordem lhe recom- 
mendei. 

Aproveito essa occasião para enviar a V. S.^ o Tomo v do 
Quadro Elementar das Relações Politicas e Diplomáticas de Por- 
tugal, que contém as transacções politicas que tiverâo logar en- 
tre Portugal e França, durante o reinado d'El-Rei D. João V. 
Entre estas se encontrão no mesmo volume muitas noticias rela- 
tivas "ao Brazil e que interessão no máximo grão a Historia do 
Império. 

Queira V. S.^ acceitar as seguranças de consideração com que 

sou 

De V. Ex.« 
Am.'' f. e obrig."^o ^r. 

Visconde de Santarém. 



(1) Manoel Ferreira Lagos, medico brazileiro e escriptor, Oficial do Minis- 
tério das Relações Exteriores, Secretario perpetuo do Instituto Histórico e 
Geographico. Morreu em 1871. 



VISCONDE DE SANTARÉM 531 



Do Visconde de Santarém para o Cónego Januário da Canha 
Barbosa. 

Secretario do Instituto do Brazil 

Paris, 10 de Setembro de 1845. 

111."'° e Ex.""" Snr. 

Tenho a honra d'accusar a recepção da carta que V. S.a teve 
a bondade de escrever-me em 9 d'Abril ultimo, á qual me veio 
á mão com muita demora. 

Agradeço infinito os parabéns que V S.^ me dá pelo despa- 
cho com que S. M. o Imperador, se dignou honrar-me nomeando- 
me Official da sua Ordem do Cruzeiro. 

Rogo a V. S.^ o distincto obsequio de me pôr aos pés de S. M. 
e segurar ao mesmo Augusto Senhor dos sentimentos da minha 
profunda gratidão e reconhecimento e dos votos que faço pela 
prosperidade do seu reinado. 

Não encontro termos que possão bem exprimir a grande 
satisfação que tive com esta mercê feita pelo Monarcha de um 
grande Império, não ao homem publico, ao qual outros Príncipes 
honrarão, mas ao homem de lettras, como • premio de suas 
fadigas. 

Sou de V. S.^ 
Am.° f. e obrig.™'^ cr. 

Visconde de Santarém. 

Do Visconde de Santarém para Ernesto Ferreira França 

Paris 10 de Setembro de 1845. 

IIL"'° e Ex.""" Snr. 

Tive um prazer infinito com a leitura da estimável carta com 
que V. Ex.3 me honrou em 15 de Março ultimo. Ella avivou a 



532 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



saudade que teuho de V. Ex.'' e me deu novos títulos á gratidão 
que lhe devo, pelo grande obsequio que se dignou fazer-m& 
levando á presença de S. M. o Imperador, as minhas obras e 
augmentando este com uma mercê de tão alta valia, prómovenda 
a minha nomeação d'official da Ordem do Cruzeiro. 

Com esta encontrará V. Ex.^ um novo volume da minha obra 
diplomática, que comprehende as relações que tivemos com a 
França durante o longo reinado d'El-Rei D. João V e n'elle en- 
contrará V. Ex.'' muitas noticias relativas ao Brazil. 

Eu aqui vou continuando nestes Ímprobos trabalhos e ha 
mezes, sof frendo bastante de uma forte dor de cabeça que mui- 
tas vezes me não deixa mover. 

Permitta-me V. Ex.a que reclame a sua correspondência e eu 
espero sempre mostrar-lhe que sou e serei &. 

Do Visconde de Santarém para Ernesto Ferreira França 

i 

Em 10 de Setembro de 1845. 

Ill."^o e Ex."'° Sr. 

Por via do Ministro do Brazil n'esta corte, tive a honra de 
receber o officio de V. Ex." d' Abril ultimo que acompanhava o 
Diploma e Insígnias da Ordem Imperial do Cruzeiro com que 
S. M. o Imperador, foi servido honrar-me. 

Esta mercê é para mim do mais subido valor por ser feita 
pelo Monarca de um grande Império, não ao homem publico a 
quem outros Príncipes honrarão, mas ao homem de lettras. ' 

Não encontro pois, termos que possão bem exprimir a grande 

satisfação que tive com esta mercê e rogo a V. Ex.'» o distincto 

obsequio de me pôr aos Pés de S. Mag.'^^ e de segurar, ao mesmo 

Augusto Senhor, dos Sentimentos da minha profunda gratidão e 

reconhecimento. V. Ex.^ dígne-se também receber os meus cor- 

deaes agradecimentos pela parte que tomou neste despacho e 

acredite que sou &. 

Visconde de Santarém 



VISCONDE DE SANTARÉM 533 



Do Visconde de Santarém para o Visconde da Carreira 

Paris 12 de Setembro de 1845. 

111"'° e Ex.""" Sr. 

Meu q.^^o Sr. Visconde. Quando no largo espaço de 11 annos 
■se tem podido apreciar de perto as eminentes e valiosissimas 
<iualidades de V. Ex.''' não é possivel poder supportar a sua au- 
sência. Acredite V. Ex.-' nestes verdadeiros sentimentos de ami- 
zade e de gratidão pelos obséquios que lhe devo. 

Aproveito esta occasião para lhe participar que já á muito 
levei para a Legação o novo volume da minha obra destinado 
para V. Ex.^ Peço-lhe, que o venha ler quanto antes para fazer 
penitencia pela maldade de deixar Paris. 

Eu vou trabalhando 8 e 10 horas por dia, como V. Ex."" sabe, 
apezar dos gravíssimos padecimentos de tantos mezes, e de não 
ter o animo com aquella quietação necessária para tão Ímprobos 
trabalhos e cogitações. 

Não lembro a V.^ Ex. o meu graode negocio, posto que o seja 
também da gloria nacional, pois conheço á muito, por experiên- 
cia, que V. Ex.a, obrando sempre com aquella fidalguia antiga, se 
distingue sempre mais por obras do que por palavras. 

Acceite V. Ex.-' os meus sinceros parabéns pela mercê que 
S. M. lhe fez, grande, sem duvida por emanar do throno, mas 
mui pequena para os longos e importantíssimos serviços que 
V. Ex.^ tem feito á Pátria. 

Queira V. E.x'' dar-me as suas noticias e as suas ordens, e 
acreditar que sou e serei &. 

Visconde de Santarém 



534 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



Do Visconde de Santarém para a Sua Alteza a Senhora In- 
fanta D. Anna (1) 

Paris, 18 de Setembro de Í845 

Sereníssima Senhora 

Beijo as mãos de V. A. pela graça que me fez honrando-me 
com a carta, que se dignou dirigir-me em data de 13 do cor- 
rente. 

Permitta-me V. A., porem, que tenha a honra de lhe repre- 
sentar sobre o negocio que V. A. R. me recommeuda que tendo 
o Cruz a Alta Protecção de V. A. poderia por certo alcançar um 
emprego útil, certo e permanente, circunstancias que se não dão 
no de que se trata, pois, é por extremo precário, por ser de dura- 
ção incerta, e apenas uma commissão temporária com uma gra- 
tificação de 30 francos por mez, que era o que tinha o Pereira, 
e com o que decerto elle não poderá viver em Paris, e esta 
mesma gratificação pode de um momento para o outro tornar-se 
ainda mais contingente se houverem atrazos na remessa de fun- 
dos. 

Parece-me, pois, para melhor corresponder á honra que 
V. A. R. me fez, e ás benéficas intenções de V. A., para com o 
individuo de que se trata, informar previamente, e antes de tudo, 
d'estas circustancias, as quaes sendo sabidas por V. A. poderá 
a sua benigna Protecção servir-lhe para alcançar uma situação 
conforme com as generosas vistas de V. A. " 

Visconde de Santarém 



(1) Infanta D. Anna de Jesus Maria, duqueza de Loulé. Casou com este fi- 
dalgo quando era marquez do mesmo titulo. Tiveram que emigrar, colorindo 
em viagem de núpcias, o receio que tiveram ao saberem do regresso de D. Mi- 
guel em 1828. Morreu em 1857, em Roma. 



VISCONDE DE SANTARÉM 535 



Paris, 22 de Setembro de 1845 

Escrevi á Viscondessa sobre o negocio da Decima da Alçai- 
daria-Mór de Santarém que corre no Juizo da 5.» Vara, Escrivão 
Joaquim José das Neves. 

Escrevi na mesma data ao Conde da Ponte meu sob.^ p.^ 
entregar á Viscondessa. 



Do Visconde de Santarém para Joaquim José da Costa de 
Mcfcedo 

Paris, 22 de Setembro de 1845 

III.""' e Ex.""" Snr. 

Contava mandar-lhe hoje uma prova de outra plancha ou 
folha do meu Atlas com dois novos monumentos geographicos, 
mas o gravador tirou-a em papel que se não pode dobrar. Espero 
para o Paquete próximo mandar-lh'a. 

Contem um Mappamundi que se acha em um Mss do século 
XIII em que com outras obras se encontra um Itnerario Romano, 
as obras de Orosio, (1) e de Pinciano. E outro que se encontra 
na obra* raríssima de António de la Sale (2) e que é do xv.'' 
século. 

A propósito dos methodos seguidos para a conservação dos 
objectos d'Historia Natural, acabo de ler em uma obra que se 
publicou ultimamente o seguinte : 

Article vernis de TEncyclopédie des Gens du nonde. = 
Transcrevi na carta a parte que respeita a este objecto. 

P. S. Remetti-lhe com esta as 2 cartas para meu sobr.'^ e 
Viscondessa, e p.^ José Manoel. 

Visconde de Santarém 



(1) Paulo Orosio, historiador do fim do séc. TV. 

(2) António de La Sale, romancista e historiador, secretario de Luis III 
Conde de Provença. Morreu em 1462. 



536 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



Do Visconde de Santarém para José Manoel 

Paris, 22 de Setembro de 1845. 

///.'"'' Snr, 

Acuso a recepção da sua carta de 8 d'Agosto ultimo, que 
acompanhava uma das copias, que eu havia pedido. 

Permitta-me que lhe lembre a remessa das seguintes que lhe 
foram pedidas antes da que teve a bondade de remetter-me. 
Não recebi pois até agora a copia do documento de 26 de Março 
de 1328 que se acha na gav. 17 maç. 6, n.» 23, que pedi pela 
mesma Lista de 26 de Setembro do anno passado. Nem tam- 
pouco a Ratificação do Tratado d'Azveda de 2 de Novembro 
de 1329, que se acha na gav. 18, maç. õ, n.° 32, pedida na mes- 
ma Lista. « 

Rogo pois a V. S.^ o obsequio de me mandar estes dois do- 
cumentos o mais breve, que for possível afim de poder concluir 
este trabalho que está parado por falta d'elles. 

De V. S.- 
Am.° f. e m. obr.*^° 

Visconde de Santarém. 

Do Visconde de Santarém para Albano Ant/iero da Silveira 

Paris, 6 d'Outubro de 1845. 

III.""' Snr. 

Tive o gosto de receber a estimadíssima carta que V. S.^ 
teve a bondade de escrever-me em data de l.'' de Setembro 
passado, e que acompanhava vários exemplares da 1.^ P.*^ da 
sua Excellente e mui importante Memoria Chronologica acerca 
do descobrimento das Terras do Preste João. 

Se V. S.^ se der ao trabalho de ler a pequena Introducção 



VISCONDE DE SANTARÉM 537 



que fiz á minha noticia dos Mss. Portuguezes que existem na 
Bibliotheca R. de Paris, e que a Academia R. das Sciencias 
publicou em 1827 verá a importância que já naquella época eu 
dava aos trabalhos da natureza daquelles em que V. S. com 
tantas vantagens da Pátria, se acha empenhado. 

Nos 25 annos que tem decorrido desde que fiz aquelle tra- 
balho até hoje, uma larga experiência, e um estudo profundo, 
me tem persuadido cada vez mais, que um dos maiores servi- 
ços, que hoje se pôde fazer ás sciencias e á historia, é o de pu- 
blicar os documentos inéditos. Todas as nações estão hoje per- 
suadidas desta necessidade, e até e Governo repubhcano dos 
Estados Unidos, e as republicas americanas, se estão occupando 
de publicações deste género, apesar da difficil situação politica 
e financeira delias. 

Considero pois as publicações de V. S.^ de grandíssimo 
interesse. A Memoria, que teve a bondade de] enviar-me, é 
tanto mais preciosa quanto foi opportuna a publicação indo 
augmentar as provas documeutaes da prioridade da fundação 
do Castello da Min.» pelos Portuguezes, no momento em que eu 
discuto de novo alguns pontos sobre a prioridade dos nossos 
descobrimentos, como V. S." terá visto pelo Diário do Gov.° 
Não só offereci um exemplar da dita Memoria, á Sociedade Geo- 
graphica de Paris, mas assentei, que a matéria era tão relevante, 
que devia fazer um relatório sobre ella no qual traduzi algumas 
partes delia- Aos documentos preciosos que V, S.^ publicou so- 
bre a Mina juntei outras provas importantes tiradas da Sec- 
ção XVII da minha obrar Diplomática, que está ainda inédita, é 
esta a Bulia de Xisto IV (1), 11 de Setembro de J481, relativa- 
mente ás concessões que fez em favor dos que forem á Mina. 

Logo que o meu Relatório estiver impresso no Bulletim men- 
sal do Sociedade terei o gosto de o remetter a V. S.a. 

Agradeço infinito a V. S.* as obsequiosas expressões com 
que me trata em as notas 3 e 16 da dita sua Memoria. Pela 1.^ 



(1) Xisto IV. O Pontífice que mandou construir a Capella Sixtina no 
Vaticano e que foi papa desde 1471 a 1484. Santo. 



538 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



das suas citações vejo, que V. S.^ se refere á minha Memoria 
Portugueza. Acaso V. S.^ não terá nenhum exemplar da obra, 
que publiquei em Francez com o titulo « Recherches, etc.» pois no 
caso de o não ter o remetterei a V. S.'» pelo primeiro portador 
que partir para essa Corte. 

A sua Memoria é feita como devem ser feitos os trabalhos 
históricos, que é, provando os factos com documentos, e com 
authoridades contemporâneas. 

Com este methodo exigido pela razão, e pela critica deses- 
perão certos cavalheiros d'industria litteraria, que sendo inca- 
pazes d'estudar pacientemente, e ainda menos de discutirem os 
factos históricos, não curão senão de substituírem as suas próprias 
ideias, e os desvarios da sua imaginação á verdade dos factos 
históricos. 

. Mas, deixando de parte agora este assumpto sobre o qual 
muito teria a escrever, permitta-me que lhe diga que achei mui 
interessante o Itinerário do caminho que da índia por terra a 
Portugal fez Mestre Affonso Cirurgião, no tempo d'Affonso 
d' Albuquerque. (Vid C. de 12-3-46). 

Estimei também a noticia que V. S.-'^ á tempos me deo de ter 
offerecido á Academia R. das Sciencias um Liv.° dos pesos e 
medidas da índia, organizado em 1554 pelo Provedor dos Contos 
da Fazenda António Nunes. 

Em 1820 encontrei nos Mss. da Bibliotheca R. de Paris um 
Mss. precioso deste género e original feito na índia por António 
d' Abreu, contador d'El-Reinjas partes da índia, acabado em 7 de 
Novembro de 1577 cujo titulo V. S.^ verá fielmente transcripto 
a p. 54 de m.** noticia dos Mss. Portuguezes, que existem na Bi- 
bhotheca R. de Pari^, publicada pela Academia em 1827. 

Permitta-me, que lhe pondere que muito conviria, que se des- 
cobrissem e publicassem todos os documentos relativos ao nosso 
estado marítimo anterior a El-Rei D. João 1° Sei quanto é para 
recear a penúria dos mesmos documentos, mas também conheço 
por esperiencia que muitas vezes uma só indicação se torna pre- 
ciosíssima, quando se trata de tempos tão escuros. O methodo, 
que eu seguiria nas investigações deste género, seria o de lêr 
todos os documentos das mercês feitas a cada um dos nossos 



VISCONDE DE SANTARÉM 539 



Almirantes, e marítimos onde as mais das vezes se encontrão 
mencionadas as acções que praticarão. Os nomes da maior parte 
destes Almirantes se achão mencionados por Quintella nos 
Annaes da Marinha e p.^ mim na Memoria que ultimamente li 
na Sociedade Geographica tendo-os eu colhido nas suas fontes 
como costumo. 

Por esta m". ultima Memoria V. S.^ veria o grande partido 
que tirei de simples indicações da Monarchia Luzitana combi- 
uando-as com os documentos, que se encontram na preciosa col- 
lecção de Rymer, rebatendo só com este auxilio, por certo bem 
pobre, as falsas inducções que um geographo Francez tirou d'El- 
Rei D. Diniz ter chamado a seu serviço o Almirante genovez 
Pessanha. 

Conviria, pois, que se examinasse não só os documentos do 
R. xA.rchivo relativo aos mesmos marítimos, mas também as 
genealogias historiadas de algumas famílias, em 1.° logar pelo 
P.« Roussado, que consultou muitos documentos dos cartórios 
delias, e os nobiliários de Diogo Gomes de Figueiredo, (1), e d'Af- 
fonso de Torres, (2) estes unicamente para algumas indicações^ 
que poderão conduzir as investigações documentaes. 

Recebi ultimamente uma mui curiosa Memoria sobre o inten- 
tado descobrimento de uma supposta Ilha ao norte da Terceira 
pelo Snr. Bernardino José de Sena Freitas. (3) V. S.^ ijiuito me 
obrigará se tiver a bondade de lhe mandar entregar a carta 
induza, pois ignoro a sua morada. 

Renovo, etc. 

Visconde de Santarém 



(1) Diogo Gomes de Figueiredo, tenente-general de artilheria, que deixou 
seis volumes Mss. de geneologia de Familias do Reino de Portugal, que 
existiam na Bibliotheca dos Duques de Cadaval. 

(2) Affonso de Torres, geneologista militar do sec. xvn. 

(3) Bernardino José de Sena Freitas, official do ministério da marinba e 
associado provincial da Academia. Nasceu no Brasil e viveu muitos annos nos 
Açores deixando vários trabalhos curiosos e alguns sobre a descoberta d'uma 
.supposta ilha ao norte da Terceira em 1643 e 1770. 



540 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



Do Visconde de Santarém para Bernardino José de Sena 
Freitas 



Paris 6 de Outubro de 1845. 



///.'"" e Ex."'' Snr. 



Com muito prazer recebi ultimamente a mui obsequiosa carta 
que V. S.^ teve a bondade de escrever-me em data de 11 do 
passado e com ella a sua interessantissima Memoria histórica 
sobre o intentado descobrimento de uma supposta IlJia ao Norte 
da Terceira, nos annos de 1649 a 1770. 

Agradeço infinitamente a V. S.a este valioso presente, e as 
noticias e documentos que V. S.^ deu á luz neste escripto, a 
condição e critica que se encontra em as notas dão a este traba- 
lho um grande valor. 

A Antilia acha-se marcada não só no Globo de Martin de 
Bohemia de 1492, mas também em uma carta marítima que se 
conserva na Bibliotheca de Weimar, datada de 1424, da qual dei 
uma porção no meu grande Atlas dos monumentos geographicos 
da Idade Média, vê-se egualmente na carta de Genovez Beccaria, 
de 143.5, da Bibliotheca de Parma, na carta d'André Bianco, 
publicada por Formobone, na do Genovez Bartholomeu de 
Pareto de 1455 e na de Benincasa de 1476, que se conserva na 
Bibliotheca de Genebra. 

O famoso Toscanelli (1) tratou delia nas suas cartas e Fer- 
nando Colombo, na vida de Christovão Colombo, seu pae, refere 
que os Portuguezes a marcavão nas suas cartas. 

A sua Memoria vem enriquecer as noções que tínhamos 
relativas á famosa Ilha encoberta, Antilia e outras. 

Continue V. S.^ com estes trabalhos com os quaes fará bom 



(1) Paulo dei Pozzo Toscanelli. — Physico e astrónomo italiano que parece 
ler descoberto os relógios de sol. Morreu em 1482. 



VISCONDE DE SANTARÉM 541 



serviço á historia da geographia, e das nossas navegações no 
Atlântico nos tempos escuros. 

Aproveito mais esta occasião para repetir as expressões da 
alta estima com que me preso ser 

De V. Ex.'* 
Am.° f. e obrig."^° cr. 

Visconde de Santarém. 



Do Visconde de Santarém para o Cónego Januário da Cunha 
Barbosa (1) 

Rio de Janeiro 

Paris 11 de Outubro de 1845. 

III.""' e Ex.'"" Snr. 

Aproveito a partida para essa corte do Sr. Aguiar para 
enviar a V. S.'^ as cartas induzas do Secretario da Sociedade 
Ethnologica de Paris, que acompanhão os exemplares do Tomo ii 
das Memorias da mesma Sociedade. 

Recebi ultimamente o n.° 25 da Revista Trimensal do mez 
d' Abril do corrente anno. 

Agradeço infinito esta remessa. Os exemplares que pela 
mesma occasião recebi do mesmo numero para a Sociedade 
Geographica e Ethnographica de Paris, e para Mrs. Ternaux, 
Raoul Rochette, e Jomard forão logo entregues. 

Aproveito também esta occasião para escrever duas regras 
ao Sr. Dr. Miranda e Castro, e rogo a V. S.a o obsequio de lhe 
mandar entregar a induza. 

Com bem pezar meu não me é possível ser hoje mais extenso 



(1) Januário da Cunha Barbosa. Afamado pregador, poeta, literatto e phi- 
losopho brazileiro. Principal fundador do Instituto Histórico e Geographico 
Brazileiro. Morreu era 1846. 



542 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



por que estou muito iacominodado com uma teimoza dôr de 
cabeça. 

Espero restabelecer-me um pouco para continuar os meus 
trabalhos, e a publicação do 7.» volume do meu Quadro das 
Relações Diplomáticas, e o 1.° da Collecção dos Tratados. 

Tenha tudo quanto merece e lhe deseja, etc. 

De V. Ex.« 
Am.'' f. e obrig.'"o cr. 

Visconde de Santarém. 

Do Visconde de Santarém para Miranda e Castro 

Rio de Janeiro 

Paris 11 d'Outubro de 1845. 

///.'"'' e Ex.""" Snr. 

Aproveito a partida do Sr. Aguiar para escrever a V. S.a estas 
duas regras, e para agradecer-lhe de novo o favor das suas 
noticias que teve a bondade de dar-me na sua carta, de 11 de 
Setembro do anno passado. 

Fiquei por extremo penhorado com a boa lembrança que 
V. S.3 conservava de mim. Mereço-lhe esta recordação, pois 
também me lembro com saudade de V. S.'* 

Sinto infinito não ter tido o prazer de conhecer o Sr. Vigário o 
Ill.'"o Sr. Manoel Joaquim de Miranda Rego, pois, durante o 
tempo que residio nesta corte, não tive o gosto de o encontrar 
em casa quando o busquei, e a única vez que veio á minha, não 
me encontrou, segundo me constou. 

Eu aqui vou continuando com os meus trabalhos litterarios 
e históricos neste delicioso paiz, e muita satisfação terei em po- 
der mostrar a V. S.^ o quanto estimo e que sou 

De V. S.« 
Am.° f. obrig.'"» e cr. 

Visconde de Santarém. 



VISCONDE DE SANTARÉM 543 



Do Visconde de Santarém para o Dr. Sigaud 

Paris, 14 d'Outubro de 1845 

Man cher monsieiír 

J'aí éprouvé un bien vif plaisir en recevant votre bonne et 
obligeante lettre du l^' mars et je vous remercie infiaitement pour 
moi relativement aux livres dont vous avez eu la bonté de vous 
charger. 

Vous nous avez laissé des regrets, et tous ceux qui ont en 
Tavantage de vous connaitre désireat vivement vous revoir ici 
une autrefois. Les nouvelles, que vous me donnez du mouvement 
intellectuel qui s'opère au Brésil m'ont vivement interesse. II me 
reste un souvenir bien profond d'un pays ou j'aí passe la plus 
belle partie de ma jeunesse, et d'on je reçois tous les jours des 
marques de la plus grande bienveillance. Je vous felicite par 
votre découverte de Fexemplaíre de Camoens de 1572. Quant à 
la Revue Bibliographique de Mr. Miller s'est adréssé à Mr. Vieira, 
rue Enghien n.° 9 pour se faire payer Tabonnement mais il lui 
a fait dire qu'il n'avait point d'ordre ; Mr. Miller n'a point laissé 
de continuer néamoíns à vous Tenvoyer. Nous me permettrez de 
réclamer de vos nouvelles toutes les foís qu'il vous será possible 
de m'en donner. 

Elles m'interessent vivement, et je vous prie de croire. & 

Visconde de Santarém 



Do Visconde de Santarém para Joaquim José da Costa de 
Macedo 

Paris, 20 d'Outubro de 1845 

///.'«" e Ex.""" Snr. 

Finalmente a sua carta de 17 do passado veio tirar-me do 
grande cuidado em que estava pela longa falta das noticias de 



544 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



V. S.-i Siuto infinitamente o seu incommodo, e desejo por mil 
motivos, o seu prompto e completo restabelecimento. 

Quanto a Mr. de Avezac, V. S.** já terá visto parte da minha 
resposta. Não sei se V. S.a approvará tudo quanto sustentei, pois 
não tive o tempo necessário para discutir melhor os differentes 
pontos de que elle tratou. 

Remetto outra prova de mais dois novos monumentos geogra- 
phicos. 

Remetti igualmente, pela Legação, 3 exemplares de uma Me- 
moria do Dr. Sichel um para a Academia, outro p." V. S.*'^ e o 
3.° p.a o nosso consócio o Snr. Francisco Elias Rodrigues da Sil- 
veira (1), que o Dr. promoveo de Vice Secretario, a Secre." Per- 
petuo. 

Renovo as expressões d'amizade com que sou, etc. 

Visconde de Santarém 



Do Visconde de Santarém para Joaquim José Lopes Lima 

Paris, 20 d'Out.'' de 1846 

///.'"" e Ex.""" Snr. 

Recebi em dias dois de Septembro passado as estimáveis e 
mui obsequiosas cartas que V. Ex.« teve a bondade d'escrever-me 
em datas de 16 e 18 de Julho, e os exemplares da sua impor- 
tante obra que acompanhavão a primeira. 

Não agradeci logo este presente por que não tendo podido 
publicar-se immediatamente uo Biilletim da Sociedade Geogra- 
phica o artigo que fiz sobre o 1.° Livro dos Ensaios, contava 
cumprir este dever quando enviasse a V. S.^ o dito artigo. 

O motivo desta demora procedeo de não me ter sido possível 
apromptar todos os materiaes p.^ formar o BuUetin de Julho de 



(1) Francisco Elias Rodrigues da Silveira, Barão da Silveira, medico, escri- 
tor e sócio da. Academia das Sciencias de Lisboa. 



VISCONDE DE SANTARÉM 545 



cuja redacção estava encarregado, conto, porém, publicar o dito 
Art.o em outro numero da collecção pertencente ao presente 
anno. Dei, entretanto, algumas notas acerca da sua publicação 
aos redactores da Revue de Bibliographie Analytique, uma das 
mais scientificas deste paiz, e que tem grande voga mesmo em 
Allemanha, e elles publicarão o artigo que tenho a honra de 
remetter incluso. 

Aproveito também esta occasião para enviar a V. Ex/'^ a 
carta inclusa, que me escreveo Mr. Deville geólogo distincto, 
discípulo do meu collega neste Instituto R. de França, Elias de 
Beaumont (1). Mr. Deville (2), que se occupa da publicação de uma 
obra sobre a constituição geológica de algumas ilhas do Atlân- 
tico, deseja alcançar de V. Ex.» algumas noções sobre os quesi- 
tos de que trata na d.** carta. 

Queira V. Ex.a, pois, ter a bondade de me habilitar a respon- 
der-lhe no que a importante publicação de V. Ex.^ ganhará tam- 
bém pelo conhecimento que por este meio delia vão ter muitos 
naturalistas a cujas m.ãos chegar a projectada obra de Mr. De- 
ville. 

Queira V. Ex.'' ter a bondade de me restituir a dita carta e 
acreditar, que sou com a maior satisfação, etc. 

Visconde de Santarém. 

Do Visconde de Santarém para o Conde de Thomar (3) 

111.'"° e Ex.""" Sr. 
Paris 20 d'Outubro de 1845. 

Permitta-me V. Ex.^ que lhe roube uns instantes com a lei- 
tura destas duas regras para cumprir com um dever de gratidão 



(1) João Baptista Armando Luiz Loncio Elias de Beaumont, geólogo fran- 
cez que foi habilissimo professor e succedeu a Arago na Academia. Morreu 
em 1874. 

(2) João Achilles Deville, archeologo illustre. Francez. Começou por rece- 
bedor das contribuições directas e foi director do Museu de Ruão. 

(3) Conde de Tiiomar. António Bernardo da Costa Cabral, celebre rai- 
VOL. VI 35 



546 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

e de sympathia, dando a V. Ex.^ os mais sinceros parabéns pela 
nova mercê com que S. Mag.« foi servida reconhecer os seus 
eminentes serviços. 

Aproveito, novamente, esta occasião para repetir a V. Ex.» as 
seguranças d'alta estima e consideração com que tenho a honra 
de ser 

De V. Ex.« 
Am.o f. e obr."^'* cr. 
Ill.i"o e Ex."^» Sr. Conde 
de Thomar. 

Visconde de Saniarem 

Nov.o 5. 

Escrevi á Colorista para vir buscar 6 exemplares da carta do 
Mappamuudi de Nicolau d'Oresme, e de Santa Genoveva. 



Do Visconde de Santarém para o Ministro de Portugal em 
Roma 

Paris, ^P de Novembro de 1845. 

///.'"'' e Ex.""' Sr. 

Um longo padecimento e a demora de uma resposta de Lon- 
dres, relativamente a vários monumentos geographicDs, me não 
permittirão responder logo, como devia, e desejava, á obsequiosa 
carta com que V, Ex.^ me honrou, em data de 6 de Setembro 
ultimo. 

Agradeço infinitamente a bondade que V. Ex.a teve de se 
occupar do negocio da Carta Borgiana em que o nosso coramum 
e estimável amigo, o Sr. Visconde da Carreira, fallara a V. Ex.^ 
Desejo, com efeito, ajuntar ao meu Atlas de Monumentos Geo- 



nistro de D. Maria II, que deu motivo á revolta de Maria da Fonte, em 
face da qual elle retirou para embaixador em Hespanha, voltando, porém, 
ainda ao poder. 



VISCONDE DE SANTARÉM 547 

graphicos da Idade Media a dita carta do Cardeal Borgia (1), 
mas isto não poderá ter logar antes do fim do-anno de 1846 e 
talvez de 1847, por que tendo-se copiado em Londres, no Museo 
Britânico, ultimamente, vários monumentos de grande dimensão, ^ 
entre estes o grande Mappamundi de Fra Mauro, que tem 7 pés 
de longo, e gravando-se entre os outros actualmente, que na or- 
dem chronologica se devem publicar, antes dos Borgianos, não 
me restarão fundos disponíveis, antes daquella época, para o 
pagamento da tiragem, d'este ultimo, a menos, que se não 
mande pagar os atrazados da prestação votada para estas pu- 
blicações. 

A' vista do que tenho a honra d'expôr a V. Ex.^ parece-me 
que se deverá tratar definitivamente deste negocio, quando eu 
estiver habilitado para isso, e então pedirei de novo a poderosa 
e douta intervenção de V. Ex.^ 

Aproveitando-me, entretanto, da obsequiosíssima offerta de 
V. Ex.^ pedirei a sua intervenção no seguinte negocio. 

Desejava obter dos archivos do Vaticano uma copia da res- 
posta que o Doge de Veneza dera ao Papa Clemente VI quando 
este lhe dirigio uma Bulia que traz Reynaldo, no Tomo 4, p. 211, 
no anno de 1345, sobre as ilhas Canárias. ^ 

Seria importante a descoberta deste documento, para respon- 
der aos que novamente nos disputão a prioridade dos nossos 
descobrimentos no Atlântico, como V. Ex.''' terá visto pela Me- 
moria que li ultimamente na Sociedade de Geographia de Paris, 
e que se publicou no Diário do Governo. 

Remetti ultimamente a V. Ex.^, por via da Legação de S. Ma- 
gest.^ nesta Corte, os 6 volumes já publicados da minha obra 
sobre as nossas Relações Diplomáticas, e espero em breve re- 
metter a continuação, e o 1.° Volume do Corpo Diplomático. 

Queira V. Ex.^ dar-me sempre que poder as suas noticias, e 
proporcionar-me occasiões de me empregar no seu serviço no 



(1)0 Cardeal Borgia, Cezar Borgia, era o mais conhecido da família por 
este titulo. Era filho do Papa Alexandre VI, habilissimo politico sem escrú- 
pulos, habituado ao crime. Morreu em 1507. 



548 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



que terei a maior satisfação, e finalmente acreditar nos senti- 
mentos de alta estima com que tenho a honra de ser 

De V. Ex/' 
Ill."io e Ex."'"' Sr. João Pedro 
Migueis de Carvalho. 

Visconde de Santarém 



Do Visconde de Santarém para Mr. Jomard, do Instituto de 
de França 

Paris 5 de Novembro de 1845. 

Monsieur 

Mr. le Vicomte de Santarém regrette vivemente de n'avoir 
pú remercier plutot Mr. Jomard de son aimable et prècieux sou- 
venir. II ètait rétenu en lit por une violente névralgie, et ce n'est 
qu'aujourd'hui qu'il a pú reprendre le cours des ses occupations. 
Ils'empresse, donc, de lui témoigner sa vive gratitude pour le 
beau portrait de Christophe Colombe qu'il va faire encadrer et 
placer au milieu de la Collection Géographique. 

Mr. le Vicomte de Santarém prie, au même temps, Mr. Jo- 
mard d'agréer Tassurance de sa consideration distinguée. 

Visconde de Santarém 
Paris 11 de Novembro de 1845. 

Escrevi a Mr. de Tocqueville (1), recommendando-lhe uma 
pretensão de Mr. Miller. 

Paris 11 de Novembro de 1845. 

Escrevi a Mr. le Baron Roger, membro da Camará dos Depu- 
tados, em favor de Mr. Miller. 



(li Alexis de Tocqueville politico e publicista que escreveu a Democra- 
cia na America e Antigo regimen e a revolução. Morreu em 1859. 



VISCONDE DE SANTARÉM 549 



Do Visconde de Santarém para José Joaquim da Costa de 
Macedo 

Paris 18 de Novembro de 1845. 

///.'"<' e Ex."'" Snr. 

Recebi com muito prazer a sua carta de 26 d'Outubro p. e os 
2 maços de José Manoel. 

Estimei muito as suas noticias pela certeza que ellas me dão 
do seu restabelecimento. Quanto a d'Avezac admiro-me que 
V. Ex.''\ escrevendo-me em 26 d'Outubro não tivesse ainda visto 
no Diário do Governo, de 5 de Setembro, n.° 209, e nos de 1 e 2 
d'Outubro n.^s 231-232 e, finalmente, as Addições publicadas em 
o n.° 250 de 23 do mesmo mez, da Memoria que li na Sociedade 
Geographica, em resposta a que elle havia lido contra os nossos 
navegadores, e descobrimentos. 

Elle da maneira mais capciosa, contra todas as regras da cri- 
tica e da lealdade, que se deve guardar em discussões litterarias, 
passa em silencio os factos e os textos que tenho allegado, e vai 
por diante com as suas falsidades e absurdos, unicamente com o 
fim de fazer bulha nos Bulletins da Sociedade, abstendo-se cau- 
telosa e astuciosamente, de imprimir e publicar para não ser 
desmascarado, como merece, pela sua má fé, e as suas espanto- 
sas contradições ! 

Mas eu vou-o demoHndo e espero em breve publicar o que a 
este respeito tenho escripto. 

Quanto ás collecções históricas, logo que poder fallar nisto a 
Mr. de Salvandi, não me descuidarei. 

Os dias passados veio aqui procurar-me o General Pelet, mas 
não estava em casa. Conto ir vel-o na 2.^ feira próxima, e então 
lhe faltarei na Carta de França, e das mais publicações do Depo- 
sito da Guerra. 

Muito me admira, que em a data que me escreve, não tivesse 
^inda recebido das Secretarias d'Estado os diversos maços, que 
lhe remetti, pois, já recebi pelo ultimo Paquete, cartas de diver- 



550 CORRESPONDÊNCIA SCIENTIFICA E LITTERARIA 

sas pessoas, que tinhão recebido os que pela mesma occasião, e 
no mesmo caixote mandei para a Secretaria d'Estado. 

Queira V. Ex.^, pois, reclamaFos, se ao receber desta ainda os 
não tive recebido. 

Acabo de ler em um Periódico desse paiz, de 26 d'Agosto^ 
um artigo pelo qual vi, que já se t